Galeria de leituras carnavalescas – 2017 – Final

Hoje publico o final da série de comentários das minhas leituras de Carnaval, para quem ainda não segue o blog no Instagram (postei a maratona por lá, em tempo real).

Leia também:

>>Galeria de leituras carnavalescas – 2017 – Parte I

>>Galeria de leituras carnavalescas – 2017 – Parte II

Dia 07 (01/03/17 – bônus do Arrastão da Quarta de Cinzas) – A identidade, Milan Kundera (Companhia de Bolso – de R$ 11 a R$ 37,29)

A identidade é uma história difícil de aceitar nos dias de hoje, quando as mulheres buscam o empoderamento e, cada vez mais unidas, lutam diariamente contra as convenções que as aprisionam em modelos de beleza e comportamento.

Mas, essa novela de Milan Kundera é necessária, justamente porque parte de uma premissa construída por preconceitos antigos: a de que as mulheres vivem em função de serem desejadas pelos homens e angustiam-se diante do envelhecimento; porque uma vez perdido o viço da juventude, não serão mais olhadas, cobiçadas.

De uma forma muito particular, a obra toca transversalmente na questão da invisibilidade feminina, no desconforto de sermos esse ‘outro’ alijado de direitos e da própria voz. Pontua ainda questões como maternidade, frustração, sexualidade e os comportamentos super-protetores e cavalheirescos que acabam por subestimar a capacidade das mulheres comandarem as próprias vidas e decidirem o próprio destino.

A identidade conta a história de Chantal e Jean-Marc, casal que, após férias em um balneário, enfrenta uma crise no relacionamento. No hotel onde se hospedaram para as férias, Chantal queixa-se de que os homens não olham mais para ela, que todos lhe parecem ridículos e infantilizados nos papeis de pai, com bebês presos ao peito, nas mochilas tipo canguru. E, por isso, já não viram a cabeça para acompanhar o seu andar.

Jean-Marc, acreditando na ideia de que as mulheres precisam do desejo masculino para sentirem-se inteiras e que apenas “o olhar do amante” não é suficiente para saciar o ego feminino, toma uma atitude que termina por desencadear a crise no relacionamento dos dois. Ao mesmo tempo, Chantal precisa lidar com questões pendentes de um casamento anterior, onde viveu uma perda que a afetou profundamente e uma relação abusiva não só por parte do ex-marido, mas de toda a família dele.

A história é construída propositalmente para confundir sonho e realidade, como se Chantal e Jean-Marc vivessem muitas vidas dentro de uma só e precisassem percorrer um caminho longo e árduo para encontrarem a si mesmos e um ao outro. A questão no livro está mais voltada para os processos de autodescoberta, principalmente os de Chantal. Embora, vale ressaltar, o autor também descreva situações facilmente identificadas com o machismo estrutural da sociedade e com o machismo particular dos personagens.

Com isso, não estou dizendo que Milan Kundera é machista, mas que ele expõe na narrativa os comportamentos machistas dos seus personagens (de Jean-Marc, do chefe de Chantal, do ex-marido) e os condicionamentos impostos às mulheres e moldados a partir da educação machista recebida.

A própria insegurança de Chantal com sua aparência ou a passividade com a qual ela aceitou diversos abusos ao longo da vida mostram que a protagonista tem uma longa jornada de desconstrução e reconstrução de si mesma pela frente.

Embora não seja tão bom quanto A insustentável leveza do ser, publicado em 1982, considerado a obra-prima de Milan Kundera e que trata do tema central da opressão em seus diversos níveis, A identidade, que é de 15 anos depois, 1997, traz o mesmo questionamento existencial e é escrito com a poesia característica do estilo do autor.

