Selo Tordesilhas lança no Brasil a novela As invernas, da espanhola Cristina Sánchez-Andrade

Cristina Sánchez-Andrade nasceu em Santiago de Compostella, filha de uma galega e de um inglês, uma singular combinação de mitologias familiares

Cristina Sánchez-Andrade tem 49 anos e nasceu em Santiago de Compostella, filha de uma galega e de um inglês, uma singular combinação de mitologias familiares

As invernas, romance da escritora espanhola Cristina Sánchez-Andrade, parte da rivalidade e do amor entre duas irmãs, uma considerada feia e a outra considerada uma beldade, para construir uma narrativa que se inspira nas tradições orais dos contadores de histórias. Principalmente os da Galícia, região onde o romance se situa. A obra acaba de ser lançada no Brasil, pelo Selo Tordesilhas (Editora Alaúde).

O livro conta as vidas de Saladina e Dolores, netas de Dom Reinaldo, um homem perseguido pela ditadura de Franco no começo na Guerra Civil Espanhola (1936). Enviadas para o exílio pelo avô, as duas crescem na Inglaterra e só retornam para a Espanha anos mais tarde. Costureiras, Dolores, ‘a irmã bonita’, se casa com um pescador truculento; enquanto Saladina, ‘a feia’, permanece solteira.

Ambas tinham o sonho de juventude de serem atrizes, mas precisam se conformar com uma vida medíocre. De volta ao vilarejo natal, na Galícia, após uma acontecimento trágico, as duas acabam desenterrando histórias antigas e lembranças dolorosas…

Considerada uma das vozes femininas mais atuantes na literatura espanhola contemporânea, Cristina Sánchez-Andrade fala de opressão e liberdade, da busca por independência, da ditadura da beleza e de sonhos românticos desfeitos nesse livro protagonizado por mulheres com personalidades distintas e, de certa forma, complementares, descortinando as muitas faces possíveis do feminino.

Com narrativa circular, os fatos da vida das irmãs e do passado de seu povoado e de seu avô vão se mesclando à medida em que a história avança, alternando drama, suspense, ternura e ferocidade. Os textos de Cristina, segundo críticos, “condensam os cenários do interior da Galícia, fazendo o leitor sentir o odor dos prados úmidos e mergulhar no universo lúgubre e aguerrido de sua região natal”.

Sinopse da editora – “Dolores e Saladina, irmãs apelidadas ‘As Invernas’, voltam à sua aldeia galega depois de um penoso exílio na Inglaterra, trazendo consigo lembranças que todos ali queriam esquecer. Uma linda, outra feia e desdentada, vivem uma relação típica de irmãs. De seu cotidiano comum, entremeado de flashbacks, vai se descobrindo os segredos macabros e grotescos que permeiam Tierra de Chá. É do paradoxo do estranho e cotidiano, do cômico e dramático e do terno e perverso que se descobre a riqueza deste romance, seguindo pegadas de narradores cuja obra nunca acabamos de decifrar, porque, ao revelar um sentido, abrem-se outros, e sobretudo abre-se a vida, sempre vertiginosa e desproporcionada…

>>Leia um trecho do livro aqui (arquivo em PDF)

Quem é –  Cristina Sánchez-Andrade é escritora, crítica literária e tradutora espanhola. Filha de mãe galega e pai britânico, nasceu em Santiago de Compostella, em 1968. Formada em Ciências da Informação e em Direito, é autora dos romances Las lagartijas huelen a hierba (1999), Bueyes y rosas dormían (2001), Ya no pisa la tierra tu rey (Anagrama, Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz 2004), Alas (2005), Coco (2007), Los escarpines de Kristina de Noruega (finalista do Prêmio Espartaco de Novela Histórica 2011) e El Libro de Julieta (2011). Sua obra já foi traduzida para o inglês, português, italiano, polonês e russo. As Invernas é seu romance mais recente, de 2014. Além disso, ela também é autora do livro infantil 47 Trocitos, história cheia de humor  e ternura que fala sobre diversidade e a importância de aceitar as pessoas como elas são.

Ficha Técnica:

as-invernasAs invernas

Autora: Cristina Sánchez-Andrade

Tradução: Fátima Couto

Editora Alaúde / Selo Tordesilhas

280 páginas

R$ 38,50 (pesquisa no site Submarino em 14/02/17)

*Post escrito com informações, sinopse e arquivo PDF com trecho do romance enviados pela editora para divulgação e com pesquisa sobre a obra de Cristina Sánchez-Andrade.

