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Resenha: Vasto mar de sargaços

Vasto mar de sargaços conta a história da ‘louca do sótão’, a infeliz primeira mulher do abusivo senhor Rochester. Os acontecimentos são anteriores aos narrados em Jane Eire e dão outra perspectiva para a história de Charlotte, uma inclusive que os leitores do século XXI entendem muito melhor do que aqueles dos tempos das irmãs Brontë.

Hoje, embora ainda ocorram muitos casos, as relações abusivas, os maridos tóxicos e o estupro marital já não são tolerados socialmente como eram no século XIX e nem estão mais encobertos por um véu de normalidade ditado por costumes machistas e puritanos e pelos tabus religiosos que pregam a submissão da mulher. Os tabus ainda existem, mas felizmente caem em descrédito geração após geração.

Jean Rhys parte da própria realidade como mulher caribenha nascida no final do século XIX (1890, precisamente), nas Antilhas, para criar uma vida anterior que, de certa forma explica – mas não justifica – os infortúnios sofridos por Antoinette, a prisioneira de Rochester, a quem ele destitui dos bens e até do próprio nome, chamando-a contra sua vontade de Bertha.

Meu exemplar comprado na internet em janeiro de 2021
(Foto: Andreia Santana / Blog Mar de Histórias)

Vale lembrar que uma das estratégias de apagamento da personalidade de alguém, uma das formas de desumanizar uma pessoa, é privá-la de sua identidade e de suas origens. Era o que os antigos senhores de escravos faziam ao capturar os moradores dos reinos africanos para serem explorados nas lavouras das Antilhas ou das Américas.

Além da dor do próprio processo de escravização, os brancos que exploravam a mão de obra dessas pessoas não entendiam e nem aceitavam suas línguas, costumes, crenças. O escravizado, ex-escravizado e seus descendentes eram sempre os ‘selvagens’, ‘incultos e bárbaros’ que precisavam ser ‘civilizados’ pelo europeu cristão.

Antoinette nasce no seio dessa cultura cheia de tensões e fraturas, o que ela têm em comum com a própria Jean Rhys, considerada na juventude ‘a bela imigrante exótica’ do Caribe que se muda para a Inglaterra e precisa se encaixar na cultura britânica que rejeitava até o seu ‘sotaque das ilhas’.

Nesse pequeno livro de menos de 200 páginas, mas um grandioso romance (é considerado a obra-prima da autora), Rhys – que o publicou em 1966, mas trabalhava na ideia desde os anos 20, quando leu Jane Eire e ficou perplexa e fascinada pela mulher confinada na mansão de Rochester – descreve tanto os bastidores de um casamento abusivo e tóxico, com um marido machista, obcecado, ciumento e racista; quanto fala das conflituosas relações entre as antigas colônias e suas metrópoles, ou melhor, dos países invadidos com os seus exploradores de outrora.

O cenário se alterna entre a Jamaica, a Martinica e as ilhas vizinhas e uma Inglaterra tanto assustadora (o período é a Era Vitoriana e, nas ilhas, pouco anos depois do fim da escravidão) quanto idealizada.

Todas as mazelas herdadas do período colonial costuram as entrelinhas de Vasto mar de sargaços. Das dificuldades econômicas das antigas colônias, que por séculos foram expropriadas de suas riquezas naturais, aos problemas de formação social e política de países que nasceram a partir da exploração da mão de obra escrava.

Corrupção, revolta, perversidade, loucura e abandono são algumas das nefastas heranças do colonialismo estampadas nas páginas do livro de Jean Rhys.

Esse não é um daqueles romances de final edificante como o próprio Jane Eire, mas um relato contundente, doloroso e triste da condição da mulher na sociedade patriarcal, da situação precária dos pretos e pretas no pós-abolição, das cicatrizes eternamente abertas do colonialismo e da diáspora africana; e do não-lugar das crianças mestiças, muitas delas filhas ao mesmo tempo da resistência e da opressão de suas mães e avós…

O exemplar que eu li:

Um amigo jornalista e editor de livros me falou deste romance depois que postei a resenha de Jane Eire. Confiando na dica preciosa de um leitor sensível, comprei o livro em janeiro deste ano, pela internet. Foi uma das melhores aquisições literárias de 2021 até agora.

Ficha Técnica:

Vasto mar de sargaços

Título original: Wide Sargasso Sea

Autora: Jean Rhys

Tradução: Lea Viveiros de Castro

Editora: Rocco

192 páginas

Preço: de R$ 11,00 a R$ 20,90*

*Pesquisado na Estante Virtual, Amazon e Americanas em 13/06/2021

P.S.: Para saber mais sobre a autora e o livro, leia artigo do crítico e roteirista Leonardo Peterson Lamba no site da Rocco

P.S2.: Postei esse pequeno comentário sobre o livro também no perfil do Instagram (@blogmardehistorias).

P.S3.: De certa forma, foi uma leitura complementar não apenas ao clássico Jane Eire, como também a Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves. Os três livros protagonizados por mulheres e ambientados na mesma época, o século XIX, dão um panorama rico da condição feminina na sociedade do período. Seja na Inglaterra, nas Antilhas ou no Brasil, a dor das mulheres tem muitos pontos de contato…

P.S4.: Existem ao menos duas adaptações para o audiovisual de Vasto mar de sargaços, uma para o cinema, de 1993, que no Brasil recebeu o cafona e piegas nome de Mar de desejos; e uma para a TV, de 2006, da BBC britânica. Nessa minissérie, Antoinette é vivida pela ótima Rebecca Hall.

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Resenha: Um defeito de cor

Luiza Mahin é pura representatividade. Independente dela ter existido em carne e osso ou não, personifica milhares de meninas e mulheres africanas que foram escravizadas e trazidas para os engenhos de açúcar da Bahia, onde sofreram maus-tratos e abusos de toda natureza. Simboliza todas as vendedoras que palmilharam as ruas da velha Salvador, subindo e descendo ladeiras com tabuleiros equilibrados na cabeça, ouvindo conversas aqui e ali, desvendando caminhos possíveis para lutar contra as opressões, tecendo redes de solidariedade, articulando famílias onde antes só havia gente expatriada e desgarrada, sem direito sequer a preservar os verdadeiros nomes, a língua e os costumes de seus países de origem. A força de Luíza transcende a história oficial. Ela cresce a partir da oralidade, da construção de uma identidade negra altiva, aguerrida e digna. Luiza Mahin é um legado, uma herança de sangue, uma tradição preservada.

