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A II Guerra pelos olhos da infância

*Inocência maculada
Livros de ficção e de memórias revelam as marcas deixadas pela II Grande Guerra na infância de quem testemunhou o conflito

Andreia Santana

Sylvia com o símbolo que identificava os judeus na Europa nazista. A foto é a capa da edição americana de Estrela Amarela

Sylvia fica em casa sozinha todos os dias enquanto a irmã mais velha, a mãe e o pai trabalham em uma fábrica. Ela tem cinco anos e sua única boneca foi vendida para comprar comida. Sua maior diversão é imaginar histórias em que os protagonistas são os grãos de poeira que obsessivamente varre do apartamento minúsculo. Ou imaginar sabores de coisas gostosas que ela nunca provou. Sem brinquedos, magra como um graveto, responsável pela limpeza do cubículo onde vive, e sem ir à escola, a pequena Sylvia só conhece duas paisagens: a dos muros cercados de arame e a do céu estrelado visto de dentro da cova onde o pai a esconde, no cemitério local, cada vez que os soldados de botas negras dão batidas no gueto, caçando crianças.

As memórias da menina judia Sylvia Perlmutter, uma das 12 crianças a sobreviver aos nazistas, no gueto de Lodz (Polônia), ficaram guardadas por quase 60 anos, até que um dia ela decidiu contar tudo para a sobrinha, a jornalista Jennifer Roy. O relato transformou-se no livro Estrela Amarela (Companhia das Letras), um dos mais recentes lançamentos inspirados na infância marcada pela II Guerra Mundial.

Marina Colasanti também tem memórias da guerra

Lembranças além do front – Se não tinham idade suficiente para marchar nas linhas de combate, as crianças alemãs e italianas, ou dos países ocupados pelo nazi-fascismo, sentiram a guerra na carne e a viveram no dia a dia, fazendo do confronto, inclusive, tema recorrente de suas brincadeiras. Em língua portuguesa, a escritora Marina Colasanti resgatou seus dias de italianinha (ela nasceu em Eritreia, filha de um casal italiano. O pai era oficial de Mussolini). Em Minha Guerra Alheia, lançado ano passado, compartilha suas memórias do conflito mundial: “As bombas caem lentamente”, recorda a Marina que até os 10 anos, antes de emigrar para o Brasil, viveu toques de recolher e flertou com a fome. Mas que também  fazia travessuras, como brincar nas ruínas de bombardeios e contrabandear vinho para soldados, em troca de chocolate.

Dados da organização-não-governametal italiana Child, especializada em estudar o comportamento de crianças vítimas de conflitos recentes, mostram que ansiedade, depressão e dificuldades de relacionamento – além da tendência a inventar histórias – marcam para sempre quem vive uma guerra na infância. No universo literário, crianças como Sylvia Perlmutter e Marina Colasanti escaparam das sequelas mais graves, graças justamente à capacidade de romancear o lado mais obscuro de suas vidas. “Tudo o que eu tinha a dizer sobre a guerra, está nesse livro”, respondeu Marina a um jornalista, durante o lançamento de Minha Guerra Alheia.

Cena do filme O menino do pijama listrado. Bruno, de marrom, e os amigos, imitam o vôo dos caças alemães

Se as histórias de Colasanti e de Sylvia são a realidade transformada em romance, o caminho contrário também acontece. Best-sellers como A menina que roubava livros e O menino do pijama listrado, respectivamente de Markus Zusak e Jonh Boyne, mostram que as memórias de guerra, principalmente aquelas vindas de ecos da infância, seja baseadas em fatos reais ou criadas com as verdades do inconsciente coletivo, caem no gosto do leitor médio e vendem feito água.

A menina que roubava livros já havia ultrapassado a marca dos 450 mil exemplares vendidos no Brasil e estava na 12ª tiragem, isso em 2008 (na última contagem da Câmara Brasileira do Livro). Em 2007, recém-lançado no país, entrou para a lista dos mais vendidos, onde permanece no mínimo entre os vinte mais, desde então.

O australiano Markus Zusak se inspirou na infância da mãe e recordações da avó, ambas alemãs, para criar uma das personagens mais cativantes da chamada literatura de guerra. Liesel Meminger, uma franzina orfã adotada por um casal de um subúrbio de Munique é tão real quanto qualquer criança que tenha de fato vivido os anos de nazismo. Em criteriosa reconstituição histórica, Zusak, pelos olhos de papel e tinta da esquálida Liesel, apresenta ao leitor de hoje um comovente panorama da vida cotidiana dos alemães comuns, oprimidos pelo regime de Hitler e forçados a colaborar sob ameaça de morte.

