Resenha: As Benevolentes

Os piores castigos impostos pelas Erínias bastariam para apagar da memória coletiva os horrores da II Guerra Mundial e do nazismo? Maximilien Aue, protagonista de As Benevolentes (Alfaguara, 2007) se faz essa pergunta enquanto desfia um rosário de misérias diante do leitor atônito. Com quase mil páginas, essa é leitura árdua tanto pelo volume do livro quanto pela complexidade, crueza e opressão do tema.

Protagonista desse inquietante e premiado romance histórico do escritor franco-americano Jonathan Littell, Max Aue é um oficial nazista que décadas depois do fim da guerra e tendo escapado do expurgo (os julgamentos e as execuções de ex-servidores do III Reich), vive uma pacata vida de comerciante de peças de renda na França.

Idoso e com um problema de saúde constrangedor no intestino, ele oferece um relato que oscila entre a crueldade e o delírio, da campanha alemã na Rússia e no Leste Europeu. De certa forma, ler esse livro no meio da guerra provocada após a invasão da Rússia à Ucrânia, em fevereiro de 2022, facilita o entendimento das rivalidades entre esses dois países vizinhos e da complexa geopolítica do pós-guerra.

O exemplar que meu amigo não terminou e veio para a minha estante
(Foto: Andreia Santana/Blog Mar de Histórias)

Além da história muito bem contada, o livro de Littell também traz uma riqueza de informações históricas e um providencial glossário com as patentes dos militares do Reich e as expressões típicas da caserna ou da cultura alemã, para ajudar o leitor a entender melhor a quantidade exorbitante de dados que compõem o romance. Dados esses que mesmo armazenados na frieza dos números – ele divulga as estatísticas de mortos entre judeus, ciganos, soldados russos, soldados alemães e civis, por exemplo, – revelam a dimensão apocalíptica dessa guerra.

As situações de abuso moral, psicológico e físico – principalmente sexual – da população civil dos países invadidos e das vítimas de extermínio reviram o estômago até de quem é acostumado com as histórias mais cruéis que a literatura já engendrou. Essa narrativa, em muitas passagens bastante escatológica, enfatiza o lugar do estupro como um crime de poder e humilhação. E isso causa repulsa e um desconforto que grita na alma do leitor.

Acredito que o autor desceu tão fundo na lama com a intenção menos de chocar ou de fetichizar esse tipo de violência visceral [e é importante ressalvar que no caso da guerra, é uma violência acima de identidades de gênero, faixa etária ou país de origem das vítimas]; e mais no intuito de advertir, de botar o dedo acusador na ferida.

Ao mesmo tempo em que narra as situações mais escabrosas e humilhantes vividas pela população dos países ocupados, demonstra que quem cometeu tanta atrocidade era gente comum, mediana, do tipo que se encontra em uma esquina, na padaria, no piquenique no parque. Ainda assim, gente que se habituou ao racismo e à xenofobia quase como se fossem traços culturais. O que é triste e revoltante.

Esse livro árido e sufocante tem ainda suas armadilhas, já que o leitor é apresentado aos fatos pelo olhar subjetivo e bastante contaminado de Max Aue. É o carrasco sem remorsos na velhice, praticamente indiferente e resignado a essa indiferença, quem revela os pavores de sua juventude como um autoconsolo para a própria consciência. E sem muito desejo de arrependimento.

Max Aue é esquizofrênico [ele já tinha alucinações antes de ir para o front e a guerra só piora sua condição] e nutre, desde criança, uma paixão incestuosa pela irmã gêmea, ao mesmo tempo em que coleciona jovens soldados como amantes. Ele se esconde em um armário com portas de vidro, como muitos outros oficiais da época, porque as pessoas LGBTQIA+ também pereceram nos campos de concentração, é importante não esquecer dessas vítimas do nazismo.

No alto oficialato nazista, a pena para relações homossexuais era o fuzilamento ou o envio aos campos de concentração. No entanto, ao criar um personagem gay que precisa demonstrar a todo tempo uma masculinidade exacerbada de forma tão selvagem e tóxica para preservar a própria vida, Littell toca em um ponto sensível e importantíssimo da cartilha das ditaduras e dos regimes totalitários: o controle extremo e total do indivíduo, de sua identidade, dos seus desejos e até da personalidade.

