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Elas testemunharam a II Guerra: Liesel Meminger

menina roubava livros“A ficção, em algumas situações, é o melhor ângulo de onde se enxerga a realidade”. Marcus Zusak, escritor australiano de origem alemã, sabe disso como ninguém. O autor criou uma das personagens inventadas mais reais para retratar o drama daquelas pessoas de carne e osso – que entre 1939 e 1945 – viveram histórias que beiraram o impossível: Liesel Meminger, A Menina que roubava livros.

Peço licença para inserir entre as testemunhas do conflito mundial, essa personagem que jamais existiu para além dos limites da imaginação deste autor, mas que na realidade, representa diversas meninas alemãs, filhas de alemães pobres, que viram os horrores do regime nazi-fascista. A própria mãe de Zusak serviu de referência para o autor criar sua história. Ele cresceu ouvindo-a contar sobre a vida escassa na pequena cidade onde nasceu. E, principalmente, ficou impressionado com as suas descrições dos cortejos de mortos-vivos formado pelos judeus que desfilavam por esses vilarejos a caminho dos campos de extermínio.

Marcus Zusak, criador de Liesel Meminger
Marcus Zusak, criador de Liesel Meminger

Marcos Zusak, 34 anos, começa A menina que roubava livros assim: “Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a própria, de tão impressionada, decidisse nos contar sua história”. Sim, é a morte quem conta a história dessa menina orfã que é levada para morar com um casal no interior. Impressionada pela capacidade de Liesel em sobreviver, a morte acredita que existe algo especial na criança magricela, quase feia, desengonçada, e obcecada por livros que vai viver com pais adotivos – um pintor de paredes e uma dona-de-casa, na cidade de Molching, nos arredores de Munique.

A história começa com a morte do irmão caçula de Liesel, de tuberculose e desnutrição. Durante o enterro do garoto, ela rouba seu primeiro livro, O Manual do Coveiro. Liesel não sabia ler e após a cerimônia, vai morar com Rosa e Hans Hubermann. O casal é pobre, precisa entrar em filas que parecem não ter fim para adquirir sua cota de ração, distribuida pelo exército nazista aos raros comerciantes de Molching. Faltava tudo, o mercado clandestino era a única forma de conseguir “luxos” como um quilo de açúcar. Na vida real, aqui em Salvador, lembro da minha própria avó – quando rememorava suas lembranças de juventude – contando que no período da guerra, os preços dos gêneros eram absurdamente caros nas mercearias. A “carestia” levava quase todo o salário dos trabalhadores. A justificativa dos vendeiros era uma só: “É a guerra dona!”

Narrando o cotidiano de Molching, revelando detalhes como o fato de que todo pai era obrigado a matricular os filhos em escolas nazistas, todo profissional precisava ser filiado ao partido do fürher para poder continuar exercendo a profissão e que as crianças eram forçadas a decorar uma versão distorcida da história, Zusak descortina os bastidores da Alemanha dominada por uma ditadura cruel. Geralmente, os livros de história pintam todos os alemães como nazistas, colaboradores de bom grado. Aos poucos, a revisão desses relatos mostra que não foi bem assim. Houve coação, ameaça, fome, tortura, atentados. E claro, uma convincente propaganda cuja principal tarefa era “satanizar” os judeus. Quem conhece a história colonial sabe que o processo foi bem semelhante ao ocorrido durante a escravidão negra, a ponto de afirmar-se – com aval da Igreja! – que os africanos não tinham alma. É de se pensar, com a nossa cabeça de hoje, que uma pessoa sensata não vai se deixar enganar por esse tipo de propaganda. Se olharmos bem a história, veremos exemplos e mais exemplos de manipulação de informações e adesão social, muitas vezes por pura ignorância, a ideias absurdas como a da supremacia das raças.

