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Desventuras em Série tem adaptação que respeita os livros

Conde Olaf, o tuto carrasco as crianças Baudelaire
Conde Olaf, o tutor carrasco das crianças Baudelaire

Os três órfãos Baudelaire e seu arqui-inimigo, o conde Olaf, são velhos conhecidos dos leitores e fãs da coleção de livros Desventuras em Série, no qual sempre incluo os 13 volumes que narram os percalços na vida dos irmãos Violet, Klaus e Sunny, e um extra, a Autobiografia Não Autorizada de Lemony Snicket. A série que estreou agora em janeiro na Netflix tem o mérito de atender as expectativas dos fãs dos livros, pois o material base para a produção no serviço de streaming é a história original.

Entender o universo da série requer algumas explicações prévias: o autor de Desventuras… e da Autobiografia Não Autorizada… se chama Daniel Handler, escritor e cineasta norte-americano, atualmente com 46 anos, e que publicou o primeiro livro da coleção, Mau Começo, em 1999. Lemony Snicket é o alter-ego de Handler e é o narrador-personagem onipresente das Desventuras.

Coleção de treze livros é o material base da série da Netflix
Coleção de treze livros é o material base da série da Netflix

Lemony é irônico, depressivo e misterioso. Passa uma parte considerável dos capítulos tentando fazer os leitores desistirem de acompanhar as tristes vidas dos Baudelaire, o que, claro, só serve para atiçar a curiosidade e fazer com que cada livro seja devorado em questão de horas. Enquanto narra os fatos, ele empreende fugas mirabolantes de seus inimigos e se declara para Beatrice, seu grande amor que morreu em circunstâncias aparentemente sinistras, embora nunca reveladas.

As crianças Baudelaire são os protagonistas da história e o conde Olaf, que apesar do título de nobreza, na verdade é um ator de teatro medíocre e frustrado, é o antagonista. No entanto, é o narrador-personagem misterioso que se impõe, porque toda a trama traz o ponto de vista de Lemony Snicket. Ficamos sabendo dos crimes do conde e das desditas das três crianças única e exclusivamente por meio dele. Completam o mosaico de personagens-chave dos livros: o banqueiro Sr. Poe, executor testamentário dos Baudelaire e em cujo banco encontra-se a gorda herança deixada pelos pais das crianças; e a trupe de teatro do conde Olaf, formada por atores tão ruins e vilanescos quanto o chefe.

Lemony Snicket, o narrador-personagem onipresente
Lemony Snicket, o narrador-personagem onipresente

Daniel Handler é o criador da série que a Netflix produziu e agora exibe em seu catálogo. E como ele é o criador, a série na internet segue a mesma lógica dos livros, Lemony Snicket é o fio condutor da trama. É por meio desse alter-ego-narrador-personagem que enxergamos todos os outros participantes da trama e julgamos suas ações. O ator que interpreta Snicket, Patrick Warburton, conseguiu personificar o sarcasmo, as tiradas de humor caustico e a voz meio fúnebre que sempre imaginei no personagem dos livros.

Um filme desventurado

Apesar de hilário, o conde Olaf de Jim Carrey não é o dos livros
Apesar de hilário, o conde Olaf de Jim Carrey não é o dos livros

Desventuras em Série, antes da produção da Netflix, teve uma tentativa frustrada de adaptação cinematográfica, em 2004. O projeto, que deveria ter sido uma trilogia, foi mal nas bilheterias e não vingou. Esse filme foi roteirizado por Robert Gordon e dirigido por Brad Silberling. Teve como chamariz um elenco estelar encabeçado por Jim Carrey no papel do conde Olaf. Na série da Netflix, Olaf é vivido por Neil Patrick Harris.

Carrey imprimiu seu jeito carismático e exagerado de interpretar à composição do personagem, o que para os fãs do ator é interessante, mas para quem conhece a história original, destoa muito do conde Olaf de tinta, que não é um sujeito caricato e carismático, mas um vilão amoral, desprezível e sem escrúpulos. Olaf tem um ódio mortal dos pais das crianças Baudelaire, mortos misteriosamente em um incêndio. O vilão não titubeia em cometer atos condenáveis para se apropriar da fortuna deixada por eles para as três crianças, praticando torturas inimagináveis contra os órfãos, só por diversão. Neil Patrick Harris acerta no alvo e com méritos, porque seu Olaf é uma escultura viva do personagem original criado por Daniel Handler.

Apesar de eu gostar do filme de 2004 porque é muito engraçado e porque tem Meryl Streep, reconheço que a produção é uma aberração em termos de adaptação literária. Foge da proposta original, descaracteriza personagens importantes da trama e sacrifica diversos elementos porque condensa três dos livros da coleção em duas horas. Além disso, o filme perde a medida exata que faz das Desventuras em Série uma obra que agrada tanto ao público original quanto aos adultos: a mistura deliciosa de terror gótico com ópera burlesca e pitadas de nonsense típico infantil.

O Olaf de Neil Patrick Harris é tão desprezível quanto o original
O Olaf de Neil Patrick Harris é tão desprezível quanto o original

A lógica de pensamento das crianças segue caminhos próprios e tortuosos. “A cabeça de uma criança é um mapa da Terra do Nunca”, como diria o J.M. Barrie. Os livros de Handler/Snicket são tragicômicos, combinam o melhor da estética de Tim Burton com o melhor da narrativa de Roald Dahl. Além disso, a obra não é maniqueísta. Na medida em que a história avança, os leitores percebem que vilões podem ter atos heroicos e os heróis, atitudes condenáveis. A paleta das cores morais dos livrinhos tem muitos tons.

