Presos do outro lado do espelho negro

Black-Mirror-Daniel-Kaluuya

Descobri recentemente, graças à indicação de minha irmã, Black Mirror, série britânica de 2011 criada por Charlie Brooker. Após a maratona intensa para assistir aos sete únicos episódios existentes, já estou ansiando por mais. A série tem despertado interesse global graças à Netflix, que além de ter incorporado ao seu acervo as duas temporadas (com três episódios cada) e o filme bônus especial lançados até agora, pretende bancar uma terceira etapa da produção, com novas histórias. Não vejo a hora da estreia!

Unindo humor sarcástico – e um tanto depressivo – com futurismo distópico, Black Mirror bebe em grandes goles nas fontes de Aldous Huxley e William Gibson. Os episódios já lançados são uma mistura acertada da bíblia das distopias contemporâneas, Admirável Mundo Novo, com Neuromancer, ícone máximo da cibercultura. Completa as referências um perfume da igualmente icônica Além da Imaginação (The Twilight Zone), série de 1959 com histórias que mesclavam ficção científica, terror, suspense e fantasia.

Black Mirror 2

Jon Hamm, de Mad Man, é protagonista de uma das histórias

Cada episódio de Black Mirror conta uma história diferente, com começo, meio e fim. Os temas centrais dos episódios oscilam entre paranoia tecnológica, com a humanidade cada dia mais escravizada pela necessidade de hiperconexão, e questões éticas e morais daquelas de tirar o sono. Algumas das histórias mexem com questões profundas como a solidão em meio à febre de consumo, a objetificação das pessoas e das relações, corrupção, manipulação midiática, sociedade do espetáculo, falta de escrúpulos, medo da morte, etc. Não é o melhor espelho da humanidade, é a face abissal e tenebrosa que raramente queremos confrontar. É o lado b da existência.

Abaixo, uma pequena sinopse (sem spoilers) de cada um dos episódios:

The National Anthem – Esse é o episódio de estreia. Minha irmã me advertiu que não desistisse da série depois de ver esse, porque ele é bem pesado. Em mim, e numa amiga para quem indiquei Black Mirror, esse particularmente doeu bastante porque, além de ser o mais “vida real e atual” dos sete, ainda toca no calcanhar de aquiles das duas, o jornalismo. A história é a seguinte: o primeiro-ministro britânico precisa se submeter a uma bizarra humilhação em público, que deverá ser transmitida em rede nacional, para salvar a vida de um membro da família real super popular nas redes sociais e que foi sequestrado. Os dilemas éticos e morais do ato que o ministro terá de cometer até chocam, e muito, mas a série cutuca feridas ainda mais profundas. Encare esse com a certeza de que vai levar um soco no estômago daqueles de tirar o ar…

Fifteen Million Merits – Nessa história, uma das mais “aldoushuxlianas” da série, os seres humanos vivem confinados, como ratos de laboratório, e precisam pedalar para gerar a energia consumida no planeta. As pedaladas também rendem créditos para a compra dos itens de “sobrevivência”. Para ascender na escala social e sair das humilhantes bicicletas, é preciso conquistar muitos bônus e comprar o ticket dourado para o Hot Shot, uma espécie de American Idol, só que numa versão do mal. Os temas tratados aí vão da humilhação ao consumo desenfreado de inutilidades, passando pela pasteurização da cultura e o efeito manada…

The Entire History of You – Um dispositivo implantado atrás da orelha das pessoas permite registrar o dia a dia delas, salvando cenas, diálogos e fatos em arquivos de memória que podem ser acessados depois, assistidos pelo dono e até compartilhados entre amigos, ou mesmo usados em seleções de emprego. Até parece uma hiper rede social, como as muitas existentes atualmente e que conhecemos bem, só que implantada no corpo do usuário. A questão chave desse episódio é que tem coisas que talvez a nossa memória apague porque é melhor que permaneçam ocultas…

Black Mirror

Be Right Back – Um casal jovem. Um marido que é viciado em internet e passa o dia usando redes sociais e uma esposa carente de atenção e visivelmente frustrada. Esta é a história ambientada em um futuro muito parecido com aquele mostrado em A.I (Inteligência Artificial), onde a interação humanos-máquinas é cada vez maior. Mas será que a tecnologia supre a ausência de contato humano?

White Bear –  O episódio mais opressivo, com situações que beiram o sadismo de filmes como Jogos Mortais. Não dá para contar muito da história sem revelar spoilers, mas vale saber que ela mostra de que forma a sociedade lida com atos violentos e como as pessoas se sentem no direito de serem as juízas e as carrascas umas das outras. Em tempos de linchamento via internet acontecendo a três por dois por divergências ideológicas e de coberturas sensacionalistas que espetacularizam a violência, prepare o coração…

The Waldo Moment – É o mais politizado e sarcástico dos episódios, e traz questões como manipulação ideológica e política, a infantilização dos adultos atuais,  a alienação da sociedade, que abre mão de exercer a cidadania, e o advento do conservadorismo no cenário mundial, com partidos cada vez mais radicais e totalitários ascendendo ao poder, apenas porque as pessoas parecem ter deliberadamente aberto mão de usar o senso crítico. Em meio a uma disputa eleitoral, um comediante, que dá voz ao urso azul Waldo, um personagem de humor irônico, desbocado e debochado, se vê às voltas com os bastidores da política e o lado mais podre do poder…

White Christmas – O “especial de Natal” de Black Mirror tem a mesma atmosfera desiludida e sombria do micro conto Nicholas Era, de Neil Gaiman.  Não espere papais noeis fofinhos em um futuro onde o que é real e o que é realidade virtual se confundem a ponto de as pessoas sequer perceberem que estão abrindo mão de sua humanidade em nome de um progresso tecnológico assustador…

Bônus Track:

*O elenco de Black Mirror é fantástico!

*O nome da série deriva da tela negra dos smarthpones, tablets, monitores e afins.

*Robert Downey Jr. tem interesse em transformar o episódio The Entire History Of You em argumento para o roteiro de um longa-metragem.

*Stephen King virou fã da série após assistir os episódios no Netflix

*A série ganhou o Emmy Internacional em 2012.

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
Esta entrada foi publicada em séries com as etiquetas , , , , , , , , , , . ligação permanente.

Uma resposta a Presos do outro lado do espelho negro

  1. Pingback: O desconforto de Black Mirror nos persegue desde a antiguidade (sem spoilers) | Mar de Histórias

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s