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Resenhas: 1984 e Admirável Mundo Novo

Após dez dias de recuperação pós-operatória, as lunetas da alma estão com foco ajustado, falta só mais um pouco de descanso para cicatrização, mas cá estou de volta ao leme, navegando outra vez pelo oceano de palavras (quem lê isso pensa até que sei “dirigir” barco, mas é só a graça da metáfora e a paixão por Pessoa, o Fernando, meu biógrafo). E para que a volta seja, digamos, triunfal, um texto que nasceu das viagens literárias mais recentes. Divirtam-se e obrigada pela fidelidade neste pequeno recesso!

Huxley e Orwell: Um breve “ensaio sobre a lucidez”

Por: Andreia Santana

Pego de empréstimo o título de um dos romances do autor português José Saramago para nomear uma tentativa de comparação entre Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley) e 1984 (George Orwell), ambos considerados clássicos da literatura inglesa, visionários, – quase proféticos -, e emblemáticos para a compreensão da sociedade contemporânea. Aviso aos navegantes que, apesar do começo com cara de texto acadêmico, isto aqui não é nem de longe um ensaio legítimo, na tradução literal da palavra. Trata-se de uma opção de leitura: ao invés de resenhar as duas obras, cada uma no seu pedaço de tela de Word, resolvi resenhar as duas juntas, traçando paralelos em obras que, em minha opinião, são complementares e que, dada a natureza “filosófica” das minhas férias e da licença médica recente, li na sequência uma da outra, como os dois pedaços de uma mesma história.

A primeira coisa que chama a atenção nos dois livros é a temática. Ambas falam de opressão e descrevem ditaduras cujo principal meio de coerção se dá através do patrulhamento das ideias e do aniquilamento da identidade. O indivíduo não existe no mundo futurista imaginado por Aldous Huxley, em que até a concepção e o parto são destituídos de “naturalidade” e os bebês gerados, após seleção criteriosa dos genes de machos e fêmeas, em laboratório. A solidão, a tristeza e a velhice também são abolidas no novo mundo e a consciência é entorpecida por um hedonismo desesperado, o prazer adquirido através de uma droga de controle social, o soma. Em 1984, o indivíduo também não existe. O Partido e o Grande Irmão controlam as vontades e as consciências. Uma pessoa não é nada, só o grupo importa, fora do grupo só existe aniquilação. As opiniões que valem são a do grupo, notas dissonantes primeiro precisam ser “catequizadas”, depois humilhadas e quando ninguém lembrar sequer de um eco de discordância, eliminadas.

Cena de 1984, filme homônimo inspirado na obra de George Orwell

Admirável Mundo Novo foi publicado em 1932, sob ameaça do nazifascismo, que se espalhava na Europa e que culminaria com a II Guerra Mundial. Já 1984 foi publicado em 1949, após a guerra, quando o mundo ainda se recuperava das feridas provocadas pelo conflito. Era também o início do processo que dividiria o mundo em blocos políticos e econômicos. A divisão, como qualquer aluno atento de ensino médio bem sabe, persiste, mas tem outras siglas (UE, Mercosul, OMC, OTAN e afins) após a Cortina de Ferro.

A fama de Huxley e de Orwell como gurus decorre do fato dos dois, décadas antes, terem descrito, quase com perfeição, o mundo globalizado onde vivemos. Ler Admirável Mundo Novo ou 1984 sem traçar paralelos com a sociedade pasteurizada, preconceituosa, infantilmente apegada ao prazer rápido e descartável, além de submissa, da atualidade, ao menos para mim, é impossível. O soma distribuído como ração em Nosso Ford, o ”país modelo” do admirável mundo novo de Huxley, pode ser substituído por uma infinidade de recursos e/ou substâncias utilizadas para mitigar a dor da nossa frustração enquanto civilização. O Grande Irmão de 1984, por sua vez, reeditado num mundo que perdeu a noção de privacidade, tem mais olhos que a Hidra de Lerna e suas infinitas cabeças. A verdade é que a ideia de sociedade já nasceu velha e caduca.

George Orwell apenas descreve de maneira hábil a realidade que o cercava em 1949, mas teve o bom senso de situar sua triste história do pós-guerra em um futuro que na ocasião parecia muito distante, mas que também não dava sinais de ser diferente daquele presente. A Europa destroçada, países que se aliavam em blocos formando super nações, alianças que se rompiam e reconstituíam ao sabor da conveniência política, a vigilância constante, autoritarismo, ditadura (de esquerda ou direita, ambas são idênticas), a total aniquilação de opiniões contrárias às do sistema vigente, a crueldade do ser humano levada ao seu extremo. Se alguém não conhece nada disso no mundo de agora é porque acaba de descer na Terra, vindo de Marte, provavelmente.

A Ilha, produção do cinema contemporâneo que faz muitas referências ao Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley

Mas o hábil exercício de futurismo dos autores não decorre de poderes mágicos (se bem que às vezes eles parecem mesmo ter super poderes), mas apenas da sagacidade em observar o mundo que se construía em 1932 e em 1949, mover as peças do tabuleiro em determinadas direções apontadas pela conjuntura e visualizar o que seria o futuro. Huxley e Orwell eram filósofos, muito possivelmente humanistas, desencantados com a revolução, visto que os dois também se engajaram nas lutas socialistas daquele começo de século XX, tão bem batizado por Hobsbawm de “era dos extremos” e tinham mentes brilhantes, sem dúvida.  Antes de prever o futuro, os dois narraram a decepção com o presente. E é decepcionante, sem dúvida, apostar tanto no fim do nazifascismo, por exemplo, só para perceber que os regimes que o substituíram eram tão cruéis e excludentes quanto.

