Literatura, Resenhas

Resenha: Mônica vai jantar

Mônica está presa em um looping. E o que torna a protagonista do novo livro de Davi Boaventura, Mônica vai jantar (Não editora) tão real, é que a maioria das mulheres, pelo menos em alguma fase da vida, também já esteve presa em um looping, Seja provocado por relacionamentos tóxicos, crises profissionais ou estresses familiares.

Sair do vórtice de repetições é o que Mônica tenta fazer, mas na fase inicial da crise, tudo o que ela consegue é se emaranhar cada vez mais no fato que detonou seu atual estado de imobilidade. Remoer a humilhação é uma forma de luto não só pelo romance abalado por um ato insensato do namorado, mas também por todos os sapos que a protagonista engoliu durante a vida. Mônica é uma represa que arrebentou.

Essa protagonista beirando os 30 anos, contemporânea, cosmopolita e aparentemente bem resolvida, percebe-se confusa e incapaz de decidir o que fazer diante da esdrúxula notícia que recebeu do próprio autor da injúria, no caso, o namorado com quem divide um apartamento. Inicialmente, ela experimenta aquela falta de lucidez temporária que atinge quem vê a vida desabar, embora, no fundo, sempre soubesse que essa vida perfeita era um castelo erguido sobre fundações de areia movediça.

O fato dela ter um compromisso social no mesmo dia em que seu mundo caiu transforma o ato prosaico de se vestir para um jantar de trabalho com pessoas das quais não gosta tanto assim, em um fluxo de ações compulsivas. Mônica se perde nos pensamentos e nos gestos de escolher o que vestir e fazer a maquiagem, o que por si só já é uma metáfora pelo avesso.

As mulheres que vivem uma crise, em geral, costumam ligar o piloto automático para se acalmar. Lavar o chão da cozinha, cortar o cabelo, tomar um banho demorado ou pintar a cara são escudos de normalidade que as ajudam a reencontrar o eixo perdido. Mas, no caso dessa moça perplexa e furiosa, que não consegue verter uma lágrima e oscila entre a repulsa e a negação, cada ação rotineira só alimenta a neurose.

O jantar a enoja tanto quanto o ato do namorado. Mas ela diz a si mesma que tem de ir para cumprir uma obrigação social e profissional, embora pondere que trata-se de um evento da mesma empresa onde sofre assédio. Sem forças para romper o ciclo de repetições, é de forma resignada e meio desesperada que ela se veste para esse evento como quem recebe uma sentença de morte.

A escrita em fluxo contínuo é um acerto fabuloso do autor, porque joga o leitor dentro desse redemoinho de emoções e de pensamentos da protagonista. O pensamento não tem rédeas, corre livre de uma sinapse a outra, sem pontos, vírgulas e sem pausas para respirar. A leitura também segue esse ritmo caudaloso, como um tsunami que empurra o que está no caminho.

Quem já experimentou algum abalo emocional, seja por uma situação difícil ou revelação bombástica; ou quem já perdeu o chão e questionou a confiança que depositava em pessoas próximas, quem amargou uma profunda decepção com alguém que juramos que nunca iria decepcionar, vai abraçar Mônica quase como uma alma gêmea e um espelho ampliado dos dramas vividos.

O grande mérito da escrita de Davi Boaventura, também autor de Talvez não tenha criança no céu (já resenhado aqui no blog), é essa capacidade empática que o autor tem de criar personagens verossímeis e capazes de traduzir aqueles lados da nossa personalidade que nem sempre deixamos à mostra. Ninguém quer reconhecer que muito provavelmente reagiria da mesma forma que Mônica reagiu se estivesse no lugar dela. Embora seja espelho, o reflexo que ela mostra não é dos mais favoráveis.

Do livro de estreia para essa segunda incursão no romance, Davi Boaventura mostra que evoluiu em seu estilo próprio de criar personagens que, ao mesmo tempo em que causam um certo mal-estar no leitor – a passividade de Mônica e sua confusão compulsiva dão raiva – também trazem grande intensidade e profundidade de emoções. Os personagens de Davi são ricos em camadas e ele os disseca, nos disseca enquanto leitores, até o osso.

Ficha Técnica:

Mônica vai jantar

Autor: Davi Boaventura

Não Editora

96 páginas

*R$ 39,01 (capa comum) e R$ 29,99 (e-book)

*Pesquisado na Amazon em 11/06/2019

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