E foi com essa ideia em mente, a de que Luíza é imensa, apesar dos poucos registros sobre ela a descreverem como uma mulher pequena e magra; depois de ter escrito uma reportagem sobre essa personagem cheia de significados e contradições, em 2004; de ter lido duas pequenas biografias de Luiz Gama, seu autodeclarado filho, que naveguei pelas mais de 900 páginas de Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

O exemplar que eu li pertence ao acervo maravilhoso de minha irmã
(Foto: Andreia Santana/Blog Mar de Histórias)

E que livro! Que experiência rica em informações, em sentimentos, em sabedoria é essa criação de uma biografia, de uma personalidade, de uma voz ativa e de uma substância palpável, verossímil para Luíza Mahin. Até então, a personagem nunca havia definido a si mesma nas poucas linhas escritas sobre ela. Pedro Calmon, em Malês: a insurreição das senzalas, publicado em 1933, a descreve como traidora do seu povo e submissa aos brancos, por exemplo.

Não é à toa que Lázaro Ramos, em seu livro de memórias e crônicas Na minha pele (Objetiva, 2017) indica que todo mundo precisa ler Um defeito de cor. Porque Ana Maria Gonçalves têm uma história diferente daquela de Calmon para contar, uma de pertencimento e não de humilhação.

Publicado pela primeira vez em 2006, o livro faz 15 anos agora em 2021 e é uma referência do romance histórico. Em 2019, a colunista de TV Cristina Padiglione, do site Telepadi, confirmou que o livro seria adaptado para uma supersérie da Rede Globo com lançamento previsto para este ano. O projeto, liderado por Ricardo Waddington, seria adaptado por Maria Camargo e teria consultoria de Nei Lopes, músico e especialista em cultura africana.

Com a pandemia decretada em 2020, não vi mais nenhuma reportagem informando se o projeto vingou, se estavam ocorrendo filmagens ou quando as gravações ou a exibição da série começariam.

História e folhetim

O livro de Ana Maria Gonçalves é uma obra de ficção, um romance histórico épico, sobre a personagem que teria vivido na Bahia no século XIX e se envolvido em diversas revoltas como a dos Malês (em 1835) e a Sabinada (1837-38). No entanto, embora tenha criado personagens, cenários e situações para romancear a vida de Luíza, a autora fez criteriosa reconstituição de época embasada em livros, relatos, iconografia, cartas e artigos acadêmicos sobre a Bahia (Salvador e Recôncavo, essencialmente), o Rio de Janeiro, São Paulo e a costa da África oitocentistas.

Vale a pena anotar para leituras futuras a bibliografia que ela consultou e está listada no final do livro.

A história começa na África, se transporta para a Bahia junto com a protagonista, capturada ainda criança no Reino do Daomé (República do Benin) e vendida como escrava, avança do último terço em diante para o Maranhão, mais especificamente para a Casa das Minas, chega ao Rio de Janeiro e a São Paulo, com a personagem buscando um filho perdido, e retorna ao Daomé, para finalmente ser concluída na baía de Todos-os-Santos, diante da paisagem de presépio encarapitado sobre a montanha que cativou cronistas estrangeiros que aportaram em Salvador ao longo dos séculos, como a britânica Maria Graham.

Escrito em primeira pessoa, no formato de uma longa carta de uma mãe idosa e prestes a morrer, para seu filho desaparecido – e de fato Luiz Gama foi vendido como escravo com apenas 10 anos pelo próprio pai, segundo registros da vida do advogado e poeta abolicionista – Um defeito de cor não é apenas uma prestação de contas de Luíza Mahin – ou Kehinde, o nome daomeano que a autora outorga à sua personagem – para esse filho que ela perdeu ainda criança e que nem sabe se reconheceria se o reencontrasse tantos anos depois.

O livro, através de Kehinde/Luíza, é, principalmente, um balanço minucioso de milhares de vidas, tanto daquelas que sobreviveram à travessia do Atlântico e à diáspora africana, quanto as que ficaram sepultadas sob as águas. É a legitimação de todo um povo.

Apesar do tamanho de Um defeito de cor assustar leitores menos treinados às longas narrativas, a história é muito bem escrita, cativante, envolvente, recheada de conflitos, reviravoltas, descrições apuradas e muita sinestesia. O volume de informações por página precisa de um certo tempo para ser assimilado, para puxar pela memória. Mas, no caso dos leitores que prezam por entrelaçar suas leituras, os aprendizados são valiosos, principalmente para quem gosta de história. Ainda assim, de forma magistral, o livro também contempla amantes de um bom folhetim de época, com trama principal sólida e subtramas que se inserem com um encaixe cirúrgico.

Além disso, Um defeito de cor é o tipo de livro que precisava ser adotado nas escolas em um desses audaciosos projetos multidisciplinares. Os estudantes aprenderiam sobre literatura, história do Brasil, geografia e herança africana, traçariam paralelos entre situações do livro e as lutas atuais contra o racismo, entenderiam mais sobre a formação da identidade brasileira e afro-brasileira. reconheceriam o protagonismo negro na nossa história.

Para as meninas, principalmente aquelas de periferia, pretas, pobres e que ainda enfrentam muitas das violências vividas por suas antepassadas, Kehinde/Luíza Mahin é uma fonte de autoafirmação e inspiração para levar para a vida.

O exemplar que eu li

É do acervo de minha irmã, uma bibliófila e curadora de leituras como poucas. Comecei a ler em 2020, parei por alguns meses por diversos motivos, entre eles o desejo de que a história não acabasse e a angústia que alguns dos sofrimentos de Kehinde/Luiza me causavam (2020 não foi um ano fácil para quase ninguém). No começo de 2021, retomei, disposta a concluir e já sabendo que essa leitura precisaria ser compartilhada…

Ficha Técnica:
Um defeito de cor
Autora: Ana Maria Gonçalves
Editora Record
952 páginas
*R$ 59,99
*Pesquisa na Amazon em 16/05/2021
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Fiz as pazes com Eça de Queiroz…

…com quem briguei aos 14 anos, depois de abandonar – 50 páginas depois de ter começado – O Primo Basílio. Larguei o livro, que considerei chatíssimo, para nunca mais voltar, disse eu na ocasião, do alto de minha adolescência de traça de biblioteca. Ainda não tive coragem de tentar de novo. Até o armistício decretado graças a outra história do autor, vivi em grande birra com Eça de Queiroz por exatos 33 anos.

Ele era, até poucos dias atrás, o único autor que desprezei em minha longa carreira de ‘leitora profissional’ (um amigo escritor me deu esse apelido dia desses), começada por volta dos meus 8/10 anos com uma coleção de contos de fadas comprada à prestação por minha mãe.

