Vamos brincar de lista. Livros para presentear no Natal

Listas / Crédito: Andreia Santana - Blog Mar de Histórias

Aproveitando o clima natalino, a Estante Virtual fez uma lista com a sugestão de 40 livros disponíveis em seu catálogo, para quem gosta de presentear amigos e familiares com boas leituras. Fiz uma triagem na lista deles e selecionei dez títulos que julguei os mais interessantes, levando em consideração o meu gosto literário. Além da curadoria nas dicas da Estante, acrescentei mais dez sugestões, usando como base minhas leituras de 2016.

Dia desses, eu e um amigo chegamos à conclusão de que listas, além de polêmicas, são um pouco injustas, porque nem sempre é fácil selecionar determinados itens no meio de tantas possibilidades bacanas e porque, geralmente, as listas seguem critérios muito particulares (o gosto de cada curador é um fator determinante). Mas, convenhamos, listas são irrestíveis! Se abrimos a mente, sempre podemos pinçar coisas legais da lista alheia. Então, para tentar ser justa, deixo a caixa de comentários da postagem para vocês montarem as próprias sugestões. D’ont be shy!

Minhas dez escolhas com base na lista da Estante Virtual:

*O amor nos tempos do cólera – Gabriel García Márquez

*Belas Maldições – Neil Gaiman e Terry Pratchett

*Comédia da Vida Privada – Luis Fernando Veríssimo

*Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? – Philip K. Dick

*O Chamado de Clthulhu e Outros Contos – H. P. Lovecraft

*A casa dos espíritos – Isabel Allende

*Funny Girl – Nick Hornby

*Paris é uma festa – Ernest Hemingway

*O filho eterno – Cristovão Tezza

*O castelo de papel – Mary del Priore

Indicações com base nas minhas leituras de 2016:

*O oceano no fim do caminho – Neil Gaiman

*A vida que ninguém vê – Eliane Brum

*Bambi – Felix Salten

*Peter e Wendy – J.M. Barrie

*Uma solidão ruidosa – Bohumil Hrabal

*O remorso de baltazar serapião – valter hugo mãe

*A lua vem da Ásia – Campos de Carvalho

*A vida invísivel de Eurídice Gusmão – Marta Batalha

*A cabeça do santo – Socorro Acioli

*Um louco sonha a máquina universal – Janna Levi

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Resenha: As damas do século XII (Georges Duby)

Vestuário do século XII, escondia o corpo e os cabelos femininos. O corpo da mulher era considerado um templo de todas as tentações, de perdição a quem sucumbia a essa tentação e de gozos que eram privilégio de poucos homens

O vestuário feminino do século XII escondia o corpo e os cabelos. O corpo da mulher era considerado um templo de todas as tentações, de perdição para quem sucumbia a essa tentação e de gozos que eram privilégio de poucos homens

As damas do século XII, do historiador francês Georges Duby, reúne três ensaios sobre a representação feminina na Idade Média: Heloísa, Isolda e outras damas do século XII; A lembrança das ancestrais; e Eva e os padres. Embora a premissa da obra seja analisar a participação feminina na determinação das identidades das famílias nobres francesas mais importantes do feudalismo, o autor também elabora um panorama das bases da misoginia perpetuada pelos tabus cristãos e pela crença equivocada e machista na superioridade masculina e na fraqueza moral, física e espiritual das mulheres.

Considerado um dos maiores pesquisadores da Idade Média, que ele denominou de “a idade dos homens”, Duby percebeu que havia toda uma história a se descobrir a partir da ausência das mulheres nos lugares de poder além daqueles inerentes ao ambiente doméstico, onde exerciam o mando entre a criadagem, enquanto deviam submissão ao senhor do castelo. E também da própria ausência delas na dinâmica social do período. As mulheres, confinadas ao gineceu ou aos conventos, tinham muito a revelar a partir de sua invisibilidade e silenciamento. Poucas naquela época conseguiram romper o círculo de isolamento, legando uma memória histórica ao presente.