Os críticos literários especializados ficam catando falhas de estilo nas obras. Os panfletários de ocasião traduzem as palavras dos dois escritores de acordo com a bandeira que querem defender no momento e os “super mega power high techs” ridicularizam os equipamentos e avanços científicos descritos nas duas obras, sem se dar conta de que na ocasião, com a tecnologia existente, era o máximo a que uma mente humana (mesmo “profética” como a desses dois autores) podia chegar. Pessoalmente, tenho uma dó imensa (peninha mesmo) desse tipo de “leitor especializado”, que não vai à essência dos textos e se prende aos detalhes fúteis.

Aldous Huxley e George Orwell foram cronistas sofisticadíssimos, que não se contentaram em apenas descrever o mundo que os cercava, mas fizeram um exercício de livre pensamento, de filosofia pura, ao conceber o mundo que resultaria daquela realidade. Saber se a intenção dos dois era fazer um alerta sóciopolítico ou apenas criar boas e verossímeis histórias de ficção é navegar sem bússola no mar da especulação, cada um vai ler e vai achar o que quiser, como, aliás, acontece com qualquer texto que precise ser subjetivamente interpretado.

O que, no entanto, firma-se como verdade universal é que as duas obras, apesar das datas de publicação, não perdem a capacidade de renovar-se.  Pelo menos não enquanto a humanidade repetir a história ad infinitum, mudando apenas os nomes das personagens principais, mas movida pelos mesmos motivos…

Uma sinopse de cada livro, para quem não leu ainda:

Admirável Mundo Novo – Partindo de uma realidade conhecida no seu tempo, a divisão da sociedade por castas, Aldous Huxley ambienta sua história no hipotético mundo de Nosso Ford (o trocadilho com o famoso economista e com a fábrica de automóveis é intencional). Neste país, os seres humanos são condicionados psicológica e biologicamente para viverem em harmonia, cada um na sua casta, apaziguado com a realidade, sem questionar a ordem “natural” das coisas. Para isso, o governo de Nosso Ford implanta um rigoroso sistema de produção de bebês em série, abolindo a reprodução sexuada. Após selecionar os genes masculinos e femininos e cruzá-los em laboratório, as crianças nascidas, de acordo com suas características de casta, recebem a educação compatível em centros especializados, que os condicionam (via lavagem cerebral) para desempenharem suas funções e para, lógico, abominarem, com toda sorte de preconceitos, as castas diferentes. Fora de Nosso Ford, vivem “os selvagens”, seres humanos que ainda são vivíparos e que enfrentam a dor e a angústia de viver num mundo em que os indivíduos tem vontade própria. O conflito do livro é o choque de realidade de um rapaz criado numa reserva de “selvagens” e que é levado para conhecer Nosso Ford. Uma das melhores passagens da obra é o diálogo do Selvagem e de Vossa Fordeza, o líder de Nosso Ford, sobre Deus, fé e humanidade. É de fazer Sócrates corar de orgulho na sepultura.

1984 – Também partindo da realidade conhecida, a Europa dos primeiros anos do pós-II Guerra, George Orwell imagina um mundo dividido em três super potencias que vivem de brigas e alianças entre si e cujo controle social é exercido pelo Partido e pelo líder Grande Irmão. Vigiados 24 horas por dia pelas teletelas (principal instrumento da polícia das ideias) os cidadãos desse mundo sitiado vivem um progressivo aniquilamento da memória e da individualidade. Os cidadãos que trabalham para o partido, eles mesmos igualmente vigiados, tem como missão criar a Nova Fala, idioma em que todas as palavras tidas como subversivas (praticamente todas que reunidas numa frase conduzam ao ato de pensar) precisam ser abolidas e trocadas por outras, meramente funcionais e sem significado. Ao mesmo tempo, o Ministério da Verdade se ocupa de alterar fatos e datas históricas cada vez que o Partido acredita que uma determinada informação pode comprometer o regime, daí, depois de pouco tempo, ninguém mais sabe o que é a realidade de fato ou o que é uma versão da realidade, se é que existe alguma realidade de fato. O herói da história é Winston, um membro do partido que trabalha no Ministério da Verdade e que, inadvertidamente, descobre um documento que deveria ter sido alterado e eliminado e que pode destruir o Partido, caso caia nas mãos erradas…

Os autores:

Aldous Huxley nasceu em Godalming (Inglaterra) em 1894 e morreu em Los Angeles (EUA) em 1963, onde vivia desde o final dos anos 30. Educado na tradicional escola de Eton, para onde era mandada boa parte da aristocracia britânica, fazia parte de uma família de intelectuais e cientistas. Admirável Mundo Novo é considerado a obra-prima do autor, mas ele teve uma fértil carreira literária, sendo autor de romances, contos e ensaios, num total de 47 livros.

George Orwell é o pseudônimo de Eric Arthur Blair. O autor nasceu em 1903, em Motihari (na Índia, quando o país era colônia britânica) e morreu de tuberculose, em 1950, em Londres, apenas alguns meses após a publicação de 1984. Também poeta e ensaísta, Orwell escreveu seis romances, sendo tão notável e famoso quanto 1984, o emblemático A Revolução dos Bichos, em que o tema é também a ditadura. Os porcos de uma fazenda convencem todos os animais de que estes são oprimidos pelos humanos. Após os bichos se revoltarem e tomarem a fazenda, expulsando os humanos, descobrem que sob o governo dos porcos, caíram numa outra ditadura, ainda mais cruel e opressiva.

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4 thoughts on “Resenhas: 1984 e Admirável Mundo Novo”

  1. Esses livros são ótimos!
    Laranja mecanica tambem é outro excelente.
    No pósfacio de 1984 Erich Fromm recomenda tambem “Nós” do russo Zamyatin, como uma trilogia de “utopias negativas” já leu? Eu ainda não, mas tá na lista.
    Abx

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