Baú de Histórias, Crônicas, História, Querido Diário

Meu nome é Jones, Indiana Jones!

galileuTem criança que sonha em ser astronauta. Eu queria desenterrar o passado. Até a metade da adolescência, quem me perguntasse minha profissão do futuro, eu respondia sem pestanejar: paleontóloga e arqueóloga. O que me dava imenso prazer era ler enciclopédia antiga, com cheiro de guardado, páginas amareladas e mundos de outrora a revelar. E também gostava de revistas científicas que falavam sobre o megatério e outros animais gigantes e extintos, que viveram na aurora do planeta. Junto com a Capricho, gostava muito da Ciência Hoje, que naquela época era uma revista cara para os meus padrões, mas que minha mãe comprava sempre que possível.

Também era fascinada por Indiana Jones (A última cruzada foi o primeiro filme que assisti sozinha no cinema), por causa do Harrison Ford, lógico, e porque o personagem fazia tudo aquilo que eu imaginava que arqueólogos deveriam fazer. Tirando a parte de enfrentar bandidos e conspirações nazistas.

Era sonhadora, do tipo que falava sozinha no quintal, inventando vozes e filmes que aconteciam na minha cabeça, mas não era boba. Sabia separar a ficção da realidade e entendia que os arqueólogos de verdade não tinham aquele chicote e chapéu maneiros. O que era lamentável!

Mas, por causa das enciclopédias, revistas, almanaques, etc., que lia vorazmente, sabia, por exemplo, que alguns pesquisadores que descobriam tumbas de antigos faraós no Egito, morriam tempos depois de doenças bizarras, por conta das bactérias no ar pestilento dos mausoléus. E foram essas mortes que deram origem a muitas das lendas sobre a ‘maldição da pirâmide’.

Em casa havia uma coleção com a História das grandes civilizações do passado e, junto com meus livros da escola, essas surradas enciclopédias viajavam comigo para o sítio de um tio, nos finais de semana. Enquanto os primos brincavam ao ar livre, eu estudava para as provas ou lia minhas enciclopédias confortavelmente deitada numa rede da varanda.

Em 1989, Pedro Bial (anos luz antes do Big Brother) fazia a cobertura da queda do Muro de Berlim para o Jornal Nacional. Eu tinha 15 anos. Assisti a matéria e, até onde a memória não me trai, acho que foi uma das poucas vezes em que acompanhei o noticiário com interesse. Nessa época, eu já começava a assistir o jornal feito ‘gente grande’, porque quando era menor, rolavam umas birras com minha avó, que queria assistir ao JN, enquanto eu e minha irmã queríamos ver desenho animado em outro canal. O acordo era revezar, um dia de cada, porque naquele tempo, quem tinha duas televisões era gente rica e eu fazia parte da comunidade periférica da humanidade. Em casa só havia uma TV, em P&B e daquelas de válvula, que tinha de esperar esquentar para a imagem tremida surgir.

A reportagem sobre o muro lançou a semente do que mais tarde viria a ser meu novo interesse profissional: o jornalismo. E depois de adulta, acabei entendendo que um repórter também é um tipo de arqueólogo. Ao invés de desenterrar múmias, resgata histórias e, de certa forma, flerta com essa História em letra maiúscula que sempre me encantou e atraiu para as épocas que não vivi, mas das quais tenho nostalgia até hoje.

Gatilho da memória

Essa viagem aos meus tempos de aspirante a Indiana Jones foi estimulada por uma matéria que li na edição de janeiro da Galileu. A reportagem apresenta o GlobalXplorer, projeto da arqueóloga Sarah Parcak, uma famosa egiptóloga, que desenvolveu um método especial, utilizando algoritmos, para descobrir sítios arqueológicos ainda inexplorados e para ajudar no monitoramento dos sítios já encontrados e que sofrem a ação de ladrões de relíquias e de grupos rebeldes que explodem monumentos e apagam a história da humanidade sem a menor dor na consciência.

O GlobalXplorer é uma mistura do filme da minha adolescência com o Google Earth. No site, que entrou no ar ontem (acesse aqui, em inglês), é possível criar uma conta e ajudar a equipe de Sarah Parcak a encontrar ou monitorar sítios. A interface do site é parecida com a dos games e dá até para o usuário salvar suas ‘explorações’. Por enquanto, o mapeamento de relíquias e de possíveis locais novos para escavação ocorre apenas no Peru (Hello, Macchu Picchu!), mas a ideia é expandir para outros países.

Na reportagem, a arqueóloga conta ainda que sua paixão por “desenterrar coisas” começou na infância quando ela escavava as praias do Maine, região dos Estados Unidos  onde cresceu, para encontrar esqueletos de ‘bolachas da praia’, que é uma parenta próxima das estrelas e ouriços-do-mar.

Procurando o site do projeto, encontrei também a fanpage no Facebook, que já estou seguindo. Até porque, desconfio que dentro de mim ainda vive um desejo secreto de arrumar um chicote e um chapéu maneiros!

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s