Por email: A flor da pele, num toque de veludo, carrego versos na alma…

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"Saudade de Você", performance da artista plástica homoafetiva Déia Moro, no campus de Ondina - UFBA, na última quinta-feira, dia 05. Crédito da imagem: Clara Matos

No museu: Rodin na Bahia – domingo, 08. Toda mulher é meio vítima, meio algoz…

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A mártir, 1885, Auguste Rodin. Pátio do Palacete das Artes / Museu Rodin-Bahia. Crédito da imagem: Snaky Theu

 

 

A importância histórica da derrubada do muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, é inegável e foi o início de vinte anos de intensas transformações no mundo. As conquências da globalização, acentuada após a queda do muro, e de todo o redesenho geo-político da Europa, com as devidas implicações, em maior ou menor grau, no resto do planeta (ou em uma parte consideral dele) também são impossíveis de negar por qualquer pessoa que goste de história ou que ao menos tenha acompanhado o noticiário nos últimos anos. O fim da cortina de ferro é um marco, sem dúvida, assim como o ressurgimento dos regimes totalitários e fascistas nesse começo de século XXI são um alerta. Na minha vida, o muro teve a importância de me fazer querer ser jornalista. Vi a cena pela televisão, quando tinha 15 anos, uma das emblemáticas dentre tantas que o século XX nos legou, daí ter ganho de Eric Hobsbawn a alcunha de “era dos extremos”. Até escrevi sobre isso em uma das sessões nostalgia da adolescência perdida, aqui no blog (leiam aqui). Mas, apesar de toda a importância da data, não consigo entender por quê uma réplica do muro de Berlim será construída e simbolicamente derrubada em Salvador, mais especificamente no Pelourinho, nesta terça-feira? O Pelourinho, bairro que historicamente era o centro da nobreza colonial baiana, elevado a centro cultural da baianidade na época do carlismo, vivendo momentos de decadência notória nos dias atuais, ainda assim berço da resistência afro-brasileira, casa do Olodum, da secular (300 anos) igreja do Rosário dos Pretos, da Sociedade dos Desvalidos…

O quê tem o Pelourinho com o muro de Berlim? Seria uma metáfora para que Salvador derrube o muro invisível  da desigualdade social global que faz conviverem no mesmo espaço, os turistas loirinhos e os esqueléticos sacizeiros do crack? No release que divulga o ato há um trecho dizendo que “O evento tem como objetivo despertar a consciência histórica e explicar este valor simbólico que a derrubada do muro assume hoje na sociedade”. Pois é, só como símbolo da separação racial e social existente em Salvador eu consigo entender o significado deste ato do lado de cá do Atlântico. Do contrário, me cheira a oportunismo midiático, enfatizado por outro trecho do release que diz que as pessoas poderão levar pedaços do muro fake para casa, como souvenir! Conhecendo a natureza pouco crítica dos moradores desta cidade, onde para o bem e para o pior tudo vira festa, é bem provável que levem mesmo nacos do muro para enfeitar aquela parede atrás do sofá. Lembrando o aguerrido Franz Fanon, deve haver um complexo de inferioridade arraigado que mantém nessa cidade de riqueza histórica uma necessidade de ser cosmopolita e moderna a todo custo. Sendo que ao sacrificar a sua história em nome de uma elevação máxima da história de outros, não somos nem uma coisa nem outra, estamos perdidos, “no limbo da não-identidade” (roubando as aspas de um professor meu), nem cientes da própria história e nem pós-modernos.

O dia 20 de novembro está chegando, quero ver se o Pelourinho vai ser palco de um evento igualmente simbólico para marcar o Dia da Consciência Negra ou se a nossa “consciência” histórica continua sendo eurocêntrica e colonizada. Vamos também aguardar a cobertura das emissoras de TV e dos jornais e sites para o grande evento da simulação da derrubada do muro de Berlim no Pelourinho. Muito provavelmente a cobertura jornalística irá se ater ao oba-oba, ao pitoresco, a mis-en-céne, mas não vai questionar em nenhum momento o porque de precisarmos de um emblema europeu para enxergamos que Berlim, tanto quanto o Haiti, é aqui!

