Resenha: Tupinilândia

Sobre memória afetiva, história e a capacidade de rir da própria miséria

Tupinilândia é uma colagem de referências culturais, históricas e afetivas. Para aqueles leitores que já chegaram ou estão próximos dos 40 anos, o livro é um deleite e uma forma divertida de revisitar o passado com um olhar mais crítico e, ao mesmo tempo, debochado. O público mais jovem também pode se envolver com a história de Samir Machado de Machado, porque a prosa do autor tem doses de humor, aventura e sarcasmo que são atemporais. Além disso, mesmo com graça, o livro joga na cara de quem lê algumas verdades inconvenientes sobre a natureza humana e sobre o Brasil, esse país continente cheio de peculiaridades.

Na essência, é um livro para quem foi criança ou adolescente nos anos 1980 e para quem é leitor tanto das distopias clássicas – ‘Admirável Mundo Novo’ (Aldous Huxley) e ‘1984’ (George Orwell) – quanto das modernas – ‘A caverna’ (José Saramago) e ‘O Conto da Aia’ (Margareth Atwood). Também contempla os fãs de Steven Spielberg – faz referências maravilhosas a ‘Jurassic Park’ – e de clássicos da Disney,  como o magnífico ‘Fantasia’. 

A nostalgia dita o ritmo da história, mas nem essa “saudade idealizada” é isenta de uma interpretação mais irônica dos fatos. Quem sobreviveu aos anos 1980, uma década irresponsável em diversos sentidos, como bem lembra o autor, sabe bem. O contexto é o Brasil desde os últimos anos da ditadura militar e a expectativa pela primeira eleição democrática depois de 21 anos de regime repressor, até os dias atuais. 

Na verdade, a história se divide em três tempos históricos e mistura personagens reais e fictícios: o Estado Novo, ao relembrar os anos 1940 e a visita de Walt Disney e de El Grupo – os artistas de animação que embarcaram com o chefe para uma turnê na América Latina – ao Rio de Janeiro, durante a II Guerra, quando o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt buscava aliados contra o Eixo e flertava com Getúlio Vargas que, por sua vez, arrastava as asas para os nazistas; os anos 1980, com toda a efervescência das Diretas Já, o começo da epidemia de AIDS e os anseios da juventude da época; e 2016, pouco depois do impeachment de Dilma Rousseff, com as consequências desastrosas para o país a partir daí, inclusive a ascensão de grupos de inspiração fascista que transformaram o debate político no país em campos de ódio.

Tupinilândia prende o leitor tanto pela seriedade com que trata os temas históricos, mas sem ser sisudo, quanto pela grande aventura, com ritmo de filme de ação, que tira o fôlego. O fato do autor conseguir costurar tantas referências e ao mesmo tempo criar uma história nova, fresca e divertida é um bônus nessa leitura que certamente vai enriquecer o olhar do leitor sobre o Brasil e suas dicotomias. Não somos uma nação para amadores, como bem dizem os muitos memes que pipocam na internet. E o humor de Tupinilândia é aquele extraído tanto das bizarrices dos anos 1980 quanto da linguagem digital atual.

A história e os personagens

O livro conta a história do empresário João Amadeus Flynguer, cinéfilo e apaixonado pelas obras de Walt Disney. Ele decide construir um complexo de parques de diversão e uma cidade futurista e utópica no coração da Amazônia, no final da ditadura militar e com a tecnologia da época, o que por si só já garante boas risadas, se compararmos o que era a ideia de futuro dos anos 1980 (basta lembrar as geringonças de ‘De Volta para o Futuro’) com o que sabemos hoje. Ex-pracinha da FEB (Força Expedicionária Brasileira) durante a II Guerra Mundial e megalomaníaco, além de podre de rico, Flynguer quer construir um Brasil idealizado e perfeito na sua Tupinilândia, uma Disney particular onde pretende experimentar um modelo de civilização que, embora vise neutralizar a tirania, não deixa também de ser tirânico.

A inspiração de Flynguer para construir a cidade idealizada é uma utopia real que deu errado, Fordlândia, a cidade que Henry Ford construiu na Amazônia no final dos anos 1920 para explorar a borracha nativa. Samir Machado de Machado, por sua vez, se inspira no livro ‘Fordlândia’, de Greg Grandin (leia a resenha) para escrever Tupinilândia. E, assim como ‘Fordlândia’, que é um livro-reportagem, ele foi criterioso na pesquisa. 

O livro traz uma miríade de personagens, alguns fascinantes, outros admiráveis, e também os execráveis, como os generais integralistas que não querem o fim da ditadura. João Amadeus é pai de Helena, executiva que é uma versão brazuca da ex-premiê britânica Margareth Tatcher, e de Beto, o jovem cinéfilo e amante das artes  e da boa vida de milionário e a quem o autor entrega as melhores tiradas do livro. 

