Mulher Sem Retoque: Escolha própria, escolheu a si mesma

selvagem e livreEleonora não gostava de despedidas dramáticas e por isso saiu à francesa naquela tarde. Antes de jogar a toalha, porém, fez todo o esforço possível para que as coisas dessem certo. Pena que não tinham dado. Mas sua capacidade de seguir em frente era maior do que qualquer sentimento de auto piedade. Se não era para ser, que não fosse. E ela continuaria vivendo a vida, um dia de cada vez, selvagem e livre, canalizando atenção e esforços para aquilo que a fazia feliz e preenchia. Ela sabia quem era, gostava do que via e por isso, mesmo sem aquela presença que nos últimos meses havia sido constante em sua rotina, não sentia-se sozinha.

Nora gostava de objetos simétricos e histórias coerentes, que fizessem sentido, tivessem uma lógica própria em meio ao caos universal. Histórias vividas com leveza, sem joguinhos e artimanhas, com todas as cartas à mesa, sem ases escondidos na manga, sem subterfúgios e melodramas. Era transparente e cristalina, esperava dos outros que também fossem nítidos como lentes recém lavadas.

Não sabia viver sem planejar o mínimo necessário para não perder-se de si mesma e não invejava as pessoas que pulavam no abismo sem preocupar-se com a queda. Desde criança, detestava cair e gostava menos ainda de sentir-se brinquedo nas mãos de alguém, mesmo que esse alguém fosse o implacável Destino. Eleonora nunca se conformou com o destino e, na medida do possível, fazia a sua parte para escrever o roteiro da própria vida; ou, ao menos, ser uma co-autora bastante participativa.

Amor, para Nora, rimava principalmente com empatia, compaixão e reciprocidade. Apesar de conhecer a filosofia dos lamas, que pregavam o amor incondicional e desapegado, ela só sabia amar com perspectivas de retorno. Não se arriscava  a investir sem alguma certeza de que haveria lucro. Calculava o melhor possível cada lance inicial e ia dando corda, abrindo a guarda, cada vez um pouco mais, até que algo a intrigava, assustava ou magoava e ela se fechava de súbito, como as plantas dormideiras que cerravam as pétalas ao menor abalo em seu equilíbrio.

Doar tempo, energia e carinho, doava sem reclamar ou julgar que carregava o mundo nas costas. Enquanto recebesse sua cota, abriria a bolsa dos seus afetos sem parcimônia. Mas não sabia lidar com ingratidão ou tentativas de controle, mesmo aquelas disfarçadas de “preocupação”. Muito menos aceitava a indiferença. Se não a queriam por perto, sem problemas, ela saía. Batia as asas e ia explorar outros territórios, andarilha eterna.

Eleonora nasceu protagonista. Quem estivesse com ela precisaria tratá-la como a estrela principal. Papeis secundários não a agradavam. Mesmo quando por vontade própria ficava nos bastidores só para aplaudir o objeto de seus afetos, mantinha a cabeça erguida e os olhos atentos, observadora com capacidade de ler as pessoas por dentro.

Era o tipo de mulher que construía pessoas, motivava-as a seguir em frente, fazia-as sentirem-se importantes e únicas. Doava brilho a quem estivesse disposto a compartilhar, mas não ficava muito tempo ao lado de quem, por insegurança ou vaidade, tentasse ofuscar sua personalidade, cortar-lhe as asas, colocar-lhe grilhões de rosas nos tornozelos.

Um dia, quem sabe, Nora encontre a companhia perfeita para a sua jornada. Um ser feito na medida para ela. Mas enquanto não encontra, segue na busca, mas sem pressa, sem culpa pelas tentativas fracassadas e, principalmente, sem angústias…

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*Mulher Sem Retoque é uma tentativa de decifrar o feminino

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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2 respostas a Mulher Sem Retoque: Escolha própria, escolheu a si mesma

  1. mariel diz:

    Assim que ela descobrir que não há companheiros perfeitos, talvez encontre alguém com quem seja prazeroso e pleno estar

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