Eça de Queiroz nasceu em 1845 em Póvoa de Varzim, Portugal
(Foto: Fundação Eça de Queirós/Acervo/Divulgação)

O Primo Basílio ostenta o desonroso posto de ser o único livro que eu abandonei na vida, das centenas que já li desde menina. Milhares de vezes eu pensei em reparar essa mácula na minha trajetória de devoradora de histórias, mas só de pensar no livro ainda sinto enjoo.

Fiz as pazes com Eça a partir de uma obra menos badalada do escritor português. E o fato dele ser português e eu amar vários autores conterrâneos seus – José Saramago reinando sobre todos – me deixava tristíssima. Eu queria tanto completar minha coleção de amares lusos com Eça, mas o trauma de O Primo Basílio não me deixava enamorar dele…

Em vez de começar minha redenção por Os Maias, A Cidade e as Serras, A Ilustre Casa de Ramires ou mesmo O Crime do Padre Amaro (todos esses já entraram na minha lista de leituras futuras), escolhi iniciar minha introdução tardia ao universo queirosiano por A capital, romance que é considerado o mais autobiográfico do escritor, com um protagonista que assume papel de seu alter-ego.

A capital conta a história de Artur Corvelo, um jovem poeta aspirante ao estrelato que vive com as tias em uma província no interior de Portugal, mas anseia morar em Lisboa, onde acredita que seu gênio irá conquistar os salões aristocráticos e lhe garantir fama, fortuna e uma boa posição social.

A obra começou a ser escrita em 1877, mas só foi publicada em 1925, mais de 20 anos depois da morte de Eça de Queiroz, com a supervisão do filho do autor. Através da história da busca de Artur por ascensão às classes mais abastadas e por reconhecimento intelectual, o escritor faz várias críticas à sociedade lisboeta.

Artur, como um patinho feio, luta para encontrar seu lugar no mundo, mas imbuído de muita ingenuidade e romantismo, sofre incontáveis decepções no processo. É uma jornada do herói bem às avessas essa do rapaz.

Ainda não terminei a leitura, mas fiquei tão empolgada com o sarcasmo e o humor auto-depreciativo do texto que resolvi antecipar o anúncio de que agora já posso morrer em paz porque não estou mais ‘de mal’ com Eça de Queiroz. Muito pelo contrário, prevejo que nós dois vamos nos tornar bons amigos daqui para a frente, assim me acenam os deuses da literatura.

Eça compôs Artur Corvelo com traços autobiográficos
(Foto: Fundação Eça de Queiroz/Acervo/Divulgação)

Por que a cisma com O Primo Basílio?

A cisma com O Primo Basílio não tem relação com a minha pouca idade quando resolvi encarar a leitura daquele livro que minha mãe trouxe para casa emprestado de uma colega do seu trabalho.

Aos 14 anos, em 1988, eu já era leitora assídua de Machado de Assis, de José de Alencar, de Camilo Castelo Branco, de Jorge Amado, de Rachel de Queiroz e de vários outros autores nacionais e dos poucos estrangeiros que chegavam à minha casa graças aos empréstimos e às compras de minha mãe em livreiros que vendiam de porta em porta, com pagamento via carnê. Ainda lembro da minha avó pagando ao ‘moço dos livros’ nas datas acertadas com a minha mãe. Ele assinava o canhoto do carnê referente à prestação daquele mês e destacava para ela guardar.

As coleções baratinhas de banca de revista também apareciam muito lá em casa, foi nelas que, também na adolescência, conheci William Shakespeare, Alexandre Dumas e Edgar Alan Poe, meu amado imortal sombrio.

Já tinha lido A cor púrpura, de Alice Walker, que peguei emprestado de uma tia e nunca mais devolvi, e Negras Raízes, de Alex Haley, cuja série de TV inspirada na obra havia passado na TV aberta brasileira nos anos 1980 e que eu, minha mãe e minha irmã íamos dormir de madrugada assistindo.

Definitivamente, minha cisma com Eça não era falta de maturidade literária, porque fui uma traça precoce, principalmente considerando minha origem familiar modesta, uma vida de orçamento sempre apertado, mas com uma mãe que mesmo com pouco estudo, tratava livro feito pão.

A questão também não era ser uma obra clássica. Machado de Assis e José de Alencar são autores clássicos e embora eu não seja uma grande fã de Alencar, nunca abandonei nenhum dos seus livros. De todas as obras dele, inclusive, gosto bastante de Senhora, com sua protagonista bem à frente do tempo em que a história foi escrita. Já falei de Aurélia aqui no blog.

Acredito que minha birra com O Primo Basílio tenha uma explicação bem mais simples e na esfera do gosto mesmo. A história dos amores clandestinos de Luisa e seu casamento morno com Jorge não me agradou, não me convenceu, não me arrebatou e o autor ganhou essa fama de chato que durou 33 anos, injustamente, coitado.

A questão também não era o adultério, eu li Madame Bovary adolescente e achei a história de Gustave Flaubert muito boa. Já adulta, em 2001, fiz uma reportagem especial sobre o adultério na literatura (aqui nesse post fiz uma espécie de resumo misturado com making off). Essa é uma das matérias que mais gostei de escrever e que me legou vários aprendizados.

Escrever sobre o adultério na literatura também deu início a uma das minhas obsessões de estudo: o lugar da mulher na sociedade, como foi vista ao longo do tempo, como a representaram, no que isso a prejudica até hoje. Fiz outra sobre a mulher na música, que em 2010 me inspirou a escrever um artigo acadêmico sobre a mulher nas letras de Noel Rosa.

Compondo essa longa reminiscência para selar minha paz com Eça de Queiroz, percebo agora que talvez, naquela época, quando eu ainda tinha tanta estrada para percorrer nos aprendizados e na construção de ser e estar mulher em um mundo ainda feito por e para os homens, Luísa me incomodou e entristeceu. Talvez algum dia, eu segure a mão dela de novo. Ou talvez não, acho que Eça pode me perdoar. Eu me perdoei…

É Queiroz ou Queirós?

Fiquei com essa dúvida porque pesquisando sobre as obras do autor e sobre a vida dele, me deparei com as duas grafias de seu nome. Descobri que outras pessoas também têm dúvidas e que o assunto é até tema de debate entre os estudiosos da sua vasta produção literária. Aqui nesse artigo da Academia das Ciências de Lisboa, tem algumas explicações.

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Dica de série: The Good Lord Bird

The Good Lord Bird, produção de 2020 do canal Showtime, já está acessível no Brasil pelo streaming Paramount+. Também dá para assistir pelo Amazon Prime, para quem tem o pacote que inclui o Paramount+.