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Mini Resenha: O livro sem figuras (B. J. Novak)

“E sabe de uma coisa? Eu estou lendo esse livro para a criança mais legal que já existiu em toda a história do mundo inteiro.”

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O livro sem figuras, de B. J. Novak, é uma brincadeira com sons, onomatopeias, palavras que não existem no dicionário e com a ideia de que livros só com texto, sem gravuras, podem ser chatos. O que, na verdade, eles não são nem um pouco!

A leitura é bem curtinha, rápida, leva menos de dez minutos, e o formato do texto é gráfico, com letras em tamanhos confortáveis para crianças que estão aprendendo a ler. A regra de leitura é exposta logo no começo: quem estiver contando a história é obrigado a dizer todas as palavras malucas que aparecem nas páginas seguintes. Ou seja, é uma obra para ser mais interpretada do que lida.

A proposta se adapta aos adultos com imaginação e que não sentem vergonha de fazer vozes engraçadas durante a contação de histórias ou costumam imitar dinossauros, robôs e outros personagem para divertir a garotada.

Recomendo para quem tem filhos ou alunos pequenos. Bebês de um ou dois anos naquela fase de imitar sons e crianças na idade pré-escolar ou pré-alfabetização podem se divertir sozinhas ou em grupo, desde que o responsável por estimular a brincadeira se deixe levar sem preconceito ou medo de parecer ridículo por recitar musiquinhas que grudam na cabeça feito chiclete ou produzir sons pouco convencionais.

O autor vale-se do nonsense e de um sutil humor irônico para conquistar os leitores, arrancando boas gargalhadas até dos mais velhos, só pelo absurdo da brincadeira.

Ficha Técnica:

o-livro-sem-figurasO livro sem figuras

Autor: B.J. Novak

Editora Intrínseca

48 páginas

R$ 24,99 (pesquisa no site Submarino em 13/02/17)

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Dirk Gently e o humor nonsense iluminado de Douglas Adams

dirk-gentlysDouglas Adams, autor de O guia do mochileiro das galaxias (já resenhado aqui no blog, em 2009), também é o criador do detetive Dirk Gently, protagonista da série homônima da Netflix (essa Grande Irmã Orwelliana dos serviços de streaming da internet, que está bebendo nossos cérebros de canudinho. E a gente deixa. E gosta!). A série tem oito episódios e é protagonizada por Samuel Barnett (o Renfield de Penny Dreadful), em momento de total fofura ao encarnar o carismático e atrapalhado detetive; e pelo igualmente fofo Elijah Wood. Completam o elenco principal Jade Eshete, Fiona Dourif e Mpho Koaho.

Dirk Gently nasceu nos anos 1980, quando Adams escreveu dois livros sobre as aventuras do detetive e sua holística agência de investigações. O personagem deriva da experiência do escritor ao roteirizar episódios de Dr. Who, a famosa série de ficção científica britânica. Também há referências a Dirk Gently em O salmão da dúvida, uma coletânea de textos póstumos, incluindo inéditos, de Adams.

Todd e Dirk, dupla improvável de investigadores. Elijah Wood e Samuel Barnett funcionaram bem juntos

Todd e Dirk, dupla improvável. Elijah Wood e Samuel Barnett funcionaram bem juntos

A adaptação do personagem para a série da internet respeita a ironia anárquica e as viagens sensoriais, temporais e espaciais de Douglas Adams, sem falar no senso de humor britânico fleumático e peculiar; e no apreço por situações nonsense. A história criada para essa primeira temporada, no entanto, não é uma adaptação direta do primeiro livro. O próprio Dirk da série é mais ingênuo e burlesco, e menos arrogante, que o personagem das obras de Adams.

O sotaque de Barnett é uma delícia de ouvir e ele e Elijah Wood também tiveram muita química atuando juntos. Elijah, famoso por papéis dramáticos, funcionou bem como  um contraponto  mais ‘centrado’ para o transloucado detetive, nesta mistura de comédia absurda, mistério e sci-fi. O elenco inteiro está bastante afinado e os personagens são muito empáticos. Não tem como não cair de amores pelos dois policiais meio abobalhados vividos por Neil Brown Jr. e Richard Schiff; nem como não vibrar com a empoderada guarda-costas com treino de agente secreta Farah Black, vivida por Jade Eshete; ou com a assassina holística Bart, Fiona Dourif em cenas inspiradas e hilárias ao lado de Mpho Koaho.