Como o próprio autor esclarece no prefácio da obra, seu objeto principal de estudo eram as mulheres da nobreza; ou seja, as que adquiriam o título de damas ao serem dadas em casamento aos senhores dos castelos. As bodas, de certa forma, legitimavam a existência dessas mulheres e as colocavam numa condição de superioridade em relação às solteiras. Era norma enviar para os conventos o excedente das jovens não desposadas e as noivas prometidas, enquanto esperavam o dia de cumprir os contratos nupciais.

Por serem damas, estavam acima das mulheres que pertenciam às camadas populares e, portanto, sujeitas aos desmandos de outra natureza, embora em muitos casos sofressem o mesmo tipo de opressão de gênero. Apesar do foco de estudo mirar nas alcovas dos castelos, os ensaios reunidos em As damas do século XII não deixam de mostrar, por tabela, a realidade das servas e camponesas que viviam a violência de gênero e sofriam estupros praticados por cavaleiros e clérigos.

Muito dessa violência o autor atribui à própria estrutura da sociedade feudal e aos códigos da cavalaria. O casamento era um privilégio concedido ao primogênito que, por sua vez, seria o herdeiro universal das terras e riquezas de seu pai. Os demais filhos homens tinham como destino a carreira eclesiástica ou militar. Nos dois casos, para arrefecer os desejos, as mulheres eram pintadas como seres malévolos.

Aos religiosos, foram proibidas a partir do momento da instituição do celibato para os clérigos. E a melhor forma de tratar um objeto desejado, mas inalcançável, é desvalorizá-lo. E a partir daí o “pecado original” ganha força nos sermões, com a detratação de Eva, a tentação de Adão, a maçã, a queda da humanidade e toda aquela pregação bíblica que até hoje os fundamentalistas usam para justificar o machismo, a misoginia e os preconceitos derivados das duas coisas.

Aos cavaleiros, o casamento era proibido porque não havia terras e riquezas para dividir entre todos os jovens nobres da família dos senhores. E porque o objetivo era criar exércitos de homens indóceis e selvagens, prontos para morrer em batalha em nome de seu duque ou conquistar para ele novos territórios e ainda mais riquezas.

Em comum, independente da casta a que pertenciam, as mulheres na Idade Média eram consideradas objetos para uso e gozo dos homens, mentalidade ainda em voga nos dias atuais. A diferença é que naquela época, alguns poucos estavam autorizados pela igreja a exercer os “sagrados deveres do matrimônio”, enquanto outros praticavam abusos acobertados pela desculpa da “natureza masculina” que não resiste “à tentação feminina”. Nos dois casos, a mulher não tinha direitos, era passiva. Vem daí também a ideia equivocada que muitos homens ainda fazem de que a mulher é um prêmio e ele o grande merecedor dessa prenda.

O triste dessa leitura – mas também bastante esclarecedor em diversos aspectos – é perceber que os ensaios de Duby refletem violências ocorridas mais de 800 anos no passado, mas que infelizmente, em pleno século XXI, encontram situações correlatas.

Produção intelectual desaparecida

Duby lamenta que mesmo as nobres do século XII sendo letradas (apenas as mulheres de famílias nobres e mais liberais recebiam alguma educação formal, mas no ambiente doméstico)  – e boa parte das vezes, mais instruídas que seus maridos criados para comandar e guerrear -, nada restou de sua produção intelectual que dê pistas do que pensavam de si mesmas ou dos homens do período a quem eram obrigadas a submeter-se. É pelo olhar dos padres e dos duques educados pelos padres, que um pálido reflexo dessas mulheres chegou aos dias atuais. E esse reflexo quase sempre é injusto.

No caso daquelas de sangue real, o status equivalia ao das porções de terras e riquezas de seus dotes. Duby relata casos em que a jovem noiva vinha de família mais rica e ilustre que a do futuro marido e nesses casos, sua memória, mesmo tênue, era preservada como parte da ancestralidade da família não pela importância social das jovens em si, mas pelo patrimônio que traziam e que passaria a ser gerido por seus maridos. No caso de uma ancestralidade paterna obscura, os biógrafos das grandes famílias apelavam para a descendência masculina do lado materno.

