Resenha: O mundo perdido

Quando os dinossauros viraram deuses


Lançado em 1912, O mundo perdido é um clássico de aventura que mistura elementos caros aos apaixonados pelo gênero: diversos perigos que precisam ser superados, doses de humor, pitadas de um romance que parece impossível, diálogos pontuados por ironia e uma narração ágil e que prende da primeira à última página. Escrito por Sir Arthur Conan Doyle, o ‘pai’ de Sherlock Holmes, o livro, no entanto, precisa ser lido guardando as devidas proporções dos mais de 100 anos de sua concepção.

Embora tenha o mérito de ter introduzido os dinossauros na literatura e, a partir daí, eles tenham migrado para outras linguagens, virando ícones pop, o livro traz conceitos científicos que eram inovadores em 1912, mas que caíram em desuso há décadas e podem parecer esdrúxulos para quem é apresentado às suas páginas no século XXI. Ainda assim, vale como curiosidade histórica, pois retrata o pensamento e o comportamento de uma época. Além disso, entretém bastante e tem personagens divertidíssimos.

Arthur Conan Doyle, como bom britânico, ironiza esses comportamentos e ideias de seu tempo, embora seja fruto da sociedade em que viveu. Assim, o livro não traz, por exemplo, o protagonismo feminino – a participação das poucas mulheres na trama é bem modesta – e, de certa forma, tem aquele ranço colonialista – ‘o fardo civilizatório do homem branco’ -, mas que, na medida do possível para um escritor do final do século XIX e começo do século XX, o autor desconstrói e satiriza.

O mundo perdido começa com a história do professor Challenger, um zoólogo que encontra uma terra misteriosa povoada por animais pré-históricos na Amazônia e que, ao contar sua descoberta aos seus pares, em Londres, é ridicularizado e chamado de mentiroso. Um jornalista, Ed Malone, é incumbido de entrevistar Challenger, que vive recluso e tem histórico de agressões a repórteres. Situações a partir desse encontro dos dois levam à montagem de uma expedição de retratação, quando o foco da narrativa passa a ser a aventura propriamente dita e os dinossauros, sempre fascinantes em qualquer história; e nessa, Cona Doyle não esconde a mistura de encanto e medo que essas criaturas provocam.

Para comprovar se Challenger fez mesmo uma descoberta revolucionária ou se é um farsante, um comitê é criado para percorrer a mesma terra distante que o professor alega ter descoberto na Amazônia. Fazem parte do grupo o próprio Ed Malone, que vai cobrir a empreitada para o jornal onde trabalha; o professor Summerlee, também zoólogo e um dos mais céticos quanto à veracidade das descobertas; o bon-vivant John Roxton, que é esportista e caçador nas muitas horas ociosas dos membros da aristocracia – ele é também o mais mordaz e engraçado membro da expedição – ; e o próprio Challenger, homenzinho de temperamento difícil de aturar.

O quarteto vai esbarrar no meio da selva e, a partir daí, embora o livro tenha mais de 100 anos de publicado, se eu escrever mais alguma coisa, corro o risco de dar spoiler a quem nunca leu ou assistiu às muitas adaptações da obra para o cinema. Digo apenas que os intrépidos viajantes viverão situações que honram com louvor as narrativas de aventura.

A edição que li é da editora Todavia e tem tradução para o português de Samir Machado de Machado, também escritor e autor, entre outras obras, de Tupinilândia (resenhado aqui). Samir assina ainda um artigo no posfácio de O mundo perdido que ajuda o leitor atual a colocar esse livro em perspectiva.

Vale muito a pena ler o artigo após viajar pelas palavras de Conan Doyle. Além da brilhante aula sobre a apropriação dos dinossauros pela cultura pop e a mitificação dessas criaturas que um dia dominaram a Terra, o artigo de Samir reflete sobre as narrativas de aventura do século passado e seu papel na formação do caráter dos leitores daquela época, quando o heroísmo era supervalorizado na formação da personalidade dos garotos.

Na época em que o livro foi publicado, era senso comum que narrativas de aventura e obras de ficção científica, zoologia e ciências em geral não eram do interesse das meninas. No entanto, em seu artigo, Samir lembra que diversos fósseis de dinossauros foram descobertos por mulheres. A análise que ele faz da presença feminina nas obras de aventura, incluindo as do cinema, principalmente quando o gênero ‘filme de dinossauro’ e de monstros vira moda, rende bons insights.

O mundo perdido é de devorar às bocadas, como um T-rex comendo seu jantar. Mas também tem muita informação bacana para se ruminar placidamente, como um iguanodonte pastando nos campos verdes da aurora do mundo…

Confira um trecho:

“Escreverei sobre isso tudo um dia num relato completo, e entre essas jornadas mais emocionantes, incluirei esboços gentis de adoráveis entardeceres de verão, quando deitávamos em grande camaradagem na grama alta na orla da floresta, com o azul profundo do céu acima de nós, e nos maravilhávamos com os estranhos pássaros que passavam voando, e as criaturas esquisitas que se arrastavam para fora das tocas para nos observar, enquanto os ramos dos arbustos pendiam sobre nós, pesados de frutas suculentas, e abaixo estranhas e adoráveis flores nos espiavam por entre as folhagens; ou aquelas longas noites de luar em que nos deitávamos contemplando a superfície brilhante da grande lagoa, e assistíamos com assombro e temor grandes círculos ondulando pelo súbito emergir de um monstro fantástico; ou o brilho esverdeado, bem lá no fundo da água, de alguma estranha criatura nos confins da escuridão. Essas são as cenas que minha mente e minha pena se dedicarão a descrever em cada detalhe em um dia futuro”.
(Arthur Conan Doyle, ‘O mundo perdido’, pág. 220, Editora Todavia, 2018, São Paulo – SP)

Ficha Técnica:

O mundo perdido

Autor: Arthur Conan Doyle

Tradução: Samir Machado de Machado

Editora: Todavia

296 páginas

*R$ 39,09 (site Americanas, em 09/07/2020)

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