Versão britânica, de 2010, para as aventuras de Dirk Gently

Versão britânica, de 2010, para as aventuras de Dirk Gently

Dirk Gently´s Holistic Detective Agency é uma diversão recheada de teorias da conspiração daquelas bem malucas, que fazem a alegria dos coraçõezinhos nerd. Tem saltos temporais, viagens ao passado e ao futuro, máquinas sinistras, doenças neurológicas desconhecidas, troca de corpos, teoria do caos e uma infinidade de referências ao universo sci-fi. A fotografia tem um colorido meio nostálgico, oitentista, e a trilha sonora é a cereja do bolo.

Minha sinopse para a série (sem spoilers)

Bart, a assassina holística

Bart, a assassina holística

A história da série começa com um estranho assassinato em um quarto de hotel. Dirk Gently, por um imperativo do destino (ou não), inicia a investigação das mortes e quer descobrir onde está a filha de um importante magnata da indústria de energia, cujo desaparecimento parece estar conectado com o massacre. Ele recruta Todd (Elijah Wood), um mensageiro do hotel onde o crime ocorreu, como seu assistente na investigação. Todd é ex-guitarrista de uma banda de rock e irmão de Amanda, baterista punk que tem uma doença neurológica, sofre alucinações e por isso, vive confinada em casa. Ao mesmo tempo, Farah,  guarda-costas da jovem raptada, tenta reencontrar a moça; e dois policiais (Brown Jr. e Schiff) investigam as mortes e o sequestro. Enquanto isso, uma assassina de aluguel sinistra (Fiona Dourif), acredita ser seu destino matar Dirk Gently. Em meio a toda essa confusão, agentes da CIA também estão atrás do detetive, da assassina holística e de um grupo de punks que vampiriza a energia vital de outras pessoas. O que acontece quando esse povo todo se junta? Só assistindo para saber…

*Sinopse do livro Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently

Farah Black, a guarda-costas com treinamento de agente secreta

Farah Black, a guarda-costas com treinamento de agente secreta

“Richard MacDuff é um engenheiro de computação perfeitamente normal que sempre se comportou muito bem, obrigado, até o dia em que deixa uma mensagem equivocada na secretária eletrônica de sua namorada, Susan Way. Arrependido, toma a decisão mais natural possível: escalar o prédio dela e invadir seu apartamento para roubar a fita com a gravação. Na vizinhança, Dirk Gently bisbilhota os arredores com seu binóculo quando presencia o ato tresloucado do antigo colega de faculdade e decide entrar em contato para lhe oferecer seus serviços investigativos. Depois de uma série de acontecimentos bizarros, o detetive percebe uma interconexão obscura entre a atitude estapafúrdia do amigo e o assassinato de Gordon Way – irmão de Susan e chefe de Richard, que passa a ser suspeito do crime. De uma hora para outra, os dois veem-se envolvidos num caso incrivelmente estranho, com elementos díspares e desconexos que, no final, conseguem se encaixar de forma perfeita e construir uma trama típica de Douglas Adams”.

*Sinopse retirada do site da Submarino. O livro foi lançado no Brasil em 2014, pela Editora Arqueiro. Na Sub é vendido por R$ 26,17 (preço consultado em 09-02-17).

Saiba mais:

>>Dirk Gently já havia sido adaptado para a TV, em 2010, pela BBC de Londres. E essa nova incursão, capitaneada pela Netflix, também tem a produção da BBC America.

>>O roteirista da nova série é Max Landis, autor que começou na DC Comics e é conhecido por quadrinhos como American Allien. Ele é o roteirista de Victor Frankenstein (2015, Paul McGuigan), o filme em que Daniel Radcliffe vive uma espécie de ‘Igor’ (assistente de cientista louco) para o jovem Victor Frankenstein (James MacAvoy).

>>No site Adoro Cinema tem o trailer legendado e o trailer original.

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Autoras brasileiras estão em lista de indicação de obras infanto-juvenis dos Estados Unidos

As escritoras Ruth Rocha e Socorro Acioli tiveram obras indicadas pela United States Board on Books for Young People (USBBY), lista de recomendações de obras infanto-juvenis. De Ruth Rocha, o selecionado foi O menino que aprendeu a ver, publicado no Brasil pela Salamandra. E de Socorro Acioli, o eleito foi A cabeça do Santo (Companhia das Letras), já resenhado aqui no blog e que também figura na lista da Biblioteca de Nova York como melhor obra de ficção para adolescentes.

