Crônicas, séries

(Im)paciente Crônica: racismo à brasileira e a dificuldade dos fãs de TWD aceitarem Richonne

Escrever sobre Michonne e Rick, protagonistas da série apocalíptica The Walking Dead é uma vontade desde que os dois guerreiros formaram um casal na trama que iniciará sua oitava temporada em outubro próximo. Adiei comentar o assunto até ter tempo de fazer isso com calma, mas acompanho outros sites e fóruns de discussão na internet sobre a série e o meu incômodo só faz crescer com a certeza de que a ‘bronca’ de uma parte considerável dos fãs do programa com o relacionamento dos dois é mais uma das formas veladas do racismo à brasileira se manifestar. Falo do Brasil porque costumo seguir os fóruns nacionais e também porque é aqui que eu vivo e é onde tentam vender ao mundo a falácia da democracia racial.

Decidi desengavetar o assunto porque agora em junho, um dos principais sites de notícias sobre TWD fez postagem especulando sobre uma possível saída da atriz Danai Gurira (Michonne) do elenco principal da série, porque ela irá participar do blockbuster Vingadores: Guerra Infinita. A atriz está no elenco do longa Pantera Negra, inspirado no herói dos quadrinhos, vivendo a personagem Okoye e deverá repetir o mesmo papel em Vingadores. A notícia, postada no site The Walking Dead Brasil em 19 de junho passado (leia aqui), reacendeu a discussão sobre *Richonne.

Importante dizer que o site não afirma a saída da atriz, apenas especula o assunto e lança a pergunta: “Michonne morrerá em The Walking Dead por causa da participação de Danai Gurira no filme vingadores?” Ou seja, o site lança um tema de debate para os fãs analisarem e discutirem a questão. Já aconteceram outras postagens parecidas com essa, envolvendo outros personagens quando os atores que os interpretavam fecharam trabalhos no cinema ou mesmo em emissoras concorrentes. The Walking Dead é uma produção do canal norte-americano AMC.

Especulações, opiniões e incômodos

Michonne e Rick se aliam para combater um inimigo em comum, o Governador

Especular sobre uma possível morte de personagem em uma série muito popular e que tem índices de audiência na casa dos milhões é normal nos sites que se dedicam a cobrir temas como filmes, séries, quadrinhos ou sagas literárias. É conteúdo informativo para os fãs que consomem esses entretenimentos. O problema está no tipo de resposta que uma parte desses fãs dá para esse tipo de pergunta. O problema está no fato de usarem os espaços de debate não para discutir o produto cultural, mas para desqualificar a personagem por ela ser mulher e negra. Isso é racismo, puro e simples. Mesmo que ele venha disfarçado de comentários como: “ah, mas Rick e Michonne não tem química” ou “ah, mas os produtores forçaram a barra para juntar esse casal. Eles não tem nada a ver um com o outro”. E a coisa avança com outros comentários do tipo: “Michonne virou uma boba apaixonada” ou “Essa personagem já deu tudo o que tinha de dar, já pode morrer”.

Opinião, cada um tem a sua, lógico. E em um fórum de discussão na internet, proliferam opiniões divergentes. E é natural que seja assim, desde que as discussões sejam saudáveis e pautadas em respeito mútuo, pois cada pessoa tem suas vivências e aprendizados para compartilhar. Acontece que, e eu já bati nessa tecla muitas vezes, as pessoas usam “opinião” e “liberdade de expressão” para disseminar  seus muitos ódios e preconceitos. O ponto aqui é que, até pouco tempo antes de começar a namorar Rick, xerife branco e de olhos azuis vivido pelo ator Andrew Lincoln, Michonne era uma das personagens mais amadas e admiradas de TWD. Ela era aquela considerada a mais valente, a mais destemida, a guerreira implacável com sua katana samurai e seus dreadlocs. Legiões de fãs mundo afora não admitiam a possibilidade da personagem ser sacrificada, embora mortes de personagens principais na série não seja uma novidade e o criador do programa já declarou que ninguém está a salvo de um fim trágico.

Por que Michonne já pode morrer?

Michonne e sua implacável katana

Michonne era um mito supremo do panteão de TWD. Justiça seja feita, para uma parcela grande de fãs, ela continua sendo. Introduzida no final da segunda temporada, em uma cena de grande impacto,  a personagem reinou até praticamente o final da sexta como unanimidade. Mas bastou começar a namorar Rick e agora ela virou “chata”, “boboca”, “frouxa” e até mesmo “feia”. Sim, porque até a beleza física da personagem e por tabela, a da atriz, já foi questionada pelos fãs que não se reconhecem racistas (e quem em sã consciência admite isso? O problema é o inconsciente, meus caros), mas inventam todo tipo de desculpa para não aceitar uma personagem negra namorando um personagem branco.

