O restaurante do meu trabalho fechou temporariamente para reformas. Como temporariamente, leia-se que só vai abrir em 15 de dezembro, isso sendo otimista, porque sempre há o risco de atraso. Sabe como é, vem Natal, Ano Novo, Bom Jesus dos Navegantes, Lavagem do Bonfim, Carnaval… com sorte teremos comida à mão, lá para março. Sem restaurante no prédio, resta a travessia da passarela da av. Tancredo Neves rumo ao Salvador Shopping, ou, para os menos exigentes, as barraquinhas de esquina. Comida barata, mas não me perguntem como é feita. Não duvidem, porém, que seja mais limpa que a dos restaurantes do shopping, alguns inclusive, reprovados em um “baculejo” recente dos agentes da vigilância sanitária. Lá vou eu, por volta das 20h de sexta-feira atravessar a passarela. Nunca antes, por absoluta falta de necessidade, – só vou ao shopping quando é necessário, não faço parte da geração que faz footing nos centros comerciais – precisei atravessar a passarela da Tancredo Neves às 20h. Até porque, em condições normais, nem é seguro. É deserto, rolam uns arrastões de vez em quando. Numa sexta-feira porém, dá para atravessar sem sustos e de quebra, presenciar uma das cenas mais interessantes, antropologicamente falando, que vi esta semana na “velha cidade da bahia”. A avenida Tancredo Neves, para quem não é de Salvador, tem ares de avenida Paulista nordestina. Shoppings, mega-complexos empresariais, restaurantes, lojas de rua, centros de estética, bancos e a Casa do Comércio, com sua arquitetura arrojada e um teatro. Fica situada na fronteira do Caminho das Árvores, bairro de classe média-alta da capital. Mas a avenida Tancredo Neves, sexta-feira à noite, prévia do fim de semana, também é o cenário de uma interação que para um olhar menos atento ou mais segregador, parece distoar muito das mansões do Caminho das Árvores, com exceção da cozinha. As ruas transversais à avenida viram o território social e musical do pagode. Não, não se trata de venda de CD pirata e demonstração em mini-sistems ligados ao poste de luz elétrica mais próxima (um gato camelô). Nada disso, trata-se de uma competição de potência de sons de carrões e carrinhos, do modelo importado ao popular básico e destituído de acessórios, com exceção da caixa de som de cinco bocas, estrategicamente situada no porta-malas. Por isso que eu disse, que pode parecer destoante das mansões. Mas, engana-se quem associa a cultura pagodeira de Salvador às empregadas domésticas. De fato, muitas estavam lá, nas barraquinhas embaixo da passarela, na porta do shopping, isso que achei mais genial, “na porta do shopping” quebrando até o chão. Mas havia também muitas estudantes da universidade que funciona ali pertinho, muitos trabalhadores de ambos os sexos, profissionais liberais com o visual yuppie dos anos 90, os boyzinhos clássicos do pagode, cabeça raspada em moicano oxigenado, corrente grossa de prata no pescoço, bermudão e tênis. Os boyzinhos e os executivos, todos com suas latinhas na mão, assistiam as meninas quebrando ou, os menos tímidos, quebravam com elas. Interação social que extrapola as fronteiras democráticas (será mesmo?) do Carnaval e invade uma avenida conceitualmente projetada para o trabalho e o consumo de alto luxo. A música da cozinha, que também toca no quarto do filhinho malhado ou da filhinha paty da dona da casa, dá o tom dessa “convivência”. Empregadas e patroas quebrando juntas. Ali, naquela sexta-feira de desestresse, desaceleração, na sexta-feira que anuncia o fim de semana da cachaça e da paquera, existe uma democracia construída em torno de um ritmo originalmente periférico. O pagodão invadiu a Tancredo Neves por um fim de semana, para que na segunda-feira, cada um volte a ocupar seu posto na hierarquia desigual da cidade. E eu assisti tudo, “meninos eu vi”, enquanto comia beijus.
P.S.: Mais tarde, comentando com uma colega a minha descoberta, fascinada por ver um pagode acontecendo praticamente na porta de um shopping center super luxuoso, soube que essa festa acontece toda sexta-feira e que começou por acaso, uma barraca aqui, outra ali, e virou festa de largo. A avenida Tancredo Neves está na fronteira do Caminho das Árvores, mas também está na fronteira de Pernambués, bairro popular revelado à Salvador dos ricos graças a abertura da avenida Luis Eduardo Magalhães. O Salvador Shopping, construído com toda a moderna tecnologia e abarrotado de lojas de grife, recebe um contigente enorme de adolescentes de Pernambués e adjacências. Embora não seja ingênua em acreditar em democracia racial e muito menos social no Brasil, mesmo na “cidade mais negra do país”, é inegável que Salvador tem fronteiras pouco definidas, cada dia mais redefinidas ou praticamente inexistentes. Não temos zona sul e não temos a dicotomia geográfica entre o morro e a cidade, mas temos “morros” dentro “da cidade”, bolsões de miséria que envolvem em um abraço, ilhas de prosperidade. Sempre me fascina, num sentido de curiosidade histórica e humana, ver que da janela do apartamento dos que moram, por exemplo, na Sabina Silva (outro endereço dos bem-nascidos) a vista é o Calabar (bairro central, mas com status de periferia). As desigualdades da minha cidade são ímpares porque pobreza e prosperidade estão amalgamadas. No entanto, a convivência, com exceção dessa trégua musical momentânea em nome do prazer da quebradeira (seja no Carnaval ou no pagodão da Tancredo), não é nem de longe pacífica. Salvador é um achado para qualquer estudioso do comportamento humano…