Interessante a forma como o autor destrincha as muitas mitologias familiares criadas para encobrir filhos nascidos de uniões não legitimadas pela igreja. Mais adiante, esses mesmos filhos apareciam magicamente legítimos. Bastava o senhor do castelo não gerar filhos com a esposa oficial, ou enviuvar antes de ter filhos homens, para que toda uma ancestralidade fosse fabricada, dando nome e patente ao bastardo mais capaz de receber a herança. O importante era garantir a posse do território, que nesses casos, raramente passava para as filhas. E quando passava, era só até ela se casar e o marido assumir a primazia.

Aos fãs de séries como Game Of Thrones, inspiradas na sociedade medieval, embora passada em um mundo totalmente fictício, a leitura da obra do historiador francês serve de base para sabermos de onde vieram as inspirações de George R. R. Martin.

No convento para fugir da violência

Ao enviuvar ainda em idade fértil – esse era um tempo em que além das riquezas materiais de seus dotes, as mulheres valiam pela capacidade em gerar os filhos dos seus senhores -, as damas imediatamente voltavam ao mercado de casamentos. Aquelas consideradas velhas demais para conceber e, portanto, para contrair segundas núpcias, tinham de trocar o castelo pelos mosteiros, abrindo espaço para a nova dama, esposa de seu primogênito.

Os mosteiros femininos, no entanto, aparecem na obra de Duby não apenas como depósito de viúvas e idosas ou fortaleza para resguardar a virgindade das casadoiras. Esses espaços consagrados, onde os homens não tinham autorização de estar, apareciam, em muitos casos, como único refúgio onde as mulheres poderiam por-se a salvo da sanha masculina e das obrigações de casar e procriar que a sociedade lhes impunham. Na época estudada em As damas do século XII proliferaram mosteiros e ordens fundadas por mulheres que queriam literalmente fugir de um mundo hostil a elas.

Vale destacar ainda que os perfis femininos traçados no primeiro ensaio, tanto das mulheres míticas que apareciam nas novelas arturianas, como Isolda (de Tristão e Isolda), quanto das personagens históricas, como Alienor de Aquitânia, condessa de Poitiers,  fazem a ponte para o autor abordar o amor cortês e suas origens. Não ficam de fora o rebuliço que as regras corteses causaram nos reinos medievais e, a partir destes, na sociedade, por conta das ideias peculiares sobre casamento, castidade e adultério.

Para quem gosta de história, quer conhecer aspectos da sociedade medieval que vão além daquilo que os livros escolares ensinam e busca ainda entender muitas das doenças da nossa sociedade, como o machismo e as violências contra a mulher, essa é uma leitura mais que recomendada. A linguagem é leve e de fácil compreensão e a edição do selo Companhia de Bolso (Companhia das Letras) é bem cuidada e competente.

Quem é – Georges Duby nasceu em 1919, em uma família de artesãos, e foi um dos maiores especialistas em Idade Média do século XX, com cerca de 70 obras publicadas. Respeitado por colegas acadêmicos como Eric Hobsbawm (autor do clássico A era dos extremos), Duby especializou-se nos séculos XI e XII. Nos anos 1940, viveu a realidade da ocupação nazista na França. Nessa mesma época, iniciou a carreira acadêmica. Embora seja considerado um “antropólogo das sociedades feudais”, seu prestígio extrapolou as fronteiras da universidade e seus escritos alcançaram bastante popularidade, figurando em listas de best sellers até hoje. Duby morreu em 1996.

Ficha Técnica:

damas-do-sec-xiiAs damas do século XII

Autor: Georges Duby

Tradução: Paulo Neves e Maria Lúcia Machado

Companhia das Letras / Companhia de Bolso

384 páginas

R$ 29,90 (pesquisado no site da Saraiva em 29/11/16)

*A imagem das roupas femininas na abertura do texto foram retiradas do site Vestuário Histórico. Já a capa do livro é material de divulgação.

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Séries: A derrapada de 3%

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Cena do curta piloto de 3%

O piloto de 2011 de 3% tem uma ambientação sinistra, uma atmosfera opressiva e totalitária, que remete ao clássico 1984, filme dirigido pelo britânico Michael Radford e inspirado em uma das matrizes de boa parte das distopias modernas, o romance homônimo lançado em 1949, por George Orwell. Mas, a temporada de estreia da série 3%, primeira série produzida pela rede de streaming Netflix no Brasil, fica muito aquém da proposta do piloto original, mesmo tendo um orçamento infinitamente maior e recursos de produção mais avançados à disposição. Justiça seja feita, uma das poucas coisas que salvam do fiasco é a crítica mais que necessária à falácia da meritocracia.