Protagonizada pelo estreante – e muito talentoso – Joshua Caleb Johnson, de 15 anos, e pelo veterano Ethan Hawke, 50, em uma atuação arrebatadora, The Good Lord Bird tem formato de minissérie e se desenrola em sete episódios de 45 a 50 minutos.

Conta a história do controverso abolicionista norte-americano John Brown, que defendia o uso da violência contra os escravagistas e por conta disso, dividia opiniões até entre integrantes do movimento abolicionista norte-americano.

Cristão que beirava o fanatismo e de personalidade difícil e truculenta, John Brown, segundo registra a historiografia, invadiu o arsenal federal americano em Harpers Ferry, em 1859. Preso, julgado e condenado a morrer na forca; enquanto esperava a sentença, escreveu cartas inspiradas contra o regime escravocrata, que eram publicadas na imprensa por seus amigos Henry David Thoreau (autor de Walden – A vida nos bosques) e Ralph Waldo Emerson, poeta, escritor e ensaísta.

Joshua Caleb Johnson (Onion) e John Brown (Ethan Hawke)
Foto: Divulgação/Showtime

Os atos realizados por Brown teriam sido o estopim da Guerra de Secessão (1861-1865), a guerra civil entre o norte e o sul dos Estados Unidos, que começou dois anos depois de sua morte. Após a guerra, a escravidão foi abolida no país, embora a luta dos afro-americanos por direitos civis e contra o racismo estivesse só no começo.

Apesar de contar a história de um personagem branco, The Good Lord Bird é narrada a partir do ponto de vista de um adolescente negro. As peripécias de John Brown são apresentadas por Onion (Cebola/Henry), o personagem de Joshua Caleb Johnson.

A produção une drama e comédia para falar de um tema bastante tenso e que ainda sangra bastante no país. E para criticar o racismo e o conservadorismo que perduram em parte dos EUA nos dias de hoje, vide o caso George Floyd.

Com narrativa ágil, fotografia belíssima, diálogos afiados e personagens carismáticos, é uma aula de história envelopada em entretenimento de qualidade. A visão de Onion sobre Brown e sobre a sociedade de seu tempo é pontuada por lirismo e sarcasmo combinados na medida exata, o que permite à série ser didática e divertida, fazer pensar e rir. É ótima fonte para entender o contexto da formação cultural norte-americana.

Frederick Douglas (Daveed Diggs)
Foto: Divulgação/Showtime

O roteiro é uma cocriação do próprio Ethan Hawke com o produtor Mark Richard, os produtores dos geniais e necessários Corra (Jordan Peele, 2017) e Infiltrado na Klan (Spike Lee, 2018) e mais quatro roteiristas. Eles se inspiraram no livro homônimo The Good Lord Bird (O pássaro do bom Senhor), publicado em 2013 por James McBride, e que resgata a figura de John Brown. O livro ganhou o National Book Award, maior prêmio literário dos EUA, no ano de lançamento.

Por aqui, foi publicado em 2015 pela Bertrand do Brasil (está custando R$ 26,00 no site da Amazon, com frete grátis para os assinantes do Prime, pesquisado em 02/03/21).

Esquecido ou mal interpretado pela história oficial, John Brown, para os conservadores americanos, é visto como um terrorista. E para os progressistas, é uma espécie de herói. A série apresenta o personagem favorecendo o seu lado mais excêntrico, violento e idealista.

Além dele, outros personagens históricos aparecem na produção, como o ex-escravizado Frederick Douglas (vivido pelo ator Daveed Diggs), que se tornou estadista, abolicionista e escritor, sendo ainda uma importante liderança na luta pela emancipação; e Harriet Tubman (Zainan Jah), ex-escravizada que atuava libertando outros cativos.

Tubman, a quem Brown e outros militantes abolicionistas chamavam de ‘General’, fazia parte de uma rede que articulava a libertação de escravizados das fazendas do sul dos EUA e os transportava clandestinamente por uma ferrovia subterrânea até o norte do país.

Quem quiser saber mais sobre ela pode assistir ao filme da diretora Kasi Lemmons, Harriet, de 2019, que está no catálogo do Telecine Play. É um bom complemento à série sobre John Brown e tem a mesma narrativa ágil e que combina drama e aventura.

Veja o trailer de The Good Lord Bird:

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USP cria site sobre os 100 anos de Narizinho

Capa de uma das primeiras edições de A menina do Narizinho Arrebitado
(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo (USP) criou um site com exposição virtual sobre os 100 anos do lançamento do livro A menina do Narizinho Arrebitado, de Monteiro Lobato.

O site, que está na rede desde sexta-feira, 22 de abril, reúne coletânea de fotografias e artigos sobre esse e outros livros do autor.

O interessante na exposição, que pode ser visitada em: ameninacentenaria.bbm.usp.br, é que além de falar do criador de Narizinho e do Sítio do Pica-pau Amarelo, há artigos sobre a literatura e o hábito de leitura no Brasil de 1921, a recepção de leitores e educadores à obra de Lobato ao longo do tempo, os ilustradores que desenharam para seus livros e, o mais importante, o racismo presente nas obras dele. Sim, porque não tem como estudá-lo nos dias atuais sem cutucar essa ferida.

O artigo sobre o racismo na literatura infantil de Monteiro Lobato é assinado por Cilza Bignotto, que faz um apanhado do contexto social da época em que ele viveu e escreveu, trazendo ainda diversos outros livros infantis daquele período que, quando não invisibilizavam totalmente a população negra e afrodescendente brasileira do começo do século XX, tratava os poucos personagens negros existentes nas obras de então sempre de forma bastante negativa e/ou subserviente.

Nos últimos anos, muito se discute se Monteiro Lobato ainda deve figurar nos catálogos infantis e as opiniões sobre se o autor deve ou não ser ‘cancelado’ ainda se dividem e rendem debate.

Pessoalmente, acredito que Monteiro Lobato não deve mais ser lido por crianças, principalmente pequenas, mas defendo que é preciso estudá-lo na universidade e não só nos institutos de letras, mas nos de história também.

