Alfaguara lança edição comemorativa dos 60 anos de Morte e Vida Severina (João Cabral de Melo Neto)

Capa da edição especial da Alfaguara. Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto, 112 páginas, R$ 44,00

Capa da edição especial da Alfaguara. “Morte e Vida Severina”, João Cabral de Melo Neto, poesia, 112 páginas, R$ 44,00

A Alfaguara lança nesta sexta, dia 26, uma edição especial comemorativa de 60 anos do poema Morte e Vida Severina, do pernambucano João Cabral de Melo Neto. Vi a chamada para o lançamento no Instagram,  nas postagens sobre a Bienal de São Paulo, mas no site da editora ainda não tem muitos detalhes, além da sinopse e das especificidades técnicas (veja aqui).

Morte e Vida Severina é um dos poemas mais conhecidos de João Cabral de Melo Neto (1920-1999). Foi escrito entre 1954 e 1955 e lançado um ano depois. Ambientado no sertão pernambucano, na região do rio Capibaripe, e com forte conotação social, o poema descreve a viagem de Severino, um retirante em busca de melhores condições de vida.

No ano passado, a Globo News também fez uma homenagem aos 60 anos do poema, com um documentário que refaz o trajeto percorrido pelo personagem principal. A íntegra do documentário pode ser vista neste hotsite especial, onde estão ainda fotos e relatos da equipe que refez a jornada de  Severino.

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Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 15 – Sono (Haruki Murakami)

“Ninguém percebeu que mudei. Ninguém percebeu que eu não dormia, que eu estava lendo um livro extenso e que minha mente estava a centenas de anos, a milhares de quilômetros de distância da realidade.”

Sono

Entre os dias 05 e 06/08/16, o eleito para a tag #1livroporfinaldesemana foi Sono, de Haruki Murakami. A edição da Alfaguara é lindíssima, com ilustrações de Kat Menschik que traduzem o estado de espírito da protagonista, na medida em que a história avança…

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A protagonista de Sono está há 17 dias sem dormir. Na primeira noite desperta, ela decide retomar um antigo hábito de antes do casamento, a leitura, e passa a madrugada em claro, relendo Anna Karenina, de Tolstói. Quanto mais ela mergulha na vida de Anna, uma aristocrata russa em crise existencial que se torna amante de um oficial da cavalaria, menos vontade sente de dormir.

A história dessa dona de casa anônima concebida por Haruki Murakami, um dos escritores japoneses mais populares no mundo atualmente, autor da trilogia 1Q84, tem paralelos com a vida da personagem de Liev Tolstói. Ambas sentem o mesmo vazio com o casamento e a rotina doméstica. A diferença é que enquanto Anna busca consolo nos braços de Vronski, a personagem de Sono torna-se amante da solidão e do silêncio da noite.

A insônia crônica é uma insurreição contra a existência controlada pela família e as convenções sociais. O marido tem hábitos simples, porém metódicos, se despede dela da mesma forma todas as manhãs. Ele não come doces, é dentista e só conversa com a esposa sobre novos equipamentos a adquirir para o consultório. Ela, que sempre foi louca por chocolates, passa a comê-los clandestinamente; enquanto, também de forma secreta, resgata seu eu mais jovem através da literatura, relembrando a época em que não precisava deixar o cérebro desligado durante conversas entediantes com o marido e sogra.

Narrado em primeira pessoa – é a própria personagem insone que nos conta sua história -, o livro – um intermediário entre o conto e o romance, curtinho, com frases de corte cirúrgico e apenas 120 páginas  – segue o fluxo dos pensamentos da protagonista, como se fôssemos capazes de ler seus pensamentos e como se ela falasse consigo mesma, questionando a vida que levava até antes de parar de dormir e no que essa vida está se transformando agora que passou a ser dona de um terço do seu dia.

Além da rotina enfadonha com o marido, ela nos revela também o quanto a sociedade, principalmente a ocidental, romantiza a maternidade e transforma cada uma das exaustivas tarefas mecânicas de uma mãe (dar banho, preparar refeições, arrumar mochila escolar, etc.) em rituais quase mágicos, quando a realidade é bem outra.