Não pretendo contar detalhadamente a história de A menina que roubava livros, porque tiraria o prazer da leitura de quem ainda não conhece a obra. Minha intenção ao inserir esse post na série sobre a Grande Guerra é apenas chamar atenção de vocês para o fato de que toda ficção nasce das referências do mundo real. E no caso específico desse livro, nasce de uma memória familiar que precisou ser exorcizada. Talvez o próprio Marcus Zusak sinta-se um pouco Liesel Meminger. Ou ainda, ele pode ter tentado recriar a infância da mãe através dessa história dramática que mistura momentos de puro lirismo com outros totalmente dolorosos. A amizade de Liesel com um judeu que morava escondido no porão da casa dos Hubermann rendem as passagens mais comoventes do livro. A própria forma de amar, dura, matuta, aversa ao toque, embrutecida, de Rosa Hubermann, e a cumplicidade que ela desenvolve com a retraída Liesel torna esse livro uma obra rara, um testemunho de milhares de vozes, reduzido ao olhar de uma personagem com contornos totalmente palpáveis.

De acordo com o Internacional Movie Database, a carismática Dakota Fanning está cotada para viver Liesel Meminger na adaptação cinematográfica de A menina que roubava livros
De acordo com o Internacional Movie Database, a carismática Dakota Fanning está cotada para viver Liesel Meminger na adaptação cinematográfica de A menina que roubava livros. A Fox comprou os direitos da obra e a estreia deve ocorrer em 2010

Acredito que Liesel é o contraponto no mundo da fantasia, do drama real vivido por Anne Frank – dai a opção de colocar este post na sequência daquele que fala de Anne. Mas ela também é uma representante anônima, irreal, mas perfeitamente plausível, de outras meninas que perderam tudo durante a guerra, desde os pais até o sentido de si mesmas enquanto indivíduos. Ainda assim, é através da palavra – dos livros -, palavra é registro, é legitimação, que Liesel se reconfigura, reagrega como uma pessoa inteira, após tantas perdas. Acredito que Anne Frank também deve ter optado por escrever um diário para sentir-se inteira, para ter uma identidade própria em meio a uma tentativa sistemática de enquadrar todos os judeus em um perfil maligno pré-concebido e pré-conceituoso.

O mérito de A menina que roubava livros é que ele mostra a guerra sob a ótica dos alemães pobres e não da elite nazista que defendia os delírios de Hitler por conveniência política e financeira. Na falta de dados da historiografia que dêem conta desse cotidiano dilacerado pela realidade de bombardeios, sirenes, toques de recolher, leis marciais baixando sobre cidades inteiras, a ficção ou os diários pessoais, como o de Anne Frank, cumprem a missão de revelar os bastidores de uma terra arrasada. Felizmente, quanto aos diários pessoais, a história tem se debruçado cada vez mais sobre eles na tentativa de humanizar relatos antes restritos aos ícones e heróis nacionais legitimados. Já a ficção, com seus recursos que possibilitam sonhar acordado, compõem o quadro das experiências humanas e dão uma certa cor local aos eventos. Personagens e situações podem até ser inventadas, mas alguma base concreta elas tiveram: a experiência pessoal do autor, sua vivência, bagagem cultural, o mundo em sua rica diversidade. É preciso matéria-prima para criar, e a realidade é o fermento da ficção.

Para quem quer dados históricos mais precisos, a série retoma seu caráter didático a partir deste sexta, quando pretendo falar de Eva Brawn, amante de Hitler e que por ter escolhido o lado errado da história (o do opressor), tem uma pecha de maldição sobre seu nome. Ainda assim, ela foi testemunha privilegiada, pois estava do lado de dentro das linhas inimigas, inclusive quando o III Reich desabou. Ainda estão previstos posts sobre: o destacamento de mulheres afro-americanas que lutaram na II Guerra, os filmes que exploram o conflito, mais dicas de livros de história e ficção para entender a guerra; e, para encerrar, as memórias dos pracinhas baianos.

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Para ler e entender quem é Liesel Meminger:

A menina que roubava livros

Markus Zusak

Editora Intrinseca

Preço sugerido: entre R$ 21,50 e R$ 39,90 (site da Saraiva.com)

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Para saber mais sobre a II Guerra:

>>Mulheres em tempos de guerra – moda e comportamento das décadas de 20 a 50 (arquivo em pdf)

>>O nazismo, a II Guerra e uma mulher contra Hitler – artigo sobre cinema e a guerra

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