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bell hooks: uma grande mulher em letras minúsculas

"Porque nos esvaziamos espiritualmente tentamos nos preencher com consumismo; podemos não ter amor suficiente, mas sempre podemos comprar."
“Porque nos esvaziamos espiritualmente tentamos nos preencher com consumismo; podemos não ter amor suficiente, mas sempre podemos comprar.”

Em 2006 decidi que queria fazer mestrado em Letras. Sem traquejo acadêmico, depois de quase dez anos fora da faculdade, me matriculei como aluna especial na UFBA. Comprei cadernos, canetas, agenda… toda a parafernália estudantil que julgava que iria precisar. Tinha ideia clara sobre o tema que defenderia na minha dissertação, mas não sabia por onde começar a pesquisa. Tinha certeza de que só havia uma professora no Instituto de Letras que poderia me orientar. Fiz uma entrevista com ela certa vez para uma reportagem sobre literatura e racismo.

Florentina Souza e Silva, Flora para os alunos, foi uma das primeiras mulheres de “carne e osso” (digo isso, porque era alguém com quem eu convivia e não que apenas lia nos livros) que de fato admirei. Só não sabia era que na aula dela iria descobrir uma outra mulher que, apesar da distância geográfica, da barreira da língua e de, até aquela data eu nunca ter ouvido falar no seu nome, me arrebataria de tal forma que além de admiração, me transformaria em fã incondicional.

bell hooks entrou na minha vida com uma força arrebatadora. As discussões nas aulas de Flora foram os melhores debates de que já participei na vida. Ao longo desses anos em que, por vários fatores e descaminhos, acabei adiando o mestrado, a escritora norte-americana permaneceu como uma das minhas referências. Me admira é que, apesar da sua importância, ela seja praticamente desconhecida fora do ambiente acadêmico. No Brasil, é quase impossível encontrar obras traduzidas de bell hooks. Prometi, quando postei minha crítica sobre a exploração do nu feminino no carnaval de Salvador e usei alguns trechos de obras de bell hooks, que iria contar quem é ela. Pois bem, cumpro a promessa agora.

QUEM É ESSA MULHER?

bell-hooks-21bell hooks é o pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escritora norte-americana nascida em 25 de setembro de 1952, no Kentucky – EUA. O apelido que ela escolheu para assinar suas obras é uma homenagem aos sobrenomes da mãe e da avó. O nome é assim mesmo, grafado em letras minúsculas, isso quem me contou foi Flora. A justificativa, encontrei depois numa frase da própria bell: “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”. Para ela, nomes, títulos, nada disso tem tanto valor quanto as ideias. Na infância, estudou em escolas públicas para negros, pois nos EUA, ainda havia escolas que praticavam segregação racial. Na adolescência, quando passou para uma escola integrada, viveu a discriminação de ser minoria numa instituição onde tanto os professores quanto os alunos eram majoritariamente brancos. De família numerosa, cinco irmãs, um irmão, pertencente ao que os americanos chamam de classe trabalhadora, bell hooks usou a própria vida, a vizinhança, a escola, como fontes dos seus primeiros estudos sobre raça, classe e gênero, sempre buscando nesses três elementos, os fatores da perpetuação dos sistemas de opressão e dominação. Seja de brancos contra negros; de homens (mesmo negros) contra mulheres; de ricos contra pobres. Observadora sagaz da realidade que a cerca, é capaz de escrever palavras que doem como um soco no estômago, mas que são ditas com tamanha convicção, sinceridade e um estilo inconfundível que até agradecemos por apanhar. Soa muito pobre afirmar que bell hooks, feminista e ativista social assumida, é um exemplo de vida, mas ela é. Basta dizer que já foi premiada com um The American Book Award, um dos prêmios literários de maior prestígio em seu país, para vocês verem que não estou falando de qualquer pessoa. Entre as influências da autora, além de Martin Luther King, Malcom X e Eric Fromm, figuram as teorias de educação defendidas por Paulo Freire. E nem assim, tendo um brasileiro como referência, a autora é conhecida aqui.

OBRAS DE BELL HOOKS: (títulos sem tradução em português)

And There We Wept: Poems (1978)
Ain’t I a Woman?: Black Women and Feminism (1981)
Feminist Theory: From Margin to Center (1984)
Talking Back: Thinking Feminist, Thinking Black (1989)
Yearning: Race, Gender, and Cultural Politics (1990)
Breaking Bread: Insurgent Black Intellectual Life (1991) (em parceria com o intelectual Cornel West)
Black Looks: Race and Representation (1992)
Sisters of the Yam: Black Women and Self-recovery (1993)
Outlaw Culture: Resisting Representations (1994)
Teaching to Transgress: Education As the Practice of Freedom (1994)
Art on My Mind: Visual Politics (1995)
Killing Rage: Ending Racism (1995)
Bone Black: Memories of Girlhood (1996)
Reel to Real: Race, Sex, and Class at the Movies (1996)
Wounds of Passion: A Writing Life (1997)
Happy to be Nappy (1999)
Remembered Rapture: The Writer at Work (1999)
All About Love: New Visions (2000)
Feminism is for Everybody: Passionate Politics (2000)
Justice: Childhood Love Lessons (2000)
Where We Stand: Class Matters (2000)
Salvation: Black People and Love (2001)
Be Boy Buzz (2002)
Communion: The Female Search for Love (2002)
Homemade Love (2002)
Rock My Soul: Black People and Self-esteem (2003)
Teaching Community: A Pedagogy of Hope (2003)
The Will to Change: Men, Masculinity, and Love (2003)
Skin Again (2004)
Space (2004)
We Real Cool: Black Men and Masculinity (2004)
Soul Sister: Women, Friendship, and Fulfillment (2005)
Witness (2006)

*Fonte: Wikipedia (apenas para a lista das obras). O restante do conteúdo do post foi feito com base nas leituras sobre bell hooks da época em que eu era aluna especial do mestrado no Instituto de Letras da UFBA.

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13 thoughts on “bell hooks: uma grande mulher em letras minúsculas”

  1. Olá. Por favor, estou precisando desesperadamente do livro Feminist Theory: From Margin to Center (1984) para finalizar minha tese de doutorado. Vocês possuem?

      1. Agora já tem uns em português, eu tenho um scanneado, Ensinando a Transgredir, me passa o e-mail que eu compartilho! ;)

      2. Oi Amanda, obrigada pela dica. Quando escrevi o post, em março de 2009, ainda não publicavam a autora no Brasil. Que bom que essa realidade está mudando. Abs!

      3. Fico na torcida!! Que venham as traduções, são necessárias para alcançar um público cada vez maior por aqui.

  2. Andrea

    Estou no nível em vc estava com conheceu a obra de bell Hooks. Conheci essa fascinante escritora quando dei aulas de inglês para uma aluna que hoje já é doutora. E me apaixonei pelo estilo arrebatador desta autora. Quem sabe não serei a primeira tradutora de uma obra dela?

    1. Por favor, Andrea!!!! Que tal começar traduzindo: “communion the female search for love”.
      Queria tanto poder ler esse livro em minha língua!!!!

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