(Im)paciente Crônica: ‘Dormiu, perdeu!’ (mas, se não dormir, perde também)

A pandemia de covid-19 alterou o ciclo de sono de uma parcela significativa da população mundial. Em maior ou menor grau, a depender da região onde se vive, das condições econômicas e da infraestrutura para combate do vírus garantida pelo poder público, quase todos estamos com sintomas de estresse pós-traumático, bournout, insônia e depressão. Nunca se discutiu tanto a importância de se construir um mundo que priorize a saúde mental quanto nos anos mais recentes da “aventura humana na Terra”.

Diante desse cenário, fico me perguntando o que é que se passa na cabeça de um profissional de publicidade ou marketing para bolar as campanhas que vira e mexe entopem caixas de e-mail e feeds do Instagram e do Facebook: “Dormiu, perdeu!”.

A primeira vez que recebi uma publicidade dessas fiquei sem reação por alguns segundos. Como, em um mundo onde a hiperconexão, a jornada 24×7 e o ‘trabalhe enquanto eles dormem’ são cada vez mais questionados porque já está demonstrado que nada disso faz bem aos nossos corpos e mentes; onde já se provou com pesquisas que a má qualidade de sono impacta diretamente na qualidade de vida, há ainda marcas que aceitam atrelar seus nomes à ideia de que dormir é perder oportunidades [nesse caso, de compras a preços promocionais]?

Induzir as pessoas a se privarem de descanso para azeitar a engrenagem da economia fortemente baseada no consumo é irresponsável e contraproducente, além de perverso. Mas, existe explicação. Privação de sono leva a um estado de cansaço extremo que mina a atenção, derruba as defesas do sistema imunológico, mas também reduz drasticamente as defesas mentais. Totalmente confusos por não dormir o que nosso cérebro necessita, somos levados a tomar decisões equivocadas e impulsivas.

Pode parecer que as marcas que apostam nesse marketing agressivo estão inovando as estratégias de venda; ou que para fazer a roda do mundo girar, é preciso que mais gente consuma para que mais gente trabalhe produzindo. Mas, vale lembrar, é de saúde física e mental que falamos e uma pandemia de insônia e ansiedade, definitivamente, não fazem a roda girar mais rápido.

Se a ideia é oferecer produtos para alguém que está com a capacidade de pensar com clareza reduzida pela exaustão, parabéns às marcas! Elas descobriram a fórmula perfeita – mais uma – de ganhar rios de dinheiro à custa do bem-estar dos clientes.

No entanto, essa estratégia que parece perfeita para incrementar as vagas de emprego desde a indústria até o varejo, a médio e longo prazos impacta outros setores da sociedade e da economia. Falando a língua clara do mercado: a marca até pode vender mais batons, celulares ou utilidades para o lar aos clientes que compram por impulso no meio da madrugada. Mas, há o risco de uma sociedade totalmente adoecida entrar em colapso, o que certamente terá efeitos negativos no caixa das grandes companhias.

Vejamos a matemática: trabalhadores fatigados erram mais, o que gera prejuízos para as empresas. Como diria minha avó, ‘você descobre um santo para cobrir o outro’ ou, ainda, ‘troca seis por meia dúzia’. O comércio lucra, mas outros setores podem perder bastante. Gente insone também adoece mais, o que, por sua vez, além de impactar na produtividade e no faturamento, sobrecarrega o sistema de saúde. O caos dos hospitais, inclusive daqueles privados, durante o auge da pandemia de covid-19, acredito, foi o suficiente para demonstrar de forma empírica o quanto a nossa civilização se sustenta em alicerces frágeis.

Tem alguém apertando os gatilhos da sua mente

Você que está lendo essa minha (im)paciente crônica pode pensar aí com seus botões que afinal, ‘as pessoas são adultas, são capazes de decidir, sabem se defender, se estiverem cansadas vão repousar e não caçar promoção na internet entre 0h e 6h’. Infelizmente, não é bem assim que a coisa funciona. A estratégia ‘dormiu, perdeu’ é prática disseminada no mercado e ensinada por coaches de negócios que ‘treinam’ empresários para baterem suas metas anuais e fecharem lindamente no azul.

