Sobre João Ubaldo, Itaparica, pontes e metrôs 08/02/2010
Posted by Andreia Santana in Bala no Alvo, Cidadania, Política.Tags: ferry-boat, infra-estrutura urbana, João Ubaldo Ribeiro, obras, pobreza, Política, Ponte Salvador-Itaparica, reflexões, violência
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O Governo da Bahia pretende construir uma ponte entre Salvador e Itaparica. O argumento é que a ilha está abandonada, que os veranistas não querem mais ir para lá porque o ferry-boat é um péssimo serviço (embora esteja em mãos da iniciativa privada), que quem mora na ilha e trabalha do lado de cá sofre para chegar no emprego, que gasta-se horas de fila, travessia interminável (embora eu adore profundamente a vista da baía de todos os santos) e o risco da embarcação quebrar, sem contar as barbeiragens que ocorrem de vez em quando, como batidas nas amuradas na hora de atracar. A ponte para a ilha é uma conversa antiga, desde a minha infância ouço pessoas conversando que a Bahia tinha de ter a sua Rio-Niterói, melhor dizendo, a sua Salvador-Itaparica.
Agora, querem construir sob a afirmação de que a ponte vai acabar com todos os problemas dos moradores da ilha, vai tirar o atraso da região, melhorar a economia, levar emprego aos ilhéus, aumentar o turismo e etc, etc etc. Não sou contrária ao progresso e nem refuto esses argumentos, porque não tenho estudos que comprovem o contrário, assim como também não tenho estudos que comprovem este milagre apregoado pelos defensores da ponte. Não sou engenheira, muito menos política e também não moro na ilha, para sentir a dureza na carne. Mas, como a baía de Todos os Santos é um ecossistema delicado, espero que ao menos um estudo ambiental sério seja feito, até porque, se a baía sofrer, os pescadores, marisqueiras e toda a cadeia de pescado na ilha, na região metropolitana e aqui mesmo, em Salvador, também sofrem. O que me incomoda nessa discussão toda é a incapacidade do nosso governo em ouvir opiniões contrárias. Uma prática que aliás é da esquerda, da direita,do centro, de cima ou de baixo, não importa, quem está no poder é sempre situação e quem não está, oposição. Sendo que quem está no poder não gosta de ouvir nada que não seja elogio ou concordância. Detesto discutir política, definitivamente, com tanta coisa para se falar em um blog, política é o último tema na terra que está na minha preferência. Mas gosto de discutir cidadania e uma ponte, empregos, meio ambiente, tudo isso para mim é assunto da esfera cidadã.
Debate? Se existisse, o governador não declararia na imprensa que a opinião de um escritor conceituado é besteirol. João Ubaldo Ribeiro, que atualmente mora no Rio, mas nasceu e passa suas férias em Itaparica, escreveu um artigo, uma opinião pessoal sobre a ponte, emitindo o seu pensamento de que a obra só servirá para enriquecer empreiteiras (será que é por causa das obras do metrô de Salvador? Que começou com a direita, foi legada à esquerda e ainda está no mesmo reme-reme, mega-faturada e sem prazo de conclusão?! Hummm). Bom, sendo baiano e sabendo de que forma o poder, seja de esquerda ou direita ou de cima do muro atua nesta terra, não é de admirar que João Ubaldo dê uma de São Tomé e logo de cara, duvide do projeto e das suas intenções. É direito dele duvidar.
Se João Ubaldo está certo ou errado, se ele tem argumentos ou não tem, não é isso que estou discutindo. O que discuto aqui é que ele tem direito de opinar, de dizer o que pensa, de escrever isso, de publicar no jornal A, B, ou C, num site, no blog dele (se ele tiver um), tem direito de discutir isso com Seu Zé que vende coco numa praia da ilha, pode jogar no twitter, falar na rádio, botar na comunidade dele no orkut, ou até mandar uma carta para o próprio governador. Todos os cidadãos que se acham capazes de sustentar um debate podem, lógico, opinar sobre a ponte. Embora o achismo seja uma prática condenada pela ciência, até onde eu sei, nenhum estudo começa sem que antes alguém “ache” (teorize, suponha desconfie) de alguma coisa. A partir daí, do achômetro, lá vamos nós em busca de argumentos que consolidem ou refutem a ideia inicial.