Ruth Rocha escreve desde os anos 1960, já foi premiada com o Jabuti, integra a Pen Club (Associação Mundial de Escritores) e é também uma das autoras preferidas do meu filho. Quando ele era pequeno, não cansava de ler e reler Quem tem medo de monstro e Quem tem medo de ridículo. 

Já Socorro Acioli é jornalista e escritora, possui mestrado e doutorado na área de literatura, escreve ficção para crianças e adolescentes; e também é autora de um ensaio biográfico sobre Raquel de Queiroz. A cabeça do santo já foi publicado nos EUA, na Inglaterra e na França.

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Meu nome é Jones, Indiana Jones!

galileuTem criança que sonha em ser astronauta. Eu queria desenterrar o passado. Até a metade da adolescência, quem me perguntasse minha profissão do futuro, eu respondia sem pestanejar: paleontóloga e arqueóloga. O que me dava imenso prazer era ler enciclopédia antiga, com cheiro de guardado, páginas amareladas e mundos de outrora a revelar. E também gostava de revistas científicas que falavam sobre o megatério e outros animais gigantes e extintos, que viveram na aurora do planeta. Junto com a Capricho, gostava muito da Ciência Hoje, que naquela época era uma revista cara para os meus padrões, mas que minha mãe comprava sempre que possível.

Também era fascinada por Indiana Jones (A última cruzada foi o primeiro filme que assisti sozinha no cinema), por causa do Harrison Ford, lógico, e porque o personagem fazia tudo aquilo que eu imaginava que arqueólogos deveriam fazer. Tirando a parte de enfrentar bandidos e conspirações nazistas.

Era sonhadora, do tipo que falava sozinha no quintal, inventando vozes e filmes que aconteciam na minha cabeça, mas não era boba. Sabia separar a ficção da realidade e entendia que os arqueólogos de verdade não tinham aquele chicote e chapéu maneiros. O que era lamentável!

Mas, por causa das enciclopédias, revistas, almanaques, etc., que lia vorazmente, sabia, por exemplo, que alguns pesquisadores que descobriam tumbas de antigos faraós no Egito, morriam tempos depois de doenças bizarras, por conta das bactérias no ar pestilento dos mausoléus. E foram essas mortes que deram origem a muitas das lendas sobre a ‘maldição da pirâmide’.

Em casa havia uma coleção com a História das grandes civilizações do passado e, junto com meus livros da escola, essas surradas enciclopédias viajavam comigo para o sítio de um tio, nos finais de semana. Enquanto os primos brincavam ao ar livre, eu estudava para as provas ou lia minhas enciclopédias confortavelmente deitada numa rede da varanda.

Em 1989, Pedro Bial (anos luz antes do Big Brother) fazia a cobertura da queda do Muro de Berlim para o Jornal Nacional. Eu tinha 15 anos. Assisti a matéria e, até onde a memória não me trai, acho que foi uma das poucas vezes em que acompanhei o noticiário com interesse. Nessa época, eu já começava a assistir o jornal feito ‘gente grande’, porque quando era menor, rolavam umas birras com minha avó, que queria assistir ao JN, enquanto eu e minha irmã queríamos ver desenho animado em outro canal. O acordo era revezar, um dia de cada, porque naquele tempo, quem tinha duas televisões era gente rica e eu fazia parte da comunidade periférica da humanidade. Em casa só havia uma TV, em P&B e daquelas de válvula, que tinha de esperar esquentar para a imagem tremida surgir.

A reportagem sobre o muro lançou a semente do que mais tarde viria a ser meu novo interesse profissional: o jornalismo. E depois de adulta, acabei entendendo que um repórter também é um tipo de arqueólogo. Ao invés de desenterrar múmias, resgata histórias e, de certa forma, flerta com essa História em letra maiúscula que sempre me encantou e atraiu para as épocas que não vivi, mas das quais tenho nostalgia até hoje.

