Resenha: O dia do curinga

Viagem transcendental de pai e filho

Jostein Gaarder não nega os anos de prática do magistério em seus romances. Cada um deles traz pequenas lições intrínsecas aos temas escolhidos pelo autor, que sempre foca na filosofia, na religiosidade e na metafísica. Mas é a fórmula da escrita de Gaarder que denuncia anos de atuação em sala de aula. O autor é didático, reflexivo, instigante, mas daquela forma que só os bons professores conseguem ser, só como aqueles que conduzem seus alunos a descoberta de si, do outro e do mundo.

A metáfora para a sala de aula nos seus livros transcende a relação mestre e discípulo, que ele trabalha tão bem em O mundo de Sofia. A garota das Laranjas e O dia do curinga (tema dessa resenha), por exemplo, usam a figura de um pai e seu filho. Vale como ênfase para os laços biológicos, emocionais e sociais que unem pais e filhos, mas vale ainda como uma forma de chamar os pais à responsabilidade. É deles, e só deles, a tarefa de ensinar e conduzir seus filhos mundo afora, tornando-os mais que meros autômatos que comem, dormem e consomem o planeta.

Gaarder é um idealista carregado de humanismo, como tantos autores que o precederam (me ocorre Dickens à memória). E justamente por essa crença na humanidade, ou na divindade humana como reflexo de uma divindade cósmica, que ele muitas vezes transfere o controle emocional, a racionalidade e a compreensão ilimitada até do que está oculto para os filhos, para os inocentes ainda não contaminados pelo pragmatismo da vida. Mais do que aprender com seus pais, nas jornadas pensadas pelo escritor norueguês para seus personagens, são os filhos que ensinam e conduzem com inocência, ludicidade e afeto.

Em O dia do curinga não é diferente. Hans-Thomas, um menino de 12 anos que tem nome de autor de fábula, precisa redimir seu pai, resgatá-lo da depressão, afastá-lo do risco do alcoolismo. Como um anjo da guarda, que, no entanto, ainda precisa de orientação e de algumas lições, ele vela pelo pai, um marinheiro com ares de filósofo, fascinado pelas estrelas, por curingas e amargurado pelo abandono da esposa. O que impede esse homem solitário de ruir é a ternura do filho. Mas esse pai, apesar das falhas, ainda é o código que permite Hans-Thomas decifrar o mundo.

Pai e filho, cúmplices eternos, partem em uma jornada para reencontrar a mãe (e esposa) desaparecida, que os trocou pelo canto do cisne da fama como modelo internacional. A jornada, de carro, por paisagens européias que desvendam desde a gelada Escandinávia até a quente e sedutora Grécia, é alterada pelo surgimento de um misterioso personagem que dá de presente a Hans-Thomas um livro minúsculo. Enquanto para de cidade em cidade com seu pai, seguindo a pista da mãe desaparecida, Hans também acompanha um marinheiro que, personagem do seu pequeno livrinho, vive uma história inusitada em uma ilha mágica.

A narrativa dentro da narrativa, os caminhos de um livro dentro do livro, que se entrecruzam, a eterna metáfora da leitura como senha de acesso ao vasto universo do conhecimento humano que atravessou eras, já são elementos conhecidos de outras histórias de Gaarder, mas que neste O dia do curinga ganham o adendo de uma origem familiar a ser desvendada.

Sem revelar detalhes que tirariam o sabor da descoberta para quem ainda não leu, basta afirmar o lugar comum: como em toda jornada que se preza, Hans e seu pai não voltarão de sua longa viagem sendo as mesmas pessoas.

Falar em sabor, importante enfatizar o quanto O dia do curinga é um livro sinestésico. A começar pela misteriosa e viciante bebida da ilha desconhecida, que desperta todas as sensações com um único gole, passando pelas descrições minuciosas das paisagens que evocam cheiro de neve, das pedras, das flores e até das chaminés no caminho dos viajantes. Interessante também é a forma como o autor “prega” a necessidade do prazer das pequenas coisas para o deleite da alma, mas condena o hedonismo vazio e anestésico, que embota a percepção e prejudica o juízo.

Ressalto ainda a figura outsider do curinga (a carta que não pertence a nenhum naipe), como metáfora para o marinheiro que não pertence a nenhum porto, o homem que não se encaixa no carrossel de fama e dinheiro dos sonhos da esposa, o menino germano-norueguês filho da união condenada de um soldado do Reich com uma camponesa; ou ainda, como o símbolo máximo das pessoas que não aceitam respostas prontas e se negam a olhar para o mundo como se ele sempre tivesse estado aí. O curinga, assim como os viajantes do livro e os leitores-viajantes que seguem as palavras de Gaarder, se recusa à indiferença.

Ficha Técnica

O dia do curinga

Autor: Jostein Gaarder

Tradução: João Azenha Jr.

Editora: Companhia das Letras

384 páginas / Preço: entre R$ 27,00 e R$ 58,00

3 pensamentos sobre “Resenha: O dia do curinga

  1. Bom dia!

    Apesar de só ter lido O mundo de Sofia, fiquei apaixonada pela forma de escrever de Gaarder! É envolvente, dinâmico….Na minha lista de futuras aquisições (que cresce indefinidamente…rs) já estava a Biblioteca de Bibbi Boken e o Dia do curinga. Amei ver a resenha aqui pq a vontade só aumentou.

    Bj e feliz natal antecipado! Que papai noel traga tudo que vc pediu/sonhou e mais alguma coisinha boa de bônus!

    * Lembrei das Crônicas de buzu. Hoje fiquei admirada com a coordenação motora de uma senhora que vinha pintando as unhas no sacolejo do Cabula VI. Mas, veja bem, ela não passava base….pintava de rosa cremoso…e ainda adicionou o cintilante! D-i-v-a. rs.

    • O Dia do curinga é muito bom, você vai gostar! Escreve a historinha da moça pintando as unhas no Cabula VI lá no Dignidade :) Beijoe enormes e desejo tudo de bom e de lindo pra você também no Natal e no ano todo, Nayara.

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