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Mulher fruta: É para chupar e cuspir o bagaço?

Segunda-feira de Carnaval. Um espetáculo me impressiona profundamente. Sobre um trio elétrico, uma moça, necessário dizer que é afrodescendente, completamente nua, sem tapa sexo ou aquelas lantejoulas sobre o bico dos seios, requebra ao som de um pagode cuja letra diz nada menos que “rala a xana no alfalto”. Ela desce até o chão, como pede o pagode, para a lascívia dos cantores da banda e dos foliões.

deusa-do-ebano_blogMesma noite de segunda-feira de Carnaval. Documentário na TVE-BA mostra o processo de eleição da rainha do bloco afro Ilê Aiyê, entremeando com cenas da rainha eleita desfilando sobre o trio do Ilê, naquele momento, no Campo Grande, um dos circuitos mais antigos do carnaval baiano. Bela, vestida em tecidos coloridos, as amarrações do torço sobre o cabelo, a beleza de um decote apenas insinuado mostra um colo de ébano ornado de colares. É uma entidade. A deusa da beleza negra dança e também prende a atenção dos foliões, com sua sensualidade inerente à mulher, com sua delicadeza de soberana.

Com as duas cenas na cabeça, uma de desvalorização e violência contra a mulher e outra de homenagem e respeito, recorro a bell hooks, a intelectual negra norte-americana, cujos estudos sobre gênero, etnia e sexualidade tanto me esclarecem (prometo falar sobre bell hooks em outro post), tanto me ajudam a entender o contexto da sociedade onde vivo. O Brasil e a Bahia, miscigenados ambos, com status de grande democracia racial, precisam aprender a ler bell hooks e rever seus conceitos e principalmente, seus preconceitos velados e disfarçados em discursos como o mito da baianidade e da sensualidade da mulher tropical.

Enquanto assisto a moça nua requebrando ao som do pagode, um amigo, que não concorda com meu comentário sobre o fato daquela moça estar sofrendo uma violência na sua feminilidade, me questionou se é meu desejo que o Carnaval acabe. A resposta, dada com um certo atraso, é simples: para quem gosta, o carnaval deve continuar existindo, principalmente se a festa é também o palco onde desfila a majestosa rainha do Ilê, em toda a sua graça e consciência. Mas, para o Carnaval existir, não é necessário que uma mulher se submeta, seduzida com a promessa de fama, “a ralar a xana no asfalto”.

alek-wek-2_blogPois é justamente aí que repousa a minha tese de que a dançarina de pagode foi violentada nesse Carnaval, na consciência, na autoestima, no seu encanto de mulher, tornado tão banal, descartável, para consumo rápido como um fast food. E me questiono, para que servem as mulheres fruta? Para chupar e cuspir o bagaço? Não acredito que a dançarina seja uma inocente coitada, forçada na base do chicote a subir no trio, tirar a roupa e simular o ato sexual em público. Mas creio que o senso crítico foi negado a essa moça, provavelmente pobre, visivelmente negra, quase com 100% de certeza, ansiosa em tornar-se uma celebridade e fugir da miséria, revivendo o conto da Cinderela.

“A cultura de massas é a que declara publicamente e perpetua a ideia de que pode ser prazeroso reconhecer e desfrutar as diferenças raciais. Converter o outro em mercadoria tem tido muito êxito porque se oferece como um novo deleite, mais intenso e mais satisfatório que os modos comuns de fazer e sentir…A etnicidade se converte em especiaria, condimento que pode animar o prato insosso que é a cultura branca dominante”.

O trecho acima, do texto Devorar ao outro: desejo e resistência, de bell hooks, me dá no que pensar e é a base que eu buscava para continuar analisando a questão das mulheres fruta e das dançarinas de pagode, que antigamente requebravam em mini shorts; mas, como o freak e o grotesco garantem mais audiência, agora abrem mão da pouca roupa que usavam e dos restos de dignidade. E passo a comparar com a realidade local. No tédio do axé, em que músicas e cantoras se parecem -, principalmente porque para a massa, as cantoras são inacessíveis enquanto objeto de desejo -, as dançarinas de bunda grande, seios fartos e pubis à mostra suprem a lacuna, pois são objetos mais à mão.

alek-wek-_-blog1A celebridade gostosa do camarote é quitute fino, se expõe apenas naquela revista cara. A dançarina da periferia, em busca de um lugar sob os holofotes, sem perspectiva real de vencer na vida porque lhe foi negada educação de qualidade, é mais acessível. Ela pode ser a descarada, a cachorra da letra da música, pode ralar no asfalto. Dessa forma, mantém-se a ordem social das coisas. O folião dá vazão ao seu desejo, demonizando a dançarina negra, colocando-a no lugar em que seu pensamento machista acredita que ela deva estar. Fruta barata na feira, come-se a polpa, cospe-se os caroços. O ideal de beleza feminina, de sensualidade sem permissividade, o ideal asséptico, o sexo limpo, ele guarda para a namorada. O olhar de desejo, mas sem invadir o espaço individual, fica para a cantora loira do trio.

O cruel de tudo isso é ouvir de um dos homens que assistiam à performance da moça sem roupa, que a dançarina está no trio, expondo-se, porque ela quer. Ele refuta minha tese de que trata-se de uma violência, porque acredita que ato violento é só aquele praticado sem o consentimento da vítima ou que envolve agressão física. Mas, existem formas de violência tão veladas e cruéis quanto um tapa na cara. É a violência da exclusão social, da falta de um lugar na sociedade estratificada e com papéis definidos. Essa violência, a cultura da super valorização do corpo, a cultura do descartável, é que está por trás do desejo desmedido de enriquecer, ser adorada e conquistar, nem que seja com a bunda, um lugar de destaque, um lugar de pertencimento.

deusa-do-ebano-2_blog1Costurando essa forma de exploração sexual travestida de “arte”, afinal, a dançarina se define como artista, está o medo atávico que os homens sentem da sexualidade feminina desde o tempo das cavernas. Somos multiorgásmicas, temos um gozo interno, somos mistério e isso assusta tanto que a melhor forma de lidar com a mulher, na nossa sociedade de herança cristã, é demonizá-la, definir a sexualidade feminina como baixo instinto, animalesco e grotesco. Infelizmente, ainda somos divididas entre safadas e santas, cachorras e meninas de família, pela maioria dos homens e das próprias mulheres também.

Ao começar este post, comparei as duas cenas que me surpreenderam ontem, da dançarina nua e da rainha do Ilê Aiyê, justamente para mostrar que é possível honrar a beleza, a sensualidade, o carisma e a graça de uma mulher, sem expô-la na banca da feira. O que falta na jovem nua no trio, em busca do sonho de ser adorada pelas multidões como a modelo famosa, mas subjugada ao papel cruel de mercadoria que a sociedade estabeleceu para ela; sobra em consciência, em autoestima, em feminilidade, em domínio da própria sexualidade na deusa no ébano.

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As meninas do Curuzu rejeitam o papel inferior em que lhes tentam enquadrar. Rejeitam serem vistas e consumidas como uma melancia. Elas são donas de si, donas do próprio corpo. A sedução delas, dos seus movimentos ritmados, dos braços, das pernas e do requebro, não se presta ao espetáculo de pão, circo e carne. Antes, seus movimentos são de afirmação da beleza negra, da beleza feminina, do sagrado que faz de todas as mulheres, deusas da criação.

*Escrevi esse texto para ser publicado no blog Conversa de Menina, do qual sou co-fundadora, em 24/02/2009. Migrei aqui para o Mar de Histórias porque acredito que a discussão precisa ser ampliada.

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