Bala no Alvo

Pão, circo, futebol e modernidade em Salvador

gladiadores3Na minha fase Cortázar, li hoje o conto que dá nome ao livro Todos os fogos, o fogo. Narra uma comédia humana encenada em uma arena romana, onde dois gladiadores se enfrentam para o deleite da multidão faminta de sangue. No mesmo conto, é traçado um paralelo com um casal que ensaia,  em passos semelhantes aos dos gladiadores na arena, só que ao telefone, o rompimento da relação. O motivo: infidelidade. Outra pequena comédia humana. Impossível para mim, neste dias de (re)descoberta de Cortázar, não deixar de tocar na comédia que é o anúncio de que Salvador será uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. Quem adora futebol talvez nem volte a ler o blog. Mas me solidarizo com as vítimas da tragédia da Fonte Nova, em 2007. Para eles, enquanto o governador, o presidente da Federação Baiana de Futebol, o presidente da CBF e outros do mesmo quilate discursam para a plebe faminta de bola na arena do Pelourinho, seus sete parentes mortos continuam mortos. Infiel é a justiça, que não funciona para pobres. As indenizações seguem amarradas de corda, algumas foram pagas, outras ainda não e nem tem prazo. O juiz responsável por punir os culpados pelo desabamento do anel superior do estádio (falta de manutenção? superlotação em dia de final de campeonato?) está de férias e a cidade respira um oba oba em artigos na imprensa que comemoram a chegada do reino da bola. Afinal, diante da Copa, Salvador finalmente entrará com os dois pezinhos de barro na modernidade!

Viva aos impostos que todos pagamos, pois não fossem eles, faltariam os R$ 500 milhões que serão gastos para transformar a Fonte Nova carcomida pelo tempo em arena de primeiro mundo. É isso, minha cidade é uma arena romana. Pão, cada dia mais caro e mais escasso nas mesas menos abastadas; circo – trio elétrico e um fuzuê para comemorar a realização de cinco partidas do Mundial de 2014 -; futebol, que para os pobres vai continuar sendo disputado em campo de várzea, porque para entrar num estádio de R$ 500 milhões, o ingresso vai custar quanto? E quantos por cento da população terá acesso aos ingressos? E o dinheiro para modernizar a capital e receber as delegações será gasto em que bairros da cidade?

É… quem sabe assim, a velha Bahia respire a tão sonhada brisa contemporânea.

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2 thoughts on “Pão, circo, futebol e modernidade em Salvador”

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