Não vou entrar no mérito de discutir os relacionamentos inter-raciais, porque é um tema complexo e doloroso, que traz uma carga histórica da violência praticada nas senzalas e da desigualdade ainda reinante entre brancos e negros na nossa sociedade. Falar de relacionamentos, no entanto, sejam eles inter-raciais ou não, também precisa levar em consideração o afeto entre as pessoas, o respeito à diversidade e às escolhas de cada um para a própria vida.  Só que o foco desse post é outro. Meu interesse é na desqualificação de Michonne, na mudança no status dela diante de parte considerável do público de TWD a partir do momento que ela iniciou um relacionamento com um homem de uma  cor diferente da sua. Meu interesse é saber por que a guerreira negra pode ser a personagem badass que todos querem imitar, pode ocupar a posição de melhor guerreira do grupo de Rick, cortar centenas de cabeças de zumbis com sua katana, mas não pode ser a mulher dele?

Nos quadrinhos originais no qual a versão televisiva de TWD se inspira, Michonne também é negra, guerreira e uma das protagonistas da história. Nessa obra de referência, ela e Rick são parceiros de luta e amigos,  mas não se envolvem amorosa e sexualmente. A parceira dele é outra personagem, Andrea, uma sniper que, ao ser adaptada para a TV, perdeu várias características da obra original e acabou morta na terceira temporada. As características de Andrea na versão da AMC foram distribuídas entre outras personagens femininas da trama. Coube a Michonne ser a parceira não só de luta, mas de vida de Rick. Vale ressaltar que Andrea, tanto nos quadrinhos quanto na TV, é branca. E é justamente por isso que eu aposto minhas fichas na teoria de que o problema do casal Richonne não é e nem nunca foi ‘falta de química’, mas sobra de racismo.

Entre os argumentos de quem defende que os dois deveriam ter permanecido apenas amigos está a acusação de que é um “desvirtuamento” na história, a personagem Andrea ter morrido e a personagem Michonne ter assumido seu lugar no coração do xerife. Ou seja, Michonne está sendo acusada de inadequação, de ocupar um lugar que não lhe pertence de direito. Nossa sociedade tem sérios problemas em reconhecer pertencimento  – e poder – às pessoas negras. Me pergunto se Michonne fosse branca haveria o mesmo tipo de acusação e a resposta é não. Sabem por que? Porque antes de começar a namorar Michonne, Rick se envolve brevemente com uma outra personagem branca, chamada Jessie, mãe de dois garotos e que sofre violência doméstica. Nos quadrinhos, o relacionamento não dura muito e na TV, menos ainda. A atriz que vive Jessie, em termos de talento, não se compara à brilhante atuação de Danai Gurira. Ainda assim, os fãs que rechaçam Richonne alegando ‘falta de química’ preferiam Rick com Jessie, mesmo a personagem não tendo a força das demais mulheres da trama e mesmo nitidamente não ocorrendo a menor faísca entre os dois. Olhares atentos vão perceber que entre Rick e Michonne ocorrem labaredas e não é só de tensão sexual que estou falando. Andrew Lincoln e Danai Gurira são impressionantes juntos!

Desconstruir e reinventar é preciso

Andrew Lincoln e Danai Gurira em lançamento de uma das temporadas de TWD. A mãe do ator é uma das fãs de Richonne

Robert Kirkman, o criador da HQ The Walking Dead e também produtor executivo e um dos responsáveis pela adaptação na TV, já deu entrevistas dizendo que aproveitou a série para recontar algumas histórias de TWD de outra maneira. Ao invés de apenas adaptar literalmente sua própria obra, ele recriou muitas histórias, introduziu personagens, eliminou outros, expandiu o universo dos quadrinhos. TWD virou uma franquia que além da HQ e da série, possui games e livros que ampliam as tramas de personagens cruciais como o vilão Governador. Então, pode-se dizer que a série de TV é uma versão alternativa dos quadrinhos, quase como se Kirkman fosse o autor de uma fanfic do seu próprio material original. Ele refaz na TV coisas que fez nos quadrinhos e das quais se arrependeu. Ou usa a nova plataforma para testar outras formas de contar a história. Pessoalmente, acho essa possibilidade fascinante em termos de criação artística.

Ao mesmo tempo, o autor aproveita o programa na TV para expandir as mensagens que quer passar com TWD. A história, embora ambientada em um apocalipse zumbi e com a devida dose de gosmas e entranhas característica, traz como fio condutor um drama de sobrevivência, sobre a perda de valores com a derrocada da civilização, sobre de que forma as pessoas se reinventam depois que o mundo acaba. TWD também discute intolerância em vários limites, não apenas o racismo, mas a homofobia, a corrupção de líderes carismáticos, a crueldade dos mais fortes diante dos mais fracos.

No microcosmo da HQ, temos um guerreiro super treinado e cheio de habilidades que é gay e é respeitado em sua comunidade. Na TV, casais homoafetivos vivem seus relacionamentos também gozando do respeito de seus grupos. Se a civilização ruiu por conta de uma praga de mortos-vivos, Kirkman usa os recursos da ficção para sonhar com uma sociedade, infelizmente ainda utópica, inclusiva, diversa, onde casais inter-raciais e homoafetivos não sejam aberrações, onde um homem negro – Ezekiel – é o rei de uma comunidade próspera, onde as mulheres negras retratadas não são meros objetos da lascívia alheia. As personagens negras que já apareceram em TWD são fortes, guerreiras habilidosas, independentes.