Beto é o ex-namorado de Tiago Monteiro, um jornalista investigativo que perdeu o pai para os porões da ditadura e é contratado por Amadeus para escrever a ‘biografia’ da sua cidade idealizada. Flynguer tem ainda três netos, trigêmeos de 11 anos e filhos de Helena. As crianças são o resgate da memória real e da idealização de Samir para a infância nos anos 1980.

Na terceira parte do livro, já nos dias atuais, completam o time de protagonistas, o arqueólogo Arthur, pai da destemida Lara (a referência a Lara Croft não é mera coincidência) e de Arthurzinho, que namora o geek Benjamim, um garoto irritantemente inteligente e lutador de artes marciais. Arthur, na casa dos quarenta e poucos anos, foi uma criança dos anos 1980 e é especialista em arqueologia urbana e em estudos sobre nostalgia. Obcecado pela história de Tupinilândia, ele envolve a família em uma conspiração hollywoodiana, ao decidir investigar o que aconteceu com a cidade utópica e os parques construídos por Flynguer.

Os personagens coadjuvantes, tanto mocinhos, quanto vilões, em outra clara referência ao maniqueísmo oitentista, também são muito bem construídos pelo autor. Nenhuma referência a livros, filmes, brinquedos, animações ou aspectos culturais em Tupinilândia é feita ao acaso e sem a contextualização que encaixa cirurgicamente na narrativa, dando agilidade à história e passando a quilômetros de distância do didatismo pedante. 

Samir é um bom leitor de livros, gibis, filmes, músicas, como ele mesmo admite nos agradecimentos do livro, e da realidade que o cerca desde a infância. Esse acervo mental do autor é definitivo na composição de seu romance. Um leitor mais atento percebe as entrelinhas de uma história bem contada, principalmente quando o autor tem confiança no que diz. Já comentei em outras ocasiões e volto a afirmar que livro bom também é aquele em que percebemos que o autor se divertiu muito escrevendo, mesmo que dê um trabalho enorme costurar com perfeição e sem pontos aparentes como Samir faz. Também nesse quesito, Tupinilândia tem um trabalho de alfaiataria que beira a perfeição e nem de longe lembra as esquisitas e cafonas ombreiras de antigamente.

Um trecho:

“- Tu não entendes, João. Esse não é o lugar nem a forma… não é algo que se cobre ingresso pra entrar, como se o delegado Fleury fosse a macaca Monga. Isso é a nossa realidade atual. Essas pessoas existem e vieram de algum lugar bem próximo. O problema dos nazistas do Indiana Jones não é o maniqueísmo porque, porra, são nazistas, hoje em dia são mais um símbolo do que uma coisa real. Mas a questão é que, se tirar o elemento humano e transformá-los em caricaturas, tu perdes o que torna possível identificar essa gente e essa mentalidade no nosso dia a dia. Porque o regime militar vai acabar, mas a mentalidade autoritária e paranoica que gerou tudo isso é atemporal.

– Essa gente torturou criança na frente dos pais, enfiava rato em mulher, e você acha que eles devem ser tratados com alguma forma de respeito? – João elevou a voz.

– Não foi isso que eu disse, tu não estás entendendo. 

– Sabe como foi o processo de desnazificação da Alemanha? – perguntou João. – Os aliados fotografaram os cadáveres dos campos de concentração e os puserem em cartazes nas cidades. “Quem é o culpado disso?” A pessoa se aproximava para ler e estava escrito: “VOCÊ é o culpado disso!”. Então pegavam alemães na rua aleatoriamente, homem ou mulher, e os levavam pra enterrar os corpos. Pra esfregar a cara deles naquilo que tinham feito por omissão ou conivência.

– É uma situação diferente. E é um pouco de exagero traçar uma comparação aqui…

– Mas você mesmo já a traçou. Naquele seu artigo, lembra? – disse o velho. – Entenda uma coisa, rapaz, nenhum regime autoritário de terror se instaura sem conivência de uma parcela da população. Quando os militares fizeram a tortura ser uma política de Estado, eles transformaram os torturadores em “intocáveis”. Pra isso acontecer num sistema burocrático como o nosso, foi preciso a conivência de juízes, dando credibilidade a processos absurdos, de advogados dando crédito e ares de legalidade, foi preciso ter ajuda de médicos e enfermeiras nos hospitais fraudando autópsias e falsificando laudos, foi preciso ter gente com dinheiro no bolso no empresariado, financiando essa máquina toda. E claro, civis que espionassem e denunciassem voluntariamente. Essa violência de que você fala já foi normalizada, institucionalizada, burocratizada. Pegá-la e transformar num circo de horrores grotesco é uma forma intencional de tirar dela essa máscara de normalidade.”

(Samir Machado de Machado, ‘Tupinilândia’, págs. 166 e 167. Editora Todavia, 2018, São Paulo – SP)

Ficha Técnica:

Tupinilândia

Autor: Samir Machado de Machado

Editora: Todavia

448 páginas

*R$ 48,69 (livro em papel, capa comum) e R$ 43,00 (Kindle)

*Pesquisado na Amazon em 28/06/2020

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3 pensamentos sobre “Resenha: Tupinilândia

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