“fez saltar em pedaços o rei dos tiranossauros”

“Podia a aventura demorar horas, mas nunca acabaria antes que o seu propósito tivesse sido alcançado. Atravessar sozinho as ardentes extensões dos olivais, abrir um árduo caminho por entre os arbustos, os troncos, as silvas, as plantas trepadeiras que erguiam muralhas quase compactas nas margens dos dois rios, escutar sentado numa clareira sombria o silêncio da mata somente quebrado pelo pipilar dos pássaros e pelo ranger das ramagens sob o impulso do vento, deslocar-se por cima do paul, passando de ramo em ramo na extensão povoada pelos salgueiros-chorões que cresciam dentro de água, não são, dir-se-á, proezas que justifiquem referência especial numa época como esta nossa, em que, aos cinco ou seis anos, qualquer criança do mundo civilizado, mesmo sedentária e indolente, já viajou a Marte para pulverizar quantos homenzinhos verdes lhe saíram ao caminho, já dizimou o terrível exército de dragões mecânicos que guardavam o ouro de Forte Knox, já fez saltar em pedaços o rei dos tiranossauros, já desceu sem escafandro nem batiscafo às fossas submarinas mais profundas, já salvou a humanidade do aerólito monstruoso que vinha aí destruir a terra. Ao lado de tão superiores façanhas, o rapazinho da Azinhaga só teria para apresentar a sua ascensão à ponta extrema do freixo de 20 metros, ou então, modestamente, mas de certeza com maior proveito degustativo, as suas subidas à figueira do quintal, de manhã cedo, para colher os frutos ainda húmidos da orvalhada nocturna e sorver, como um pássaro guloso, a gota de mel que surdia do interior deles. Pouca coisa, em verdade, mas é bem provável que o heróico vencedor do tiranossauro não fosse nem sequer capaz de apanhar uma lagartixa à mão.”

(José Saramago, As pequenas memórias, pp. 16 e 17. Companhia das Letras, 2006, São Paulo – SP)

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A senha!?

Dia desses uma colega voltou de férias. Entrou na redação, cumprimentou a turma, botou a bolsinha sobre a bancada, puxou a cadeira, ligou o PC e ficou olhando para a tela. Depois de meio minuto exclamou: “Esqueci a senha!”

Perdi a conta das vezes em que voltei de férias e passei pela mesma situação. Entrei, cumprimentei os colegas, botei a bolsinha sobre a bancada, puxei a cadeira, liguei o PC e fiquei olhando para a tela. E a senha?! Chama um profissional de TI. Passa o login para ele. Depois de um tempo, toca o ramal. “Criei uma senha genérica, você altera na primeira vez que conectar.” Lá vou eu pensar numa senha que seja fácil de gravar e difícil de ser hackeada. Um desafio. Até porque, como não sou hacker, não tenho capacidade de pensar como um. E a nova senha dura até as próximas férias…

Quantas senhas são precisas para viver no nosso mundo hiperconectado?

As burocráticas: da conta bancária, do cartão de crédito, do e-mail (ou dos e-mails, para quem tem mais de um), do site da operadora de telefonia e internet (mão na roda para imprimir segundas vias de recibos que os Correios nunca entregam no prazo).

As sociais: do twitter, do facebook, da plataforma onde você mantém seu blog, do Linkedin (para o networking) e de todas as outras comunidades onde  a gente se mete nessa necessidade básica do ser humano de ter companhia, mesmo que virtual.

As acadêmicas: Plataforma Lattes, Issu, da rede da universidade…

As profissionais: para conectar-se à rede na empresa, para acessar o administrador em que o site onde você trabalha é editado…

Senhas e mais senhas. Bastante natural que alguma escape da caixa da memória.

Tem quem adote uma única senha para tudo, mas os especialistas em segurança eletrônica não recomendam. E faz sentido, imagina sua vida inteira numa única combinação de números e letras? Mas é dureza gravar tantas combinações diferentes.  E não deixa de ser surpreendente que uma vida inteirinha seja controlada por combinações de números e letras. Pobre bichinho humano, luta tanto por liberdade, mas a cada dia se enrosca mais e mais na rede (nas redes) que ele mesmo cria para… libertar-se!