“Nós temos essas imagens das marchas em fila de garotos (das crianças judias indo para os campos de extermínio) e essa ideia de que todos estavam nisso juntos. Mas ainda havia crianças rebeldes e pessoas que não seguiam as regras e que esconderam judeus em suas casas”, justificou o autor quando questionado sobre o por que de voltar a falar da guerra, tema tão recorrente na literatura.

Amizade condenada – Pergunta semelhante foi feita ao irlandês John Boyne, autor de O menino do pijama listrado (350 mil exemplares vendidos no Brasil, segundo contagem da Companhia das Letras, até agosto deste ano), em entrevista para o making off do filme homônimo.  A resposta veio do diretor do longa, Mark Herman: “o conflito é o pano de fundo para mostrar a história de uma família alemã e das consequências do nazismo, muitas trágicas, para a estrutura familiar como um todo e a para infância, em particular”.

Na obra, Boyne recria a Alemanha de Hitler a partir do olhar de Bruno, filho de oito anos do diretor de um campo de concentração, que faz amizade com Schmuel, criança judia, da mesma idade, e prisioneira do campo. A infância nesse pequeno libelo à amizade, é mostrada em toda a sua inocência perdida à custa da morte que se esconde para além da cerca que divide o jardim de Bruno da prisão de Schmuel.

Anne Frank escrevendo em Kitty, seu diário

Herança de Anne Frank – Morta antes de completar 15 anos no campo de concentração de Bergen-Belsen, Anne Frank é uma dessas “crianças filhas da guerra” que tornou-se mito e que de certa forma inspira outras histórias protagonizadas por meninas e meninos que, seja de verdade ou na ficção, vivenciaram os anos de conflito. A sombra do martírio de Anne, que teve o famoso diário publicado por seu pai Otto, poucos anos após sua morte, perpassa, guardadas as devidas proporções e com todo o respeito à criatividade dos autores, as narrativas de A menina que roubava livros, O menino do pijama listrado e de Estrela Amarela, principalmente desse último. Falar da infância na guerra sem lembrar as confissões de Anne nas páginas de Kitty (seu diário), é deixar o quebra-cabeças das memórias coletivas da guerra e do Holocausto com peças em falta.

Para não esquecer – Sylvia Perlmutter, quando decidiu contar sua história à sobrinha, tinha justamente a intenção de acrescentar mais uma peça a esse quebra-cabeças.  Mais de 50 anos antes da pequena Sylvia, Anne Frank escreveu na folha de rosto do diário: “Espero poder confiar inteiramente em você, como jamais confiei em alguém até hoje, e espero que você venha a ser um grande amigo e um apoio para mim”. Na ausência de um caderno de notas, a menina que sobreviveu ao infanticídio em Lodz, depois de anos resistindo a abrir a caixa da memória, disse à sobrinha que era hora de resgatar sua infância, antes que ela se perdesse para sempre.

Fichas técnicas das obras citadas:

Estrela Amarela (não-ficção)
Jennifer Roy
Tradução: Ernani Sso
Editora: Companhia das Letras
144 páginas
Preço sugerido: R$23,50

O diário de Anne Frank (não-ficção)
versão original, sem os cortes da edição de 1947
Anne Frank e notas de seu pai Otto H. Frank
Tradução: Alves Calado
Editora: Record
315 páginas
Preço sugerido: R$ 37,90

Minha Guerra Alheia (não-ficção)
Marina Colasanti
Editora Record
288 páginas
Preço sugerido: R$ 39,90

O menino do pijama listrado (ficção)
John Boyne
Tradução: Augusto Pacheco Calil
Editora Companhia das Letras
192 páginas
Preço sugerido: de R$ 21,00 a R$ 36,00

A menina que roubava livros (ficção)
Markus Zusak
Tradução: Vera Ribeiro
Editora Intrinseca
480 páginas
Preço sugerido: entre R$ 21,50 e R$ 39,90

*Minha reportagem foi publicada na edição deste sábado, 24/09/2011, do Caderno 2+, suplemento cultural de A TARDE.

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