De mãos dadas com Mia Couto

Mia Couto me conduz pela mão a cada história que leio. Com ele percorro as estradas da sua Moçambique natal e também as sendas misteriosas dos milagres impossíveis, dos fantasmas do tempo, da doçura do modo africano de contar histórias. Me aconchego nas palavras de Mia, como se seus personagens me conduzissem para a origem humana.

Essa capa deslumbrante tem ilustração do mineiro Angelo Abu
(Foto: Andreia Santana/Blog Mar de Histórias)

Na Berma de Nenhuma Estrada (Companhia das Letras, 2016) é uma coletânea que reúne 38 contos do autor escolhidos dentre aqueles originalmente publicados em jornais e revistas. Os textos são bem curtinhos, mas dialogam diretamente com as memórias ancestrais do leitor, com o ren, diriam os antigos egípcios ao se referirem àquela parte da alma que guarda as memórias e a identidade, que define quem somos por resguardar aquilo do qual somos feitos.

As histórias reunidas nesse livro trazem personagens distintos, mas todos têm em comum uma sabedoria aprendida com o tempo, com a natureza, com a eterna espera. Os contos versam por temas desde os dramas cotidianos, como as rivalidades étnico-religiosas que jogam vizinhos contra vizinhos; até aqueles mais sobrenaturais, que bebem na fonte do realismo fantástico: a mulher que faz-se chuva ao chorar a dor dos outros; o homem cujo espírito se transmuta em passarinho na hora da morte; o marido morto que traz uma última mensagem à viúva; o casal de idosos unido pelo hábito e pela amargura; a moça que envelheceu à beira do caminho esperando quem nunca chegou…

Nessa miríade de vidas sofridas, Mia Couto vai revelando o avesso das criaturas, revirando as entranhas da terra e das almas. Deve ser porque o autor é um grande amigo dos gatos, essas criaturas ctônicas, que guardam as chaves do oculto. É por isso que Mia enxerga tão bem o que as pessoas levam por dentro.

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O exemplar que eu li: Foi publicado no Brasil em 2016, pela Companhia das Letras. Gosto bastante das capas dos livros dessa coleção, com as ilustrações do mineiro Angelo Abu e projeto gráfico de Alceu Chierosin Nunes. Como vocês podem ver na foto acima, é um deslumbre! Do autor, que é um dos meus xodós literários, também já li Vozes anoitecidas, A Varanda do Frangipani, O Último Voo do Flamingo e Venenos de Deus, Remédios do Diabo. Todos marcantes e mais que recomendados. Ler Mia Couto abre a mente e conforta o coração…

Mais sobre Mia no blog:
>>Resenha de A varanda do frangipani

Ficha Técnica:
Na berma de nenhuma estrada
Autor: Mia Couto
Editora: Companhia das Letras (2016)
200 páginas
*R$ 22,99, na Amazon e Submarino (livro físico); R$ 47,90, no site da editora (livro físico); R$ 12,00, usado, na Estante Virtual (livro físico)
*Pesquisado em 15/09/2022

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