O restaurante do meu trabalho fechou temporariamente para reformas. Como temporariamente, leia-se que só vai abrir em 15 de dezembro, isso sendo otimista, porque sempre há o risco de atraso. Sabe como é, vem Natal, Ano Novo, Bom Jesus dos Navegantes, Lavagem do Bonfim, Carnaval… com sorte teremos comida à mão, lá para março. Sem restaurante no prédio, resta a travessia da passarela da av. Tancredo Neves rumo ao Salvador Shopping, ou, para os menos exigentes, as barraquinhas de esquina. Comida barata, mas não me perguntem como é feita. Não duvidem, porém, que seja mais limpa que a dos restaurantes do shopping, alguns inclusive, reprovados em um “baculejo” recente dos agentes da vigilância sanitária. Lá vou eu, por volta das 20h de sexta-feira atravessar a passarela. Nunca antes, por absoluta falta de necessidade, – só vou ao shopping quando é necessário, não faço parte da geração que faz footing nos centros comerciais – precisei atravessar a passarela da Tancredo Neves às 20h. Até porque, em condições normais, nem é seguro. É deserto, rolam uns arrastões de vez em quando. Numa sexta-feira porém, dá para atravessar sem sustos e de quebra, presenciar uma das cenas mais interessantes, antropologicamente falando, que vi esta semana na “velha cidade da bahia”. A avenida Tancredo Neves, para quem não é de Salvador, tem ares de avenida Paulista nordestina. Shoppings, mega-complexos  empresariais, restaurantes, lojas de rua, centros de estética, bancos e a Casa do Comércio, com sua arquitetura arrojada e um teatro. Fica situada na fronteira do Caminho das Árvores, bairro de classe média-alta da capital. Mas a avenida Tancredo Neves, sexta-feira à noite, prévia do fim de semana, também é o cenário de uma interação que para um olhar menos atento ou mais segregador, parece distoar muito das mansões do Caminho das Árvores, com exceção da cozinha. As ruas transversais à avenida viram o território social e musical do pagode. Não, não se trata de venda de CD pirata e demonstração em mini-sistems ligados ao poste de luz elétrica mais próxima (um gato camelô). Nada disso, trata-se de uma competição de potência de sons de carrões e carrinhos, do modelo importado ao popular básico e destituído de acessórios, com exceção da caixa de som de cinco bocas, estrategicamente situada no porta-malas. Por isso que eu disse, que pode parecer destoante das mansões. Mas, engana-se quem associa a cultura pagodeira de Salvador às empregadas domésticas. De fato, muitas estavam lá, nas barraquinhas embaixo da passarela, na porta do shopping, isso que achei mais genial, “na porta do shopping” quebrando até o chão. Mas havia também muitas estudantes da universidade que funciona ali pertinho, muitos trabalhadores de ambos os sexos, profissionais liberais com o visual yuppie dos anos 90, os boyzinhos clássicos do pagode, cabeça raspada em moicano oxigenado, corrente grossa de prata no pescoço, bermudão e tênis. Os boyzinhos e os executivos, todos com suas latinhas na mão, assistiam as meninas quebrando ou, os menos tímidos, quebravam com elas. Interação social que extrapola as fronteiras democráticas (será mesmo?) do Carnaval e invade uma avenida conceitualmente projetada para o trabalho e o consumo de alto luxo. A música da cozinha, que também toca no quarto do filhinho malhado ou da filhinha paty da dona da casa, dá o tom dessa “convivência”. Empregadas e patroas quebrando juntas. Ali, naquela sexta-feira de desestresse, desaceleração, na sexta-feira que anuncia o fim de semana da cachaça e da paquera, existe uma democracia construída em torno de um ritmo originalmente periférico. O pagodão invadiu a Tancredo Neves por um fim de semana, para que na segunda-feira, cada um volte a ocupar seu posto na hierarquia desigual da cidade. E eu assisti tudo, “meninos eu vi”, enquanto comia beijus.

