Conto, Infanto-Juvenil, Literatura

O menino que não gostava de dormir – Final

Da série, Migrações

Escrevi esse conto inspirada no meu filho, que não gosta de dormir e tem uma imaginação contagiante. Ele já foi publicado no blog Estação de Sonho, que desativei e estou migrando aqui para o Mar de Histórias. Talvez, se tudo der certo, seja publicado em um suplemento infantil de um jornal aqui de Salvador. No momento, o texto está sob análise.  Para ler o início da história clique nos links abaixo:

>>O menino que não gostava de dormir I

>>O menino que não gostava de dormir II

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A discussão no céu estava animada. Ora o rei Morpheu berrava de um lado, ora O Arcanjo berrava do outro. Na maioria das vezes os dois berravam ao mesmo tempo e ninguém entendia nada. Os dois poderiam passar a eternidade inteira debatendo a questão, sem que ninguém soubesse direito de quem era a razão. No mundo das pessoas as vezes também é assim, discute-se eternamente sem que nenhum dos lados seja o vencedor. Mas, o menino que não gostava de dormir precisava descansar, pois ele já andava com olheiras roxas gigantescas, sem concentração na escola e literalmente cochilando em pé. Foi então que o anjo porteiro, aquele sem auréola, que pediu a carteira de identidade do rei do sono, apareceu na sala do trono do Arcanjo com uma sugestão:

– Con licença, majestades – disse o anjo porteiro. – Se permitem que eu meta a minha asinha na conversa, tenho uma sugestão para dar, que talvez resolva o problema dos dois lados.

Os reis pararam a briga e olharam para o anjo porteiro. O Arcanjo com a sua expressão de desdém, uma sobrancelha arqueada; e o rei Morpheu com a sua carinha de quem acha tudo um grande tédio. O anjo porteiro, fingindo que não viu as expressões dos soberanos, disparou a falar antes que eles mudassem de ideia:

– O rei Morpheu precisa que o menino durma para poder fazer o seu trabalho que é de colocar as pessoas, principalmente as crianças, para sonhar. Já os anjos, ficam muito solitários aqui no céu quando o serviço termina e não são todos os meninos que sabem falar a nossa língua. Até existia um menino, o Luis de Camões, mas ele cresceu e trocou as conversas com os anjos pelos livros de poesia… então, não podemos perder a oportunidade de botar a conversa em dia quando encontramos uma criança com esse dom…

Os reis já davam sinais de impaciência, a lenga-lenga do anjo estava demorando demais. Reis são sempre assim, impacientes, mesmo quando têm a eternidade inteira pela frente. O anjo porteiro acelerou o discurso:

– …a minha proposta é que o expediente no céu seja antecipado e assim, termine mais cedo. Daí, nós anjos visitariamos o menino sempre entre às 22 horas e a meia-noite, duas horas de conversa por dia são suficientes. Bem, então, depois da meia-noite, ele “dormiria com os anjos” (aliás, essa expressão está erradíssima, porque anjos não dormem) e seria a vez do rei Morpheu entrar em ação até o amanhecer. Considerando que o menino precisa levantar às 7h para ir à escola, acho que todo mundo sairia ganhando. Nos finais de semana, claro, a gente podia esticar o papo só um pouquinho…

Os dois reis tentaram encontrar uma brecha na proposta do anjo porteiro, mas perceberam que era inútil, porque ele havia pensando em tudo direitinho. Apertaram-se as mãos, selando o acordo. E foi assim que o menino que não gostava de dormir passou a ser conhecido como o menino que não gostava de dormir cedo demais. As olheiras roxas desapareceram, a concentração e as notas na escola melhoraram e, quando os anjos tinham de fazer hora extra, o próprio Morpheu aproveitava o horário entre 22 horas e meia-noite para bater um papo com o menino.

O anjo porteiro? Aaaahh, ele foi promovido e virou o assessor do Arcanjo.

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8 opiniões sobre “O menino que não gostava de dormir – Final”

  1. Oi, gostei muito da historia rsrsrs
    Minha filha dormiu é eu continuei a ler … de tão interessante … parabéns.

  2. Que estória linda ! Da gosto de ler algo tão bem escrito para meus filhos. Também tenho uma filha que conversava com os anjos. Senti-me até confortada com este conto. Um grande abraço

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