Escritor, famoso, formador de opinião, com certeza Ubaldo é. E, provavelmente, se valeu desta privilegiada posição social para lançar a questão no ar, sacudir a estrutura, atiçar a polêmica e fazer com que as pessoas, antes de comprarem a versão oficial de que o mundo vai ficar mais bonito depois que Itaparica tiver uma ponte, pense e avalie direito a coisa. No entanto, se a obra tiver de ocorrer mesmo, se ficar provado que ela é a salvação da ilha, não vai ser o artigo ou a opinião de Ubaldo que impedirão isto. Até o próprio, que parece sensato, vai admitir que estava errado e comemorar o sucesso da empreitada, acredito. Filho da ilha, duvido que ele queira o local abandonado como está. No entanto, o que está em discussão acima de tudo é que antes de se fazer uma obra deste tamanho, há que se discutir sim, e muito, em todas as instâncias sociais.
Consulta pública, parecer ambiental legítimo e sério e não as autorizações a três por dois que sabemos que rolam entre órgãos ambientais e empreiteiras, votação, plebiscito…todo tipo de ferramenta democrática (acredito que ainda vivemos em uma democracia) precisa ser utilizada para que o resultado final seja realmente mudar a realidade da ilha e dos moradores que vivem uma onda de violência e empobrecimento da região que se arrasta e se agrava ano após ano. Que ninguém está contente com a concessionária do sistema ferryboat é fato, mas do que adianta construir uma ponte se ela engarrafar e os veranistas ficarem cinco horas na estrada? Ponte sem estudo de tráfego por exemplo, não surte muito efeito, vide os viadutos que ligam nada a coisa nenhuma que pipocam em Salvador. Que a ilha precisa sim de um plano de desenvolvimento, quem vive lá sabe disso melhor que eu, mas do que adianta a ponte se ela servir apenas para ligar Salvador a condomínios de altíssimo luxo do lado de lá da baía de Todos os Santos?
Ninguém seja ingênuo de duvidar que as construtoras baianas já não estão de olho naqueles recifes e praias. Alguém lembra das promessas de quando a linha verde foi construída? Eu lembro que várias construtoras fizeram condomínios exclusivos no litoral norte, mas os pescadores, marisqueiras e a gente do mangue naquela região continua vivendo da mesma forma que sempre viveu, na pobreza. Sauípe, alguém lembra que a promessa era gerar emprego para a população das vilas no entorno do mega complexo hoteleiro? Até onde eu sei, esse povo do entorno continua vivendo da pesca, enquanto nos hotéis, pelo menos nos cargos de maior remuneração e prestígio, só tem gente de fora da Bahia e do Brasil. A alegação é que falta qualificação aos daqui. Então, que as obras de infra-estrutura também contemplem qualificar mão-de-obra, que os planos de governo, também contemplem educação de qualidade para os filhos dos mais pobres e não apenas alfabetizá-los o suficiente para o voto. Alguém lembra da Ford? Pois é, caso igual ao de Sauípe.
Não quero dizer com isso que o progresso seja barrado e que o Estado deixe de receber empresas e empreendimentos, lógico que não! Mas é preciso que o plano seja inclusivo de fato e não apenas no outdoor que alardeia “estamos trabalhando para você”. Dos dois lados, de quem é contra e de quem é a favor, vai haver argumentos fortes. O maior exemplo de um projeto que vira guerra política e de vontades é a transposição do Rio São Francisco. Acabar com seca, levar água a quem tem sede. Tudo isso é bonito, no papel, e eu me dou o direito de duvidar das promessas deste governo da mesma forma que duvidei das promessas do anterior, porque conheço bem a história do meu país. Tenho minhas dúvidas se não existem formas mais baratas e ecológicas de ajudar o sertanejo, sem alterar o curso que a natureza escolheu para o rio. Da mesma forma que tenho minhas dúvidas se a ponte até Itaparica vai, num passe de mágica, resolver todas as questões de segurança pública e da economia e desenvolvimento locais. O máximo que uma ponte faz é ligar um ponto ao outro, mas o caminho, quem traça somos nós. E para mim, não existe caminho possível quando o governo fecha os ouvidos a tudo o que seja contrário a suas próprias ideias e acusa de dizer besteiras alguém que está exercendo o senso crítico, essa faculdade tão inerente ao animal humano, mas que cada vez menos gente se permite usar.