Com tanta senha para gravar pode fazer cola? Pode. Mas uma outra amiga, que devia ter umas vinte senhas diferentes, perdeu a cola. Toca a procurar na bolsa, em casa, no escritório, nada. E agora!? Corre lá, menina, cria senhas novas, rápido, antes que alguém mal-intencionado encontre a cola e passe sua vida à limpo.

E assim vamos vivendo, de cola em cola, de paranóia em paranóia.

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Resenha: A sombra do vento e O Jogo do Anjo

Barcelona de romance, tragédia e fantasia

As imagens são de Barcelona na primeira metade do século XX

A narrativa veloz, com cortes precisos, rica em imagens e econômica em palavras, derivada da experiência como roteirista, faz do catalão Carlos Ruiz Zafon uma febre mundial com milhares de exemplares vendidos. Mas, para além do delírio provocado pelo estado febril, as duas obras do autor já lançadas no Brasil (A sombra do Vento e O jogo do anjoO príncipe da névoa por enquanto só é encontrado em versão e-book) comprovam que embora utilize recursos contemporâneos como a linguagem cinematográfica, o escritor sabe prender a atenção e deleitar seus leitores tanto quanto um bom clássico faria.

O cenário dos dois romances é a Barcelona da primeira metade do século XX, precisamente entre as ocorrências da primeira e segunda guerras mundiais, que para os espanhóis teve significado diferente daquele do resto do mundo. Enquanto Hitler assombrava todo o ocidente, na Espanha, a guerra civil e Franco legaram fantasmas que dormem na alma dos habitantes e nas paredes dos antigos casarões da cidade velha.

Comparando os dois romances, A sombra do Vento é mais lírico, com uma perda de inocência gradual, que conduz o leitor ao amadurecimento de Daniel Sempere, o protagonista dessa história; O jogo do Anjo é mais cáustico, corrosivo. O herói, David Martín, é mais falho, suscetível, traz a semente da revolta na alma e torna-se presa fácil para o mal. O jogo do anjo, embora não chegue ao extremo do maniqueísmo, demarca com mais precisão fronteiras para o certo e o errado. Enquanto A sombra do vento revela-se humanista e condescendente com a multiplicidade da condição humana.

Cronologicamente, a história de O jogo do Anjo se passa antes daquela de A sombra do vento e alguns personagens em comum passeiam pelas duas tramas. Unindo os dois, não importa em que ordem de leitura (por aqui A sombra do vento foi lançado antes), tem-se um rico panorama da Barcelona do entre-guerras, mas que transcende a questão política. A ditadura franquista e a guerra civil são o pano de fundo, mas o autor está mais interessado no humano.

As dificuldades do cotidiano em uma cidade sitiada e as tragédias pessoais, na visão de Zafon e da nova historiografia, dão uma dimensão muito mais real das profundas transformações sócio-político-econômicas do início do século XX, não à toa batizado por Eric Hobsbawn de “era dos extremos”.

Misturando metáforas, metonímia (os dois livros são declarações de amor incondicionais à literatura e, principalmente, ao ato de ler), com romance tradicional – pontuado de amores impossíveis e reviravoltas novelescas – e pitadinhas de realismo fantástico e tradição gótica (a velha Barcelona, convenhamos, é o cenário perfeito), Zafon guia o leitor por uma miríade de sensações que vai da empatia ao puro pavor, numa vertigem de embriaguez.

No entanto, não se trata de bebedeira pura e simples, com amnésia e ressaca moral residuais. Tanto A sombra do vento, quanto O jogo do anjo, passado o efeito hipnótico das palavras do autor, permanecem na memória em forma de trechos de diálogos, cenários e seus personagens carismáticos. Como não amar o velho zelador do cemitério dos livros esquecidos? Os dois romances são sinestésicos na essência e marcam tanto a alma quanto os sentidos.