O livro deixa um travo amargo na boca nos leitores (principalmente, das leitoras), provocando inquietação e, ao mesmo tempo, oferecendo um rico material de reflexão…

Dia 08 (02/03/17 – bônus da Ressaca) – A morte do gourmet, Muriel Barbery (Companhia das Letras – R$ 42,50 a R$ 79,90)

A morte do gourmet é a história de um homem eternamente com fome, embora tenha o privilégio de experimentar as iguarias mais finas. Muriel Barbery, nesse que é seu livro de estreia – mas que se tornou conhecido após o sucesso mundial de A elegância do ouriço -, nos apresenta ao renomado crítico de restaurantes Pierry Arthens, que está à beira da morte e às voltas com as lembranças de um sabor antigo.

Desenganado e com poucas horas de vida, o gourmet do título, uma celebridade do mundo da alta gastronomia, não se recorda do prato que provocou nele tamanha sensação de nostalgia. Poucas horas antes de deixar de existir, o grande gênio hedonista quer comer essa iguaria uma última vez, dar-se ao luxo de um último prazer. E para isso, força a memória, aroma a aroma, mergulhando nas reminiscências de sua vida desde a infância, quando foi seduzido pela alquimia da cozinha de sua avó.

A partir das lembranças do gourmet – e das vozes de outros personagens que assistem seu definhar -, o leitor é apresentado à vida de um homem extremamente sofisticado e dotado de um talento sem par, mas de espírito mesquinho e incapaz de criar vínculos com as pessoas que passaram por sua vida. Se cozinhar é um ato de amor; comer, por sua vez, pode converter-se em uma ação de extremo egoísmo, com um limite tênue entre o gourmet e o glutão.

As experiências do protagonista com pratos raros, temperos e sabores peculiares não foram suficientes para aplacar sua fome existencial, o que acabou por devorar a própria família e corroer suas amizades, tornando as afeições insípidas e desconfortáveis. Um dos personagens-narradores do livro é a concierge Renée, que também aparece em A elegância do ouriço. Além de Renée, ouvimos as vozes dos filhos neglicenciados, da esposa submissa e abusada, do sobrinho preferido, do discípulo mais talentoso, da amante e até do gato de Pierry Arthens. Todos exibindo as cicatrizes da convivência com ele.

A morte do gourmet é ainda um romance bastante sinestésico, principalmente nas descrições das primeiras experiências gastronômicas do protagonista, como quando ele experimenta tomates frescos recém-colhidos da horta de uma tia, ou quando sente na língua seu primeiro gole de whisky, em uma espécie de rito de passagem com o avô.

Delicado e ao mesmo tempo cruel, o livro também provoca fome no leitor, por mais histórias de Muriel Barbery.

Nota: Todos os livros tiveram os preços pesquisados na Estante Virtual, em 15/03/17

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Galeria de leituras carnavalescas – 2017 – Parte II

Hoje publico a segunda parte da série de comentários das minhas leituras de Carnaval, para quem ainda não segue o blog no Instagram (postei a maratona por lá, em tempo real).

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>>Galeria de leituras carnavalescas – 2017 – Parte I

Dia 04 (26/02/17) Animalescos, Gonçalo M. Tavares (Dublinense – de R$ 31,70 a R$ 39,30)

Animalescos, de Gonçalo M. Tavares, é um livro árido, do tipo que pode causar estranheza em leitores que preferem histórias mais lineares e suaves. Mas a aridez justifica-se pela temática central: o caos selvagem da vida humana e a frieza mecânica das máquinas, que ao mesmo tempo em que trazem benefícios, nos desumanizam.

O livro é formado por uma colagem de pequenos textos que flertam com o conto, o ensaio e as livres reflexões filosóficas do autor sobre a brutalidade da existência. Enxuto, com apenas 128 páginas, o que Animalescos tem de diminuto (nas dimensões de um livro de bolso), tem de intenso, verborrágico, perverso e insano.

É um grito em forma de escrita, que rasga a alma do leitor…

Dia 05 (27/02/17) – O marido de minha mulher, Luigi Pirandello (Odisseia – de R$ 7 a R$ 38,00)

O marido de minha mulher reúne 12 contos do dramaturgo italiano Luigi Pirandello, recheados de humor satírico, sarcasmo e crítica de costumes. O autor esmiúça a sociedade do final do século XIX e começo do XX, expondo preconceitos, comportamentos e convenções sociais que levam os protagonistas das histórias por caminhos controversos e, na maioria das vezes, tragicômicos.