Obrigada Ubaldo, por botar lenha na fogueira e fazer o projeto ser discutido. E tomara que a ponte, a transposição e todas as obras viárias (com metrô ou sem) que transformam Salvador em um canteiro de obras gigante, sirvam para mais do que enriquecer as mesmas construtoras de sempre, os mesmos vereadores, os mesmos deputados, os mesmos lobistas, e a mesma elite colonial pé de poeira que vem explorando este país há cinco séculos. Definitivamente, ninguém é tão mesquinho assim para querer que uma obra dê errado apenas para apontar o dedo e dizer: “não falei que era mentira!” Pelo amor de Deus, quem duvida é porque quer ser contrariado. É muito mais benefício para a sociedade como um todo, sem distinções, quando, contrariando todas as nossas expectativas negativas, o governo realmente cumpre sua função, independente do partido a que serve.
Resenha: A inacreditável epopeia atlântica do português que nos pariu 06/02/2010
Posted by Andreia Santana in Autores, Dicas de leitura, história, literatura, resenhas.Tags: angela dutra de menezes, Cabral, caravelas, colonização, descobrimento do Brasil, dica, editora, história, leitura, literatura, O português que nos pariu, Record, relançamento, resenha
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Neste sábado, o Caderno 2+ de A TARDE publica a resenha que fiz para o livro O Português que nos pariu, de Angela Dutra de Menezes. Como fiz anteriorimente com as outras resenhas escritas para o veículo impresso, reproduzo a íntegra do texto aqui no blog. Confiram:
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A inacreditável epopeia atlântica do português que nos pariu
Andreia Santana
Com quantos portugueses se faz um colonizador? A pergunta não é nenhuma pegadinha e algumas respostas estão no livro O português que nos pariu, da jornalista Angela Dutra de Menezes, relançamento recente da editora Record. Com este título sugestivo, a obra, considerada best-seller deste e do outro lado do Atlântico – mais de 50 mil cópias vendidas –, não é nenhum compêndio de história geral, mas ajuda muito aos que tentam entender afinal de contas, de onde foi que nós, brasileiros, viemos.
Para começar a responder essa pergunta quase filosófica, a autora, dona de um texto extremamente irônico, inteligente e bem humorado, mergulha fundo na história de Portugal e desvenda essa criatura coberta de panos, com barba de dois meses e precisando de um banho urgente após longa travessia marítima, que desembarcou de navio na costa de Porto Seguro em 1500. Já vai logo jogando por terra a crença ainda imperante sobre a “alvura” dos descendentes de Cabral.
Português legítimo, cozido no caldo da evolução, é mais misturado que mingau de cremogema. E é assim mesmo, com uma receita culinária, que Angela Dutra de Menezes abre o livro no hilário capítulo I, chamado “Receita de Português”. E nessa mistura tem de tudo: de homem pré-histórico a índio lusitano, de celtas – sim, celtas – a romanos, de bárbaros (toda a cepa de godos que vocês puderem imaginar) a mouros e árabes, de judeus a cristãos. Uma belezura de miscigenação, para fazer qualquer membro da elite quatrocentona descer do salto.
Depois da autópsia no sangue do colonizador, Angela avança mostrando os feitos políticos e marítimos dos portugueses. E não foi à toa que Fernando Pessoa “poetou” o inesquecível verso “navegar é preciso”. Precisava mesmo. Primeiro por falta de espaço – Portugal é minúsculo, gente !–; e, depois, porque o povo da terrinha além-mar tomou gosto por esse negócio de colonizar. Negócio altamente lucrativo, diga-se de passagem.
Mas, antes de lançar-se mar adentro, os lusos tiveram uma trabalheira danada para botar ordem no próprio quintal. É nessa parte que, sem a menor vergonha, a autora invade palácios, revela segredos de alcova e desfaz fio a fio a teia de duques, príncipes e casamentos arranjados que resultou no primeiro país europeu a conquistar o status de nação.
