Cismando com palavras. Ou, cada doido com sua mania

Tenho problemas com o adjetivo “querida” e, a depender do contexto, se me chamar de “minha querida”, antes a morte. É uma cisma, mas não gratuita. Querida (o), embora seja uma palavra bonita, que denota afeto, também é usada levianamente por gente que com os lábios te chama de “querida”, mas com os olhos diz exatamente o oposto. Mais que a língua, o olhar é que é o espelho da alma, como diz o famoso ditado. Raramente, uma pessoa dissimulada (e quem nunca conheceu ao menos meia dúzia de gente assim), consegue disfarçar o olhar. Os olhos são traidores por natureza, ainda bem.Se eles não traíssem seus donos de língua doce, dificilmente acordaríamos da ilusão a tempo de evitar o golpe final. Não digo que todos vamos viver em estado de paranoia constante, medindo as intenções de cada um por trás das suas palavras. Seria um inferno viver assim! Mas, com a intuição nata que todos possuímos -, alguns desenvolvem mais, outros menos, mas todos tem -, dá para saber que tipo de “querida” é lisonja e qual é falsidade.

Também não gosto que me chamem de “Coisinha” ou “Essa menina” ou “Fia”. Podem achar que é arrogância, mas me ofende profundamente alguém que sabe o meu nome me chamar de outra coisa que não seja Andreia ou seus apelidos, deia, deca, dedeca e outros mais que o nome permita. Reconhecer que sou um indivíduo e tenho uma identidade é prova de amor maior para mim do que um “minha querida” dito muitas vezes sem emoção.

Essa ‘filosofagem’ toda em torno do dicionário começou no Facebook, com meio metro de debate, como disse uma das amigas que animadamente participava do fórum. O estopim foi uma daquelas enquetes facebookianas. Essa pedia para você votar na opção que mais detestava que te chamassem. Tinha de tudo por lá: querido (a), man, brother e por aí vai. Votei em querido (a) e postei no meu perfil uma frase de um colega, que também detesta ser chamado de querido. O “desabafo” virtual gerou uma conversa bacana, em que uns defendiam o adjetivo querida com o ardor dos apaixonados (ganha meu respeito no ato quem defende suas convicções com tamanho empenho); enquanto outros aproveitavam o espaço para acrescentar à lista outros termos que não gostam. Algumas amigas, por exemplo, detestam que as chamem de “minha filha”. Confesso que a depender da situação está mais para desaforo que carinho. Outra amiga tem pavor de que a chamem de “binha”. Compreendo e sou solidária, é horrível!

As palavras mudam – Um dos amigos que mais admiro lembrou do quanto são volúveis as palavras e foi daí que, coletivamente, chegamos à equação palavras x intenção (olhar) lá do começo do post. Lembrei, fazendo o papel de advogado do diabo (alguém sempre tem de encarnar o personagem), que o perigo das palavras é justamente essa capacidade enorme de mimese que elas possuem. Ditadores mundo afora não me deixam mentir que as mesmas palavras usadas para libertar também servem para subjugar e aprisionar. É preciso manter os olhos da alma sempre abertos, de preferência limpinhos com bastante colírio, para não se deixar enganar pelo mau uso das palavras. Mais uma vez, por favor, sem paranoia!

Lembrei de um episódio da adolescência, no ensino médio. Tinha uma colega da nossa turma que só me chamava de Deinha. Mas assim de uma forma bem melosa, quase subserviente. Eu odiava! Primeiro porque detesto subserviência e em segundo lugar, porque aquele xodó todo tinha um interesse escondido: pesca (cola) nas provas de ciências humanas. Sem modéstia nenhuma, eu era muito boa em matérias de humanidades e a colega tentava me amaciar com muito dengo no “Deinha”.

Anos mais tarde, já formada e trabalhando em redação, conheci uma colega de trabalho que depois virou uma amiga muito amada, alguém com quem mantenho relações de afeto e respeito até hoje. Ela só me chamava, e ainda chama, de Deinha. Mas dessa vez, ao invés de irritação, o apelido soa como música.

Já tive uma chefe que só me chamava de Santana. Estranhava muito aquilo, me soava marcial demais e eu tenho uma certa aversão a quartéis e disciplinas militares. Com o tempo, desencanei, passei a chamá-la também pelo sobrenome, ou por outros apelidos. Percebi que havia respeito e não autoridade na forma como ela me tratava e busquei formas de tratá-la que também demonstrassem respeito, carinho e a admiração que eu sentia. Espero que tenha dado certo.

O grande xis vermelho no centro do mapa do tesouro dessa questão toda é o respeito. Respeito à diversidade de opiniões (como no fórum facebookiano), respeito às cismas e manias de cada um. Todos temos alguma e eu desconfio bastante de quem não admite ter nenhuma cisma, nenhum “defeitinho”. No fundo, a coisa resume-se àquela máxima que deveria ser aplicada com mais frequencia em outras situações que não um mero debate numa rede social: “posso até não concordar, mas me esforço para entender”.