Michonne é parte de um contexto que, embora ainda não seja o paraíso em termos de representatividade, já faz uma diferença considerável em comparação com outras obras de ficção, ainda mais se levarmos em conta que trata-se de um programa da TV norte-americana e visto pelo norte-americano classe média, esse mesmo povo que elegeu Donald Trump presidente dos Estados Unidos.

Romance construído com coerência

Michonne e Rick avaliam quantos zumbis terão de abater para conseguir pegar as armas e suprimentos de um antigo posto militar. O casal tem momentos ternurinha, mas também encaram pedreiras juntos

Rick e Michonne não começaram a namorar da noite para o dia. O relacionamento deles só aconteceu depois que ambos viveram diversas outras situações pessoais ou com o grupo de sobreviventes que lideram. Cada um deles traz cicatrizes de perdas de pessoas que amaram muito, cada um teve de superar traumas. Não foi uma história de amor gratuita para encher linguiça, houve uma construção desde o primeiro encontro dos dois.  Esse post, do site Apaixonados por Séries, detalha o longo caminho que o amor dos dois percorreu até culminar no beijo que selou o começo do romance.

É indigno e revoltante ver marmanjos comentando na internet que Michonne foi o último recurso à mão, algo sórdido na linha “não tem tu, vai tu mesmo”, como se ela fosse um objeto, uma boneca inflável sem vontade e sem dignidade. É muita má vontade e cegueira não ver cada um dos indícios de que algo importante nascia entre eles. Rick é viúvo. Sua primeira mulher, Lori, morreu dando à luz à filha deles, Judith, deixando Rick sozinho com Carl, o menino mais velho do casal, além da bebê. Já Michonne, como mostram os flashbacks de sua história, também perdeu o marido, o irmão e o filho pequeno para os zumbis. Ou seja, ambos tem traumas para superar, mas só ela é objetificada como um consolo para o xerife, por que? Racismo e a ideia equivocada e herdada do tempo da escravidão de que as negras servem para aquecer a cama, mas não para reinar no casarão.

E o que incomoda é justamente que a relação de Michonne e de Rick contraria essa lógica do poder do homem branco sobre a mulher negra. Ela exerce poder sobre ele e não o contrário. E não precisa do corpo para dominá-lo. Os dois são parceiros mesmo! São iguais, dividem a liderança e as decisões mais importantes para a sobrevivência do grupo. Michonne é a sensata e é a corajosa. É ela quem chama Rick para a realidade, é a única que o enfrenta e contraria, que mostra quando e porque ele está errado em alguma decisão. É a única capaz de dar um soco no xerife e deixá-lo desacordado, quando ele, em meio a uma crise nervosa, coloca a própria vida e a do grupo em risco.

Falta de química? Sério?!

E ele a respeita por tudo isso. Quem acompanha a série desde a origem e assiste com atenção, sabe muito bem que Richonne é o ápice de uma relação que começou como uma aliança estratégica para derrotar um inimigo em comum (o famigerado Governador), evoluiu para a admiração entre guerreiros que reconhecem o valor um do outro, avançou para uma amizade sólida, um afeto incondicional e o desejo de dois adultos um pelo outro, que afinal de contas Michonne é uma mulher adulta e tem todo o direito de dormir e de formar uma família com quem ela bem quiser.

Nesse texto do site Geledés – Instituto da Mulher Negra, há um artigo muito esclarecedor sobre a solidão das mulheres negras e sobre as dificuldades que elas têm de encontrar parceiros por conta da cultura racista e do processo de objetificação sofrido por séculos. Talvez, os fãs de TWD que insistem tanto em desqualificar a personagem por não aceitarem que ela seja mais do que mero interesse sexual de um homem branco, devessem ler com atenção o artigo, para, quem sabe, entender porque na linguagem do inconsciente, “falta de química” é só um eufemismo para racismo.

Ser racista ninguém mais quer, porque pega mal, é feio e está fora de moda. O motivo das pessoas não quererem mais ser racistas deveria ser o respeito que um ser humano precisa ter com outro, mas quem sabe um dia chegaremos lá. Enquanto esse dia não aparece no horizonte, uma forma de não ser racista, mesmo ‘sem querer’, é reconhecer os próprios privilégios e monitorar esse traiçoeiro inconsciente que muitas vezes deixa vir à tona os resquícios de uma sociedade educada de forma excludente, desrespeitosa e pautada em preconceitos e hierarquias absurdas!

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*Junção dos nomes dos personagem Rick + Michonne. A cultura dos apelidos unindo os nomes de cada metade de um casal surgiu junto com a ação de ‘shippar’, ou seja, torcer para um casal ficar junto em alguma trama de ficção ou mesmo na vida real (com celebridades é bem comum).

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