A coletânea, no Brasil, recebeu o nome do primeiro conto. Mas, originalmente, as histórias formavam a coleção Novelle per un anno, projeto do autor para criar 365 contos, um para cada dia do ano. As histórias de Pirandello reunidas nesta coletânea são agridoces e algumas flertam com a melancolia. Seus personagens remetem à commedia dell’arte. 

O marido de minha mulher, o conto de abertura,  é uma comédia de erros sobre um sujeito de saúde frágil que imagina como seria a vida da esposa e do filho, após sua morte, caso ela se casasse novamente com o seu melhor amigo. Os delírios do doente, para o leitor brasileiro, lembram aqueles de Bentinho, personagem icônico de Dom Casmurro (Machado de Assis).

As outras histórias seguem essa mesma regra de brincar com as aparências, em um jogo de espelhos que confunde realidade e ficção e embaralha as múltiplas máscaras vestidas pelos personagens que, frequentemente, precisam esconder sua real natureza em nome dos ‘bons costumes’.

Dia 06 (28/02/17) – Criaturas Flamejantes, Nick Tosches (Conrad – de R$ 15 a R$ 25,50)

Criaturas Flamejantes, de Nick Tosches, é a história do nascimento do rock´n roll e é mais do que isso. O livro, escrito a partir do ponto de vista privilegiado de uma testemunha ocular da história – o autor nasceu nos anos 1940, é jornalista e escreveu a biografia de Jerry Lee Lewis -, traz não só a gênese de toda uma cultura, mas o panorama social pré e pós advento do rock, com as consequentes mudanças nos costumes e no próprio conceito de juventude a partir dos ‘anos rebeldes’.

As descrições das verdadeiras sessões de exorcismo e dos autos de fé de religiosos do período, promovendo queima de discos em praça pública; ao mesmo tempo em que os jovens dos anos 1940 aos 60 ‘botavam para quebrar’, levam o leitor em uma viagem incrível pela origem da cultura pop.

A obra, além de pesquisa apurada que elenca discos e artistas que participaram da criação do rock desde os primórdios, oferece de brinde algumas histórias para lá de pitorescas envolvendo Elvis Prestley, o indomável Jerry Lee Lewis, Chuck Berry e outros mitos.

A leitura é rápida, fluída e ao mesmo tempo bastante rica, porque o livrinho concentra diversas referências bem interessantes para quem é roqueiro de raiz ou mesmo para quem tem curiosidade em saber mais sobre o gênero.

Nota: Todos os livros tiveram os preços pesquisados na Estante Virtual, em 15/03/17

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Galeria de leituras carnavalescas – 2017 – Parte I

Aproveitei o Carnaval para fazer uma mini-maratona literária. Comecei na quinta-feira, 23 de fevereiro, e concluí na quinta posterior, 02 de março, cobrindo um período de seis dias de festa, o *Arrastão da Quarta de Cinzas e um bônus da **Ressaca. Abaixo, para quem se interessa por dicas de leitura e ainda não segue o blog no Instagram (postei a maratona por lá, em tempo real), segue a lista e meus comentários.

Dividi em três partes, porque são oito livros para comentar. Confiram a primeira:

Dia 01 (23/02/17) – O púcaro búlgaro, Campos de Carvalho (José Olympio – de R$ 11 a R$ 70,00)

O púcaro búlgaro, lançado em 1964, é o último romance de Campos de Carvalho. Considerado a obra-prima do autor, o livro tem um tom surrealista, como se o cenário fosse um dos quadros de Salvador Dali. Conta a história de Hilário, um homem que fica obcecado por um púcaro búlgaro, que ele viu em um museu na Filadélfia (EUA), em 1958, e decide organizar uma expedição para provar que a Bulgária existe, ou confirmar que, de fato, o país não existe! Ao lado dos únicos que responderam ao seu anúncio no jornal buscando voluntários para a jornada – Radamés, Pernacchio, ‘Ivo Que Viu a Uva’ e Expedito -, Hilário prepara a insólita viagem, enquanto narra os acontecimentos e os desacontecimentos das vidas individuais e do grupo de lunáticos desbravadores que parecem ter saído do chá do Chapeleiro Maluco. Apelando para o humor sarcástico, Campos de Carvalho, subverte a lógica e linearidade narrativa, exercitando a escrita livre de amarras e convenções. O livro beira um surto de loucura. E é lindo por isso!

