Resenha: Razão e Sensibilidade

A reportagem que iria preparar sobre a obra de Jane Austen sofreu algumas mudanças e foi abortada na sua concepção original. Mas, como foi muito bom relembrar o mundo peculiar da escritora, publico abaixo resenha que escrevi para Razão e Sensibilidade. As fotos que ilustram o texto são do filme homônimo, dirigido por Ang Lee, em 1995, e protagonizado pelas sempre maravilhosas Emma Thompson e Kate Winslet. Adoro esse filme!

P.S.: Também já colei a resenha lá no Skoob, comunidade de leitores que conheci graças à Lady Giraffa e Snaky Theu.

Olhar irônico e sensível sobre a sociedade do século XIX

Jane Austen é considerada uma das personalidades literárias mais influentes da Inglaterra, só perde para William Shakespeare. Também é uma das precursoras do romance feminino no século XIX e suas obras, relançadas ano após ano, não perdem o ineditismo. Embora datadas por costumes específicos da sua época, presentes tanto nas descrições de paisagem, trajes e lugares quanto na linguagem da escritora, os sentimentos retratados nas obras de Austen são imortais: amor, ambição e egoísmo.

Para quem prefere uma linguagem mais pop e ágil, os livros de Austen não são recomendados, sob pena de serem interpretados como cansativos. Mas se a intenção é saborear as palavras, deixar que os cenários rurais dos arredores de Londres desenhem-se pouco a pouco na mente, ou se o objetivo é refletir e tecer paralelos entre os costumes e o comportamento da sociedade de ontem e a de hoje, vale muito a pena.

Razão e Sensibilidade, um dos seus livros mais famosos, levado ao cinema com a fascinante Emma Thompson, é uma crônica perfeita não de época, mas de sentimentos humanos atemporais. Embora as caçadoras de marido – presentes ao longo de toda a obra – tenham mudado a forma de vestir-se, ainda existem nos dias atuais, disfarçadas de “marias chuteira” e correlatas.

A obra é uma crítica apurada dos hábitos da indolente aristocracia britânica dos anos 1800, mas se repararmos bem, muito do que ela descreve, mudando-se o cenário e a indumentária, aplica-se a sociedade atual.

Elinor Dashwood e sua irmã funcionam como alter-egos da autora. A primeira, numa comparação simplista, pode ser associada à razão do título. É discreta, muito madura para seus 19 anos, observadora sagaz do mundo que a cerca, cheia de valores morais que em determinados momentos até fazem-na assumir ares de superioridade.

A segunda Dashwood é o lado mais revolucionário de Austen, mais nova, Marianne é a pura sensibilidade, passional, envolvente, pulsante. Junto da irmã, Elinor parece uma morta-viva. Enquanto Marianne, ao ser comparada com a capacidade de autocontrole da irmã mais velha, beira a esquizofrenia.

O mundo descrito por Jane Austen é carregado de segredos e subterfúgios, envolto em preconceitos, muitos ditados pela ignorância. É a época da histeria feminina, do confinamento forçado que levava as moças às crises de nervos e que contribuía para o controle masculino sobre a sexualidade e o comportamento femininos.

Embora o tema central da obra sejam os relacionamentos homem x mulher, a escritora não descreve um único beijo, as pessoas mal se tocavam naqueles tempos de pudor, decoro e vigilância, mas a carga emocional das suas histórias de amor, ou da falta dele, dos casamentos de conveniência, das paixões sufocadas nas alcovas, longe dos olhos dos outros, traz uma energia tão forte como se ela tivesse descrito a cena de sexo mais desesperada. Só que tudo é feito em um tom comedido, polido e educado. Em linguagem dúbia e metafórica. Acredito que a crítica, a ironia fina da autora é mais presente justamente no que ela não diz, mas deixa subentendido.

O ato de dissimular é apresentado em todas as suas nuances neste romance. Elinor dissimula tudo o que sente, em certos trechos a protagonista beira a hipocrisia, e é por isso que seu contraste com Marianne é tão acentuado, porque a irmã mais moça é completamente transparente e muito imatura. No seu semblante, Marianne estampa ira, decepção, exuberância, alterna sentimentos, uma força da natureza, um exemplo clínico de distúrbio bi-polar.

O tempo inteiro, os demais personagens da trama são apresentados aos leitores pelos olhares díspares e ao mesmo tempo complementares das duas irmãs. Em alguns momentos, o descontrole de Marianne irrita tanto quanto a frieza de Elinor. Os julgamentos da irmã mais nova, sempre levada pela emoção, em alguns momentos são injustos e levianos. Os de Elinor, que têm mais justiça por sua capacidade de observar e compreender, flertam perigosamente com a intolerância, devido aos padrões éticos rígidos.

Já os personagens masculinos deste livro: Edward, Willoughby, coronel Brandon, também são uma incógnita. O primeiro, alvo das atenções de Elinor, aparenta fraqueza, indecisão, mas surpreende ao virar o jogo. O segundo, alegre, exuberante, sedutor, esconde um caráter dúbio e intenções duvidosas. Já o coronel, com 35 anos, considerado velho para os padrões da época, é comedido, sensato, sofrido e ao mesmo tempo um modelo de cavalheirismo, mas não deixa de ser passivo. Quem espera heróis intensos, se decepciona com as personagens masculinas de Jane Austen.

A sensação ao final de Razão e Sensibilidade é que para compreendê-lo é preciso mergulhar em toda a obra da escritora. Mas a leitura, para quem gosta de considerações filosóficas e de boas crônicas de época, é mais que satisfatória.

