Resenha: A odisseia de Penélope

Imagem: Instagram @blogmardehistorias / Andreia Santana

A quem interessa uma Penélope devotada? Será que a costura feita durante o dia e desfeita à noite era mesmo um sinal da submissão de uma esposa fiel ou a autodefesa de uma mulher cercada por homens hostis e que precisava jogar com as armas à disposição?

Para mim, a costura de Penélope e sua interminável mortalha sempre foi a paciência e a persistência de uma pessoa que não tem medo de refazer caminhos quantas vezes forem necessárias e que deixada à própria sorte, criou suas tramas para sobreviver. Penélope sempre foi muito maior do que Odisseu e ele, certamente, sabia muito bem disso.

Margaret Atwood, em A Odisseia de Penélope (Rocco, 2020) confirma a impressão que sempre tive da história da rainha de Ítaca, ao contar a história a partir do ponto de vista de quem permaneceu e lutou as batalhas do dia a dia, e não apenas a versão oficial de quem partiu e se omitiu de governar o próprio reino por 20 anos.

Ao recontar a Odisseia pelo prisma de Penélope, Atwood reabilita a figura da rainha. Tira dela o ranço patriarcal, permite que tenha voz ativa, já que por duas décadas, enquanto o marido enfrenta ‘perigos’ terríveis como dormir com deusas, ela governa Ítaca e cria Telêmaco.

Em pouco mais de 120 páginas, a autora subverte a lógica de um mito da Grécia antiga e molda-o aos novos tempos. É uma perspectiva, no mínimo, bastante interessante, uma vez que boa parte das mazelas que as mulheres ainda enfrentam, como a praga do machismo, são a herança maldita da cultura majoritariamente misógina grego-romana-judaico-cristã.

Isso não significa, no entanto, que A Odisseia de Homero deva ser destruída ou desprezada. Ao contrário, conhecer o mito clássico é o que torna possível entender a importância da precisa e criativa recriação de Margaret Atwood.

Penélope e suas 12 servas enforcadas careciam há muito tempo de serem vistas pelo olhar feminista, solidário e compreensivo de outra mulher.

O exemplar que eu li:
Foi lançado no Brasil em 2020, pela Rocco, editora que atualmente publica Margaret Atwood no Brasil. A capa do livro, que achei linda, remete ao mito clássico que diz que Penélope foi jogada ao mar pelo pai, quando era criança, e que a futura rainha de Ítaca foi salva por um bando de gansos enviados pelos deuses.

Capa da edição brasileira reproduz o mito do salvamento de Penélope pelos gansos

Ficha Técnica:
A odisseia de Penélope
Autora: Margaret Atwood
Tradução: Celso Nogueira
Editora Rocco
128 páginas
R$ 18,70 (capa comum) e R$ 13,09 (e-book)*
*Pesquisa 17/10/21 na Amazon e Magazine Luíza

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