Sono trata das sequelas enfrentadas por quem decide anular a própria personalidade, sacrificar gostos e anseios em prol da família ou em nome de um relacionamento. Haruki Murakami, afeito a criar histórias distópicas, protagonizadas por personagens disfuncionais e que flertam com o surreal e o realismo fantástico, nos apresenta uma mulher jovem que está murchando, diluindo-se e perdendo a substância. Nesse sentido, o livro é bem solidário e faz uma tentativa honesta de compreender a alma feminina.

A partir de um certo momento, o leitor não tem muita certeza se a protagonista está sonhando com uma insônia crônica ou se o fato dela estar sem dormir há tantos dias, a faz viver em uma realidade paralela, como em um delírio. O final aberto também dá margem a várias interpretações.

Vale ainda ressaltar a cuidadosa edição da Alfaguara, em capa dura, com valiosas ilustrações de Kat Menschik que servem de complemento dramático perfeito ao texto de Murakami. Os desenhos, que parecem retirados de alguma realidade paralela e onírica, enriquecem a experiência da leitura.

Ficha Técnica:

Sono - CapaSono

Autor: Haruki Murakami

Ilustrações: Kat Menschik

Tradução: Lica Hashimoto

Editora: Alfaguara

120 páginas / R$ 32,72 (pesquisa em 16/08/16 no site da Livraria da Travessa)

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Anote na agenda: Carollini Assis lança “O livro da palavras mal ditas”

A jornalista, poeta e contista baiana Carollini Assis / Imagem: Divulgação

A jornalista, poeta e contista baiana Carollini Assis / Imagem: Divulgação

A jornalista Carollini Assis lança O livro das palavras mal ditas, nesta sábado, 20, a partir das 17h, no Hauss Kafee (Instituto Goethe, Corredor da Vitória). A obra, publicada pela editora Mondrongo, reúne poemetos em versos livres, inspirados nas muitas expressões da feminilidade.

Das relações afetivas ao erotismo, dos tabus religiosos às casualidades cotidianas, os versos de O livro das palavras mal ditas refletem a sensibilidade de quem se define como observadora da natureza humana, principalmente da condição da mulher em seus processos de empoderamento.

A inspiração para o título da obra veio de Hilda Hilst e da opinião de uma amiga sobre um dos versos de Carollini Assis. Segundo a autora, o sexo, o autoconhecimento e a descoberta do prazer femininos ainda são assuntos malditos, ou mal ditos.

Com o lançamento de O livro das palavras mal ditas, a Mondrongo marca seus cinco anos de existência. Na mesma ocasião, também pela editora, serão lançados Não se vai sozinho ao paraíso, de Állex Leilla e A solidão mais funda, de Ângela Vilma.

Quem é –  Jornalista formada pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e especialista em roteiros para TV e vídeo, Carollini Assis é produtora do Núcleo de Conteúdos Especiais da TV Aratu. Também foi diretora da Associação Baiana de Cinema e Vídeo, presidente do Colegiado Setorial do Audiovisual da Bahia. Em 2012, ganhou o Prêmio Lauro de Freitas de Literatura, com o conto O Canto do Silêncio. Além de O livro das palavras mal ditas, ela prepara para breve os lançamentos de A Santa que geme nas estações, que reúne contos eróticos; e o livro acadêmico Produção: entre a comunidade e a televisão, sobre telejornalismo.

Vá lá ver!

O quê: lançamento de O Livro das palavras mal ditas

Quando : 20 de agosto, das 17h às 20h

Onde: Hauss Kaffee (ICBA – Av. 7 de Setembro, 1809, Corredor da Vitória)

Quanto: O acesso ao evento é gratuito (estacionamento também gratuito, com entrada pelo Vale do Canela), o livro custa R$ 30,00 no local.