Infelizmente, e me pesa dizer isso, porque esperei o lançamento dessa série com grande expectativa, 3% derrapa no roteiro e na assepsia; além de subestimar de forma quase preconceituosa a capacidade de entendimento do público brasileiro para histórias complexas e pontuadas por dilemas filosóficos e questões morais.  É bom lembrar aos produtores que quem acompanha séries desse lado da linha do Equador tem maturidade e capacidade intelectual para histórias que flertam com as zonas cinzentas da existência.

Junto com diálogos absurdamente fracos e artificiais, o excesso de didatismo dessa primeira temporada transforma 3% em um programa cansativo de assistir, arrastado e enfadonho. Não sobra o que deduzir, não sobram informações sobre as quais refletir, está tudo ali de bandeja e em explicações arrastadas e maniqueístas.

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Cena da primeira temporada da série produzida pela Netflix

– Não precisa nos dar aula, pessoal; não precisa interpretar ipsis litteris, nós entendemos metáforas. Apenas nos deem boas histórias, narrativas verossímeis e bem construídas, personagens complexos e empáticos, e faremos o resto :)

A geração atual consome filmes e séries suficientes para decifrar os caminhos de uma história menos linear e mais empolgante. E digo isso com tristeza, porque queria muito que 3% tivesse dado certo, faço parte do grupo que torceu muito para que o piloto apresentado em 2011 conseguisse investimento e que comemorou quando foi anunciado que a Netflix iria produzir a série.

Ao contrário da falta de argumentos reinante nas discussões pela internet, quando alguém tenta desmerecer quem critica algumas produções nacionais, quero muito que o audiovisual brasileiro conquiste posição de destaque dentro e fora do país, mas com produtos bons e não apenas por bairrismo. Nem tudo que o Brasil faz é maravilhoso. 3% poderia ser, mas infelizmente, ainda não é.

O elenco do piloto original não era tão experiente e conhecido como o da primeira temporada da série, mas talvez por isso mesmo, por serem tão comuns e mais ‘gente como a gente’, os jovens desconhecidos do filminho de 26 minutos disponível no Youtube consigam provocar empatia. Já o elenco da série na Netflix está engessado e artificial. Os jovens não passam a ideia de que vivem em um mundo injusto, cruel e excludente.

O problema é que todo mundo parece produzido demais, bonitinho e limpinho demais, numa pobreza e miséria muito estereotipadas e idealizadas esteticamente. Aquelas roupas rasgadas e amarradas para simular carência me deixaram deprimida. O figurino da turma de Maralto, o mundo utópico para onde os jovens que se submetem ao Processo desejam mudar-se, também é muito esquisito e não passa, ao menos para mim, a ideia futurista de uma sociedade hiperdesenvolvida. Se o objetivo era esse, não colou.

Embora o núcleo do Processo seja formado por artistas conhecidos do grande público e que se revelaram grandiosos em diversas outras produções, dessa vez a sensação é que não estão confortáveis nos papeis interpretados. Mesmo João Miguel, que é um dos atores brasileiros mais brilhantes e versáteis da atualidade, não está em seu melhor momento como o Ezequiel da série. Também achei a Zezé Mota desperdiçada como uma das integrantes do Conselho de Maralto. Aqueles atores mereciam personagens mais complexos, que levassem o espectador a criar algum tipo de conexão. Só senti frustração.

Não acredito que a ideia de 3% esteja datada ou que distopias estejam fora de moda. O mundo atual, infelizmente, é absurdamente parecido com os livros de Orwell ou de Aldous Huxley. As injustiças que ainda existem na sociedade, apesar de avançarmos em tecnologia em altíssima velocidade, estão aí para comprovar que bom argumento para os roteiristas é o que não falta. Mas, por incrível que pareça, o piloto cru e filmado quase de forma caseira de 2011 consegue manter a atualidade do tema proposto por 3% com mais competência do que a série que estreou em 25 de novembro passado, na Netflix.