Uma sinopse de cada obra:

A sombra do vento – O livro trata do amor incondicional, seja do bibliófilo pelos livros, do pai por seu único filho, de um homem por uma mulher. O cenário é a Barcelona do final da II Guerra, sitiada pela ditadura, assombrada pela polícia política. São duas histórias paralelas que num dado momento se cruzam e que contam a história de amor do escritor Julián Carax e sua Penélope, e a saga do jovem Daniel Sempere, o herói da história, filho e neto de livreiros. Daniel tenta desvendar os segredos em torno de um livro chamado A sombra do vento, escrito por Carax, que ele encontrou no mítico Cemitério dos Livros Esquecidos, uma espécie de depósito para obras raras e também esconderijo para livros que precisam ser salvos. Investigando sobre o desaparecido Carax e as tragédias que cercam sua bibliografia maldita (todos os romances desse autor foram queimados), Daniel acaba encontrando o sinistro Lain Colbert, um homem que usa o mesmo nome de um personagem de A sombra do vento. Ou será que o personagem saiu do livro para assombrar a “realidade”?

>>“o negócio dos livros é miséria e companhia” (trecho de A sombra do Vento)

O jogo do anjo – O livro é ambientado nas décadas de 20 e 30, antes da II Guerra e com a sombra da guerra civil adensando-se sobre Barcelona. Conta a história de David Martín, um jovem escritor de raro talento, mas que para sobreviver, vende barato sua arte, aceitando escrever ficção policial descartável. David, que foi abandonado pela mãe e viu o pai ser assassinado quando ainda era criança, sendo criado como uma espécie de mascote pelos funcionários de um jornal barcelonês onde ele, de faz tudo esfomeado se transforma  no repórter mais famoso, conhece o excêntrico e sombrio Andreas Corelli, editor que o contrata para escrever um romance de tal impacto que poderá trazer o verdadeiro apocalipse. Ao iniciar o romance e na medida em que vai escrevendo o fatídico livro, a escuridão se fecha sobre David e sobre aqueles que ama.

Fichas Técnicas:

A sombra do Vento

Autor: Carlos Ruiz Zafon

Tradutor: Marcia Ribas

Editora: Suma de Letras / 400 páginas / Preço: R$ 46,90 (site da livraria Cultura)

O Jogo do Anjo

Autor: Carlos Ruiz Zafon

Tradutor: Eliana Aguiar

Editora: Suma de Letras / 416 páginas / Preço: R$ 39,90 (site da livraria Cultura)

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“A palavra não foi feita para enfeitar”

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”

(Graciliano Ramos)

P.S.: Retirado da contracapa da 31ª edição de Caetés, Ed. Record

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Panfletagem por uma causa nobre

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Graphic Novel sobre o Irã sai da web para o papel

O paraíso de Zahra, graphic novel sobre o Irã, já traduzida para 12 idiomas e lançada em 125 países, chega ao Brasil agora em janeiro pela editora LeYa. Criação dos desenhistas iranianos Amir e Khalil (pseudônimos dos autores, que preferem não divulgar seus nomes por medo de represálias dos aiatolás), o trabalho primeiro surgiu em formato webcomic, lançado em fevereiro de 2010. A obra narra uma história forte, marcada pelo amor, perda e luta por liberdade em um país onde a religião exerce um peso enorme na vida do cidadão comum. A trama ficcional é permeada de pessoas reais e eventos com uma visão profunda do que é o Irã atual. O mote são os protestos ocorridos nas ruas de Teerã na ocasião das eleições presidenciais. Durante a passeata, Zahra perde seu filho Mehdi, iniciando uma busca incansável pelo rapaz, por negrotérios, hospitais, presídios e passando poucas e boas nas mãos da polícia corrupta. Hassan, irmão de Mehdi, é o narrador da história através de um blog chamado Zahra’s Paradise.

Ficha Técnica:

O Paraíso de Zahra

Autores: Amir e Khalil

272 páginas

Preço: R$ 39,90

Outros lançamentos da LeYa em janeiro:

Drive, de James Sallis. O livro  inspirou o longa estrelado por Ryan Gosling e dirigido por Nicolas Winding Refn, que chega aos cinemas também neste começo de ano. Conta a história de Piloto, dublê de cenas automobilísticas em Los Angeles que acaba se tornando motorista de fuga. A confusão começa após um roubo mal-sucedido e com uma mala com milhares de dólares, Piloto se envolve numa alucinante caçada, em que ele é o alvo. Considerado um dos 10 melhores livros do ano pela Entertainment Weekly e o melhor livro do ano pelo Washington Post, Drive é recomendado para fãs de histórias que envolvem fugas alucinantes, mafiosos e muita adrenalina.