Ficha Técnica:

CAPA_O Livro das Palavras Mal ditasO Livro das palavras mal ditas

Autora: Carollini Assis

Gênero: poesia

Editora: Mondrongo

73 páginas

R$ 30

*Com informações da assessoria de imprensa da autora

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Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 14 – A cidade inteira dorme (Ray Bradbury)

“O tempo, principalmente, ele diz, a velhice e a memória, um monte de coisas. Poeira e talvez dor. Ouça aquelas vigas! Deixe o vento soprar o esqueleto de madeira num belo dia de outono e você realmente ouvirá a conversa do tempo. Queimadas e cinzas, aromas de Bombaim, flores de túmulos entregues a fantasmas…”

A-cidade-inteira-dorme

O escolhido para a tag #1livroporfinaldesemana, lido entre os dias 30 e 31/07/16, foi a coletânea de contos A cidade inteira dorme, de Ray Bradbury.  O autor, poeta e roteirista norte-americano, mundialmente famoso pelo livro Fahrenheit 451, teve uma intensa e fértil carreira literária até sua morte, aos 91 anos, em 2012.

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A cidade inteira dorme reúne 13 histórias que apresentam um pouco de tudo que há na literatura de Ray Bradbury, o prolífico autor de Fahrenheit 451, que escreveu diariamente até sua morte, em 2012, aos 91 anos. Desde ficção científica até o terror psicológico, passando por boas doses de fantasia, futuros distópicos, mundos paralelos e realidades alternativas, a edição,  com menos de 200 páginas, funciona também como eficiente introdução ao universo bradburyano.

Os contos de A cidade inteira dorme misturam a atmosfera de séries de suspense e terror como Além da Imaginação, ou filmes na melhor tradição de Sexta Feira 13 e A Hora do Pesadelo, com o cenário empoeirado e modorrento das cidadezinhas do interior dos Estados Unidos.

Ray Bradbury parte de situações cotidianas, da vida ordinária, para criar histórias assustadoras e inquietantes. Um dos contos transforma a ida de três amigas ao cinema em um thriller sobre serial killers e perseguições apavorantes em meio a escuridão, mexendo com o medo atávico que os seres humanos, desde os primórdios, possuem do breu da noite e das paisagens ermas.

Os desfechos em aberto para a maioria das histórias contribui para fazer o leitor mais impressionável checar embaixo da cama e olhar por cima do ombro a cada nova página. E ainda assim, não desistimos até chegar ao final do último conto, com aquela mistura de curiosidade e terror, típico dos oito anos, quando assistíamos filmes assombrosos fingindo uma coragem que cobraria seu preço justamente na hora de dormir. E haja criar muralhas de lençol impossíveis de derrubar por qualquer criatura sombria, mesmo quando o calor dava a sufocante sensação de que estávamos nos enterrando vivos no próprio colchão.

O medo provocado pelas histórias de A cidade inteira dorme é ancestral e orgânico, beirando o pânico. Contos como O homem ilustrado, com elementos sobrenaturais como tatuagens que ganham vida e bruxas sinistras, merecem destaque pelos inquietantes componentes psicológicos. Uma esposa frustrada, um marido acomodado, palavras cruéis ditas na hora errada e desfechos trágicos, autofágicos, fazem dessa uma das histórias mais famosas de Bradbury, já publicada em outras coletâneas do autor.

Igualmente assustador é A hora zero. Esse conto, sobre alienígenas e pais relapsos, é claustrofóbico e ao mesmo tempo, ótima metáfora sobre as consequências do desleixo com a educação das crianças. Pode ainda ser lido como uma ácida crítica ao american way of life. Bradbury parte da premissa de que certos tipos de mães e pais, ocupados demais com o carro novo, a hipoteca da casa ou os aparatos tecnológicos recém comprados, não dão muita atenção ao que os filhos dizem ou fazem, tornando-os perigos em potencial.

Mas, nem só de pavor é feita essa coletânea. Uma das histórias mais ternas do livro é a divertida A autêntica múmia egípcia feita em casa, em que um garoto entediado e seu vizinho aposentado viram a rotina de uma cidadezinha de cabeça para baixo por conta de uma alarmante ‘descoberta arqueológica’. Das 13 histórias, essa é mais cheia de reminiscências às infâncias felizes, travessas e cheias de sótãos e porões (no caso das crianças brasileiras, de quintais e quartinhos dos fundos de guardar quinquilharias) abarrotados de tesouros a descobrir.