Sem precisar apelar para rótulos padrão de vilões e mocinhos, ou para explicações que pouco deixam espaço para o espectador tirar as próprias conclusões e exercer a nobre arte da interpretação de texto e contexto, o curta-metragem no qual a série 3% se baseia consegue demonstrar que o tal Processo que seleciona jovens para a sociedade perfeita de Maralto não é assim tão justo e que mesmo o utópico lado de lá tem algo de muito podre escondido no porão. Em 26 minutos, o curta conquista o espectador, que consegue odiar os entrevistadores e sentir na pele a aflição daqueles jovens. As perguntas capciosas feitas durante as entrevistas botam uma pulguinha atrás da orelha da audiência. Você torce pelo destino dos candidatos e tem vontade de bater nos entrevistadores. Desconfia que o tal Processo é a maior roubada e que o lado de lá é uma sociedade arbitrária, ditatorial, preconceituosa e mecânica. E tece mil teorias da conspiração: “Vão lobotomizar os guris!”

Talvez, para quem não conhece o programa piloto, essa primeira temporada valha 5 estrelas. Mas, para quem assistiu e torceu pelo projeto em 2011, e para quem tem outras referências e está acostumado a séries e livros de temática semelhante, a temporada de estreia decepciona. E não falo apenas dos tiozinhos da minha geração, que cultuam 1984, Admirável Mundo Novo, Neuromancer, Laranja Mecânica ou Fahrenheit 451; a turma criada com Jogos Vorazes consegue identificar as derrapadas de 3% com um olho fechado.

Não precisava, como bem definiu uma conhecida, ter transformado a série na versão pós-apocalítica de Malhação.

Se ainda não viu, veja o piloto de 3%, feito em 2011, simples e eficiente:

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Nova Fronteira publicará obras inéditas de Ariano Suassuna

suassuna

A Nova Fronteira será a detentora dos direitos de publicação da obra completa do escritor Ariano Suassuna, após o fim do contrato com a José Olympio, que expira agora no final de novembro. A editora, que já possuia em seu catálogo O auto da compadecida, uma das obras mais conhecidas de Suassuna, participou de uma seleção promovida por familiares e pela agente literária do autor, Lúcia Riff. Além de reeditar os livros já lançados do escritor nordestino, a Nova Fronteira também publicará textos inéditos, como romances, peças teatrais e um volume de poesia deixados pelo autor morto em julho de 2014.

O primeiro inédito, a ser lançado em maio de 2017, é Dom Pantero no Palco dos Pecadores, livro no qual Suassuna trabalhou por cerca de 30 anos e é composto por dois volumes: O jumento sedutor e O palhaço tetrafônico. Também no ano que vem, quando acontecem as comemorações pelos 90 anos de nascimento de Suassuna, sairá a reedição do Romance d´a Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta (já resenhado aqui no blog e um dos meus livros favoritos), publicado originalmente em 1971.

Outra surpresa da Nova Fronteira para o segundo semestre de 2017 é a publicação de A história d’o Rei Degolado nas caatingas do sertãoromance também em dois volumes, composto pelos livros Ao sol da onça Caetana (1977) e As infâncias de Quaderna, este último é inédito no formato livro, pois foi originalmente publicado em folhetim, no jornal Diario de Pernambuco, entre 1946 e 1977. Quaderna é o quixotesco protagonista do Romance d´a Pedra do Reino.

Já comecei a juntar as moedas no porquinho!

Fonte das informações: Publishnews

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Call the midwife e a teia invisível que entrelaça o destino das mulheres

As enfermeiras de Call the midwife: dramas pessoais muito reais em meio a partos complicados

As enfermeiras de Call the midwife: dramas pessoais bem reais e dilemas femininos atemporais em meio a partos complicados

A produção britânica, da BBC, Call the midwife não é novidade e já está na sexta temporada. Descobri o programa essa semana, na lista de sugestões da Netflix. Até então, nunca tinha ouvido falar, mas foi uma grata surpresa. Ambientada no final dos 1950, nos subúrbios de Londres, a série estreou em 2012 e é baseada nas memórias da enfermeira obstétrica Jenny Lee, que narra episódios de sua juventude, quando trabalhou atendendo mulheres e crianças carentes, em um serviço mantido por um grupo de freiras nada ortodoxas. A Netflix possui cinco temporadas no catálogo.