Dia 02 (24/02/17) – Orientação dos gatos, Júlio Cortázar (Nova Fronteira – de R$ 15 a R$ 65,00)

Orientação dos gatos reúne dez magníficos contos de Júlio Cortázar. Dividido em três partes, o livro foi lançado originalmente na Argentina com o título da segunda história da coletânea – Queremos tanto a Glenda -, que fala sobre um grupo de fãs obcecados por uma diva do cinema e dispostos a chegarem às últimas consequências em nome de sua devoção. No Brasil, a Nova Fronteira (li a segunda edição, de 1981) preferiu usar o conto de abertura Orientação dos gatos, para batizar o volume. As histórias possuem toques sombrios, são recheadas de belas metáforas, como a do gato representando o desejo de liberdade de uma mulher presa a um relacionamento insatisfatório – e também flertam com o realismo fantástico, caso do conto História com Aranhas. Uma das histórias, Grafitti, parece ter sido escrita no Brasil atual, no contexto da polêmica envolvendo o apagamento dos grafites das ruas de São Paulo, a mando da administração municipal de lá. Esse conto tem uma atmosfera opressiva e apresenta a arte como resistência libertária. Ainda na esfera política, Recortes de jornais trata da ditadura na Argentina e de suas sequelas, alternando relatos de familiares de desaparecidos, com ficção. O último conto, Anel de Moebius, é a homenagem de Cortázar a Perto do Coração Selvagem, um dos meus livros preferidos e o romance de estreia de Clarice LispectorUm trecho do romance é usado como epígrafe deste conto.

Dia 03 (25/02/17)O rei se inclina e mata, Herta Müller (Biblioteca Azul – de R$ 23 a R$ 39,90)

O rei se inclina e mata reúne ensaios autobiográficos da escritora, poetisa, ensaísta e Nobel de Literatura Herta Müller, ambientados na infância e juventude da autora, na Romênia de Nicolae Ceauşescu (que dirigiu o país de 1965 até 1989, ano de sua morte). Oriunda de uma família de origem alemã, Herta nasceu e cresceu em um vilarejo do interior romeno, em 1953, e deixou o país como exilada, em meados dos anos 1980. Os textos sobre sua infância revelam uma poesia cheia de dor, delicadeza e do exorcismo de uma educação rígida e de uma vida sob permanente vigilância. Os alemães, derrotados na II Guerra e pagando pelos pecados de Adolf Hitler, mesmo que fossem só colonos semi-alfabetizados e simples lavradores, eram minoria em um país comunista, e por isso sofriam retaliações. Ao se mudar para a capital, para estudar, Herta viveu anos de perseguições e prisões sem justificativa, interrogatórios intermináveis, tinha escutas instaladas em sua casa para vigiá-la e perdeu vários amigos para o regime. As versões oficiais eram sempre de que eles se suicidaram, embora todo mundo soubesse que não resistiram à tortura. A leitura desse livro, embora angustiante, além de mostrar a luta por sobrevivência e liberdade da escritora, também serve como uma boa aula de história.