No final da leitura, mesmo das histórias aparentemente inocentes, fica a sensação de que a qualquer momento vai soar o alarme que avisa do perigo iminente, seja ele real ou imaginário.

Recomendo a leitura desta coletânea como prévia para a nova série da Netflix.  Stranger Things e Ray Bradbury foram feitos um para o outro e, certamente, os criadores da série mergulharam de cabeça nas histórias do escritor, para nosso mais puro deleite!

Ficha Técnica:

A cidade inteira dorme - capaA cidade inteira dorme e outros contos breves

Autor: Ray Bradbury

Tradução: Deisa Chamahum Chaves

Editora Globo

196 páginas

R$ 34,90 (pesquisado no site da Saraiva em 15/08/16)

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Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 13 – Vertigo (Boileau – Narcejac)

“As estátuas de grandes olhos vazios, com seus pés postos um atrás do outro, olhavam-nos passar. Havia, de longe em longe, sarcófagos que reluziam como celofane, blocos de pedra rodeados por signos indecifráveis e, nas profundezas solenes das salas vazias, cabeças assustadoras, rostos estropiados pelo tempo, bichos acocorados, toda uma fauna monstruosa e paralisada.”

Um-corpo-que-cai

O escolhido para a tag #1livroporfinaldesemana, lido entre os dias 23 e 24/07/16, foi o suspense Vertigo (Um corpo que cai), da dupla de autores Pierre Boileau e Thomas Narcejac. O livro, lançado em 1954, foi escrito especialmente para Alfred Hitchcock. O filme homônimo, dirigido pelo “mestre do suspense”, estreou em 1958…

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Vertigo é um policial noir ambientado na França, no período da II Guerra. Antes dessa nova edição, pelo Grupo Editorial Autêntica, a história criada pelos autores Pierre Boileau e Thomas Narcejac, recheada de suspense e mistério, já era bastante conhecida do público brasileiro graças ao clássico de 1958, Um corpo que cai, do cineasta Alfred Hitchcock, estrelado por James Stewart e Kim Novak, considerado um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos.

Mas, embora traga todos os elementos típicos dos thrillers de detetive, Vertigo guarda surpresas e um plot twist que possivelmente surpreenderá quem nunca assistiu ao filme de Hitchcock e dará uma nova perspectiva a quem já conhece o desfecho da história. O livro tem a mesma narrativa ágil e vertiginosa da adaptação cinematográfica, mas com o adendo de possibilitar uma leitura mais psicológica de suas entrelinhas.

Vertigo nos apresenta a Flavières, um detetive particular amargurado e frustrado, que é contratado por um ex-amigo dos tempos do colégio para seguir a esposa deste, uma jovem atormentada pelas lembranças da bisavó falecida e que começou a se comportar de forma estranha, tendo lapsos de memória e sempre imersa em profunda melancolia.

O amigo de Flavières, Gévigny, é um magnata que fez ainda mais dinheiro com a guerra. Na visão do detetive, seu amigo não merece todo o dinheiro que tem e nem deveria ser casado com a bela Madeleine. Para o investigador, a moça, uma loira fatal como é bem do estilo da literatura noir, está apenas entediada pelo casamento com um “sujeito comum”.

O tempo todo, o leitor é induzido a enxergar Gévigny e Madeleine pelo olhar passional, invejoso e meio obsessivo de Flavières, que como não poderia deixar de ser, se apaixona pela esposa do amigo e passa a fantasiar situações em que resgataria a bela jovem do seu pretenso casamento infeliz.

Vale chamar a atenção para o fato de que Flavières tem o mesmo tipo de personalidade nervosa e maníaca de Bentinho, o protagonista de Dom Casmurro (Machado de Assis). O fato da história ser contada do ponto de vista do detetive também guarda semelhanças com o clássico brasileiro do século XIX.

