(Im)paciente Crônica: Quase um estranha no ninho da turma fitness

Baby Andreia, GG desde o berço

Tomo café todas as noites, no restaurante do meu trabalho, na companhia de pessoas magras e fitness. Ataco os carboidratos (pão, essencialmente, que eu amo), laticínios (queijo, nham nham!) e chocolates. Meus companheiros diet de mesa enchem o prato com folhas de alface, proteínas magras e preocupações com a silhueta. De vez em quando arriscam uma iguaria mais engordativa, mas no geral, evitam se render às tentações. Eles frequentam nutricionistas e discutem as dietas prescritas, enquanto mastigo meu pãozinho ou uma fatia de bolo sem muita preocupação com as calorias.

Ser gorda e ter amigos magros, ou amigos gordos que querem muito emagrecer, não é incômodo. Chata é a patrulha que algumas pessoas teimam em fazer das vidas alheias. Mas ando cada dia mais desatenta aos patrulheiros e confiando que, em certas situações, a indiferença é uma boa resposta.

Cresci sendo a gorda da casa, enquanto minha irmã mais nova sempre foi a magra. E continua sendo. Da família, até a adolescência, ouvi muito sermão para perder peso, tomei broncas meio traumáticas e até fui levada ao endocrinologista. Felizmente, minha mãe tinha juízo suficiente para não cair no engodo dos “remedinhos para controlar o apetite” que, salvo exceções, só servem para aumentar a ansiedade, ferir a autoestima, descompensar o metabolismo e enriquecer a indústria farmacêutica.

Sigo pela vida com a cintura fora dos padrões desde que me entendo por gente.

Baleia e Quatro Olhos

Na escola, tinha a turma que me chamava de ‘baleia’ e ‘quatro olhos’, porque eu era uma gorda que também usava óculos para corrigir a miopia. Justiça seja feita, nessa época havia colegas legais que não tinham interesse no meu peso, mas uma parte considerável pegava bastante no pé. O bullying foi mais frequente no ensino fundamental. No ensino médio, eu já era uma gorda assumida e destemida.

A turma com quem compartilho as refeições noturnas é divertida demais em diversos outros aspectos para eu me chatear com a conversa repetitiva sobre pesos e medidas. Eles também não me chamam de baleia e muito menos de quatro olhos, até porque, uma cirurgia refrativa anos atrás, me livrou da miopia. Dia desses, provavelmente, vou começar a usar óculos para ‘vista cansada’, um sinal típico da idade, que avança a passos largos.

Essa turma da boca fechada e foco nas metas do personal trainer respeita meus quilos a mais, da mesma forma que eu me esforço cada dia um pouco, para entender tanta preocupação dessas pessoas tão lindas e estilosas com a ginástica e a alimentação balanceada.  De vez em quando, acho graça nas amigas magras que teimam em procurar pneus em suas curvas enxutíssimas. Me preocupo se elas são felizes assim. Mas, a cada dia, percebo que a felicidade é um conceito variável e perfeitamente cabível em diversas situações.

A única coisa que eu não aceito, de jeito nenhum, é quando algum conhecido ultrapassa o limite do decoro – e da privacidade – e vem me oferecer conselhos dietéticos que não pedi. Isso tem acontecido cada vez mais raramente. Com a idade, devo ter aprendido a escolher melhor os amigos.

Viagem Pessoal

Acredito que academia e dieta fazem parte da viagem pessoal de alguns amigos e respeito a vontade deles em manterem seus corpos nos limites em que se sentem confortáveis. É meio entediante escutar a mesma conversa sobre medidas, calorias e receitas ‘saborosas’ sem glúten e sem lactose, mas a depender de quem insiste no tema, relevo e escuto com paciência. Amigos também servem para testemunhar, sem interferir, nas viagens uns dos outros.

Ainda assim, de vez em quando me sinto meio outsider, uma estranha no ninho, durante as conversas fitness à mesa, porque essa não é bem a minha praia. Me encaixo melhor nos papos daqueles conhecidos que amam comer e falar de comida, trocar receitas, testar talentos culinários. Oh povo delicioso!

O engraçado é que acontece de alguns desses amigos malhadores convictos também serem apaixonados por gastronomia. Eles servem para me provar que existem muito mais camadas em uma pessoa do que aquelas aparentes e que gostar de fazer 500 abdominais por dia não impede ninguém de ter o seu “dia do lixo”, como brinca uma das minhas companheiras diet do café noturno, quando quer enfiar o pé na jaca.

Outro Ângulo

Olhando a situação sob outro ângulo, também sei que com minhas citações literárias, o interesse em séries e filmes e o papo ‘cabeção’ e filosófico, devo deixar muita gente que anda comigo se sentindo esquisita de vez em quando. Vejo que, ao falar das minhas ‘coisas nerds’ ou ao demonstrar uma sinceridade que, admito, às vezes é desconcertante, minha vontade é compartilhar com os conhecidos aquilo que gosto ou desgosto. Então, aplicando a mesma regra ao contrário, os amigos diet que dividem comigo suas conquistas ou antipatias culinárias desejam o mesmo que eu.

O bacana é a diversidade das relações e o respeito. Ser gorda e ter amigos magros não é um incômodo quando a gente aprende que nem sempre somos o alvo implícito da conversa. E para não se enxergar como a vítima eterna dos amigos magros que falam de dieta o tempo todo, é preciso também gostar de si. Quando era nova, já gostava do meu corpo e agora, mais madura, continuo satisfeita com esse invólucro que generosamente carrega meu espírito.

Depois que a moda plus size virou negócio rentável e por isso, as marcas de roupas passarem a criar coisas bonitas para as gordas desfilarem na passarela da vida, me senti ainda melhor, porque sei o quanto a noção de pertencimento, de ser valorizada, é importante para outras mulheres que vestem acima do GG. E sei bem que a construção de uma autoestima inabalável é uma jornada pessoal, às vezes leve e às vezes árdua, para cada uma de nós, gordas.

43 anos, 93 quilos e manequim 48

Dieta nunca foi uma obsessão minha, mas algo que os adultos me impunham quando eu não tinha ainda a idade e a autonomia de decidir sobre mim mesma. A partir do momento que adquiri esse direito, muito porque expandi os horizontes para além dos preconceitos domésticos, parei de me chatear com a cantilena alheia para que eu perdesse peso.

Hoje, aos 43 anos, peso 93 quilos, visto 48 e não tenho vergonha de assumir minhas ‘grandezas’. Olho fotos de quando tinha vinte e poucos, pesava 75 e vestia 42/44. Nas fotos, o que eu vejo é uma pessoa sorridente e de bem consigo mesma. Mas, para os padrões daquela época (e, infelizmente, ainda para os atuais) eu já era considerada gorda. Em resumo, meu IMC nunca ficou abaixo do patamar do sobrepeso. Com o passar do tempo e livre da pressão familiar, aprendi a viver acima dos limites recomendados, sem sofrimento.

E a saúde? Saúde é outra história e ela varia de pessoa para pessoa. Quem tem de decidir quando o próprio peso é excesso ou falta é a dona – ou dono – do corpo. Cada um sabe até onde vão os próprios limites e o que é preciso fazer para manter-se confortavelmente satisfeito dentro deles.

E vamos ali tomar um café com bolo…

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