Bisneta de portugueses – grande coisa, diria você leitor, todos somos de uma forma ou de outra –, Angela Dutra de Menezes não se esquiva de um certo orgulho no melhor estilo Policarpo Quaresma: “porque me ufano de vovô Joaquim”. E o livro, em alguns trechos, descamba a tecer loas aos feitos heróicos da trupe colonizadora. Mas, justiça seja feita, nem Camões conseguiu empolgar tanto ao narrar a epopeia atlântica no século XVI.
O texto de Angela nos transporta ao período das grandes navegações e, embora seu livro não tenha a menor pretensão de ser didático, cumpre papel melhor de nos ensinar história do que os volumes maçantes que nos empurravam goela abaixo na escola. Inclusive, o livrinho de pouco mais de 200 páginas, desses de ler “numa sentada”, vem sendo adotado por escolas de ensino médio e faculdades desde a primeira edição, lançada nas comemorações dos 500 anos do “achamento” ou “tomamento de posse” ou “invasão” do Brasil, em 2000.

D. Henrique, criador da famosa Escola de Sagres, entidade que deu início ao ciclo das grandes navegações portuguesas
Que a colonização tem seus revezes e resultou em muita coisa negativa – escravidão e genocídio indígena e negro, além da corrupção “atávica” no Brasil, liderando o ranking -, a autora não nega. O mérito da sua obra, porém, é justamente mostrar a origem desses males ao traçar a radiografia do dominador. Mas, como tudo tem dois lados e até mais de dois, a depender do ângulo por onde se olha, é inegável que a raça que nos “achou” é feita de homens – e mulheres, ora, pois! – aguerridos, persistentes e audaciosos.
Não falta ainda uma pitada de doideira. Desde reis e rainhas que, literalmente, perderam a cabeça, o juízo e a coroa, até os visionários que, contra todas as superstições do homem medieval, inflaram velas e desbravaram oceanos. Para quem tem necessidade quase vital de descobrir a origem das coisas, a leitura é perfeita.
Angela nos faz embarcar em uma viagem de cinco séculos no tempo, mas sem o risco de ficarmos “mareados” nas caravelas.
Ficha técnica:
O português que nos pariu
Autora: Angela Dutra de Menezes
Editora: Record
208 páginas
R$ 37,90
Pessoa “for all” 04/02/2010
Posted by Andreia Santana in Autores, Dicas de leitura, literatura, poesia.Tags: boneca Lili, dica, editora, Fernando Pessoa, leitura, Manoela, Martins Fontes, poemas, poesia, poesia portuguesa, versos de Fernando Pessoa para crianças
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Uma dica de leitura para quem quer se iniciar no universo da poesia: A Martins Fontes lançou “A poesia de Fernando Pessoa para todos”, livro de José Antonio Gomes. Trata-se de uma antologia comentada em linguagem acessível para crianças e adultos. O livro reúne os poemas de Pessoa escritos para os leitores mirins. Fernando Pessoa em versão petit não é propriamente uma novidade, existe um outro livrinho – também da Martins Fontes – com uma antologia do poeta que é uma delícia, reúne os versos que ele escreveu para a sobrinha Manoela ou para a boneca da menina, Lili (abaixo vocês leem alguns versos).
Ficha técnica:
A poesia de Fernando Pessoa para Todos
Autor: José António Gomes
Editora: Martins Fontes
44 páginas
Sugestão de preço: R$ 27,92 no site da editora
Ficha técnica:
Autor: Fernando Pessoa
Editora: Martins Fontes
40 páginas
Sugestão de preço: R$ 34,90 no site Americanas.com
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*POEMAS PARA LILI
- Pia, pia, pia
- O mocho.
Que pertencia - A um coxo.
E meteu o mocho - Na pia, pia, pia…
…
Levava eu um jarrinho
P’ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P’ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.
Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p’ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita…
Vejam que desdita!
Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
Nem trouxesse uma fita
Pra ir bonita,
Nem corresse atrás
De mim um rapaz
Para ver o que eu fazia,
Nada disto acontecia.