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21 pensamentos sobre “Resenha: Razão e Sensibilidade

  1. Ola Andreia, gostei muito da sua resenha, estou lendo esse livro e estou ansiosa para saber o final dessa história, gosto muito de Jane Austen, gostaria de uma opinião sobre o filme, pois , ao terminar o livro gostaria de assistir o filme , porém tenho receio de adaptações.
    Obrigada.

    • Oi Kelly,

      A adaptação para o cinema de Razão e Sensibilidade tem roteiro da fantástica Emma Thompson e é dirigido por Ang Lee. O filme é muito bom e muito respeitoso com o livro de Austen. Acredito que você irá gostar. Inclusive, uso imagens do filme para ilustrar essa resenha. Abraços!

  2. Andreia, lendo sua resenha fiquei emocionado. Chorei de alegria só de saber que sou contemporâneo e vizinho de uma pessoa tão inteligente e sensível como um Stradivarius.
    É um grande privilegio, saber que “aqui” por perto há pessoas como vc. Um grande abraço

  3. Estava procurando uma resenha da trama e não uma análise dos personagens. Achei a análise dos personagens subjetiva demais, para mim parece uma professora de literatura falando sobre a psicologia dos personagens dentro do contexto temporal. Não serve de nada para quem não assistiu ao filme ou leu o livro e não desperta interesse para assistir ou ler.
    Seria muito mais interessante se vc contasse um pouco da história, como por exemplo, vou inventar uma historia… A história se passa no século tal onde havia a figura da mulher que vivia em sociedade e precisava achar um marido antes que estivesse velha demais. O roteiro se baseia na história de 3 irmãs, uma assim, outra assada e a outra daquela personalidade. Elas vivem vários romances e um deles com um cavalheiro muito rico que se apaixona pela irmã mais velha levando as outras sentirem ciúmes e aprontam isso, aquilo… onde gira a trama da história… que termina com um final feliz pois apesar das … e das… srta X consegue superar as adversidades e… o ponto alto acontece quando ela lê um livro de poesias escrito por sua irmã e….
    Isso sim seria um exemplo qualquer de uma resenha!

    • Dilan, meu caro,
      Isso que você descreveu é uma sinopse. Resenha é outra coisa e pressupõe análise, crítica e avaliação. Se você estava precisando de um exemplo de resenha para fazer o dever de casa da escola, errou de endereço. Não sou professora de literatura, sou jornalista e me dedico à análise crítica de produtos culturais do meu interesse, só analiso aquilo que consumo. Além disso, aqui não é site de pesquisa escolar, é um blog pessoal, feito sem fins didáticos ou lucrativos, apenas para a minha diversão e a de quem mais se interessar em ler o que eu escrevo, respeitando a forma como eu escrevo. Para entender uma resenha, que é sim um texto carregado de subjetividades e com as informações objetivas diluídas no contexto, é preciso antes de mais nada ter sensibilidade como leitor. Algo que eu creio que você não tem, visto que tem a audácia de entrar no blog dos outros e escrever um comentário de tamanha petulância!

  4. Andreia, suas opiniões demonstradas na resenha do filme Razão e Sensibilidade são excelentes.
    Li o Romance e assisti ao filme (versão de 1995) e passei a admirar a Jane Austen. Ela conseguiu passar através de suas obras, a sociedade patriarcal e a vida das mulheres naquela época.
    Marcilene, Serra de São Bento, RN.

  5. Em relação ao filme assistido ” Razão e Sensibilidade” identifique, entre as personagens protagonistas, qual o comportamento baseado na razão e qual o compórtamento baseado na sensibiliodade? Justifique com exemplos. Ao final faça um breve resumo de qual conclusão chegou baseado no comportamento humanao em relaçãoa razão e a sensibilidade

    • Oi Claudia,

      Obrigada por visitar e comentar no meu blog, mas infelizmente não posso te ajudar. Acredito que o que você está pedindo é o enunciado de um trabalho escolar e portanto, você precisará fazê-lo sozinha. Este blog é uma página pessoal, é escrito por mim, que sou jornalista profissional e não professora de literatura. O objetivo do blog também não é ajudar estudantes com trabalho de casa. Este texto é uma resenha do livro Razão e Sensibilidade e como resenha é uma interpretação crítica pessoal e subjetiva, ou seja, eu li o livro e opinei sobre ele. Apenas uso fotos do filme para ilustrar o texto, e cito o filme no texto da resenha porque esta é uma excelente adaptação da obra de jane austen. Recomendo que, caso tenha dúvidas no seu dever de casa, fale com sua professora ou professor e esclareça suas dúvidas. Também recomendo que não copie o conteúdo deste blog (porque ele é protegido por direitos autorais e processarei na justiça quem me plagiar). Abraços e boa sorte no seu trabalho!

  6. Pingback: Sobre o início da paixão pela minha autora preferida « Não comente nada

  7. Tudo que foi relatado acima,foi de grande importancia pra mim.Gostei da analise sobre o livro.Obrigado pela ajuda que me proporcionou.

    • Oi Vitória,
      Fico feliz que tenha gostado! Só peço que, se precisar citar a resenha, cite também a autoria, porque meu conteúdo é protegido por direitos autorais e não pode ser copiado sem a citação da fonte. Abraços

  8. Pingback: A Gazeta de Meryton, 4 de abril de 2010 | Jane Austen em Português

  9. Pingback: Os filmes da semana 3 « Mar de Histórias

  10. Andreia,

    que pena que sua reportagem sobre Jane Austen foi abortada.
    Eu também gosto muito da versão de 1995 de Sense and Sensibility de Emma Thompson e espero ansiosa a minha versão 2008 para fazer uma comparação.

    abs,

    • Oi Raquel,
      Obrigada pela visita, mas quanto a reportagem, a pauta sofreu uma mudança e como entro de ferias, nao tive como continuar nela, daí deverá ser feita por um colega de redação.
      abs

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