Literatura, Resenhas

Resenha: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Elenco da peça Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (Foto: Divulgação)

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada não é um livro convencional, mas o roteiro de uma peça de teatro. Como roteiro, deve ser bem mais interessante de ver no palco ou mesmo em versão cinematográfica (o que, inclusive, foi desmentido por J. K. Rowling em 2017, pouco depois do roteiro da peça ser publicado). É para ser encenado e não exatamente lido em formato de texto corrido.

Mas, não é o formato do texto que prejudica a leitura e dá a esse produto derivado da série original o título de mais fraca dentre todas as histórias do universo potteriano – mais fraca, inclusive, que o prequel ‘Animais Fantásticos e Onde Habitam’, que tem seu charme enquanto manual de criaturas mágicas e exóticas.

Baseado em uma história de J. K. Rowling com o diretor John Tiffany, o texto não foi 100% escrito pela autora da saga Harry Potter, mas pelo dramaturgo Jack Thorne, que demonstra não estar muito familiarizado com a mitologia potteriana.

A fraqueza de A Criança Amaldiçoada não está na ideia do roteiro em si, ou no formato roteiro com as descrições e marcações das cenas. Para quem gosta de cinema ou de teatro e consegue viajar no processo de criação de um filme ou peça, ler um roteiro pode até ser divertido e instrutivo.

O problema é a pressa com que o texto foi lançado no formato livro, sem um devido tratamento editorial que o aproximasse mais de uma narrativa para ser lida e não assistida. Dá a nítida impressão de que se trata de uma obra ‘caça-níquel’, sendo que a franquia Harry Potter rende bilhões e não precisa de obras ‘caça-níquel’.

O roteiro parte de uma ideia bacana, embora já bastante explorada, que é a viagem no tempo e o desejo que temos de poder refazer ou desfazer coisas que aconteceram no passado. Brinca também com as consequências de se mexer no tempo e com o chamado ‘efeito borboleta’: se você altera uma situação do passado, muda o presente e o futuro. Quanto mais tenta consertar as coisas, mais elas ficam enroladas.

O livro traz ainda um conflito entre pais e filhos, outro mote bastante explorado nas histórias desde Sófocles e seu ‘Édipo Rei’, que também foi escrito para o teatro, mas que é publicado em livro há séculos e a leitura é excelente. Shakespeare também explorou conflitos familiares e questões entre pais e filhos em suas peças (Hamlet, Rei Lear, etc.) e ainda nesses casos, as peças são publicadas em livro há séculos, sendo igualmente excelentes.

J.K. Rowling não é autora de um clássico que está no cânone da literatura mundial, como o grego Sófocles ou o bardo britânico William Shakespeare. Mas ela é a autora de um clássico contemporâneo e só por isso, deveria ter sido mas cuidadosa ao associar o próprio nome e o da saga Harry Potter a um produto tão mal acabado.

A escolha do dramaturgo Jack Thorne para escrever a peça não foi muito feliz, porque mesmo para um roteiro de teatro, A Criança Amaldiçoada é mal amarrado e traz situações que simplesmente não se encaixam na lógica de uma história original e nem naquela do universo criado por Rowling.

Os conflitos familiares sempre são interessantes na literatura, porque humanizam os personagens, os trazem para a nossa realidade de carne e osso, onde nem sempre as relações com os pais são como nos comerciais de margarina. Mas no caso de A Criança Amaldiçoada, os embates entre Harry e seu filho Alvo Severo, e entre Draco Malfoy e seu filho Escórpio, são rasos e com desfechos previsíveis.

Boa parte das histórias exploram ‘temas batidos’. O problema não é o mote para uma obra de ficção ser conhecido há séculos, mas a forma como a história vai se apropriar desses ‘temas universais’ e trazer algum frescor. Ou, ainda que não renove propriamente o tema, reinventando a roda, ao menos use a boa e velha fórmula já testada de forma a fazer o leitor se sentir confortável, como quando vestimos nossos pijamas surrados e amaciados pelo uso e nos sentimos felizes e aninhados.

Histórias servem também para nos fazer sentir familiarizados com o mundo às vezes bem esquisito onde vivemos, principalmente histórias juvenis. E, infelizmente, A Criança Amaldiçoada não dá ao leitor o tempo necessário para amaciar o pijama e se sentir à vontade dentro dele. A história é curta, mas não no sentido de ter poucas páginas – afinal são 352, um tamanho padrão para livros do gênero, embora dentro da saga tenha obras com mais de 500 páginas -, mas no sentido de ser superficial.

Alguns fãs podem ser condescendentes e ver nesse texto uma chance de matar as saudades do trio de bruxinhos da série original. Mas nisso, A Criança Amaldiçoada também decepciona, porque as versões adultas de Harry, Hermione e Ronnie é subestimada, tira deles o carisma, a vivacidade e o brilho dos personagens. São três adultos chatos que se arrastam pela trama.

Em resumo, não dá para ler A Criança Amaldiçoada como um desfecho da saga de sete livros que narram as aventuras de Harry e seus amigos contra o Lorde Voldemort. Embora o roteiro comece exatamente de onde a história de As Relíquias da Morte termina – com Alvo e o pai na plataforma da estação de Kings Cross, pouco antes do garoto embarcar para Hogwarts -, a costura é mal feita e a história fica ali boiando em um limbo: não consegue integrar o conjunto original e nem avança para ser um epílogo que preserve a dignidade da história.

Ficha Técnica:

HP capaHarry Potter e A Criança Amaldiçoada

Autores: J.K Rowling, John Tiffany e Jack Thorne

Tradução: Anna Vicentini

Editora: Rocco

352 páginas

R$ 27,81 na Amazon (pesquisa em 21/04/2019)

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