Os cards, flyers e postagens nas redes sociais das marcas que querem apelar para esse tipo de técnica de venda agressiva trabalham com formas específicas de disparar os gatilhos mentais das pessoas. Nada no mundo da comunicação, do marketing e dos negócios é aleatório ou inofensivo. Nada no mundo modelado por humanos é ao acaso e, muito menos, inocente.

Palavras, frases, a estruturação dos textos, tudo passa uma mensagem subliminar que dispara sentimentos, anseios, sensações e, dessa forma, induzem a pessoa – agora convertida em consumidora em potencial – a comprar por impulso ou mesmo a sacrificar as horas de sono reparador para entrar naquele site de e-commerce irresistível e disputar os últimos itens em promoção de alguma coisa que, estivesse descansada e de mente focada, ela perceberia que nem precisa tanto assim.

Esse povo inteligente que cria as campanhas que moldam nossos objetos de desejo, mexe, literalmente, com a química das áreas do nosso cérebro que lidam com as recompensas. É o mesmo mecanismo que leva alguém ao vício em álcool, cigarro ou entorpecentes. E isso não sou quem estou dizendo, é a ciência, são os acadêmicos de diversas áreas, da sociologia, psicologia, administração e do próprio marketing, inclusive.

Efeito cascata

Não dormir o necessário provoca pane no sistema. Uma noite insone já é capaz de bagunçar a saúde física e mental. Um teste: Quem aí nunca se sentiu meio lento, como se flutuasse, após uma noite inteira sem dormir e tendo de encarar ‘zilhões’ de tarefas e atividades no dia seguinte? Pois é. Quando as noites em claro se acumulam, aumentam os riscos de doenças cardiovasculares (hipertensão, insuficiência cardíaca, ter um infarto em idade improvável), diabetes, demência. Sim, a Doença de Alzheimer do futuro também é gestada naquelas noites sem pregar o olho acumuladas ao longo da vida.

“Ficar dias sem dormir está associado à diminuição de emoções positivas e ao aumento das negativas, além de sintomas físicos”, afirma a pesquisadora Soomi Lee, professora da Escola de Estudos do Envelhecimento da Universidade da Flórida (EUA). Essa referência pesquei em uma reportagem no site da CNN Brasil, publicada no ano passado (leia aqui). Soomi Lee é autora de um estudo sobre os efeitos da insônia no organismo, publicado em 2021 no Annals of Behavioral Medicine. Outros pesquisadores também já estudaram o tema em ‘laboratórios’ do sono ou das doenças do sono mundo afora.

Adultos, geralmente, dormem bem menos que crianças e adolescentes. E dormem mal. Na medida em que entramos na idade produtiva, as responsabilidades aumentam em progressão geométrica, assim como as preocupações que tiram o sono. Depois do advento da covid, a situação piorou bastante, porque além da ansiedade do tempo de confinamento, do luto e de tudo o que o medo do vírus nos causou emocionalmente – e ainda causa, porque a pandemia não acabou -, com o retorno às atividades, em diversos setores ocorreu uma precarização muito maior do trabalho, incluindo as ondas de desemprego em massa e crise econômica.

As pessoas, com exceções lógico, mas em sua maioria, estão exaustas, estressadas e adoecidas em diversos níveis. Elas não precisam ser bombardeadas por discursos desonestos que prometem essa forma de distinção social totalmente distorcida e embutida em frases como ‘trabalhe enquanto eles dormem’ ou ‘dormiu, perdeu’.

Não há mérito possível quando o preço a pagar é a qualidade de vida ou a sanidade. Nesses casos, todo mundo só perde…

Imagem: Andreia Santana/@blogmardehistorias

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