*Fonte: Fernando Pessoa – Obra Poética
Uns versos de Neruda 02/02/2010
Posted by Andreia Santana in Autores, literatura, poesia.Tags: Autores, Pablo Neruda, poema, poesia, Verbo, versos
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“Quiero ver la sed
adentro de las sílabas:
quiero tocar el fuego
en el sonido:
quiero sentir la oscuridad
del grito. Quiero
palabras ásperas
como piedras vírgenes”.
(Pablo Neruda, Verbo)
Sessão em família: Os Incríveis 31/01/2010
Posted by Andreia Santana in Cinema, Querido Diário, cotidiano.Tags: animação, Disney/Pixar, diversão em família, o ataque do zezé, Os incríveis, super-heróis
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As animações Disney/Pixar mudaram o conceito de animação, embora eu sempre, desde que me entendo por gente, tenha gostado muito desse gênero. Desenho animado, na tv ou no cinema, está sempre na minha lista de coisas para ver. E gosto de quase todos os estilos, 2D, stop motion (amo as massinhas de modelar do Tim Burton), 3D, computação gráfica, as japonesas de Miyazaki (parecem pinturas de tão lindas) etc, etc, etc… Adoro todas, umas mais que outras, mas todas tem lugar de destaque na minha videoteca.
Neste sábado à noite, filho insone, mãe insone, lá vamos nós zapear e eis que achamos na tv Os incríveis, de 2004, que vimos juntos no cinema quando o rapazinho tinha sete anos. É um dos nossos filmes da safra Disney/Pixar que tem lugarzinho de honra no coração. Decoramos alguns diálogos e tudo. Sim, somos do tipo de gente que decora diálogos e reproduz as cenas, assim do nada, de graça, “just for fun”. No meio de uma conversa trivial, metemos uma fala de filme no meio, ajuda muito a manter o bom-humor. Meu filho tem uma descrição ótima para mim: “mamãe você é maluca”. Graças a Deus, sou completamente maluca, passional e exagerada, amém!
O que gosto tanto em Os Incríveis? O fato dos super-heróis da animação viverem conflitos de gente real: crise no casamento, aquelas brigas de marido e mulher por causa do trânsito (quem dirige melhor e “você não tem senso de direção”), implicâncias entre irmãos, mãe neurótica com o barulho que os filhos fazem, a silhueta que depois de parir nunca mais volta a ser a mesma, a meia-idade que deixa os homens descompensados, e tudo isso em meio às missões para salvar o mundo. É lindo ver esse tipo de coisa na tela do cinema, ainda mais numa produção aparentemente feita para guris, mas que conquista legião de fãs entre os pais. Me dá aquela sensação gostosa de que a vida aqui fora, com todas as suas miudezinhas aparentemente sem sal nem pimenta, é meio filme (Woody Allen que o diga). E quantos de nós no dia-a-dia não vive situações típicas de um roteiro rocambolesco?
Pena que uma das partes mais engraçadas de Os Incríveis só seja possível assistir nos extras do DVD. O Ataque do Zezé merece lugar de honra entre os deliciosos curtinhas Disney/Pixar, que aliás, rendem um post à parte…
Uma frase que diz tudo 30/01/2010
Posted by Andreia Santana in Autores, Querido Diário, literatura.Tags: cornelia funke, frase, michael Longley, sangue de tinta, terra das histórias
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“Se eu soubesse de onde vêm as histórias, iria para lá.
Michael Longley
(Colhida no prefácio de Sangue de Tinta, de Cornelia Funke)
Corujice… 29/01/2010
Posted by Andreia Santana in Querido Diário, artes plásticas.Tags: corujice, cute people, desenhista, desenho, Harry Potter, maternidade
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Série Cute People: Harry Potter (em versão guri). Desenho de Snaky Theu ou, como ele assina agora, Theu S.D.
Um post totalmente mãe coruja. Snaky Theu, meu filhote de 12 anos, fez o desenho acima. Como eu sempre fui traumatizada com desenho, não passo das florzinhas, casinhas e pessoas de pauzinho (aquelas que tem a cabeça redonda e as pernas e braços são quatro risquinhos) – se bem que outro dia me aventurei a desenhar uma alucinação, mas acho que não vale – então, fico super orgulhosa, inchando feito um baiacu, “very very very proud”, sou completamente fã da minha cria. O desenho é dele, mas o desenhista, fui eu que fiz…
P.S.: E quem quiser ver outros desenhos do rapazinho, como uma vaca, um camelo e uma girafa fazendo yoga, dá uma clicada aqui no Snaky Flickr.