P.S.: Mais tarde, comentando com uma colega a minha descoberta, fascinada por ver um pagode acontecendo praticamente na porta de um shopping center super luxuoso, soube que essa festa acontece toda sexta-feira e que começou por acaso, uma barraca aqui, outra ali, e virou festa de largo. A avenida Tancredo Neves está na fronteira do Caminho das Árvores, mas também está na fronteira de Pernambués, bairro popular revelado à Salvador dos ricos graças a abertura da avenida Luis Eduardo Magalhães. O Salvador Shopping, construído com toda a moderna tecnologia e abarrotado de lojas de grife, recebe um contigente enorme de adolescentes de Pernambués e adjacências. Embora não seja ingênua em acreditar em democracia racial e muito menos social no Brasil, mesmo na “cidade mais negra do país”, é inegável que Salvador tem fronteiras pouco definidas, cada dia mais redefinidas ou praticamente inexistentes. Não temos zona sul e não temos a dicotomia geográfica entre o morro e a cidade, mas temos “morros” dentro “da cidade”, bolsões de miséria que envolvem em um abraço, ilhas de prosperidade. Sempre me fascina, num sentido de curiosidade histórica e humana, ver que da janela do apartamento dos que moram, por exemplo, na Sabina Silva (outro endereço dos bem-nascidos) a vista é o Calabar (bairro central, mas com status de periferia). As desigualdades da minha cidade são ímpares porque pobreza e prosperidade estão amalgamadas. No entanto, a convivência, com exceção dessa trégua musical momentânea em nome do prazer da quebradeira (seja no Carnaval ou no pagodão da Tancredo), não é nem de longe pacífica. Salvador é um achado para qualquer estudioso do comportamento humano…

Uma novidade muito legal para dividir com vocês, meu perfil foi publicado no site Rexonna Women dentro de uma série sobre blogueiras formadoras de opinião. O convite veio através da assessoria de comunicação da Rexonna, graças ao trabalho que desenvolvo em parceria com Alane Virginia e Giovanna Castro, no Conversa de Menina e Moda de Menina. Estamos super felizes e honradas por nosso trabalho, que é independente e sem patrocínio, ter despertado a atenção de um site nacional de uma marca tão conhecida. Para quem ficou curioso em saber como eu sou do outro lado da pauta: ou seja, ao invés de entrevistadora, no papel da entrevistada, cliquem aqui.

As aspas que nomeiam o post pertencem ao neurocientista Gary Small. Em agosto passado, o cientista deu uma longa entrevista à sessão Vida Digital, da Veja.com. O texto porém, chegou para mim apenas esta semana, de uma forma pouco usual, mas perfeitamente coerente nos tempos pós-modernos. Meu filho de 12 anos foi quem trouxe a entrevista como dever de casa, em um exercício de interpretação, para a disciplina Língua Portuguesa.

Gary Small fez uma pesquisa com voluntários entre 55 e 76 anos. Colocou-os para navegar na internet e monitorou as reações cerebrais, a nível de sinapse neuronal (a conexão entre os neurônios que torna possível a informação “viajar” pelo nosso cérebro, entre outras muitas funções). Descobriu alterações significativas no funcionamento do cérebro dos usuários constantes de computador e internet, algumas muito boas, outras nem tanto.

Pode parecer uma velha novidade ler as advertências e conclusões de Gary. Não é de hoje que se estuda as novas tecnologias e seus impactos no ser humano, tanto do ponto de vista sociológico quanto do biológico, sem contar com todos os estudos de comunicação e cultura entre um extremo e outro.

A principal conclusão da pesquisa de Gary Small diz respeito ao “fosso” entre gerações, que desenha-se em contornos muito pecualiares nesses nossos tempos de navegação ubiqua. Como legítima representante da categoria dos migrantes digitais, entendo na carne (ou nos neurônios), o que o cientista quer dizer.

Para quem não leu ainda, eis o link da entrevista. Vale a pena pensar no assunto.