Glossário de Baianês:

*Arrastão da Quarta de Cinzas – Nesse dia, alguns artistas de Salvador fazem uma despedida do Carnaval, tocando a partir do meio-dia e até uma parte da tarde, no circuito Barra-Ondina, na orla da capital;

**Ressaca de Carnaval – Ainda para marcar o encerramento da festa, bandas e cantores locais promovem festas fechadas chamadas de Ressaca. Elas duram praticamente todo o resto do verão baiano;

Nota: Todos os livros tiveram os preços pesquisados na Estante Virtual, em 14/03/17

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Uma citação, um filme e uma lista de clássicos

“Um livro não é um clássico à toa. Autores como Homero, Cervantes, Machado de Assis não continuam  sendo lidos, relidos e reeditados séculos depois porque têm uma boa assessoria de marketing. São obras que conseguem traduzir de maneira única o que está na alma das pessoas. Isso é um clássico. E o fator tempo é decisivo, porque os anos vão passando e a obra vai ficando.”

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“A literatura é um refúgio. O mundo em que vivemos é violento e difícil. E o livro me ajuda a ampliar a perspectiva da realidade. Porque a realidade não se resume a crise econômica e política ou mesmo a violência. A literatura nesse ponto, é um remédio, porque ela derruba essas paredes…”

Colin Firth vive o editor Max Perkins, responsável pela estreia literária de Thomas Wolfe (Jude Law)

Os trechos acima são da entrevista com o historiador Dante Gallian para a revista Vida Simples de fevereiro (edição 180). A conversa acompanha uma matéria sobre o projeto de clube de leitura criado por Gallian na faculdade onde é professor de História da Medicina. Ele montou grupos onde os futuros médicos são incentivados a ler e discutir obras como Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley), Frankenstein (Mary Shelley) e a Odisseia, entre outras consideradas imortais.

O historiador acredita na literatura como um tipo de elixir do espirito, um remédio para curar e educar a alma, não é lindo? Daí ele cita seis obras que considera fundamentais:

*Dom Quixote de La Mancha – Miguel de Cervantes

*Grande Sertão: Veredas – Guimarães Rosa

*Os irmãos Karamazov – Fiodor Dostoiévski

*Hamlet – William Shakespeare

*A divina comédia – Dante Alighieri

*A Odisseia – Homero

Fiquei pensando na frase “a literatura é um refúgio” e vi que para muitos autores, escrever é uma forma de exorcismo dos próprios demônios e um bálsamo para curar as dores do mundo. Lembrei disso ao assistir, nesse final de semana, ao filme de 2016 (disponível no catálogo da Netflix), chamado O mestre dos gênios (Genius, no original), que conta a história do editor Max Perkins (Colin Firth) e de sua relação conturbada e altamente criativa com o brilhante e atormentado Thomas Wolfe (Jude Law), considerado um dos romancistas mais importantes dos Estados Unidos e uma das inspirações de Jack Kerouac.

O mestre dos gênios é o filme de estreia do diretor Michael Grandage e foi roteirizado por John Logan, criador da série Penny Dreadful (inspirada nos monstros da literatura gótica de referência) e roteirista também de A invenção de Hugo Cabret, GladiadorO aviador – a cinebiografia de Howard Hudges. O filme é ambientado entre 1929, ano da estreia literária de Wolfe, até 1938, quando o autor morreu, com apenas 38 anos.

A história é um recorte muito específico da vida e do trabalho de Max Perkins, considerado um dos maiores editores literários dos Estados Unidos e responsável por descobrir autores como o próprio Thomas Wolfe, F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Para quem ama literatura, o filme é um pequeno presente!

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Selo Tordesilhas lança no Brasil a novela As invernas, da espanhola Cristina Sánchez-Andrade

Cristina Sánchez-Andrade nasceu em Santiago de Compostella, filha de uma galega e de um inglês, uma singular combinação de mitologias familiares

Cristina Sánchez-Andrade tem 49 anos e nasceu em Santiago de Compostella, filha de uma galega e de um inglês, uma singular combinação de mitologias familiares

As invernas, romance da escritora espanhola Cristina Sánchez-Andrade, parte da rivalidade e do amor entre duas irmãs, uma considerada feia e a outra considerada uma beldade, para construir uma narrativa que se inspira nas tradições orais dos contadores de histórias. Principalmente os da Galícia, região onde o romance se situa. A obra acaba de ser lançada no Brasil, pelo Selo Tordesilhas (Editora Alaúde).

