(Im)paciente Crônica: Quem tem medo de textão?

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Vá lá que é pura zoeira nas redes sociais onde a “festa nunca termina” fazer piada sobre textão, com direito a memes como esse que ilustra o post e os famigerados gifs. Mas, não vou mentir para vocês, tenho uma grande impaciência – das muitas que me acompanham – com quem reclama de textão a sério, porque está com preguiça de ler e refletir sobre o tema da preleção. Daí concluo que o medo do textão é uma síndrome que acomete, geralmente, quem tem paúra de pensar e quem tem mais pavor ainda de argumentos, principalmente dos bons argumentos, daquele tipo que desarma até bomba nuclear.

No fundo, é aquela velha guerra contra o ego, já que ninguém, em sã consciência, gosta de ser contrariado. A diferença é que alguns exercitam mais desapegar-se desse egocentrismo infantil e entendem que a vida é assim mesmo: nem sempre estaremos cobertos de razão e ouvir, ou ler o textão alheio, pode ser necessário a depender da circunstância.

Entendo que ficar explicando tudo o tempo todo, nos mínimos detalhes, é cansativo para quem faz e para quem escuta (lê) os quilômetros de explicação. Mas creiam, há momentos na vida que nem escrevendo tese, com todas as notas de rodapé e anexos, você consegue ser clara o suficiente e explicar o que precisa ser explicado. E o ruído pode estar na recepção. Até porque, quem explica tudo muito bem explicado, salvo exceções, costuma ser bem didático e metódico, tipo 1 + 1 = 2.

Mas o outro, que deveria fazer um exercício de empatia e ouvir (ler), se fecha numa concha com isolamento acústico, um modelo fabricado pela Nasa. Daí que pega birra com o textão antes de permitir-se entender o que tanto alguém precisa dizer usando quilos de palavras.

Esqueça o ditado popular que diz que uma imagem vale mais que mil palavras, pois nem sempre essa regra funciona. Há situações que não vale o esforço de acordar Leonardo da Vinci do seu sono eterno para desenhar, pois a imagem não fica nítida o bastante para a percepção do seu interlocutor nem mesmo saindo dos pincéis do artista. Não há santo remédio que dê jeito quando o receptor da mensagem está de má vontade.

Encaro textão como um exercício de livre pensamento compartilhado. E sim, estou puxando a brasa para a minha sardinha porque sou do tipo que adora textão e explicações detalhadas. Saber dos pormenores e ler as letrinhas miúdas do contrato é comigo! Para mim, quanto menos arestas sobrarem de uma conversa / leitura franca, melhor. Não curto muito arestas, porque elas podem estar afiadas e machucar.

A falta de coragem de alguns para encarar um bom textão pode ter relação com a dificuldade interna de ouvir os próprios pensamentos, de aceitar as incoerências nossas de cada dia. Nem sempre somos objetivos, claros e precisos. Às vezes, o pensamento dá muitas voltas, faz curvas, dá dois passos para a frente e recua um. Se temos dificuldade de lidar com as nossas próprias idas e vindas, muito provavelmente não teremos disposição para encarar o textão alheio.

Escrever textão é expor-se ao risco de contradizer-se. Só para voltar a dizer-se mais algumas linhas abaixo. É pegar o caminho mais longo para chegar ao fim da jornada. E de vez em quando a gente precisa mesmo de uma viagem mais demorada.

Tenho cisma com quem se fecha para os textões da vida porque isso pode significar uma certa tendência a fechar-se para as visões de mundo, opiniões e modos de pensar dos outros. Privar-se de olhar uma cena ou situação sob outra perspectiva demonstra além de falta de empatia, uma certa soberba.

E vai ver é por isso que os textões vêm sendo motivo de chacota nas redes sociais, com direito aos já citados memes e gifs, coisinhas que até tem a sua graça, mas não deixam de ser infantis. Crianças, geralmente, têm dificuldade para ouvir o sermão dos pais, mesmo quando a bronca é justa e merecida. Já os adultos deveriam saber lidar com textões, mas como vivemos a era da ‘adultescência’ eterna, é mais fácil fazer piada com o tamanho do texto e opinar, com camadas de ódio cego, baseados apenas nos poucos caracteres de um título, do que de fato encarar a leitura profunda e reflexiva para, quem sabe assim, ampliar a compreensão da cena e humanizar o debate…

*(Im)paciente Crônica é a tag do Mar de Histórias que impede que a autora tenha um ataque cardíaco. O Ministério da Saúde adverte: reclame de vez em quando para prevenir infarto e AVC…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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