Ensaios, História

Sobre as aulas de História na escola

ConselheiroNão entendo porque as aulas de História na escola, em pleno século XXI, quando se busca resgatar a importância de personagens populares, os verdadeiros heróis nacionais, heróis da resistência, ainda são ditadas pela cultura europeia, greco-romana, de tradição judaico-cristã-católica. Tudo bem, é muito importante ter uma visão mais ampla da história da humanidade. Longe de mim querer fazer como os norte-americanos, que eternamente dão voltas ao redor do próprio umbigo e ignoram o que há para além das fronteiras do seu quintal. A cultura clássica, sem a qual a literatura e as artes em geral não teriam a riqueza atual, tudo isso é de extrema importância. Também acredito que, nos conflitos dos povos do passado estão as explicações para as guerras presentes.

Vivemos em um mundo globalizado, a internet encolheu as distâncias, podemos conhecer o planeta inteiro sem sair da frente de uma tela – de computador ou TV. Conhecimento também nunca é demais, da mais alta cultura até a abobrinha mais boba, gosto de saber, ouvir, ver, sentir, só assim conseguirei informação suficiente para formar meu próprio repertório, além de desenvolver o senso crítico. A princípio, não rejeito nenhuma cultura, todas merecem ao menos uma olhada.

No entanto, por que, me pergunto, forçar uma criança a ler capítulos e mais capítulos das Guerras Púnicas? Por que um estudante brasileiro, nordestino, precisa saber detalhes da vida cotidiana em Esparta e Atenas quando mal sabe quem foi Antonio Conselheiro? Não seria interessante dedicar os programas de História das nossas escolas ao estudo aprofundado da América Latina, desde a Pré-História  – e tivemos Pré-História deste lado do globo, estão aí sambaquis, pinturas rupestres e fósseis que não me deixam mentir – até a História contemporânea?

Uma visão ampla, mas completa, sobre a História da America Latina,  foco direcionado na História do Brasil e uma lupa, para esmiuçar detalhadamente a História do Nordeste e da Bahia – no caso dos estudantes baianos, que  é a realidade que eu vivo.

Então, só depois que fôssemos craques na História nacional, e aí cabe detalhar direitinho as nossas etnias formadoras – brancos, negros e índios -, é que partiríamos para a cultura greco-romana, clássica, europeia.

Proponho aplicar ao ensino da História – matéria pela qual sou apaixonada – o conceito criado pelos teóricos do jornalismo on line: Glocal, ou seja, partirmos do Local para o Global. Só assim, acredito, iremos formar cidadãos conscientes a ponto de serem capazes de escrever um capítulo novo para a atual História contemporânea, tão desigual, violenta e ainda aprisionada ao tempo em que éramos colônia.

E não adianta vir com a conversa de que não existiu Idade Média no Brasil, isso para mim é papo de quem só consegue enxergar a cultura a partir da sua irradiação europeia. Lógico que, a contagem do tempo, a cronologia histórica deveriam ser baseadas nas realidades de cada continente e não naquela divisão clássica de que a Antiguidade termina com a queda do Império Romano, a Idade Moderna começa após a invasão de Constantinopla e os tempos contemporâneos seguiram a esteira das tropas de Napoleão após a Revolução Francesa. Isso se aplica ao velho mundo.

Aqui, nossa contagem poderia ter por base a formação e não a destruição de impérios como os dos incas, astecas, maias ou dos cacicados da Amazônia. Ou ainda, da hegemonia dos tupinambás na baía de Todos-os-Santos.

Não tenho a ingenuidade de Policarpo Quaresma, mas sinceramente, é triste ver que a minha história vale menos que a dos europeus só porque teoricamente o continente onde me encontro, embora tenha terras geologicamente mais antigas, seja mais jovem do ponto de vista da chegada do colonizador. Quer dizer que antes de Hernan Cortez, Colombo e Cabral, não tínhamos História? Me recuso a acreditar que seja assim.

Para mim, é questão de comodidade mesmo. Dá menos trabalho repetir as velhas fórmulas e decorar as datas da historiografia europeia do que vasculhar documentos quase esfarelados, em busca de uma identidade própria.

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