Literatura, Resenhas

Resenha: Para Educar Crianças Feministas

Para Educar Crianças Feministas, de Chimamanda Ngozi Adichie, é um diálogo da autora consigo mesma e, de certa forma, com as mulheres da sua geração. Embora escrito em forma de carta para uma amiga que lhe pediu conselhos para educar a filha recém-nascida, o livro, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, trata, principalmente, de um auto-exercício de desconstrução de preconceitos, medos e tabus. A sensibilidade do relato vai além da doutrinação, embora educar para o feminismo – e não apenas meninas, mas meninos também – seja uma necessidade urgente na nossa sociedade.

Dividida em tópicos, a carta da autora oferece o vislumbre de sua capacidade em observar a realidade ao redor, com senso crítico e espírito aberto. O que pode ser inspirador para as mulheres comuns, ainda mais que a escritora é uma pessoa pública e famosa. O fato de ser uma mulher negra falando para vários públicos, traz todo um empoderamento às jovens afrodescendentes.

Chimamanda conversa com sua amiga de seu lugar no mundo, o de mulher cisgênero, heterossexual, africana, criada nas tradições da cultura igbo, na Nigéria, um país que, como boa parte das nações africanas emergidas da diáspora, é uma grande colcha de retalhos de povos e religiões. Ler esse livro exige mais que um exercício de empatia de outras mulheres, principalmente daquelas de outras culturas e etnias, sobretudo das brancas. É preciso abrir-se para enxergar o mundo de Chimamanda, porque é a partir desse mundo que ela desenvolve crenças e pensamentos. Com todo mundo é assim, aliás. Usamos nossas lentes pessoais, moldadas pela educação recebida, e vamos adaptando e evoluindo com as experiências.

Escrito em linguagem simples, informal, franca, sem as citações ou autores mais complexos para o leitor médio, Para Educar Crianças Feministas é necessário na sua simplicidade, inclusive para quem já está em estágios mais avançados de conhecimento ou militância. E isso porque trata de coisas cotidianas. Fala da educação doméstica, da realidade infantil, mostra às mães e aos pais – e a qualquer responsável pela educação de uma criança -, como os preconceitos acabam naturalizados e de que forma podemos impedir essa naturalização de crenças absurdas como a de que as meninas são inferiores, frágeis, menos inteligentes e precisam dos meninos para resolverem tudo!

Movimento político e social que busca a emancipação feminina e a igualdade de direitos entre mulheres e homens, há muito o feminismo deixou de ser cânone único e imutável, para traduzir-se em múltiplas realidades e intersecções. Ao menos, cada vez mais as mulheres percebem que precisam se organizar respeitando suas diferenças, mas principalmente, unidas pelo objetivo de lutar contra as opressões em comum. A situação ainda não é a ideal e seria ingenuidade não reconhecer que tanto existem conflitos internos quanto grupos que, embora se digam feministas, na verdade tentam desacreditar o movimento.

No livro, a autora tece suas críticas ao que chama de ‘feminismo light’, muito em voga na sua Nigéria natal e que não busca a conquista de direitos, mas uma espécie de “autorização masculina”. O próprio machismo tem sutilezas que requerem atenção constante não apenas no discurso, mas nas posturas diárias. A autora reconhece que nem toda mulher é simpática ao feminismo e nem todo homem é misógino. E no entanto, afirma que o fato de ainda existirem mulheres que rejeitam o feminismo ou homens que são simpáticos à causa, não muda em nada a necessidade do movimento existir e colocar em discussão suas pautas de reivindicação.

Mulheres sofrem com o machismo, e com tudo o que dele é derivado, em qualquer lugar do mundo, mas existem situações inerentes a cada grupo que precisam ser levadas em conta nas estratégias de combate. Diferenças essas que, ao contrário de nos afastar, devem oferecer possibilidades de compreensão e apoio na diversidade.

E o último tópico da carta de Chimamanda é o de colocar-se aberta a entender e respeitar essa diversidade, mesmo que ela parta da premissa de que a bebê da amiga será uma mulher heterossexual. Desconstruir a visão binária ainda é um desafio para muitas pessoas, inclusive militantes esclarecidos como a escritora. Mas o que acho interessante nesse trecho do livro é o conselho dado à mãe da menininha: que ela crie a filha respeitando as identidades de gênero e orientações sexuais das pessoas que conhecer ao longo da vida. Muita dor no mundo seria evitada com respeito.

Cada tópico levantado por Chimamanda em Para Educar Crianças Feministas traz questões nas quais os leitores podem pensar de acordo com suas realidades pessoais. Não se trata de ditar regras de comportamento, mas de sugerir uma autoanálise crítica. O livro, como é dito logo na introdução, dialoga com outro manifesto da autora, Sejamos Todos Feministas, que, por sua vez, deriva da palestra no TEDx. O objetivo das duas obras é desmistificar o feminismo, mostrar que assim como tudo na vida, os conceitos desse movimento evoluíram com o tempo e ainda estão em constante evolução para abarcar o máximo possível da diversidade das muitas vivências do feminino.

A intenção, acredito, é um mundo justo, igualitário e acolhedor para todas as pessoas. E nada mais coerente que a literatura, essa chave-mestra que abre todas as portas da consciência, dê sua contribuição!

>>Leia trecho no site da editora (arquivo em PDF)

Ficha Técnica:

Para Educar Crianças Feministas: Um manifesto

Autora: Chimamanda Nzogi Adichie

Tradução: Denise Bottmann

Editora: Companhia das Letras

96 páginas

R$ 14,90 (pesquisa na Saraiva Online em 15/04/17)

 

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