Nosferatu, Copolla e o Drácula de Bram Stoker 25/01/2010
Posted by Andreia Santana in Cinema, Dicas de leitura, literatura.Tags: Bram Stoker, Cinema, Drácula, F.W. Murnau, Frances Ford Copolla, literatura, Nosferatu, vampiro
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Depois de passar quatro dias literalmente presa ao inferno da axé music (com todo respeito a quem gosta do estilo, eu detesto!), decidi descontaminar visitando o inferno real. Mais uma vez, na minha necessidade de investigar a origem das coisas, fui beber na fonte primordial – paciência leitores, sou nostálgica desde que me entendo por gente – e revi Nosferatu, o clássico do cinema mudo de 1922, de F.W Murnau. Engatei a fase clássicos do terror, que começou com O Gabinete do Dr. Caligari e agora resta terminar a trilogia: falta O Vampiro de Dusseldorf. Como, durante a reforma do meu apartamento – em dezembro – e para sobreviver ao baticum dos pedreiros, eu também desci aos infernos, desta vez na companhia de Bram Stoker, e como Nosferatu e Drácula são sinônimos, pelo menos a palavra nosferatu é sinônimo de vampiro e Drácula é o pai de todos os sugadores de sangue, está tudo em casa. Deixando de divagar, eis aos fatos:
Murnau pode não ter recebido autorização da viúva do escritor irlandês para gravar Nosferatu, daí ter mudado nomes de personagens e mudado a ação da Grã-Bretanha para a Alemanha, até porque, o diretor era alemão, mas sua adaptação do Drácula de Bram Stoker, na aurora do século XX, não deve nada ao filme de Copolla, já no crepúsculo do mesmo século e uma espécie de clássico dos anos 90 (eu, particularmente, gosto muito das duas versões), para usar figuras de linguagem muito caras aos vampiros. Sabe como é, morder pescoços ao anoitecer, voltar para o caixão com os primeiros raios de sol, vampiro legítimo, aquele que se assemelha a um morto-vivo, “um não-morto”, usando a linguagem de Stoker. E não os de hoje em dia, super tecnológicos, cheios de poderes e habilidades de X-Men (adoro os X-Men, que fique bem claro!), que saem ao sol e tem pele de diamante! Nada disso, vampiro de meter medo é que tem minha predileção.
A geração Twilight que me perdoe, mas a saga de Stephenie Meyer não é uma história de vampiros, é um romance teen, bonitinho e tudo mais, entretenimento dos mais leves, para desopilar o fígado e desanuviar a cabeça, eu até acho legal (em doses homeopáticas), mas vampiro de verdade é o conde Drácula. Aaahh, o conde Drácula! Nada de dramas de consciência, nada de paixões recolhidas, um ser amoral e atemporal, que tem servido de metáfora para tudo nesta vida de meu deus. “Este sistema é um vampiro” – e é mesmo, completamente sem alma e sem coração, sem códigos de ética e grudado na jugular até esgotar a última gota.
Bram Stoker cria um ser perverso e incapaz de sentir compaixão e muito menos apaixonar-se. Levemente insinua que num passado remotíssimo, o vampiro, quando não era um ser condenado, amou alguém. E faz isso apenas através de um túmulo. Van Helsing (o caçador de vampiros que não é o bonitão Hugh Jackman e está mais para o fofo Anthony Hopkins, gordinho e já idoso), quando desce até a cripta do conde, vê um túmulo imponente, onde dorme uma das noivas, e pressupõe que a sepultura foi construída para o repouso de “alguém que foi muito amado”. Embora seja uma das noivas que dorme no local, não fica claro se foi para ela que o lugar foi construído. Em outro trecho, num diálogo entre Drácula e as mesmas noivas, quando uma delas o acusa de nunca ter amado, ele responde friamente, “você sabe que já tive esse dom”. E pronto, acabam-se as referências românticas na vida do conde Drácula.
