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Elas testemunharam a II Guerra: Anne Frank

Anne Frank e família
Anne Frank e família

No meu aniversário de 21 anos, enquanto cursava a faculdade de Comunicação, ganhei de minha mãe um livro com a seguinte dedicatória: “À minha futura jornalista, um pouco de história, para que a sua curiosidade nunca morra”. O ano era 1995 e o livro, O Diário de Anne Frank, a 13ª edição, da editora Record (capa branca e uma foto da menina judia morta pelo nazi-fascismo). A primeira edição foi publicada em 1947, após o fim da guerra, era um alerta contra o anti-semitismo, um manifesto contra a intolerância e a barbárie. Na ocasião em que li o Diário de Anne Frank, tanto seu conteúdo quanto a autora, já eram ícones máximos da resistência ao III Reich. Anne Frank é mito, tem legiões de fãs 70 anos após o início da guerra. Mesmo com historiadores tentando, por exemplo, provar que a versão publicada do seu diário teve trechos censurados por seu pai, Otto Frank, para que dessa forma sua comovente história enternecesse ainda mais os leitores, a verdade é que a aura de mártir sobreviveu às décadas. E não é para menos. Uma menina de 13 anos viu a guerra e a documentou do ponto de vista das vítimas, dos perseguidos, mas também, do ponto de vista de uma adolescente que do dia para a noite viu sua vida se transformar radicalmente. Em 6 de julho de 1942, Anne Frank e os pais tiveram de fugir de casa, em Amsterdã, ela largou a escola, os amigos, sua rotina de adolescente, os sonhos. Durante dois anos, viveu escondida em porões, até ser morta antes de completar 15 anos, no campo de concentração de Bergen-Belsen. Não tem quem não se comova diante de um drama dessa dimensão. Anne Frank é um emblema. Sua história, o testemunho escrito em cadernos de rascunho, à luz de velas, simboliza um pouco da história de todas as vítimas do holocausto. E não importa se foram seis milhões, como registra a historiografia oficial, ou apenas alguns poucos milhares, como tentam minimizar os pesquisadores que tentam diminuir os efeitos da perseguição sistemática aos judeus – e, por tabela, a outros povos considerados minoria como ciganos, negros, indigenas, – a questão é que de alguma forma, quando uma criança morre, não importa a que etnia ela pertença, todos nos sentimos profundamente incomodados, tristes, responsáveis. Não deixa de ser o futuro que morre, um porvir roubado prematuramente. No post de hoje da série sobre as testemunhas da Segunda Grande Guerra, Conversa de Menina divide com vocês um pouco da história de Anne Frank.

anne_frankAnnelise Maria Frank escreveu na folha de rosto de seu diário, em 12 de junho de 1942, dia de seu aniversário de 13 anos: “Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande amigo e um apoio para mim”. No prefácio da 13ª edição de O Diário de Anne Frank, de 1995, o crítico literário Storm Jameson revela que o diário (na verdade um caderno grosso, de capa dura) foi um dos presentes de aniversário da jovem nascida em uma família judia de Frankfurt, Alemanha, em 1929, e imigrada para Amsterdã (Holanda) em 1933, quando ainda era uma garotinha. As palavras que ela registrou na folha de rosto, a título de introdução, continua Jameson, pareciam uma premonição. A princípio, o diário era como o de qualquer adolescente, cheio de ideias e descobertas confusas sobre o mundo, a sexualidade, o primeiro amor – nesse caso, um rapaz de 16 anos, Harry, o vizinho bonitão. Em 6 de julho de 1942, porém, essa realidade cor-de-rosa ganhou cortornos mais cinzentos. Anne Frank, os pais, a irmã Margot (mais velha) e mais quatro judeus de uma família amiga, deixaram suas casas e foram se abrigar no Anexo Secreto (um conjunto de salas escondidas por detrás de um complexo de escritórios no centro de Amsterdã). A medida visava proteger os oitos judeus das investidas da Gestapo, a polícia secreta nazista. Desde o início da vigência do governo de Adolf Hitler na Alemanha, ainda em meados dos anos 30, as famílias judias foram perdendo bens, imóveis, cargos públicos, empregos privados, o direito a cidadania, e sendo conduzidos a cortiços improvisados (guetos) nos subúrbios alemães. Também eram obrigados a usar uma estrela de Davi (o símbolo judaíco) amarela, costurada às roupas. Nenhum alemão podia ser visto ajudando um judeu, caso contrário, tornava-se suspeito e também sofria as mesmas sanções governamentais. Os judeus confinados aos guetos só saiam para os trabalhos forçados. Com a invasão da Polônia, e, na sequência, de outros países europeus, a população judaica destes locais passou a receber tratamento semelhante ao daqueles que viviam na Alemanha. Havia guetos em Amsterdã, Varsóvia e outras cidades ocupadas. A família de Anne Frank fugiu para não ser confinada a um gueto, até porque, todo mundo já tinha percebido que os judeus, mesmo segregados nos guetos, estavam desaparecendo. A cada dia, grupos eram levados para os campos de concentração (campos de trabalhos forçados) e de lá não retornavam.

