Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 16 – Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas (José Saramago)

“O homem chama-se artur paz semedo e trabalha há quase vinte anos nos serviços de faturação de armamento ligeiro e munições de uma histórica fábrica de armamento conhecida pela razão social de produções belona s.a, nome que, convém aclarar, pois já são pouquíssimas as pessoas que se interessam por esses saberes inúteis, era o da deusa romana da guerra.”

Alabardas

O livro Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas, de José Saramago, foi o escolhido para a leitura dos dias 13 e 14/08/16, na tag #1livroporfinaldesemana. Este era o livro em que Saramago trabalhava antes de morrer, em junho de 2010. A obra ficou inconclusa, com apenas três capítulos, e foi lançada como homenagem póstuma ao autor.

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

Alabardas, alabardas, Espingardas, espingardas só tem três capítulos e ainda assim, descortina um mundo de possibilidades na mente do leitor. Que rumos essa história iria tomar? Qual seria o destino de artur paz semedo? O que ele descobriu nos arquivos da belona s.a mudaria o rumo da fábrica ou da humanidade? Nunca saberemos! Mas isso não significa que seja proibido imaginar. O barato da leitura também está na sobrevida que o leitor dá aos personagens e conflitos, para além da história contada.

O triste em Alabardas, alabardas… é que quando a história começa a engrenar, ela termina. Mas, pessoalmente, considero o livro como a oportunidade de testemunhar o desejo de um autor que tinha muito a dizer, de legar suas últimas palavras a quem estiver disposto a lê-las. E essas palavras possuem grande força, moldadas pelas crenças filosóficas humanistas que pautaram boa parte da vida e da obra de José Saramago.

Alabardas, alabardas… tinha a intenção de ser uma alegoria sobre a violência, usando como pano de fundo uma fábrica de armamentos pesados de origem milenar e que esteve envolvida, como fornecedora principal de mecanismos de destruição em massa, em boa parte das guerras travadas pela humanidade.

A indústria bélica era preocupação do escritor e o acirramento das hostilidades no mundo globalizado e desigual, temas recorrentes de seus artigos e das postagens em seu blog Cadernos de Saramago.

A história da belana s.a e de seu rastro de sangue é contada a partir de um funcionário da fábrica, artur paz semedo (em minúscula para respeitar a grafia adotada pelo autor), um homem aparentemente sem muitas ambições, metódico, burocrático e meio neurótico. Ele me lembra muito, por conta da solidão crônica e da neurose, de outros personagens icônicos de Saramago, como o escriturário Sr. José, de Todos os Nomes, ou o professor Tertuliano Máximo Afonso, de O homem duplicado.

Nos três únicos capítulos do livro conhecemos a rotina de artur, sua relação desconfortável com a ex-esposa, uma militante pacifista, e um pouco da história da belona s.a. Difícil imaginar uma fábrica que traz morte e destruição ser construída sem máculas no passado.

Após as apresentações e contextualizações, o conflito do romance seria desenvolvido a partir de uma tarefa que artur recebe do chefe supremo e herdeiro da belona s.a: fazer uma pesquisa nos arquivos da empresa, que ficam no subsolo do edifício. Não à toa esse subsolo remete a sinistras catacumbas. Daí para a frente, nunca saberemos o que acontece e só dá para imaginar os sórdidos segredos que artur desenterrou das pilhas de fichários.

Para complementar a edição póstuma do livro, três textos, assinados por Fernando Gómez Aguilera, Luis Eduardo Soares e Roberto Saviano, analisam essa intenção de romance e o inserem na bibliografia saramaguiana. Vale muito a pena ler esses artigos.

Os trechos finais, avulsos, reúnem as anotações do escritor enquanto preparava o romance e demonstram que a morte de Saramago impediu a conclusão do livro, mas não teve o poder de apagar seu legado. Esses trechos revelam ainda o medo diante da possibilidade de desaparecer antes de concluir essa última, e talvez, mais valiosa mensagem. Para seus admiradores, é bem doloroso perceber nas entrelinhas sua luta contra a debilidade provocada pela doença.

O consolo com a leitura de Alabardas, alabardas… é que, mesmo incompleta, a última mensagem de Saramago nos chega arrebatadora, desconcertante e, em tempos de renascimento de ideias totalitárias mundo afora, necessária!

Ficha Técnica:

Alabardas - CapaAlabardas, alabardas, Espingardas, espingardas

Autor: José Saramago

com textos de: Fernando Gómez Aguilera, Luis Eduardo Soares e Roberto Saviano

Editora: Companhia das Letras

112 páginas / R$ 29,90 (pesquisado no site da Companhia das Letras em 17/08/16)

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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