A história social brasileira do começo do século XX, do pós-abolição, da primeira república, está muito presente não só na literatura infantil e adulta produzida por Monteiro Lobato, como também por outros autores anteriores e contemporâneos a ele. E é necessário e urgente que o Brasil olhe sua própria história com consciência crítica e honestidade. O povo brasileiro teve uma formação bastante tumultuada, violenta e marcada pela miscigenação e pelo racismo, que ainda hoje permeia as relações sociais e econômicas no país. Não se pode mais fingir que nossa construção enquanto nação foi uma ‘harmoniosa união de três raças’, com o branco colonizador salvando as almas de indígenas e negros africanos, como diziam aqueles livros de História do Brasil de antigamente…

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Rocco vai publicar no Brasil livro sobre a pandemia editado por Margaret Atwood

Margaret Atwood é escritora, ensaísta e crítica literária
(Foto: Mary Catalfamo/Divulgação)

Fourteen days: an unauthorized gathering (Quatorze dias: uma reunião não autorizada, na tradução do inglês), livro que será editado por Margaret Atwood (O Conto da Aia, Alias Grace, Trilogia Maddaddão), teve os direitos de publicação no Brasil adquiridos pela editora Rocco.

A obra, prevista para 2022, com lançamento simultâneo no Brasil e nos Estados Unidos, terá a colaboração de autores como John Grisham, Emma Donnoghue, Tess Gerritse e Dave Eggers.

A história, ambientada nos primeiros dias da pandemia da covid-19, acontece no telhado de um prédio no Lower East Side, em Nova York, onde os inquilinos se reúnem para tomar ar fresco e contar suas histórias de vida.

A ideia é que cada personagem seja escrito por um autor diferente e o leitor só deverá descobrir no final do livro o dono de cada texto.

Fonte das informações: Publishnews

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Resenha: Falsos Segredos

Alice Munro fará 90 anos em 2021 (Foto: Divulgação/Biblioteca Azul)

Alice Munro escreve como quem acolhe uma amiga com uma xícara de café quente. Falsos Segredos, uma das coletâneas de contos da autora, reúne oito histórias que lembram o aconchego daquela irmã que oferece o ombro para chorarmos as mágoas, mas que não deixa de nos dizer certas verdades que precisamos ouvir.

Todas as histórias são ambientadas em Carstairs, no Canadá, o país de origem da autora que venceu o Nobel de Literatura em 2013, aos 82 anos, e é considerada uma das mais importantes escritoras de língua inglesa na atualidade.

Munro também é tida como uma das principais contistas da literatura contemporânea, com suas histórias que subvertem alguns dos elementos desse estilo narrativo. Os contos dela também podem ser lidos como mini romances.

As histórias de Falsos Segredos são ambientadas em diferentes períodos, como o final do século XIX e a primeira metade do século XX, entre as duas grandes guerras, e focam na vida cotidiana e provinciana de uma cidade do interior.

A partir das protagonistas – as oito histórias tratam da vida de mulheres de diversas classes sociais, graus de instrução e realidades sociais dentro desse microcosmo interiorano – a autora tece pequenos dramas domésticos pontuados por silêncio e muita solidão, mas também por toda a confusão das relações humanas e seus preconceitos limitadores.

Falsos Segredos me lembrou o filme Ao Entardecer (2008, Lajos Koltai), inspirado em romance homônimo da também norte-americana Susan Minot, que tem essa mesma atmosfera de confidências, intimidade e melancolia que as mulheres bem conhecem.

O exemplar que eu li:

Falsos Segredos foi minha primeira leitura de Alice Munro, autora que eu conhecia mais pelas fantásticas adaptações de alguns de seus contos para o cinema e a TV, como Julieta (2016, Pedro Almodóvar), Amores inversos (2013, Liza Johnson) e Longe Dela (2006, Sarah Polley). Li em versão e-book. Foi o livro que recebi em fevereiro pelo serviço Skeelo, uma espécie de streaming de livros.

Quem é:

Alice Munro fará 90 anos agora em 2021, em 10 de julho. Ela nasceu em Ontário, no Canadá. A carreira de escritora deslanchou em 1976, mas ela começou a escrever em 1950, inicialmente crônicas, e depois os contos no estilo único que a consagrou. Além do Nobel, também já venceu diversos prêmios no país de origem e nos Estados Unidos.

Ficha Técnica:

Falsos Segredos

Alice Munro

Tradução: Celina Portocarrero

Editora: Biblioteca Azul

320 páginas

*R$ 29,95 (capa comum) e R$ 34,14 (e-book)

*Pesquisa no site da Amazon em 24/02/21

**Disponível também para assinantes do Skeelo. O serviço oferece um e-book por mês

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Resenha: Quando eu partí

As donas de casa dos anos 1950 sofriam as mesmas pressões vividas pela protagonista de Gayle Forman. A diferença é que elas não falavam sobre o assunto e nem trabalhavam fora, mas tinham jornadas igualmente extenuantes (Foto: Getty Images)

Uma mulher de 44 anos, editora de uma revista de celebridades, mãe de gêmeos, casada, que sofre um infarto sem perceber. Esse é o mote do romance Quando eu partí, da escritora Gayle Forman.

Narrando a história da protagonista Marybeth Klein, a autora traça um fiel panorama da vida de boa parte das mulheres da atualidade e suas triplas jornadas que envolvem empregos desgastantes, tarefas domésticas exaustivas, cuidados com as crianças – para as que são mães – ou com os entes mais idosos da família; e, no caso daquelas que são casadas com homens cis, hetero e padrão, a falta de apoio dos maridos omissos e machistas, que ainda acreditam que os cuidados da casa e com as crias são prerrogativas exclusivas de mulheres.

O romance de Gayle Forman é bem pé no chão. A autora, como ela mesma afirma nos agradecimentos e dá para perceber na leitura, fez muita pesquisa sobre o que os médicos chamam de ‘infarto branco’, esse que é quase imperceptível e que tem sintomas que são, muitas vezes, confundidos com mal-estar gástrico ou mesmo com crises de estresse.

Aspectos nada glamourosos da maternidade são abordados neste livro que narra a jornada de uma mulher doente em busca de se curar e se tornar uma pessoa melhor para si mesma, os filhos e as demais pessoas com quem ela se relaciona. A culpa eterna que aquelas que se tornam mães carregam e a apreensão constante de que cada decisão em relação às crianças está sob constante julgamento, são abordadas de maneira crítica, delicada e solidária.

As mulheres sempre tiveram a fama de cuidar da própria saúde melhor que os homens, que por conta dos tabus, ainda relutam, por exemplo, em fazer exames invasivos, como o de próstata. Mas elas, cada vez mais, sufocam em incontáveis obrigações e o resultado é que muitas vezes se preocupam com a saúde e o bem estar da família inteira e negligenciam a própria. Nesse caso, a narrativa hiperrealista de Gayle Forman serve de alerta para todas nós, que passamos por cima de nossos cansaços, flertamos com a Síndrome de Bournout e mantemos um ritmo humanamente impossível de sustentar por longos períodos.