Gatilho da memória

Essa viagem aos meus tempos de aspirante a Indiana Jones foi estimulada por uma matéria que li na edição de janeiro da Galileu. A reportagem apresenta o GlobalXplorer, projeto da arqueóloga Sarah Parcak, uma famosa egiptóloga, que desenvolveu um método especial, utilizando algoritmos, para descobrir sítios arqueológicos ainda inexplorados e para ajudar no monitoramento dos sítios já encontrados e que sofrem a ação de ladrões de relíquias e de grupos rebeldes que explodem monumentos e apagam a história da humanidade sem a menor dor na consciência.

O GlobalXplorer é uma mistura do filme da minha adolescência com o Google Earth. No site, que entrou no ar ontem (acesse aqui, em inglês), é possível criar uma conta e ajudar a equipe de Sarah Parcak a encontrar ou monitorar sítios. A interface do site é parecida com a dos games e dá até para o usuário salvar suas ‘explorações’. Por enquanto, o mapeamento de relíquias e de possíveis locais novos para escavação ocorre apenas no Peru (Hello, Macchu Picchu!), mas a ideia é expandir para outros países.

Na reportagem, a arqueóloga conta ainda que sua paixão por “desenterrar coisas” começou na infância quando ela escavava as praias do Maine, região dos Estados Unidos  onde cresceu, para encontrar esqueletos de ‘bolachas da praia’, que é uma parenta próxima das estrelas e ouriços-do-mar.

Procurando o site do projeto, encontrei também a fanpage no Facebook, que já estou seguindo. Até porque, desconfio que dentro de mim ainda vive um desejo secreto de arrumar um chicote e um chapéu maneiros!

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“…ao passo que o Mediterrâneo é um mar que concentra”

A leitura da vez no projeto #deiadevoltanasaladeaula…

mediterraneo

“… O mar do Caribe se diferencia do mar Mediterrâneo por ser um mar aberto, um mar que difrata, ao passo que o Mediterrâneo é um mar que concentra. Se as civilizações e as grandes religiões monoteístas nasceram em torno da bacia do Mediterrâneo, isto se deve à força que tem esse mar de predispor o pensamento do homem, mesmo que através de dramas, guerras e conflitos, a um pensamento do Uno e da Unidade. Ao passo que o mar do Caribe é um mar que difrata e leva à efervescência da diversidade. Ele não é apenas um mar de trânsito e de passagens, mas é também um mar de encontros e de implicações. O que acontece no Caribe durante três séculos é, literalmente, o seguinte: um encontro de elementos culturais vindos de horizontes absolutamente diversos e que realmente se crioulizam, realmente se imbricam e se confundem um no outro para dar nascimento a algo absolutamente imprevisível, absolutamente novo – a realidade crioula.”

(GLISSANT, Édouard. Introdução a uma poética da diversidade, pág. 17, Editora UFJF, Minas Gerais, 2005)

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Resenha: A cultura-mundo (Gilles Lipovetsky e Jean Serroy)

“Cultura-mundo significa o fim da heterogeneidade tradicional da esfera cultural e a universalização da cultura mercantil, apoderando-se das esferas da vida social, dos modos de existência, da quase totalidade das atividades humanas. Com a cultura-mundo, dissemina-se em todo o globo a cultura da tecnociência, do mercado, do indivíduo, das mídias, do consumo; e, com ela, uma infinidade de novos problemas que põem em jogo questões não só globais (ecologia, imigração, crise econômica, miséria do terceiro mundo, terrorismo…) mas também existenciais (identidade, crenças, crise dos sentidos, distúrbios da personalidade…). A cultura globalitária não é apenas um fato; é, ao mesmo tempo, um questionamento tão intenso quanto inquieto de si mesma…”

O intertítulo de A cultura-mundoresposta a uma sociedade desorientada – já entrega que essa é uma leitura para refletir sobre a condição humana na sociedade pós-moderna e hiperconectada. Os autores Gilles Lipovestsky (O império do efêmero) e Jean Serroy traçam um panorama social, político e cultural dos tempos atuais, em que “a cultura tornou-se um mundo cuja circunferência está em toda parte e o centro em parte alguma.”

Na visão de Lipovetsky e Serroy, vivemos tempos em que as rupturas e reconstruções caminham lado a lado e em que o entendimento tradicional do que seja cultura cede espaço à construção de uma “cultura-mundo” que se expande para além do território da “cultura cultivada humanista”. Trata-se de uma cultura ‘globalitária’ que reestrutura a relação da humanidade consigo mesma e com o planeta e que, ao mesmo tempo em que “reflete sobre o mundo, o constitui, engendra (gera), modela e faz evoluir”.