Aos mais atentos, os indícios da reviravolta final estão estrategicamente escondidas ao longo da história.  E para quem nunca assistiu Um corpo que cai, vale fazer a dobradinha ‘leia o livro – veja o filme’. Inclusive, Boileau e Narcejac, que lançaram Vertigo em 1954, escreveram a história como forma de resgatar uma dívida com Alfred Hitchcock.

Alguns anos antes, o cineasta britânico tinha tentado, sem sucesso, adquirir os direitos de filmagem de uma outra obra de suspense da dupla. A partir daí, os escritores pensaram em uma nova história bem nos moldes da filmografia hitchcokiana, propositalmente escrita quase como um roteiro. Só faltava mesmo gravar!

Ficha Técnica:

vertigoVertigo (Um corpo que cai)

Autores: Boileau – Narcejac

Tradução: Fernando Scheibe

Editora: Vestígio / Grupo Editorial Autêntica

192 páginas

R$ 35,90 (pesquisado no site da Saraiva em 12/08/16)

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Romance de Marília Arnaud disseca as áridas relações familiares ditadas pelo patriarcalismo rural

Liturgia do Fim, da escritora paraibana Marília Arnaud, traz uma história ambientada no Brasil profundo, machista e patriarcal. O romance, lançado agora em agosto pela Editora Tordesilhas, vem sendo comparado a Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, publicado em 1975. Coincidências temáticas a parte, Liturgia do Fim tem sua atualidade justificada pela onda de conservadorismo que ameaça nos afogar, sinal de que os 41 anos que separam a obra de Nassar do livro de Arnaud ainda não deram conta de, como diz a escritora Maria Valéria Rezende (Prêmio Jabuti 2015), “humanizar as relações familiares e sociais”, principalmente nos rincões do país.

O romance conta a história de Inácio, escritor e professor universitário, que retorna à cidade onde viveu até os 18 anos, um lugar sugestivamente chamado de Perdição, nos confins do sertão nordestino. Na fazenda de sua infância e adolescência, ele reencontra o pai, com quem sempre teve uma relação tumultuada, marcada pela violência e a frieza, e Damiana, uma antiga criada da família. Nesse ambiente cheio de lembranças, o professor decide escrever sobre o próprio passado, numa tentativa de apaziguá-lo…

Sinopse da editora:

Inácio, escritor e professor universitário, um homem assombrado pela memória e pelos fantasmas de um segredo familiar, abandona a mulher e a filha, as salas de aula e a literatura para voltar a Perdição, lugar onde nasceu e viveu até os 18 anos. Com essa idade foi expulso de casa pelo pai, um homem rude e autoritário que educou os filhos com rigor e frieza. Numa narrativa descontinuada e sinuosa, em que presente e passado se alternam e se misturam, Inácio narra a infância e a adolescência em Perdição, a vida em família, a relação difícil com o pai, o terno entendimento com a mãe, a obsessão pela tia louca, os medos noturnos, o primeiro e único amor, a paixão pelos livros.

Quem é – Marilia Arnaud é paraibana de Campina Grande, mas mora em João Pessoa. Formada em Direito, começou a vida literária na década de 80, escrevendo crônicas para jornais paraibanos que acabaram sendo publicadas no livro Sentimento Marginal (Produção independente, de 1987). A menina de Cipango, seu primeiro livro de contos, venceu o Concurso Literário da Secretaria de Cultura do Estado da Paraíba – Prêmio José Vieira de Melo, e foi editado em 1994. Já a coletânea de contos Os campos noturnos do coração venceu o concurso da Universidade Federal da Paraíba – Prêmio Novos Autores Paraibanos, com publicação em 1996. A autora já participou de várias coletâneas nacionais e estreou no romance em 2012, com Suíte de Silêncios (Editora Rocco).