Protagonizada por mulheres e contando histórias sobre mulheres, Call the midwife ilustra o conceito de sororidade de forma bastante poética. Trata de temas delicados, porém intensos, como partos. Mas também toca em tabus como o envelhecimento, a solidão, a doença, a morte, a capacidade de sobrevivência às tragédias e, principalmente, sobre laços de solidariedade, essa teia invisível que conecta as mulheres. Muito interessante a abordagem, de forma sutil, sobre a presença feminina ancestral e quase mística nos extremos da vida, os nascimentos e as mortes.

A fotografia é belíssima, o elenco muito bom, a trilha sonora um conforto para a alma e a reconstrução de época impecável desde a abertura, com fotografias em preto e branco mostrando cenas do cotidiano dos anos 1950 e 1960.

Numa olhada superficial, a série parece fazer apologia ao parto e a maternidade, ou então ao casamento, mas vale a pena avançar episódio após episódio e ver que a gama de representações femininas é bem variada e os dilemas e conflitos apresentados vão além de fraldas e mamadeiras. É um programa que tem o amor, em suas diversas manifestações, como combustível para cada uma das preciosas histórias contadas.

De bicicleta, as midwifes (parteiras) precisam cobrir 20 quilômetros pelos distritos mais pobres de  Londres para atender tanto as parturientes quanto o restante da comunidade

De bicicleta, as midwifes (parteiras) precisam cobrir 20 quilômetros pelos distritos mais pobres de Londres para atender tanto as parturientes quanto o restante da comunidade

Call the midwife serve ainda como um bom material de pesquisa para quem gosta da macro história, pois trata de um período onde o mundo ainda se recuperava da II Guerra e de todas as mudanças sociais, políticas e econômicas dessa fase; e da micro história, com as situações cotidianas, algumas impensáveis para o mundo atual,  os comportamentos e provincianismos, a moda da época, etc.

Para quem tem interesse específico pela representação e a representatividade femininas na sociedade (meu caso), os episódios dão muito no que pensar, ajudam a entender conceitos e a perceber a origem de diversos preconceitos que ainda atormentam a sociedade.

Reminiscências pessoais

Fiquei especialmente comovida com a série por um motivo pessoal e familiar: Call the midwife me recorda as histórias de minha mãe, que trabalhou como técnica de enfermagem por mais de 30 anos, em hospitais públicos e privados de Salvador e São Paulo. Ela começou na profissão muito jovem e exatamente na mesma época retratada pela série, o final dos anos 1950. De compleição mignon, apesar de ter 22 anos, minha mãe parecia uma criança quando iniciou as jornadas por hospitais, em plantões de até 72 horas seguidas. Os pacientes tinham vergonha de ser examinados por aquela ‘menina’. Mas, com paciência, ela se dedicava aos bebês da ala pediátrica, aos velhinhos da geriatria e a todos os doentes das idades entre um extremo e outro.

Nas mais de três décadas de serviço, viu muitas crianças nascerem e conheceu as diversas faces da morte, ora serena como um sono eterno, ora trágica, mas sem nunca perder a capacidade de se comover com o sofrimento, ou alegrar-se com as vitórias dos outros. Nos seus domingos de folga, costumava ir ao hospital ajudar as colegas de plantão no cuidado com os doentes porque sentia uma felicidade genuína em ser útil.

Como minha mãe nasceu em 1935 e teve filhos só na maturidade, na minha infância era muito bom ouvi-la contar essas histórias de um passado que parecia ao mesmo tempo muito familiar e tão distante. Talvez venha daí minha propensão a nostalgia e o impacto provocado por essa série britânica nas minhas lembranças de família. Da história de minha mãe e de outras mulheres da família e do fascínio que o feminino, em todas as suas identidades possíveis, exerce sobre mim…

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Música para meus ouvidos: Suburban war (Arcade Fire)

…porque o mundo está em transformação.