De Mina Harker ele quer primeiro o sangue, porque precisa se alimentar – ora essa, sejamos práticos – e segundo, vampirizá-la para castigar Jonathan Harker, que eu aqui com meus botões (do teclado) desconfio que esse sim, desperta desejo no conde. Desejo, amor não, que o autor deixa bem claro que Drácula perdeu a capacidade de amar em algum momento nos seus longos séculos de não-vida. Sem alma, sem coração, lembram? Ôpa – pisei em terreno minado. Mas ninguém nunca leu Drácula pensando que o vampiro tem predileção por rapazes!? Reparei nisso nessa releitura que fiz da obra, recentemente, e fiquei me perguntando que outro motivo ele teria para advertir suas amaldiçoadas noivas, que na verdade estão mais para assistentes de maldade, de que elas não tocassem no incauto advogado que vai esbarrar no seu castelo, coitado, crente que vai vender um terreno a um magnata exótico da Transilvânia. E por que castigar as vampiras, me pergunto, já que ao aproximar-se de Jonathan, elas davam vazão à sua natureza? O conde ainda adverte textualmente: “Ele é meu”. Eis uma análise que nunca vi fazerem do conde Drácula, mas que pode render pano para a manga. Fica a sugestão.
Copolla explora magistralmente “o provável desejo” (coloco entre aspas porque é uma suposição minha, sem base de pesquisa) de Drácula por Jonathan nas cenas passadas no castelo. A deferência com que Jonathan é tratado, Drácula servindo-lhe jantar, Drácula questionando sobre sua vida pessoal, o tom lascivo do conde ao falar com o advogado, o lamber de beiços enquanto o rapaz faz a barba e o erotismo da cena em que, uma vez que o rapaz se corta no barbear, Drácula agilmente toma a navalha de suas mãos e lambe o sangue. Metáfora e das boas. Muito sutil seu Bram Stoker, afinal o homem escreveu seu romance no século XIX e homofobia naquela época era praticamente lei (não mudou tanto assim de lá para cá). Menino sabido esse Seu Copolla, conseguiu jogar toda a carga de sensualidade, de tensão do livro nesta cena, embora, evitando pisar tanto assim no tal do terreno minado, invista na fictícia relação de amor entre o conde e Mina. No entanto, não é em Bram Stoker que ele busca elementos para traçar essa história de amor às avessas, mas na “biografia” quase mítica de Vlad Tepes, o conde romeno que lutou contra os otomanos e tinha o hábito de empalar suas vítimas e que, por sua vez, serviu de inspiração à Bram Stoker para criar o vampiro.
Em nenhum trecho do livro de Bram Stoker é sequer insinuado que Drácula deseja Mina para sua consorte. Ele só se interessa por ela ao perceber que aliou-se aos seus “inimigos” e que é a Miss Harker de Jonathan. Diz com todas as letras antes de mordê-la, que irá puni-la transformando-a numa criatura igualzinha a ele. Frustrada no seu desejo? Incapaz de amar? Afastada do marido por virar uma não-viva? E quem sofre mais o castigo ao ver a esposa “contaminada” pelo vampirismo? Jonathan! Um rapaz de boa fé, bonzinho, daqueles cavalheiros de fina estirpe. Murnau preserva essa bondade quase ingênua da personagem e, mais fiel ao texto original, não cria laços de amor onde não existem. “Essa é sua esposa? Que belo pescoço”, diz Nosferatu ao ver uma foto de Mina Harker entre os objetos pessoais de Jonathan. Nos instantes finais do filme (de Murnau), ao ver a jovem Miss Harker à janela de casa, Nosferatu decide fazer-lhe uma visitinha. O olhar fascinado do vampiro ao ver Mina é o olhar de um caçador que cobiça uma presa valiosa, “sangue é vida”, uma frase que tanto Copolla quanto Murnau exploram muito bem nas suas releituras do clássico de Stoker.