Anne Frank, a mãe e a irmã Margot antes da ocupação nazista
Anne Frank, a mãe e a irmã Margot antes da ocupação nazista

Vida clandestina.Era isso que esperava a jovem Anne Frank e seu diário Kitty, um apelido que ela colocou no caderno de notas, no Anexo Secreto. A adolescente e sua família não podiam falar, não podiam fazer nenhum barulho, ninguém podia saber que havia gente escondida nas salas, eles só comiam aquilo que amigos da resistência (tanto judeus quanto alemães não nazistas) conseguiam contrabandear para o esconderijo, nada de banho, nada de passeios. A tensão era muito grande. Os adultos ficaram nervosos, as adolescentes (Anne e a irmã) rebeldes com o passar dos dias de confinamento. Foram 22 meses sem ver a luz do sol. E Anne Frank descreve esses detalhes em seu diário, as discussões sussurradas (nem gritar eles podiam) com a mãe e a irmã, a irritabilidade crescente, beirando a histéria, da senhora Van Daan, matriarca da outra família que se escondia junto com os Frank. Kitty era a confidente de Anne. Às páginas do diário, ela confiava toda a rotina, as picuinhas, as privações, o medo de serem descobertos. “Uma análise profunda e cheia de sensibilidade sobre o relacionamento humano”, escreveu o The Guardian (jornal britânico) numa das publicações do livro na Inglaterra. E é justamente isso, Anne Frank, com a sua imaturidade de adolescente, o seu jeito peculiar às pessoas da sua idade para ver o mundo, nos traça um relato em primeiro pessoa, o de uma pessoa comum, sobre a guerra. Mito, ela se tornaria após sua morte, mas até então, era só uma menina desabafando num caderno para não enlouquecer entre quatro paredes e cercada de pessoas igualmente frustradas, famintas e assustadas.

A traição contra os Frank e os Van Daan ocorreu em 4 de agosto de 1944. Presos pela Gestapo, os oitos judeus foram enviados para campos de concentração diferentes. Anne e Margot foram para uma “escola” nazista em Westerbork e pouco depois, deportadas para Auschwitz, até serem transferidas para Bergen-Belsen. A adolescente e sua irmã morreram no início de março de 1945, de desnutrição e febre tifoide, devido aos maus-tratos sofridos. Ironicamente, duas semanas depois da morte das meninas, os aliados venciam a guerra e os prisioneiros do campo eram libertados. Dos oito judeus que se escondiam no Anexo Secreto, apenas Otto Frank sobreviveu, morrendo em 19 de agosto de 1980, não sem antes de ver a filha caçula se transformar em mito do anti-semitismo.

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Para saber mais sobre Anne Frank

Livro – O Diário De Anne Frank – versão original, sem os cortes da edição de 1947
Anne Frank e notas de seu pai Otto H. Frank
Tradução: Alves Calado
Editora: Record
315 páginas
Preço sugerido: R$ 37,90 (site americanas.com)

Filme – O Diário de Anne Frank
The Diary of Anne Frank – EUA, 1959
Direção: George Stevens
Duração: 3 horas
Elenco: Millie Perkins, Joseph Schildkraut, Shelley Winters, Richard Beymer, Gusti Huber…

Site O Diário de Anne Frank – trechos da obra, fotos e vídeos. Visite aqui.

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Para saber mais sobre a II Guerra:

>>Mulheres em tempos de guerra – moda e comportamento das décadas de 20 a 50 (arquivo em pdf)

>>O nazismo, a II Guerra e uma mulher contra Hitler – artigo sobre cinema e a guerra

3 opiniões sobre “Elas testemunharam a II Guerra: Anne Frank”

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