Continuo cismada com “querida” e correlatas. Mas peço a essa tal de intuição interior, todos os dias, como numa oração pessoal, que me mantenha capaz de perceber quando o bendito adjetivo é sinônimo de carinho e quando é puro interesse. Mas sem me deixar paranoica. Do contrário, perderei a chance de receber – e retribuir – um outro sentimento, traduzido numa junção de quatro letras muito bonita: amor.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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8 respostas a Cismando com palavras. Ou, cada doido com sua mania

  1. B diz:

    Interessante isso, cara. Andreia, quero dizer. Eu cheguei aqui justamente procurando se alguém Google afora teria a mesma cisma que eu com o termo “querido/a”, e, surpreendentemente – sim. Já vi amigas minhas chamando o cara do correio de querido com um tom de impaciência, e ficou óbvio que era falso e um jeito de passar mais agradavelmente por uma formalidade com outro ser humano. Mas estes dias me chamaram de querida de novo, e eu não sei bem se é porque realmente sou querida, ou porque a pessoa se acha tão no controle da situação que não teme ou sente remorsos em distribuir elogios falsos pra chamar as pessoas para mais perto do seu negócio. Neste caso estou falando de colegas de profissão, mas que trabalham noutro ambiente, e onde às vezes contrato serviços. Ou seja, é uma questão de gostar da minha presença por quem eu sou, ou pelo prestígio e dinheiro que forneço? É um dilema!

    Por um lado não quero me sentir manipulada por um elogio barato, mas por outro não quero ser paranoica e achar terceiras intenções em algo que pode ser de fato espontâneo e sincero. Mas é que algumas pessoas se acostumam a ser simpáticas com quem não gostam tão espontaneamente que é difícil diferenciar. Não que seja esse o caso. Acho que só num próximo encontro presencial isso ficará mais claro…

    A mimese das palavras. A mesma beleza que anima a poesia também confere mel a intenções amargas! Ou até ao contrário. É sempre interessante tentar tirar a prova com outras atitudes, analisar todo o contexto antes de se sentir ofendido ou apreciado em demasia.

    Valeu pela leitura e reflexão!

    Abrax

  2. Eunice diz:

    Oi gostei muito do texto e pra mim o significado de querida não está na palavra dita e sim na pessoa que fala dependendo da pessoa o significado poderá ser bom ou ruim principalmente se vier da boca de uma mulher .

  3. Rosângela diz:

    Olá Andreia, eu pessoalmente uso a palavra querida e querido normalmente no meu vocabulário com pessoas próximas, do ciclo de amigos, família e até de trabalho, mas sou muito mal interpretada no início pois conheço várias pessoas que tem a mesma cisma que você. Eu pessoalmente sinto muito em ter que me “forçar” a não usar uma palavra tão bela, de forma sincera e natureal, para não desagradar outros. Na essência, me forçar a não usar é muito mais falso do que a usar naturalmente. A sinceridade está nos meus olhos e sorriso, pena que há um padrão rotulando demais as pessoas sem se deixar sentir a aproximação que pode trazer tão bons frutos. Parabéns pelo Texto. Abs.

    • Eu acredito, Rosângela, que as pessoas a quem você chama querida ou querido sabem reconhecer a naturalidade e sinceridade que emprega no uso da palavra. Minha cisma, como disse respondendo outra leitora, não é da palavra em si, mas de quem a usa sem critério. Beijos e obrigada por comentar no blog!

  4. Maria da Conceição S C de Almeida Krometsek.: diz:

    Olá Andreia: adorei o seu texto.
    Também tenho uma cisma com a palavra “querida” que acredito ter virado uma palavrinha fácil principalmente na boca dos vendedores das lojas dos Shoppings. Quando escuto, penso: “como posso ser querida de alguém que eu não conheço e que não me conhece, cuja única ligação é o seu desejo de me vender algo e com isso ganhar alguma comissão?” Outra palavrinha facilmente usada fora do contexto é “amor”. Em ambas as situações, a boca de quem as pronuncia diz uma coisa e seus olhos dizem outra – desligamento, descaso, entre outras. Conceição

    • Acho que nossa cisma, Conceição, nem é da palavra em si, mas do significado atribuído, melhor dizendo, da falta de significado para quem usa as palavras levianamente. Abraços e obrigada!

  5. Vanessa diz:

    Nossa, penso isso mesmo! A última pessoa que me chamou de “minha querida” e se dizia minha amiga do peito roubou meu namorado. Gostei muito do seu blog e vou voltar.

    • Oi Vanessa, que coisa chata que te aconteceu. Espero que você tenha superado e não tenha deixado de ter amigas verdadeiras e nem namorados mais sinceros. Obrigada pela visita ao blog e volte sim, sempre que tiver vontade. Abraços!

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