O livro conta as vidas de Saladina e Dolores, netas de Dom Reinaldo, um homem perseguido pela ditadura de Franco no começo na Guerra Civil Espanhola (1936). Enviadas para o exílio pelo avô, as duas crescem na Inglaterra e só retornam para a Espanha anos mais tarde. Costureiras, Dolores, ‘a irmã bonita’, se casa com um pescador truculento; enquanto Saladina, ‘a feia’, permanece solteira.

Ambas tinham o sonho de juventude de serem atrizes, mas precisam se conformar com uma vida medíocre. De volta ao vilarejo natal, na Galícia, após uma acontecimento trágico, as duas acabam desenterrando histórias antigas e lembranças dolorosas…

Considerada uma das vozes femininas mais atuantes na literatura espanhola contemporânea, Cristina Sánchez-Andrade fala de opressão e liberdade, da busca por independência, da ditadura da beleza e de sonhos românticos desfeitos nesse livro protagonizado por mulheres com personalidades distintas e, de certa forma, complementares, descortinando as muitas faces possíveis do feminino.

Com narrativa circular, os fatos da vida das irmãs e do passado de seu povoado e de seu avô vão se mesclando à medida em que a história avança, alternando drama, suspense, ternura e ferocidade. Os textos de Cristina, segundo críticos, “condensam os cenários do interior da Galícia, fazendo o leitor sentir o odor dos prados úmidos e mergulhar no universo lúgubre e aguerrido de sua região natal”.

Sinopse da editora – “Dolores e Saladina, irmãs apelidadas ‘As Invernas’, voltam à sua aldeia galega depois de um penoso exílio na Inglaterra, trazendo consigo lembranças que todos ali queriam esquecer. Uma linda, outra feia e desdentada, vivem uma relação típica de irmãs. De seu cotidiano comum, entremeado de flashbacks, vai se descobrindo os segredos macabros e grotescos que permeiam Tierra de Chá. É do paradoxo do estranho e cotidiano, do cômico e dramático e do terno e perverso que se descobre a riqueza deste romance, seguindo pegadas de narradores cuja obra nunca acabamos de decifrar, porque, ao revelar um sentido, abrem-se outros, e sobretudo abre-se a vida, sempre vertiginosa e desproporcionada…

>>Leia um trecho do livro aqui (arquivo em PDF)

Quem é –  Cristina Sánchez-Andrade é escritora, crítica literária e tradutora espanhola. Filha de mãe galega e pai britânico, nasceu em Santiago de Compostella, em 1968. Formada em Ciências da Informação e em Direito, é autora dos romances Las lagartijas huelen a hierba (1999), Bueyes y rosas dormían (2001), Ya no pisa la tierra tu rey (Anagrama, Prêmio Sor Juana Inés de la Cruz 2004), Alas (2005), Coco (2007), Los escarpines de Kristina de Noruega (finalista do Prêmio Espartaco de Novela Histórica 2011) e El Libro de Julieta (2011). Sua obra já foi traduzida para o inglês, português, italiano, polonês e russo. As Invernas é seu romance mais recente, de 2014. Além disso, ela também é autora do livro infantil 47 Trocitos, história cheia de humor  e ternura que fala sobre diversidade e a importância de aceitar as pessoas como elas são.

Ficha Técnica:

as-invernasAs invernas

Autora: Cristina Sánchez-Andrade

Tradução: Fátima Couto

Editora Alaúde / Selo Tordesilhas

280 páginas

R$ 38,50 (pesquisa no site Submarino em 14/02/17)

*Post escrito com informações, sinopse e arquivo PDF com trecho do romance enviados pela editora para divulgação e com pesquisa sobre a obra de Cristina Sánchez-Andrade.

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Mini Resenha: O livro sem figuras (B. J. Novak)

“E sabe de uma coisa? Eu estou lendo esse livro para a criança mais legal que já existiu em toda a história do mundo inteiro.”

o-livro-sem-figuras

O livro sem figuras, de B. J. Novak, é uma brincadeira com sons, onomatopeias, palavras que não existem no dicionário e com a ideia de que livros só com texto, sem gravuras, podem ser chatos. O que, na verdade, eles não são nem um pouco!