Ficha Técnica:

Drive

Autor: James Sallis

Tradutor: Amanda Orlando

160 páginas

Preço: R$ 24,90

Caminhando na Chuva, de Charles Kiefer. A obra comemora 30 anos e já teve 20 edições no Brasil, uma em portugal e vendeu mais de 100 mil exemplares. O romance conta a história de Túlio, um garoto pobre que enfrenta muito preconceito na adolescência por ser o único aluno bolsista em um colégio particular e depois sofre ainda mais por se apaixonar por Rosana, uma moça rica, severamente controlada pelo pai. Acalentado pelas memórias de sua infância, inspiradas nas histórias contadas por seu avô, Túlio descobre o prazer na arte da leitura e da escrita e, com muita poesia, conta a sua história. E mais uma vez encontra preconceito, pois poesia, para seus conterrâneos,  não é coisa de homem. O garoto porém, descobriu que na chuva, com toda a cidade escondida em suas casas, não existe ninguém para criticá-lo. Por isso, ele prefere caminhar em dias chuvosos, com a cidade se abrindo só para ele, quando até as lágrimas podem cair em paz… A edição de aniversário conta ainda com ensaios de Deonísio da Silva e Sissa Jacoby.

Ficha Técnica:

Caminhando na chuva

Autor: Charles Kiefer

124 páginas

Preço: R$ 29, 90

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Fanon entre os mais vendidos de 2011 na EDUFBA

Pele Negra, Máscaras Brancas, obra clássica contra o racismo e o colonialismo, de Franz Fanon, foi um dos oito títulos publicados pela Editora da Universidade Federal da Bahia – Edufba, mais vendidos em 2011. Segundo a editora, a primeira publicação do livro do intelectual martinicano em português data de 1963. Conheci o pensamento de Fanon em 2010, quando assistia aulas como aluna especial do Mestrado em Cultura e Sociedade, na UFBA. Também já fiz resenha para Pele Negra aqui no blog. E abaixo, o ranking da Edufba:

Os oito títulos publicados pela Edufba mais vendidos de 2011

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Olha o passarinho!


Uma amiga postou no Facebook, não resisti a trazer para cá e mostrar para vocês. Ignorem a propaganda da marca de câmeras fotográficas e deixem-se levar pela brincadeira com as fotos dos perfis de usuários de redes sociais. Engraçado é que eu troquei a minha foto de perfil ontem, então, como dizem as adolescentes amigas do meu filho: “supermeidentifiquei”. Uso sempre a mesma imagem em todas as comunidades que frequento, quando troco em um lugar, saio trocando em todos, mas não vou mentir que procuro sempre um ângulo que me favoreça, que não sou besta e um tiquinho de vaidade não faz mal a ninguém…

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Conselhos ao meu filho

Ame (incondicionalmente)
Respeite a si mesmo e aos seus desejos
Respeite aos outros e aos desejos alheios
Seja digno consigo e com o objeto do seu amor (ou trabalho, estudos, amizade…)
Seja leal
Seja honesto
Seja feliz

*Publicado também no Barulhinho do Vento, o blog que divido com a cria.

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Luna llena

A primeira lua cheia de 2012 começou seu ciclo neste sábado. Pouco antes do por-do-sol, o disco prateado aparece diante da minha janela. O entardecer é minha hora preferida do dia. Dizem que é melancólico, mas acredito é na poesia desse horário. Da janela, abraço o mundo até onde minha vista alcança e me sinto plena. Desde criança, me invade uma paz infinita nesse momento próprio das contemplações. Mas também é quando me sinto dotada de um poder divino, capaz de vencer qualquer desafio. Nem é preciso decorar uma oração, basta olhar o rosa azulado do céu e respirar fundo. Deus entende. Quem me dera ter asas, para voar até esse mar de luz amarela que passeia pelos prédios e esqueletos de futuros edifícios. Um banho para o espírito, na última luz do dia, sob as bençãos da lua…

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