 

Tem roteiro novo para a viagem pelo mar de histórias. Trata-se da página Ciência impura, onde pretendo registrar minhas inquietações, dúvidas, descobertas no universo acadêmico e nas suas conexões com a vida “ordinária”. Acessem aqui, ou no menu aí ao lado. O material da página é sobrevivente de um blog criado para uma das disciplinas da Pós em Convergência, da Faculdade Social da Bahia. Desisti da Pós para me dedicar com mais calma ao mestrado em Cultura e Sociedade no IHAC / UFBA e ao projeto Conversa de Menina (em parceria com duas outras jornalistas e amigas queridas). Por isso, tirei o blog acadêmico “Inter.atividade” do ar. As descobertas que fiz porém, meus erros e acertos, podem servir para outros pesquisadores oficiais ou não…

É preciso aparar arestas, limpar tocos e matos, preparar as leiras, jogar o lixo fora e plantar novas sementes para a próxima colheita.

O que aprendi até aqui, carrego comigo com gratidão. Mas nem tudo, porque muito do que ouvi, eu já sabia. É hora de aprender, ou quem sabe, criar algo “verdadeiramente” novo.

>>Hoje sacrifiquei um projeto em nome de um ideal de vida.

Lembrando uma frase de uma das canções do REM, que já publiquei por aqui em outro desses momentos de renascimento que parecem ser a minha eterna sina, eterna benção…

“It´s the end of the world as we know it…and I feel fine”

No livro Modernidade e Identidade, de Anthony Giddens (terminei a leitura e devo publicar uma resenha aqui no blog por esses dias), encontrei uma citação do sociólogo Zigmunt Bauman sobre a lógica de funcionamento da sociedade de consumo. O livro de Giddens fala sobre os processos de auto-identidade na modernidade tardia, ou seja, nos dias que vivemos. Para isso, o autor traça paralelos muito interessantes com o cotidiano. O consumismo não tem como ficar de fora da discussão. Enquanto a resenha de Giddens não fica pronta, vale refletir sobre as palavras de Bauman:

As necessidades individuais de autonomia pessoal, autodefinição, vida autêntica ou perfeição pessoal são todas traduzidas na necessidade de possuir e consumir bens oferecidos no mercado. Essa tradução, no entanto, faz parte da aparência de valor de uso de tais bens, e não do próprio valor de uso; como tal, é intrinsecamente inadequada e em última análise conduz à autoderrota, levando ao alívio momentâneo dos desejos e à frustração duradoura das necessidades…O abismo entre as necessidades humanas e os desejos individuais é produzido pela dominação do mercado, o abismo é, ao mesmo tempo, uma condição de sua reprodução. O mercado se nutre da infelicidade que gera – os medos, ansiedades e sofrimentos da inadequação pessoal que induz liberam o comportamento consumidor indispensável à sua continuidade.”

BAUMAN, Zigmunt. In GIDDENS, Anthony.  Modernidade e Identidade, pg 183. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro – RJ, 2002.

A revolta de Giovanna contra o ataque à estudante paulista que foi à faculdade usando minissaia.

A minha revolta contra dois assassinatos de mulheres, por ciúmes, em Salvador, em 72h. Já são 7 vítimas passionais só este ano.