A leitura é bem curtinha, rápida, leva menos de dez minutos, e o formato do texto é gráfico, com letras em tamanhos confortáveis para crianças que estão aprendendo a ler. A regra de leitura é exposta logo no começo: quem estiver contando a história é obrigado a dizer todas as palavras malucas que aparecem nas páginas seguintes. Ou seja, é uma obra para ser mais interpretada do que lida.

A proposta se adapta aos adultos com imaginação e que não sentem vergonha de fazer vozes engraçadas durante a contação de histórias ou costumam imitar dinossauros, robôs e outros personagem para divertir a garotada.

Recomendo para quem tem filhos ou alunos pequenos. Bebês de um ou dois anos naquela fase de imitar sons e crianças na idade pré-escolar ou pré-alfabetização podem se divertir sozinhas ou em grupo, desde que o responsável por estimular a brincadeira se deixe levar sem preconceito ou medo de parecer ridículo por recitar musiquinhas que grudam na cabeça feito chiclete ou produzir sons pouco convencionais.

O autor vale-se do nonsense e de um sutil humor irônico para conquistar os leitores, arrancando boas gargalhadas até dos mais velhos, só pelo absurdo da brincadeira.

Ficha Técnica:

o-livro-sem-figurasO livro sem figuras

Autor: B.J. Novak

Editora Intrínseca

48 páginas

R$ 24,99 (pesquisa no site Submarino em 13/02/17)

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Dirk Gently e o humor nonsense iluminado de Douglas Adams

dirk-gentlysDouglas Adams, autor de O guia do mochileiro das galaxias (já resenhado aqui no blog, em 2009), também é o criador do detetive Dirk Gently, protagonista da série homônima da Netflix (essa Grande Irmã Orwelliana dos serviços de streaming da internet, que está bebendo nossos cérebros de canudinho. E a gente deixa. E gosta!). A série tem oito episódios e é protagonizada por Samuel Barnett (o Renfield de Penny Dreadful), em momento de total fofura ao encarnar o carismático e atrapalhado detetive; e pelo igualmente fofo Elijah Wood. Completam o elenco principal Jade Eshete, Fiona Dourif e Mpho Koaho.

Dirk Gently nasceu nos anos 1980, quando Adams escreveu dois livros sobre as aventuras do detetive e sua holística agência de investigações. O personagem deriva da experiência do escritor ao roteirizar episódios de Dr. Who, a famosa série de ficção científica britânica. Também há referências a Dirk Gently em O salmão da dúvida, uma coletânea de textos póstumos, incluindo inéditos, de Adams.

Todd e Dirk, dupla improvável de investigadores. Elijah Wood e Samuel Barnett funcionaram bem juntos

Todd e Dirk, dupla improvável. Elijah Wood e Samuel Barnett funcionaram bem juntos

A adaptação do personagem para a série da internet respeita a ironia anárquica e as viagens sensoriais, temporais e espaciais de Douglas Adams, sem falar no senso de humor britânico fleumático e peculiar; e no apreço por situações nonsense. A história criada para essa primeira temporada, no entanto, não é uma adaptação direta do primeiro livro. O próprio Dirk da série é mais ingênuo e burlesco, e menos arrogante, que o personagem das obras de Adams.

O sotaque de Barnett é uma delícia de ouvir e ele e Elijah Wood também tiveram muita química atuando juntos. Elijah, famoso por papéis dramáticos, funcionou bem como  um contraponto  mais ‘centrado’ para o transloucado detetive, nesta mistura de comédia absurda, mistério e sci-fi. O elenco inteiro está bastante afinado e os personagens são muito empáticos. Não tem como não cair de amores pelos dois policiais meio abobalhados vividos por Neil Brown Jr. e Richard Schiff; nem como não vibrar com a empoderada guarda-costas com treino de agente secreta Farah Black, vivida por Jade Eshete; ou com a assassina holística Bart, Fiona Dourif em cenas inspiradas e hilárias ao lado de Mpho Koaho.