Olhar para as tragédias do vizinho é o nosso espelho…

“This town’s so strange
They built it to change
And while we’re sleeping all the streets get rearranged”

Suburban War

Álbum: The Suburbs, 2010

Banda: Arcade Fire <3

Gênero: indie rock

País de Origem: Canadá

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Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 17 – A ovelha negra e outras fábulas (Augusto Monterroso)

“Era uma vez uma barata chamada Gregor Samsa que sonhava que era uma barata chamada Franz Kafka que sonhava que era um escritor que escrevia sobre um empregado chamado Gregor Samsa que sonhava que era uma barata.”

ovelha-negra

O livro A ovelha negra e outras fábulas, de Augusto Monterroso, foi o escolhido para a leitura dos dias 20 e 21/08/2016, na tag #1livroporfinaldesemana. O hondurenho Monterroso é conhecido por suas histórias curtíssimas e cheias de significados. Uma das coisas interessantes desse desafio autoimposto é que aproveitei para, em meio a obras selecionadas entre os meus autores favoritos, conhecer o trabalho de escritores que até então nunca tinha lido. Aproveito para reconhecer a ajuda valiosa de minha irmã Roberta na seleção das leituras da tag: boa parte das obras escolhidas pertencem ao acervo dela. Há também livros pinçados na estante de Matheus, meu filho, e na minha própria coleção.

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

A ovelha negra e outras fábulas é uma coletânea de microcontos de Augusto Monterroso, recheados de sarcasmo, ironia e crítica social. Nesse pequeno compêndio  de menos de 100 páginas sobre a natureza humana, espécies da fauna exótica são usadas como personagens que encarnam nossos maiores defeitos e certa propensão ao ridículo.

Lançado em 1969, o livro é um dos poucos de Monterroso a serem editados no Brasil. Em 2014, a saudosa Cosac Naify relançou a versão traduzida por Millôr Fernandes, em 1983, para a Editora Record. Millôr e Monterroso, além de serem da mesma geração – o hondurenho nasceu em 1921 e o brasileiro em 1923 -, possuíam estilos literários bem parecidos, com a mesma predileção por textos curtos, precisos e bem humorados.

A ovelha negra…, segundo o próprio autor declarou certa vez, nasceu da sua observação da fauna silvestre e da constatação de que os animais  e os homens são tão parecidos, “que às vezes torna-se impossível distingui-los”. O livro tinha admiradores como o escritor Isaac Azimov, que afirmou nunca mais ter sido o mesmo após a leitura de um dos microcontos da coletânea: O macaco que queria ser escritor satírico.

O conto que dá título ao livro traz a história do martírio de uma ovelha negra, apenas porque ela era diferente da norma comum e ordinária das ovelhas brancas. Outro conto, A girafa que compreendeu que tudo era relativo, critica a insensatez dos conflitos bélicos e o anestesiamento diante da violência e das injustiças.

Já a história que desconcertou Azimov, embora tenha sido escrita numa época pré super exposição na internet e bem antes da indústria da fofoca sobre celebridades ter alcançado a dimensão atual, fala de um macaco que passa a frequentar as festas da alta sociedade da floresta. Por conta de suas “piruetas”, o macaco colunista é bem recebido pela elite, mesmo publicando textos ferinos que denunciam os defeitos de seus anfitriões.

As histórias enxutas, concisas, sem floreios e recheadas de humor satírico, impactam o leitor e provocam desde risos nervosos até reflexões profundas. Nos mini textos, além da crítica ferranha às injustiças sociais, há muita denúncia contra aristocratas vaidosos e arrogantes. Muito do que está no livro, certamente, foi retirado das experiências do próprio autor, que teve de se exilar no México para fugir da ditadura na Guatemala.

Nascido de uma família miscigenada de hondurenhos e guatemaltecos, Augusto Monterroso fugiu para o México em 1944 e viveu em território mexicano até sua morte, em 2003. O autor é considerado um dos maiores expoentes da literatura latina e foi agraciado com o prêmio Príncipe de Astúrias, em 2000. É dele o conto O dinossauro, considerado o mais curto da literatura mundial e que abriga um mundo de possibilidades interpretativas em uma única frase: Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá“.

Ficha Técnica:

a-ovelha-negraA ovelha negra e outras fábulas

Autor: Augusto Monterroso

Tradução: Millôr Fernandes

Editora: Cosac Naify

96 páginas

R$ 18,00 (pesquisado na Estante Virtual em 05/11/2016)

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