A autora, nesse caso, não deixa também de abordar o quanto as mulheres, até por já não terem mais paciência ou a ilusão de esperar que mais alguém carregue o piano junto com elas, em parceria e não apenas como ajudantes, de tanto administrarem a carga mental – mesmo quando alguém ajuda são elas que têm de determinar quais são as tarefas e o papel de cada um – se tornam obsessivas, perfeccionistas ao extremo e, de certa forma, desenvolvem aquele complexo de mártir e super-heroína. ‘Pode deixar que eu faço’, ‘Eu me viro’, ‘Não preciso de ajuda, estou bem’, quando na verdade elas não estão nada bem.

A maior parte do livro transcorre em tom agridoce e é focado em Marybeth e na sua trajetória. Após infartar, ela começa a rever a própria vida e a narrativa mescla flashbacks da juventude da protagonista com as ocorrências mais recentes que a levaram ao ataque cardíaco e a tudo o que ela faz depois do infarto.

Óbvio que a personagem de Gayle Forman é uma norte-americana, que vive em um loft em um endereço chique de Nova York com a família e que tem uma conta poupança de onde pode sacar 25 mil dólares para financiar sua fuga autocurativa. Na vida real, milhares de mulheres que sofrem as mesmas pressões que a protagonista de Quando eu partí não podem se dar a esse luxo. 

No entanto, apesar da disparidade de cultura, etnia, nacionalidade e classe social entre a personagem deste livro e muitas das leitoras de Forman, o que a autora aborda são os sentimentos universais. As queixas de Marybeth Klein são mais frequentes na vida da maioria das mulheres do planeta do que se imagina.

Pelos olhos de Marybeth, vemos o comportamento de outras pessoas, como o marido, os gêmeos, os outros pais e mães da escolinha, os pais adotivos da protagonista e sua busca pela mãe biológica, que ela nunca conheceu. Esses personagens que gravitam em torno da protagonista também são muito reais, com atitudes típicas em diversas pessoas que conhecemos na vida fora dos livros. A autora é atenta ao seu tempo e é sensível às contradições humanas.

Há também subtramas interessantes, como a do novo cardiologista que a protagonista contrata para cuidar de seu combalido coração, no sentido literal e figurado. Não falta, ainda, um certo alívio cômico nos dois vizinhos universitários e vinte anos mais jovens que se transformam em seus melhores amigos. E, para coroar a história, paira sobre Marybeth a sombra daquela amiga íntima que com o tempo se distanciou.

Quando eu partí é um romance adulto no sentido de maturidade, que aborda questões que são mais caras às mulheres de meia idade, mas que também pode agradar às mais jovens. Elas certamente poderão identificar aspectos das próprias mães em Marybeth e assim, quem sabe, aprenderem a lidar melhor com elas e consigo mesmas, enquanto filhas adolescentes ou jovens adultas, de mulheres sobrecarregadas e à beira de um colapso. 

Livro foi publicado no Brasil em 2016

Recomendo a leitura também para os homens, que como Jason, o marido de Marybeth, ainda estão em lento processo de desconstrução dos padrões machistas que azedam as relações e perpetuam tantas injustiças e opressões no mundo. Gayle Forman não transforma esse marido em um opressor sem sentimentos, mas aponta de forma precisa onde estão os erros da educação que os meninos receberam no passado e ainda recebem e que os faz reproduzir padrões que também os aprisionam em modelos de masculinidade tóxica.

O livro não é panfletário, mas é consciente e bastante conectado ao espírito dos tempos atuais. A história é bem amarrada, tem um ritmo que prende a atenção – as cartas que Marybeth escreve para os filhos em seu autoexílio e a amizade que ela desenvolve com Janine, a chefe de um serviço que ajuda crianças adotadas a encontrarem suas origens, são os momentos mais ternos e delicados de todo o romance. Forman faz também aquelas concessões bonitinhas de citar elementos da cultura pop que provocam uma nostalgia gostosa. 

Particularmente, me lembrou uma velha amizade, que repetia exaustivamente para uma versão vinte anos mais jovem de mim: “Para ser uma mãe feliz é preciso que você seja, primeiro, uma mulher feliz”. 

O exemplar que eu li:

Nunca tinha lido nada de Gayle Forman, mas sabia que ela era a autora de Se eu ficar, que foi adaptado para um filme dramático de 2014, protagonizado por Chloë Grace Moretz. Marquei o filme para assistir em um serviço de streaming recentemente (Tem no Telecine Play e no Amazon Prime). Ando esgotada, como boa parte das pessoas nessa pandemia e minha irmã me enviou uma reportagem, dia desses, falando sobre a Síndrome de Bournout. Por coincidência, se é que coincidências existem, fui futucar o Skeelo para escolher um e-book, uma leitura para antes de dormir, quando a adrenalina do trabalho no fechamento de um jornal diário, me deixa ligada na tomada por mais horas do que o recomendado para uma noite de sono saudável. Escolhi Quando eu partí por acaso, sem nenhuma referência prévia fora o nome da autora e, logo nas primeiras linhas, percebi que o universo andava me mandando recados para cuidar do coração…

Ficha Técnica:

Quando eu partí

Autora: Gayle Forman

Tradução: Ryta Vinagre

Editora: Record

308 páginas

Ano de lançamento: 2016

*R$ 17,90 (capa comum)

*Pesquisa na Amazon, em 06/02/2021

**Disponível para assinantes do serviço Amazon Kindle Unlimited e também no catálogo do serviço de e-books Skeelo.

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Prêmio Sesc de Literatura 2021 abre inscrições

O Prêmio Sesc de Literatura já está com inscrições abertas para a edição de 2021. Considerado um dos principais do país em revelar autores, o prêmio abre espaço para obras ainda não publicadas. As categorias são Romance e Conto.

Autores e autoras com interesse em participar podem se inscrever, de forma gratuita, até o dia 19 de fevereiro, no site do concurso, onde também dá para ler todo o regulamento.

Os vencedores serão publicados e distribuídos pela editora Record, com tiragem inicial de dois mil exemplares. Criado em 2003, o Prêmio Sesc de Literatura já teve mais de 16 mil obras inscritas e 31 novos autores revelados.

