Cotidiano, Crônicas

Aprendi a fazer guacamole na TV do buzu…

Crédito da imagem: Ladyamnesia Bobbie (@ladyamnesia)

…na verdade, quem aprendeu foi dona Selma. Depois de eu explicar para ela o que era guacamole. Viajávamos as duas no mesmo Nazaré-Federação. Eu a caminho do trabalho e ela, voltando para casa depois de uma consulta médica. O ônibus tinha TV e entre um horóscopo com data de validade vencida e um resumo de novela do capítulo da semana passada, apareceu um vídeo gourmet.

Na tela, mãos ágeis picavam tomate, cebola e abacate. Dona Selma, uma senhorinha grisalha que deve andar pela casa dos 60 e muitos, sacou da bolsa um pedaço de papel – depois vi que era a receita do remédio prescrito pelo médico e que ela deveria comprar quando descesse do ônibus -, pegou uma caneta que até então estava guardada no sutiã (ela me disse que deixa ali porque na bolsa, os netos pegam) e começou a anotar os ingredientes:

– Minha filha, isso é receita de quê?

– Guacamole, uma comida que faz com abacate. – Ela me olha com uma cara de paisagem e eu explico: – É tipo um patê de abacate com temperos.

– E é gostoso?

– Eu gosto bastante. Leva pimenta e limão, fica azedinho. É como misturar vinagrete com abacate amassado. – Simplifico, tirando o glamour do prato.

– Vou anotar. Eu gosto de testar receita. Pego todas que aparece nas revistas e em Ana Maria Braga…Sou cozinheira aposentada e sempre cozinhei por gosto, em restaurante e casa de família…

E foi aí que ela se apresentou. Me disse que se chamava Selma, tinha duas netas e um neto, com idades entre 10 e 16 anos. As duas meninas eram irmãs e o menino era primo delas. As duas meninas eram filhas do filho caçula, que casou cedo. E o menino era filho do mais velho, que não casou, mas criava o garoto, que preferia morar com o pai do que com a mãe e o padrasto. Dona Selma só tinha esses dois filhos e morava na Federação desde o tempo em que “tudo aqui era mato”.  Tinha ido ao médico porque é hipertensa. Pela lista de doenças que ela enumerou após falar da hipertensão, imaginei que, como toda senhorinha na idade dela, era meio hipocondríaca também.

Ficamos papeando enquanto eu lia para ela os ingredientes e o modo de preparo da guacamole, exibidos na tela da TV do buzu. Dona Selma escrevia devagar e com uma letrinha miúda e bonitinha. O trânsito lento no centro da cidade no começo da tarde permitiu que eu ditasse toda a receita antes do meu ponto de parada chegar.

– Dona Selma, foi um prazer conhecê-la. Tchau e boa sorte com a receita.

– Depois te digo se ficou gostosa! – Ela gritou da janela, pouco antes de eu virar a esquina da rua do jornal…

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