Qual das duas versões é a melhor? Eu não consigo dizer, porque sou realmente fã das duas. Melhor dizendo, das três (os dois filmes e o livro que as inspirou). Cada uma, no seu tempo histórico e cultural – e não dá para analisar nenhum produto artístico sem essa contextualização, mesmo obras atemporais – é magistral. Nosferatu é lúgubre e sombrio. O Drácula de Copolla é dramático, quase barroco. O livro de Stoker tem um quê de segredo de alcova (até por ser todo escrito em forma de diários) e ao mesmo tempo é de uma agilidade narrativa, um vórtice na sucessão de acontecimentos, que nos dá vertigem. Descobrir as predileções sexuais do conde Drácula nem é de tanta importância diante do engenhoso jogo de mostra/esconde criado pelo autor e talvez até, intencionalmente, ele tenha criado o vampiro como um ser elemental, caprichoso como os antigos deuses do Olimpo, elegendo favoritos e favoritas ao seu bel prazer. Sem contar na grande sacada do autor: são pelo menos cinco versões, cinco pontos vista diferentes, porém complementares, para a mesma história – a de Mina, a de Jonathan, a de Van Helsing, a do Dr. Seward – o médico e diretor do manicômio, amigo de Van Helsing; e a de Lucy, a amiga transformada em vampira.
Um crítico literário poderia apontar falhas de estilo aqui e ali, mas acredito que Stoker inaugurou um estilo próprio que vem sendo recriado em todas as histórias de vampiro depois dele. Até a menção aos super poderes de Drácula estão lá, embora não tenham a proporção das produções atuais, em que o vampiro é humanizado ao invés de demonizado, e se refiram bem mais às artimanhas “de uma criatura velha como o tempo, esperta feito uma raposa”. As referências à lascívia e sensualidade inerentes a essa criatura das trevas vem sendo atenuadas nas versões recentes, no entanto, nem o vampiro com pinta de galã da série Twilight deixa de ter seu lado puro instinto, desejo que atrai e seduz, como o Drácula de Copolla, e provoca ao mesmo tempo repulsa e pavor, como o Nosferatu de Murnau.
E para quem não conhece o clássico de 1922. “São Youtube” dá de brinde a quem aguentou o post até agora, o filme na íntegra (com legendas em inglês):
Nosferatu (1922) F.W. Murnau
P.S.: O motivo de ter passado quatro dias imersa em axé chama-se Festival de Verão. Por força da profissão, carrego essa cruz.
Bebendo na fonte: O Gabinete do Dr. Caligari 19/01/2010
Posted by Andreia Santana in Cinema.Tags: Cinema, Expressionismo Alemão, história, memória, O Gabinete do Dr. Caligari, Robert Weine
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Martin Scorsese, genial como sempre, emocionou em seu discurso ao receber o prêmio Cecil B. DeMile no Globo de Ouro 2010 (no último domingo). Falou da importância de se recuperar os filmes dos grandes mestres do cinema, deu lição de amor à sétima arte. Por coincidência, eu tinha revisto, dia desses, O Gabinete do Dr. Caligari, de Robert Weine. No dia em que revi o filme, lembrei com uma saudade enorme das aulas de crítica cinematográfica na FACOM. Para dividir essa pequena pérola do expressionismo alemão com vocês, fui catar algum trechinho em “São Youtube das Imagens Perdidas e das Memórias Preservadas”. Que surpresa boa! – Essa semana está cheia de surpresas boas -, achei o filme na íntegra. O problema é que as legendas estão em inglês, mas vale a pena. Confiram:
Algumas informações sobre o filme -O Gabinete do Dr. Caligari é de 1920 e representa a escola cinematográfica conhecida como Expressionismo Alemão, marcada por filmes com grande plasticidade e distorções que lembram sonhos ou pinturas. Os cenários se inspiram em quadros cubistas e o filme traz toda a influência dos movimentos estéticos que revolucionaram o começo do século XX, bem como todos os medos, delírios e assombros do homem que se modernizava. Conta a história de um vilarejo que recebe a visita de um hipnotizador sinistro, o Dr. Caligari, e do seu assistente, Cesare, sonâmbulo que perambula pela cidade e sobre quem recaem as suspeitas de misteriosos acontecimentos. Da distorção do cenário à metáfora do sonambulismo (aquele que age enquanto dorme, supostamente libertando o inconsciente), o filme nos convida a olhar a realidade sob outra perspectiva. Loucura e lucidez se confundem, nossos olhos nos enganam, fatos parecem irreais e a sensação que fica ao final do filme é aquela memória confusa e um pressentimento que nos atormenta após acordar de um pesadelo.