>>Leia aqui um trecho de Liturgia do Fim (arquivo em PDF)

Ficha Técnica:

liturgia-altaLiturgia do fim

Autora: Marilia Arnaud

Capa: Andrea Vilela de Almeida

Editora Tordesilhas

152 páginas

Preço: R$ 30,00

*Com informações enviadas pela Editora Tordesilhas

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Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 12 – Caçada Russa (Flávio V.M. Costa)

“…E em 13 de maio de 1888 a princesa Isabel assinou a lei Áurea abolindo a escravatura no Brasil, disse a professora de história, uma mulher de cabelos tingidos de loiro que costumava nos aborrecer com relatos sobre suas compras no supermercado e no shopping. E então perguntei como se fosse um preto velho: Ôxe, ôxe, e a escravidão cabou mesmo, Sinhazinha? O pessoal se acabou na risada. Eu fui suspenso.”

Caçada---Blog

O escolhido para a tag #1livroporfinaldesemana, lido entre os dias 16 e 17/07/16, é uma estreia literária, o livro de contos Caçada Russa & outros relatos, do jornalista baiano Flávio V.M. Costa.

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

Salvador madrasta, periférica, preconceituosa. Uma cidade carcomida pela hipocrisia, a cidade que espantaria até o Boca do Inferno. Nem em seus versos mais polêmicos, mais esculachados, Gregório de Matos conseguiu retirar de Salvador o seu cheiro de patchouli de matrona meio ridícula, mas mantendo seus mínimos traços de dignidade. Uma certa baianidade lasciva escorre dos versos de Gregório, mesmo dos mais críticos, mas a cidade retratada em Caçada Russa não é sensual, nem burlesca, sequer pornográfica, é simplesmente malvada.

As 15 histórias reunidas nessa primeira coletânea do estreante em literatura, calejado em reportagens, Flávio VM Costa, retiram o véu da tão apregoada sensualidade – e simpatia – baianas, nosso deleite e prisão perpétuos. Desligam a caixa de som: nada de axé music por aqui, nada de Carnaval, de requebro até o chão… A cidade que borbulha por baixo daquela outra, a turística, com suas guerras de ratos e homens, é que faz esse pequeno livro de contos pulsar vivo, surpreendente, assustador e ainda assim, hipnótico, daqueles que é impossível largar, mas com histórias que martelam o juízo tempos depois de lidas.

A realidade nua e crua da periferia. O cotidiano da escola pública que há muito perdeu o romantismo dos anos 50, quando os filhos da elite se formavam no velho Colégio Central. Quem frequentou as escolas públicas baianas dos anos 90 para cá, bem sabe que o ambiente antes revolucionário, torna-se cada vez mais hostil. Estudantes armam rixas, marcam batalhas, reproduzem a guerrilha urbana entranhada em suas vidas.

Professores que dividem o tempo entre ensinar jovens ricos nas unidades particulares e humilhar jovens pobres nas do governo. Como não desengavetar lá das zonas empoeiradas da memória, a gorducha, baixinha, bonachona professora de História da oitava série, que passava os 50 minutos da aula contando as maravilhosas descobertas de sua filha caçula em intercâmbio nos EUA? Tinha há muito me esquecido dela, mas Caçada Russa e seu autor, me fizeram voltar no tempo.

Histórias de amor que não vingam, de abusos que se tornam rotineiros, de uma infância que vive em um mundo que já não vê beleza em construir badogues e alvejar passarinhos, metáfora para as muitas crianças sem asas que sucumbem ao tráfico e aos PMs.

Caçada Russa é tão opressivo quanto o calor que torra Salvador nos dias de inversão térmica, quando as nuvens cinzas tornam-se absurdamente pesadas, naquele típico mormaço de fazer perder a vontade de viver, que antecipa o aguaceiro de inundar ruas, entupir boeiros, derrubar encostas e barracos, mas nunca deixa a cidade limpa.

Essa cidade já nasceu maculada, mas assim como a velha Bahia de Gregório, essa urbe abafada, claustrofóbica e perversa de Flávio VM Costa faz poesia às avessas. Uma criança como aquela que flagrou o imperador de cuecas a desfilar, certamente gritaria que Salvador está nua…

Ficha Técnica:

Caçada-Russa---CapaCaçada Russa & outros relatos

Autor: Flávio V.M. Costa

Editora: Penalux

107 páginas

R$ 32,00 (pesquisado no site da editora em 17/07/16)

 

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