Literatura, Resenhas

Resenha: O som do tempo passando (Victor Mascarenhas)

A voz de Renato Russo cantando ‘Quase sem querer’ grudou feito chiclete na minha memória logo nas primeiras páginas de O som do tempo passando, romance de Victor Mascarenhas lançado pelo selo Cafeína Produção de Conteúdo, criado pelo próprio autor. Colaram-se em mim feito segunda pele a melodia e a letra, que me espantei ao perceber que ainda sabia cantar do primeiro ao último verso. Quem tem mais de 40 invernos, certamente, vai se identificar com a reminiscência.

Fui catar Renato no Deezer, para ele me servir de companhia nessa viagem proposta por Victor, um velho conhecido do blog – dele já li e resenhei a novela Xing Ling e o livro de contos Um certo mal-estar, onde inclusive está o embrião desse novo romance.

Aproveitei para resgatar daquele mar digital de canções, algumas das pérolas do rock nacional e internacional que o autor cita em O som do tempo passando, onde brinca com as letras, inserindo trechos no decorrer da história, como se no rock raiz residisse o tão buscado segredo da sabedoria. ‘Criaturas flamejantes’, uni-vos!

O som do tempo passando me ganhou logo no título poético e cheio de promessas musicais. Victor é desses que sabe que a vida cotidiana com uma trilha sonora é mais fácil de suportar. O autor também se mantém fiel ao estilo que, na minha modesta opinião, já se consolidou como sua marca registrada: uma escrita veloz, fluída e perspicaz, recheada de frases mordazes e inspiradas que vão se unindo e arrebatam o leitor, conquistando-o logo nos primeiros parágrafos.

E se o título do livro me deu aquele quentinho no coração, o primeiro capítulo, que tem como cenário um prosaico supermercado, me fez rir com gosto da nossa tragicômica neo-identidade de cidadãos consumidores entediados.

Passeando pelos corredores iluminados com as hospitalares e impessoais lâmpadas fluorescentes, Miguel, um dos protagonistas, filosofa sobre a condição humana no melhor estilo ‘cínico de meia idade’, aquele tipo que reclama dos templos de consumo que se erguem sobre pracinhas arborizadas, enquanto empurra o carrinho em direção à fila que avança mais rápido.

Além de Miguel, protagonizam essa incursão ao coração selvagem da minha adolescência, os amigos Ricardo, Henrique e Aílton. Os quatro são remanescentes de uma época em que boa parte dos garotos – e garotas, bom registrar – tinha aquela certeza nascida da inocência de que iria mudar o mundo.

A cidade mudou muito, mas ainda continua sendo muito familiar para mim. É como visitar uma tia velha, um incômodo misturado com deja vu, mas com uma sensação de pertencimento muito forte. Mesmo morando tanto tempo fora, tendo rodado meio mundo, nunca me senti verdadeiramente em casa em lugar nenhum, só aqui nessa cidade de merda, que cresceu bastante de quando fui embora pra cá, mas acabou igual a todas as outras, com as mesmas lojas, os mesmos carros, as mesmas roupas, os mesmos problemas e as mesmas pessoas vagando pra lá e pra cá com seus celulares.”  (Victor Mascarenhas, O som do tempo passando, pág. 33, 2019, Cafeína Produção de Conteúdo)

A história mistura o período da efervescência do rock no Brasil, entre meados dos anos 1980 e começo dos 90, com os dias atuais, costurando recortes da juventude dos protagonistas com suas vidas como homens de meia-idade. Quem viveu a época vai sentir nostalgia. Para os mais novinhos, vale pela espiada na adolescência dos pais e mães e pelas lições tanto sobre artistas e bandas quanto pelo clima do país recém-saído de uma ditadura militar.

Embora o objetivo do livro não seja dar lição de História, o contexto da juventude dos protagonistas – entre diversas  mudanças globais, aquela época viu o acidente de Chernobyl (1987), a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da União Soviética (1991) – serve para o leitor entender quem eles eram e quem se tornaram com o avançar da idade.

Os quatro amigos queriam montar uma banda de rock, mas a vida os levou por caminhos diferentes. Já adultos, cheios de responsabilidades, acomodados com as vidinhas que levam e com as neuras de homens na crise da meia idade, decidem se reencontrar para tocar juntos mais uma vez. A reunião desencava ressentimentos, mágoas, lembranças mais amenas e outras hilárias, ao menos para o leitor, convidado a testemunhar os micos dos garotos e dos coroas que eles se tornaram.

Para alguns, a tarde de nostalgia renderá uma despedida meio tardia da adolescência, para outros, será como abrir uma cápsula do tempo, a gente se diverte com o conteúdo, ri dos constrangimentos da juventude e depois segue a vida, que as contas precisam ser pagas, como bem representam os memes sobre ser adulto e quitar boletos.

E o que é mesmo essa tal de maturidade para essa geração que em 30 anos assistiu ao mundo mudar na velocidade da luz? Além dos boletos, claro, da revolução digital e de um monte de experiências acumuladas e expectativas frustradas, até porque nem sempre é fácil se adaptar aos novos ‘tempos líquidos’, somos também aquela coleção de velhos discos de bandas preferidas, com seus versos meio ingênuos e meio contestadores…

Ficha Técnica:

O som do tempo passando

Autor: Victor Mascarenhas

Editora: Cafeína Produção de Conteúdo

116 páginas

R$ 40,00 (no site da editora, com frete incluso para qualquer lugar do Brasil)

Onde comprar: literaturacomcafeina.blogspot.com

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