Versão britânica, de 2010, para as aventuras de Dirk Gently

Versão britânica, de 2010, para as aventuras de Dirk Gently

Dirk Gently´s Holistic Detective Agency é uma diversão recheada de teorias da conspiração daquelas bem malucas, que fazem a alegria dos coraçõezinhos nerd. Tem saltos temporais, viagens ao passado e ao futuro, máquinas sinistras, doenças neurológicas desconhecidas, troca de corpos, teoria do caos e uma infinidade de referências ao universo sci-fi. A fotografia tem um colorido meio nostálgico, oitentista, e a trilha sonora é a cereja do bolo.

Minha sinopse para a série (sem spoilers)

Bart, a assassina holística

Bart, a assassina holística

A história da série começa com um estranho assassinato em um quarto de hotel. Dirk Gently, por um imperativo do destino (ou não), inicia a investigação das mortes e quer descobrir onde está a filha de um importante magnata da indústria de energia, cujo desaparecimento parece estar conectado com o massacre. Ele recruta Todd (Elijah Wood), um mensageiro do hotel onde o crime ocorreu, como seu assistente na investigação. Todd é ex-guitarrista de uma banda de rock e irmão de Amanda, baterista punk que tem uma doença neurológica, sofre alucinações e por isso, vive confinada em casa. Ao mesmo tempo, Farah,  guarda-costas da jovem raptada, tenta reencontrar a moça; e dois policiais (Brown Jr. e Schiff) investigam as mortes e o sequestro. Enquanto isso, uma assassina de aluguel sinistra (Fiona Dourif), acredita ser seu destino matar Dirk Gently. Em meio a toda essa confusão, agentes da CIA também estão atrás do detetive, da assassina holística e de um grupo de punks que vampiriza a energia vital de outras pessoas. O que acontece quando esse povo todo se junta? Só assistindo para saber…

*Sinopse do livro Agência de Investigações Holísticas Dirk Gently

Farah Black, a guarda-costas com treinamento de agente secreta

Farah Black, a guarda-costas com treinamento de agente secreta

“Richard MacDuff é um engenheiro de computação perfeitamente normal que sempre se comportou muito bem, obrigado, até o dia em que deixa uma mensagem equivocada na secretária eletrônica de sua namorada, Susan Way. Arrependido, toma a decisão mais natural possível: escalar o prédio dela e invadir seu apartamento para roubar a fita com a gravação. Na vizinhança, Dirk Gently bisbilhota os arredores com seu binóculo quando presencia o ato tresloucado do antigo colega de faculdade e decide entrar em contato para lhe oferecer seus serviços investigativos. Depois de uma série de acontecimentos bizarros, o detetive percebe uma interconexão obscura entre a atitude estapafúrdia do amigo e o assassinato de Gordon Way – irmão de Susan e chefe de Richard, que passa a ser suspeito do crime. De uma hora para outra, os dois veem-se envolvidos num caso incrivelmente estranho, com elementos díspares e desconexos que, no final, conseguem se encaixar de forma perfeita e construir uma trama típica de Douglas Adams”.

*Sinopse retirada do site da Submarino. O livro foi lançado no Brasil em 2014, pela Editora Arqueiro. Na Sub é vendido por R$ 26,17 (preço consultado em 09-02-17).

Saiba mais:

>>Dirk Gently já havia sido adaptado para a TV, em 2010, pela BBC de Londres. E essa nova incursão, capitaneada pela Netflix, também tem a produção da BBC America.

>>O roteirista da nova série é Max Landis, autor que começou na DC Comics e é conhecido por quadrinhos como American Allien. Ele é o roteirista de Victor Frankenstein (2015, Paul McGuigan), o filme em que Daniel Radcliffe vive uma espécie de ‘Igor’ (assistente de cientista louco) para o jovem Victor Frankenstein (James MacAvoy).

>>No site Adoro Cinema tem o trailer legendado e o trailer original.

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