Nessa cultura-mundo proposta pelos autores, as estruturas sociais que garantiam um certo sossego emocional às pessoas, mesmo que a custa de menos liberdades individuais, já não existem ou passam por transformações profundas e dinâmicas, o que leva a inquietações e frustrações já que as regras mudam muito mais depressa do que muitas vezes somos capazes de acompanhar e nos adaptarmos.

Nesse mundo globalizado, pós-moderno, hiperconectado e com as pessoas tendo acesso ilimitado a inúmeras informações e modos de vida; embora o outro esteja próximo, à distância de apenas um clique, torna-se ainda mais estranho e por isso, causa medo. Um medo que muitas vezes é estimulado para atender determinados interesses de mercado. Uma vez que a globalização facilita a homogeneização cultural, as nações buscam enfatizar suas identidades próprias, no que isso tem de bom (preservar tradições, modos de fazer e heranças culturais) e de ruim (xenofobia, caça ao terror).

Essa ênfase numa identidade nacional peculiar, muitas vezes, não passa de artifício no jogo político, a velha estratégia do “dividir para conquistar”. Quanto mais exótico é o outro, menos me sinto inclinado a entendê-lo e a buscar um ponto de intersecção que abra o diálogo. E aqui a situação vale tanto para nações quanto para grupos sociais que lutam por direitos, onde muitas vezes acontecem dissidências e discussões que sugam a força do movimento, porque seus membros se apegam às diferenças como barreira de isolamento.

A obra de Lipovetsky e Serroy conversa com a de diversos outros autores que também refletem sobre a condição humana e o ‘mal do século’, sobre globalização, advento de novas tecnologias, o poder de criar ou destruir consciências atribuído à mídia e sobre as imposições do capitalismo e do neoliberalismo que transformam a humanidade em uma grande massa de consumidores ávidos tanto por bens materiais quanto por um novo sentido para a vida.

Ao ler a obra, e a depender das outras leituras prévias que se tenha ou das experiências culturais vividas, é possível traçar inúmeros paralelos com situações bem reais do cotidiano. Embora situe os exemplos na França, e não deixe de trazer algumas premissas civilizatórias europeias em relação ao resto do mundo, as análises dos dois autores cabem na atual conjuntura sociopolítica do Brasil, na eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos e nas ondas de radicalismo e renascimento de ideologias totalitárias que varrem o globo.

Na introdução da obra, eles afirmam: “O mundo hipermoderno está desorientado, inseguro, desestabilizado no cotidiano de maneira estrutural e crônica.”  Mais adiante, no primeiro capítulo – A cultura como mundo e como mercado – os dois estabelecem quatro eixos nos quais o mundo hipermodeno estaria estruturado: hipercapitalismo, hipertecnicização, hiperindividualismo e hiperconsumo.

Com o hipercapitalismo puxando a fila, os autores refletem sobre o advento de uma “cultura global de mercado” e fazem uma crítica bastante pertinente às relações de trabalho atuais e alguns efeitos como a solidão e a frustração. Nos demais capítulos, eles avançam na demonstração dos efeitos de uma vida sob a tutela da mercantilização, em que tudo é descartável e consumível, de alimentos a objetos, de arte a sentimentos, de marcas a celebridades instantâneas.

No entanto, embora bastante realista na análise, a obra não se pretende pessimista e no capítulo final traz sugestões do que seriam formas mais sensatas de viver os dias de hoje. Um retorno à sociedade pré-globalização, segundo os autores, seria praticamente impossível, mas manter esse ritmo marcado pela superficialidade, o imediatismo e o consumo autofágico também é insustentável a longo prazo.

Para Lipovestsky e Serroy há caminhos que podem ser tomados que permitam uma melhor adaptação à “cultura-mundo”,  por meio de caminhos que “estimulem as múltiplas potencialidades do indivíduo” na construção de uma sociedade mais equilibrada, justa, empática e solidária.

Ficha Técnica:

a-cultura-mundo-capaA cultura-mundo: resposta a uma sociedade desorientada

Autores: Gilles Lipovestky e Jean Serroy

Tradução: Maria Lúcia Machado

Editora: Companhia das Letras

208 páginas

R$ 29,62 (pesquisa em 25/01/17 no site da Livraria Cultura)

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