No caso das mulheres cis e heterossexuais, por exemplo, o Reich não punia comportamentos que aos olhos da cultura dos anos 1930/1940 seriam considerados escandalosos. Ao contrário, estimulava que elas se envolvessem com o máximo de homens possíveis e engravidassem para gerar ‘muitas crianças arianas’. Desde que esses civis, soldados ou oficiais estivessem dentro do ideal de perfeição física e mental ditada pela ótica racista do regime, lógico. Ao contrário da violência praticada contra as pessoas nas zonas ocupadas, aqui o sexo e a procriação eram vistos como um dever de Estado.

Ao final da leitura de As Benevolentes e, ao traçar paralelos com o mundo atual, o leitor constata sem nenhuma surpresa, mas ainda assim com bastante pesar, que na história da humanidade, o horror nunca dorme, só cochila. E sempre com um dos olhos abertos, à espreita…

O exemplar que eu li:

Foi emprestado por um amigo do trabalho que sabe que eu tenho obsessão pela II Guerra Mundial como objeto de estudo. Ele me falou do livro em uma conversa motivada por outro livro sobre as relações de Hitler e Stálin durante o conflito, que ainda está na minha lista de leituras futuras. Esse amigo fez uma breve sinopse d´As benevolentes para mim e eu pedi emprestado quando ele terminasse de ler. Acontece que esse amigo não conseguiu avançar na leitura porque se sentiu bastante incomodado com a narrativa crua, cáustica e assustadora do personagem principal. Ele abandonou o livro e o levou para mim. Demorei quase seis meses lendo, foi um dos livros que levei mais tempo – aqueles que abandonei e retomei não contam – para concluir, porque em alguns dias, quando estava de baixo-astral (e como não estar de baixo-astral no Brasil de 2022?), só conseguia ler uma ou duas páginas. Persisti porque o livro é instigante, extremamente rico de conteúdo histórico e absurdamente bem escrito, embora doloroso em um nível impensável em muitas passagens…

Um pouco de mitologia grega:

‘Benevolentes’ é uma das formas que os antigos gregos usavam para se referir às Erínias, as entidades que personificam a vingança e castigam os mortais pecadores. Elas são as responsáveis pelas tormentas sofridas no Hades [o mundo inferior que recebe as almas dos mortos, dividido em Campos de Punição (Inferno), Campos de Asfódelos (Purgatório) e Campos Elísios (Paraíso)]. Eram chamadas de ‘benevolentes’ ou ‘bondosas’ por ironia e superstição, pois acreditava-se que pronunciar seus nomes as atrairia. Eram três: Alecto, Tisífone e Megera. Os romanos as chamavam de Fúrias.

Uma peculiaridade:

O livro As Benevolentes ganhou tanto o Goncourt, um equivalente ao Oscar francês da literatura, no ano de lançamento, 2006; quanto o Bad Sex Awards, o que seria um tipo de Framboesa de Ouro literário dado às descrições de sexo consideradas muito ruins ou toscas em romances, no mesmo ano.

Outra particularidade:

Quando estava escrevendo essa resenha, o New York Times publicou uma reportagem sobre o documentário The Devil’s Confession: The Lost Eichmann Tapes (Confissões do Diabo: as gravações perdidas de Eichmann, em tradução livre). O filme, produção para a MGM de dois descendentes de sobreviventes de campos de concentração, revela um achado histórico valioso, as fitas gravadas por Adolf Eichmann para um simpatizante holandês do nazismo, anos após o fim da guerra e antes dele ser executado depois do julgamento em Jerusalém. No que sobreviveu dessa gravação e que por décadas esteve sob a guarda do governo alemão, com acesso apenas para pesquisadores acadêmicos, Eichmann narra as atrocidades da ‘Solução Final’ com uma frieza e indiferença inacreditáveis. O filme, até a publicação dessa resenha, só havia sido exibido em Israel e a MGM buscava parceiros para fazer a distribuição mundial. Também não estava disponível ainda em nenhum streaming acessado no Brasil.

Uma dica de material complementar:

Sobre a ‘Solução Final’, assisti recentemente ao filme Conspiração (EUA, Frank Pierson, 2001), que mostra os bastidores da reunião que teria engendrado o extermínio dos judeus. Vale prestar muita atenção a Stanley Tucci, que vive Eichmann no filme. O ator dá um show de interpretação ao incorporar a personalidade subserviente, asquerosa e burocrática do nazista. A sensação é que ele estava mesmo possuído pelo espírito do ‘demônio’. Esse tem no HBO Max.

Ficha Técnica:
As benevolentes
Autor: Jonathan Littell
Tradutor: André Telles
Editora: Alfaguara (2007)
912 páginas
R$ 81,70 (novo no site da Magalu), R$ 71,67 (novo na Amazon e site Americanas) e a partir de R$ 19,90 (usado na Estante Virtual)

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