O desconforto de Black Mirror nos persegue desde a antiguidade (sem spoilers)

black-mirrorHá quem diga que não tem mais volta e que o emaranhado das redes onde nos enredamos na vida virtual tende a embaraçar ainda mais. Tendo ou não volta – e para além dos usos necessários ou das inutilidades da internet -, refletir sobre a própria existência e seus rumos é da natureza humana. O segredo da popularidade de séries como Black Mirror reside no farto material de análise que esse tipo de programa oferece. A humanidade é narcisista e gosta de ver a si mesma refletida, mesmo que a imagem seja assustadora. Somos eternos narradores de nós mesmos.

Com a estreia da terceira temporada na rede Netflix, no dia 21 de outubro, mais seis episódios somam-se aos sete anteriores, colocando novas peças no grande mosaico da decadência ética e moral da civilização, na mesma proporção do seu crescimento tecnológico. O cerne da questão é o mesmo mal estar que preenche tratados filosóficos desde a antiguidade e que resume-se, ao menos para os mais pessimistas, na premissa de que o ser humano é um projeto que não deu certo desde a origem.

As histórias dessa terceira temporada estão mais melancólicas, angustiantes e nostálgicas de um porvir com menos amargura, que talvez nunca chegue. As fontes de inspiração dos roteiristas mantém-se as mesmas (Aldous Huxley, William Gibson, The Twilight Zone), com acréscimos recentes, como as séries Mr. Robot e Stranger Things, essa última também produzida pela Netflix.

Até os supostos ‘finais felizes’ ou as ‘lições de moral’ dos novos episódios dessa terceira fase de Black Mirror trazem a indelével marca do fracasso humano em usar a tecnologia a favor de interações afáveis e verdadeiras. Evoluímos cientificamente, mas o egoismo e o egocentrismo seguem pautando boa parte das ações humanas. Nesta série, a rede virtual é um reflexo preciso da nossa realidade distorcida. E é por isso que as histórias causam um incômodo palpável. O espelho negro nos reflete do jeito que somos. Não se trata de imaginar um futuro distópico e sinistro, a realidade, infelizmente, já é terrível.

Cada um dos episódios da nova temporada se debruça sobre questões que vão do nosso desejo de imortalidade à sede de controlar o ambiente de forma quase compulsiva. Queremos ser grandes, ansiamos pela eternidade, já que nosso tempo por aqui é fugaz. O medo de deixar de existir é o que torna algumas pessoas bem mesquinhas. Em busca de mais tempo, mais sensações, mais amor, o preço exigido é a desunamização. E há quem se disponha a pagar essa conta.

Dos linchamentos virtuais e suas consequências imprevisíveis à carência afetiva profunda, preenchida por likes mais falsos que notas de três reais, que ainda assim geram uma perseguição obsessiva por notoriedade; passando pela busca por sensações que afugentem o  tédio – ou a dor das perdas – da existência (incluindo servir de cobaia para experimentos nebulosos). Todas as doenças da sociedade pós-contemporânea estão em Black Mirror.

O peso das histórias dessa série serviria de alerta para o que estamos nos tornando e até como um sinal de pare aqui, dê a volta, comece tudo de novo, que ainda dá tempo de vocês serem salvos. No entanto, a visão dos criadores de Black Mirror não é condescendente com crenças mais ingênuas. A sociedade não tem mais jeito. Ao terminar a última história só nos resta fechar a tampa do ataúde: R.I.P. humanidade!

Sinopse dos seis episódios da temporada (sem spoilers):

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Perdedor – as consequências de viver em eterna busca por likes que escondem carências e desejos de aceitação. Situações constrangedoras, beirando o patético, e absurdamente próximas do nosso cotidiano de usuários de redes sociais. O final é tido como decepcionante por uns e catártico para outros.

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Versão de testes – é uma mistura de ficção científica com terror, quase uma Stranger Things, mas sem aquela aura nostálgica dos anos 80. O protagonista faz uma viagem de mochilão pelo mundo, fica sem dinheiro e se voluntaria para testar um game.

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Cala a boca e dança – nesse episódio, os roteiristas beberam na fonte de Mr. Robot e na ideia de hackers que decidem fazer justiça à revelia do sistema. O final tem um plot twist bem interessante.

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San Junipero – melancólico e lindo. Trata com bastante delicadeza de temas como a fugacidade da vida,  o medo da morte no sentido de aniquilação da consciência, da nossa eterna busca por amor e por sermos aceitos e respeitados em nossa diversidade.

engenharia-reversa

Engenharia reversa – Com atmosfera apocalíptica, lembra o filme Gattaca (Andrew Niccol, 1997, EUA). Trata de alteridade e empatia, ou da falta desses dois sentimentos. Uma crítica ácida às políticas de intervenção militar e de segregação.

Black Mirror S1 EP5-6

Odiados pela nação – Também mira nas redes sociais e na questão dos linchamentos virtuais. Usa elementos das famosas séries de investigação criminal, com agentes hiper treinados e equipamentos de ponta usados para investigar assassinatos misteriosos.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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