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Resenha: Jane Eyre

Meu exemplar de Jane Eyre, presente de um amigo

Vivesse nos dias de hoje, Jane Eyre seria uma dessas meninas ‘amaldiçoadas’ com um ‘dedo podre’ para escolher namorados. Mas, a realidade é que embora seus interesses amorosos tenham vivido em meados do século XIX, encontrariam facilmente homônimos quase 200 anos depois. O patrão Sr. Rochester e o primo religioso fanático St. John ganham com facilidade o título de ‘embustes’. Se fosse uma mocinha do século XXI, Jane talvez optasse por cuidar de si mesma. Uma jovem solteira, bem resolvida, que não trocaria a própria liberdade por relacionamentos tóxicos. A questão é que ela é uma heroína de 1847 e o casamento, naquela época, ainda era uma das poucas possibilidades de realização feminina.

O Sr. Rochester, 20 anos mais velho que a protagonista, é o machista dissimulado e manipulador, que disfarça autoritarismo em atos de cavalheirismo; ao mesmo tempo em que subestima a mulher que diz admirar. Ele idealiza um idílio romântico que o redima de erros cometidos no passado, não busca uma companheira, mas alguém que o salve, o perdoe pelos passos em falso. Se revolta e mostra toda a dureza de sua personalidade quando a escolhida se recusa ao papel. 

Rochester é o tipo de homem que pressiona uma mulher até enlouquecê-la só para depois ter de quem reclamar, justificando assim sua tirania. É capaz de se casar com alguém que ele considera inferior e ainda atribui a essa desafortunada todos ‘os vícios e pecados das filhas de Eva’. Em resumo, é misógino e anseia pela mulher idealizada conforme seus preconceitos, não sabendo lidar com uma esposa de carne e osso que não corresponda às expectativas, a não ser tomando as ‘medidas corretivas’ que os homens de seu tempo julgavam a mais adequada: confinar ‘a louca’ para o resto da vida, embrutece-la e aliená-la de si mesma e do mundo trancada em um quarto minúsculo de sua mansão.

As mulheres, ele deveria saber, não são clínicas de reabilitação. Com um passado sombrio atrás de si, ele quer uma segunda chance a qual não merece. Se encanta por Jane Eyre, mas antes de enxergá-la como uma pessoa autônoma, com ideias, inteligência e vontade próprias, tratando-a com igualdade e respeito – que é o que ela deseja -, ele a vê como uma ave rara e frágil, confunde a compleição mignon da moça com fraqueza de espírito. 

A sensação que eu tenho é que Rochester vê em Jane a antítese das outras mulheres com quem se envolveu porque ele morre de medo de encontrar alguém que o desafie de verdade. Ele acredita, em seu delírio romântico de adolescente tardio, que é o protetor de Jane, quando na verdade abusa de algumas das vulnerabilidades da garota, principalmente da econômica no começo do envolvimento dos dois. Os embates intelectuais entre eles são uma concessão que o senhor faz para divertir-se com a criada e para se sobressair. É por vaidade que ele desafia Jane a enfrentá-lo intelectualmente, não porque deseje de fato compartilhar com ela a experiência de seus vinte anos a mais de vida. Qualquer semelhança com os machistas contemporâneos não é mera coincidência.

Mesmo depois que sofre revezes do destino e passa a se comportar de maneira mais dócil e, aparentemente submissa, em suas lamúrias, o Sr. Rochester ainda transparece o antigo desejo de aprisionar Jane. Ela alcança a tão sonhada independência econômica – depender financeiramente dos maridos era um fator que inferiorizava as mulheres em 1847 e que ainda mantém muitas reféns de relações abusivas nos dias atuais -, mas infelizmente, ainda é presa à dependência emocional. O que ele chama de amor não engana ao olhar mais atento, pois é revestido por camadas nem sempre sutis de chantagem e manipulação. Ciumento, passional, orgulhoso, mesmo que fragilizado, ele ainda se esforça para controlar a protagonista. E faz isso dando a ela a ilusão de que está no comando de si mesma e do relacionamento dos dois.

St. John, um primo que a nossa heroína só encontra depois de adulta, é mais jovem que Rochester na idade, mas age de maneira ainda mais arcaica. Clérigo da igreja anglicana, ele tem uma personalidade fria, ‘uma face de mármore’, como a prima o descreve. O que ele quer é alguém para moldar e transformar no ideal de criatura abnegada e pia que ele – imbuído de milhares de preconceitos de gênero – acredita que ‘toda mulher cristã’ deve ser. A descrição desse personagem dá arrepios. Ele é sádico, masoquista, tirânico, o típico ‘homem de Deus’ que usa a religião e a fé para atormentar, ameaçar e inferiorizar as pessoas. Ainda assim, Jane vê bondade nele e vê sentimentos nobres onde só existe mesquinharia.

St. John, como muitos missionários do século XIX, anseia em ir para o Oriente e para a África ‘converter os infiéis’ e ‘civilizar os bárbaros’. Ele se sente o carregador mais diligente do ‘fardo do homem branco’. Convencido de ser superior por ser europeu e cristão, é por essa régua que ele mede o mundo e as outras pessoas, incluindo a prima. Oferece sua mão à Jane como se fosse um favor que faz a ela, como se a salvação da jovem dependesse do seu ato de benevolência e assim, a menospreza. 

Desejo de liberdade, mas nem tanto

Jane Eyre é órfã e foi criada por uma tia que não gosta dela e que a envia para um colégio interno dirigido por outro clérigo despótico e corrupto. Ela tem as sementes de uma natureza libertária, um desejo de independência e uma mente afiada. Atenta à realidade ao seu redor, questiona as injustiças, se ressente do lugar irrelevante ocupado pelas mulheres, se magoa pela falta de cumplicidade do seu próprio gênero. Ainda assim, é moldada pelo seu tempo e carrega muitos dos preconceitos aristocráticos. Embora vivendo de favor na casa da tia após perder os pais ainda muito pequena, pertence a esse mundo da nobreza indolente e de nariz empinado de uma Grã-Bretanha ainda muito rural e puritana. 

Por ter uma enorme carência afetiva, com frequência, cai na tentação de ceder ao domínio de Rochester ou de St. John. Ainda tenho minhas dúvidas se de fato ela não faz sacrifícios demais, típicos das mulheres de gerações anteriores, mas que ainda encontram eco em muitas na atualidade. Infelizmente, em certos momentos, ela se presta ao papel de grande salvadora, de bálsamo curativo e da abnegada amante que aceita conviver com os defeitos irreconciliáveis de seu atormentado amado em nome de preservar o orgulho masculino ferido e de colar os caquinhos de uma virilidade nefasta.