o-menino-do-pijama-listradoNo meu ritmo já tradicional de ver tudo o que está na moda depois que a moda passa, assisti O menino do pijama listrado esta semana, um ano depois do lançamento no cinema. Ambientado na II Guerra Mundial, um tema sobre o qual tenho grande curiosidade, o filme é um poema. Triste e ao mesmo tempo belo. Comovente, mas nem um pouco piegas. A infância é mostrada em toda a sua inocência, mas não é uma infância subestimada. É a inocência de descobrir o mundo, questioná-lo, chocar-se, um não compreender que guarda uma compreensão intuitiva. O filme é baseado em livro homônimo, de John Boyne, autor que eu não conhecia, livro que ainda não li, mas que pretendo ler. Como ocorre com quase todas as adaptações literárias (com raríssimas exceções) para o cinema, por questões de espaço na produção, preferência do roteirista e diretor, entre outras coisas, muito da história fica de fora dos filmes e essa história, pelo que vi neste filme, vale a pena ser conhecida na íntegra. Conversando com algumas pessoas que também viram o filme, surgiu o questionamento sobre o desfecho da narrativa. Sem antecipar aqui o que acontece, digo apenas que acredito que aquele final era necessário para sustentar a história construída desde o início do filme. Particularmente, gosto de finais que não fazem concessões à emotividade e que por isso, não sacrificam a coerência de uma boa história. Assistindo aos extras, vi uma entrevista com o diretor Mark Herman, em que ele traduz muito bem minha impressão do filme: “não é uma produção sobre a II Guerra Mundial, o conflito é o pano de fundo para mostrar a história de uma família alemã e das consequências do nazismo, muitas trágicas, para a estrutura familiar como um todo”. Diria ainda que é um filme sobre a perda da inocência diante de um flagelo como foi esta guerra em particular. Se pensarmos sob o ponto de vista sociológico, em que a família é o primeiro núcleo de sociedade ao qual somos apresentados, abalos aí, nesta base, comprometem toda a estrutura sobre a qual a nossa sociedade é estruturada, comprometem principalmente a nossa ideia de civilização como a linha que separa o animal humano da barbárie. Admiro os filmes que me colocam para pensar nessas questões. São instigantes, provocadores na medida em que nos levam a reavaliar conceitos. Sem pretenções de construir uma crítica especializada, meu envolvimento passional com os filmes não permite tal reflexão, daí ter desistido de virar “crítica de cinema” na estrita tradução, o que posso dizer de mais técnico sobre O menino do pijama listrado é que o filme tem uma fotografia que nos remete à década de 40 do nazi-fascismo alemão. A luz é muito limpa, as cores esmaecidas, como que envoltas em camadas discretas de cinza. Mais do que as roupas e carros de época, o que nos transporta para a Berlim nazista é a cor e a luz. O roteiro também é enxuto, sem grandes dramatizações, é um cotidiano de 70 anos atrás, envolto em situações que se por um lado tiveram repercussões mundiais até hoje, por outro também foi marcado por centenas de tragédias familiares. Os atores, principalmente as duas crianças protagonistas, são de uma correção e de uma entrega aos seus papeis que poucas vezes vi em meninos tão pequenos. Parecem anjos caídos em meio ao caos. O olhar dos dois é qualquer coisa de desconcertante. E ambos têm só oito anos! Os atores adultos, de forma muito digna, se colocam na posição de coadjuvantes para que aquelas duas crianças conduzam a narrativa. O filme me emocionou, mas foi uma emoção diferente, uma emoção que nasce do eterno desejo humano de contrariar o destino, mesmo quando ele teimosamente recusa-se a mudar.

o menino do pijama listrado 2Uma sinopse: O menino do pijama listrado conta a história da amizade entre Bruno, filho de um comandante da elite nazista, diretor de um campo de concentração, e Schmuel, um menino judeu prisioneiro neste campo. Os dois tem oito anos e até antes da insensatez da guerra, levavam vidas muito parecidas, o que fica claro pelos contrastes sutis nos diálogos das crianças e na própria realidade do campo e da casa de Bruno. O campo aliás, só aparece com contornos indefinidos, visto pelos olhos de Bruno, que a princípio, acredita que o local visto da janela de seu quarto é uma fazenda onde vivem fazendeiros estranhos, que passam o dia vestindo pijamas. A dureza do lugar é revelada aos poucos, quase como um jogo de esconde-esconde, em que Bruno aos poucos compreende a natureza do trabalho de seu pai. Um dado histórico muito interessante do filme é a utilização de trechos de um antigo filme de propaganda nazista, rodado em 1941, que mostrava os campos de concentração como beneméritas cidades construídas por Hitler para presentear os judeus, onde eles viviam felizes na sua segregação. Era esse tipo de filme que passava nos cinemas alemães, numa forma de convencer a classe média do país de que a “higienização” proposta pelo III Reich era benéfica para todos. Algo muito semelhante ao que ocorreu no final da escravidão negra e do processo de colonização, quando surgiam teorias racistas defendendo “a devolução dos negros à África, onde viveriam felizes entre os seus”. A Libéria é um dos países resultantes deste processo. E acreditar que “devolver os negros à África” após quase 400 anos de tráfico de seres humanos, enfim, é de uma insensatez assustadora.

Trailer legendado:

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