O filme de 2004, embora seja divertido como um produto inspirado na série de livros, sacrifica boa parte do drama para que Jim Carrey possa fazer o que ele mais sabe, que é comédia. Para mim, esse filme é inspirado nas Desventuras, mas não é uma adaptação no sentido literal da palavra, porque exclui partes da história e acrescenta outras que saíram unicamente das cabeças dos produtores, do roteirista e do diretor. Quando se trata de adaptar obras originais, acredito que respeito ao autor é fundamental. Antes de ser espectadora, sou leitora. Então, se a proposta é adaptar, vamos respeitar a criação literária que veio antes, vamos respeitar a autoria dessa criação, por favor!

Sem pressa e com atenção às pistas

Adultos que deveriam cuidar das crianças, como o testamenteiro Sr. Poe (esq.) sempre caem nas armações de Olaf (dir.)
Os adultos que deveriam cuidar dos órfãos, como o testamenteiro Sr. Poe (dir.) sempre caem nas armações do conde Olaf (esq.)

Desventuras em Série é o tipo de história que precisa de tempo, pois são muitos meandros, muitos acontecimentos, uma galeria de personagens e uma miríade de situações que requerem menos pressa na narrativa e na fruição. Além dos tipos já citados, que formam o núcleo central das histórias, cada livro se passa em um cenário diferente, com personagens e situações específicas que vão se costurando. É preciso prestar atenção às entrelinhas, porque são muitos mistérios para decifrar.

A Netflix acertou ao criar uma temporada inicial de oito episódios para dar conta de quatro dos treze volumes da coleção (Mau Começo, A Sala dos Répteis, O lago das sanguessugas e Serraria Baixo-Astral). Cada livro ganhou dois episódios inteiros para que tudo seja apresentado sem correrias e sem cortes que poderiam comprometer a compreensão da história mais adiante. Como as Desventuras dos Baudelaire formam um quebra-cabeças que os leitores vão montando na medida em que acompanham os órfãos livro após livro, deixar de adaptar qualquer fato altera os rumos da história e o seu final.

Ainda devem ser adaptados em duas temporadas, nessa ordem: Inferno no Colégio Interno, O elevador Ersatz, A cidade sinistra dos corvos, O hospital hostil, O espetáculo carnívoro, O escorregador de gelo, A gruta gorgônea, O penúltimo perigo e O fim. Os elementos de Autobiografia Não Autorizada parecem ter sido diluídos nas aparições de Lemony Snicket ao longo de todos os episódios.

Elenco mirim afiado e caminhos para as novas temporadas

A trupe de Olaf: tão canastrões e vilanescos quanto o chefe
A trupe de Olaf: tão canastrões e vilanescos quanto o chefe

Os três atores mirins que vivem Violet, Klaus e Sunny nessa adaptação da Netflix parecem ter incorporado o espírito dos livros tão bem quanto o elenco adulto. Eles tem química contracenando entre si e com os adultos. O amadurecimento dos Baudelaire acontece a cada novo episódio, da mesma forma que nos livros, e os atores que interpretam as crianças, principalmente os dois mais velhos, conseguem transmitir as nuances desse amadurecimento de forma bastante competente.

As crianças Baudelaire são super inteligentes e cheias de talento. Violet, 14, entende de mecânica e engenharia, sabe inventar qualquer coisa, no melhor estilo MacGyver; Klaus, 12, é um leitor voraz, bom em decifrar enigmas e fazer pesquisas; e Sunny é uma bebê de cerca de um ano, com dentes super afiados, capaz de roer de madeira a cabos de aço, e que apesar de ainda não falar, seus resmungos são traduzidos em tiradas impagáveis.

Os três enfrentam diversos percalços, mudam de tutor inúmeras vezes, vão esbarrar em lugares sinistros e só podem contar uns com os outros para se safarem dos perigos, já que os adultos que deveriam cuidar deles nunca escutam as crianças.

Os irmãos Baudelaire só podem contar uns com os outros para escapar dos perigos
Os irmãos Baudelaire só podem contar uns com os outros para escapar dos perigos

A série ainda não avançou até os mistérios mais cabeludos da trama, mas resumindo: na medida em que tentam investigar o que aconteceu com seus pais, os Baudelaire se envolvem com uma organização secreta chamada CSC, um batalhão de voluntários do qual seus pais faziam parte, assim como o conde Olaf e outros inimigos delas. As crianças, ao perderem a família, foram lançadas no meio de uma guerra de espiões entre facções rivais de CSC. Elas precisam descobrir o que está acontecendo para salvar as próprias vidas. Lemony Snicket também tem ligações com os tais voluntários de CSC. Toda a história se assemelha a uma conspiração que o que tem de maluca, tem de engraçada.

Se a qualidade da produção se mantiver até o final dos treze livros, Desventuras em Série, que figura entre as coleções infanto-juvenis de grande êxito do mercado editorial mundial, entrará para o restrito rol de obras literárias que ganharam adaptações à altura. O que não é pouca coisa. Para quem não curte leitura, o que é um direito, ninguém é obrigado a gostar de ler, pode parecer purismo ou chatice de leitor – e talvez seja, e isso também é um direito, porque ler é um ato muito passional -; mas para quem é traça de biblioteca, o prazer de ver personagens queridos bem representados em outra mídia não tem preço!

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2 thoughts on “Desventuras em Série tem adaptação que respeita os livros”

  1. Caramba, que texto incrível!!! Uma inspiração para alguém como eu que quer cursar Jornalismo :)
    Aliás, gostei muito dos aspectos da série que você abordou. Estou assistindo e gostando muito! Também pretendo ler a série de livros quando puder comprar todos eles. Até agora só li o primeiro e gostei muito.
    Abraços

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