A protagonista do romance homônimo de Charlotte Brönte é muito jovem, passa por muitas adversidades, precisa começar a se defender desde muito criança das vilanias da vida; e, por isso, ainda tateia para firmar a própria identidade, daí ser compreensível esses escorregões e essa necessidade de apoiar-se em figuras masculinas persuasivas, arrogantes e de ares nobres; embora, pessoalmente, eu acredite que pelo filtro inexperiente de Jane, a crença na nobreza dos seus pretendentes é uma ilusão. 

Não dá para definir a heroína de Charlotte Brontë como uma moça feminista na acepção contemporânea da palavra, embora ela seja uma exceção à maioria das heroínas dos romances ambientados na mesma época. A luta histórica das mulheres por respeito, segurança e pelo reconhecimento da igualdade de direitos ainda era muito pontual nos tempos de Charlotte, mas a autora é pioneira junto com outras escritoras, em abordar temas que poucas mulheres de carne e osso que viveram nos anos 1800 podiam questionar.

Jane é capaz de perceber que existe alguma coisa muito errada em um mundo onde metade da população é oprimida pela outra metade e que essa opressão tem legitimidade na religião cristã e em dogmas que afirmam que Eva seria inferior e submissa ao companheiro Adão. Mas, como foi criada dentro de preceitos cristãos, a jovem não deixa de seguir normas e códigos morais, religiosos e sociais que a condenam por seu gênero. 

Charlotte Brontë era a filha de um clérigo e também, mais tarde, casada com um homem da religião. Em seu romance, que possui aspectos autobiográficos e as inquietações que a atormentavam enquanto mulher em um mundo de homens, a atmosfera meio carola é inevitável. Os diálogos criados pela autora são maravilhosos, mas todos sublinhados por referências bíblicas e metáforas religiosas, embora também marcados por citações de filósofos e escritores, demonstrando sua erudição. 

Como Jane não tem mãe e não encontra muitas outras mulheres que funcionem como suas mentoras – na escola tem a Srta. Temple, que é quem melhor cumpre o ancestral papel da mulher mais velha que é o espelho e a primeira orientação da menina -; e como o mundo e o tempo em que ela vive é moldado pela ação masculina, com as mulheres ocupando posições subalternas de governantas, empregadas e camponesas; ou de cobiçadas beldades – e viver da beleza para adquirir status também é submissão -, a jornada dessa heroína oitocentista é árdua, desafiadora e solitária. Também entrecruzada pelos perigos que assombram as mulheres há séculos, com as violências física, sexual e psicológica entre os principais riscos.

Romance, tragédia e atmosfera sombria

As concessões que Charlotte Brontë faz à eterna busca por amor de sua personagem, com doses generosas de sofrimento no processo, fazem parte do espírito da época em que Jane Eyre foi publicado pela primeira vez. A rainha Vitória governava há 10 anos quando o livro chegou ao mercado, inicialmente assinado por Currer Bell, pseudônimo de gênero indefinido que a autora adotou para disfarçar o fato de ser uma mulher, justamente porque as editoras não valorizavam obras escritas por mulheres. O romantismo enquanto gênero literário também era criação dos primeiros anos do século XIX. Logo, essa atmosfera da era vitoriana, com sua carga romântica e depressiva temperada pelo gótico, perpassam todo o livro, que é opressivo e, ao mesmo tempo, extremamente lírico.

Sem precisar apelar para muitos eventos sobrenaturais, outra das paixões do romantismo enquanto expressão artística, Charlotte Brontë, ainda assim, descreve cenários e situações de gelar o sangue em Jane Eyre. Mas, nem tanto como sua irmã Emilly Brontë, a autora do magistral e soturno O morro dos ventos uivantes, história sobre um relacionamento tóxico e abusivo com um esperado desfecho trágico. O fato das duas irmãs terem escrito sobre os abusos sofridos pelas mulheres de seu tempo só demonstra o quanto elas estavam atentas à realidade que as cercava. Além disso, a própria trajetória da família Brontë, onde as tragédias se sucederam com o passar dos anos, é material farto para suas histórias inquietantes.

Infelizmente, no tempo das irmãs Brontë, as relações doentias eram confundidas com uma espécie de amor desesperado. Aos olhos de hoje, suas histórias, de certa forma, por mais que fossem pioneiras em retratar um lado mais perverso das relações de gênero, por exemplo, do que as que aparecem nos romances de Jane Austen; ainda assim, ao mesmo tempo que denunciam, também romantizam abusos sistemáticos que os homens praticavam – e ainda praticam – contra as mulheres.

Por tudo isso, se me perguntarem, direi que Jane Eyre é um livro que merece ser lido, por sua importância para a literatura, pelos muitos insights visionários de sua autora, pela qualidade da narrativa, que é primorosa e cativante, prendendo a atenção do início ao fim; mas que também tem de ser discutido. O livro tem as qualidades imortais de um clássico e estimula muita reflexão. Mas, mesmo lido dentro do contexto de seu tempo, é preciso que seja analisado de forma crítica. Não dá para ‘passar pano’ para Rochester ou St. John, porque ignorar o que esses homens são capazes de fazer está no cerne do machismo que ainda perdura. Também não dá para olhar para a jovem e destemida Jane sem lamentar muitas de suas atitudes, mesmo ela sendo uma heroína apaixonante.

Uma das ilustrações da edição da Zahar de Jane Eyre

Minha edição

A edição de Jane Eyre que eu li foi um presente que recebi em 2019 de um amigo jornalista como eu e tão apaixonado por livros quanto… É da coleção Clássicos Zahar. Extremamente bem feita, em capa dura, bem revisada e editada com esmero, essa versão – que respeita o texto original na íntegra – foi lançada em 2018. Tem ilustrações fascinantes, notas de rodapé que facilitam a contextualização, assinadas por Bruno Gambarotto, e também um artigo de apresentação da escritora e roteirista Antonia Pellegrino. Essa introdução, que entre outras coisas lista as adaptações cinematográficas mais importantes do livro, já cria todo um clima de fascínio para o leitor se jogar nas mais de 500 páginas do romance. Como extras, a edição traz ainda o prefácio escrito por Charlotte Brontë para a segunda edição do livro – onde ela, além de agradecer aos seus editores, aos leitores e a parte da imprensa, também destila mágoa contra as críticas preconceituosas feitas à sua história e aos personagens -; e uma cronologia dos fatos mais importantes da vida da autora. 

Ficha Técnica:

Jane Eyre

Autora: Charlotte Brontë

Tradução: Adriana Lisboa

Editora: Zahar

Ano: 2018

535 páginas

R$ 60,90 (livro em papel) e R$ 39,90 (ebook)*

*Pesquisado em 23/01/2020 nos sites Amazon, Submarino e Americanas