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A transcendência coreografada de The OA

Brit Marling - The OA
Brit Marling é a protagonista de The OA, que bebe tanto na fonte da vasta literatura sobre a existência de anjos, quanto em Carl Sagan e na Ilíada

Abrir o plexo solar, liberar o chakra que simboliza a entrada da luz dourada que alimenta, purifica e acalma o espírito. Para quem pratica meditação ou acredita e segue alguma das muitas terapias holísticas existentes, a ‘coreografia dos anjos’ de The OA, nova série que a Netflix lançou agora em dezembro, não parece tão estranha.

Os esotéricos diriam que trata-se de um ritual de cura e uma forma de liberar os canais de recepção e de contato com as energias que comandam o universo. Daí aqueles movimentos de abrir os braços como se fossem asas; projetar o peito para a frente e forçar o diafragma; expandir a consciência, através das mãos que simulam literalmente abrir a fronte, etc. Parece uma mistura de ioga, dança, tai chi chuan e dos exercícios de  terapia de grupo, onde há o convite para soltar as feras, exorcizar os demônios internos e germinar de dentro para fora. É uma espécie de dança meio xamânica, transcendente.

A série é classificada como ficção científica. Mas se encaixa também como drama com toques paranormais, cheia de representações arquetípicas e de uma simbologia quase ocultista, baseada na crença em anjos e nos relatos de EQM (Experiência de Quase Morte). Tem ainda um tempero de autoconhecimento e até mesmo beira a autoajuda, mas não no sentido dos bestsellers de fórmulas prontas.

A pretensão é criar uma história quase terapêutica e em boa parte dos episódios, a ideia funciona satisfatoriamente. A fotografia diáfana também conduz a uma leitura mística. Mas, ao mesmo tempo, os episódios (são oito nessa temporada de estreia) trazem dramas pessoais e familiares; além de um grupo de personagens bem machucados psicologicamente e considerados desajustados socialmente.

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Uma sinopse sem spoilers

The OA conta a história de Prairie Johnson (Brit Marling), uma jovem que passa sete anos desaparecida e, ao retornar para casa, acredita ser uma espécie de viajante interdimensional. Prairie tinha uma outra identidade na infância e nessa época viveu uma EQM em meio a uma série de situações traumáticas. Quando esteve sumida, conheceu um médico obcecado por relatos de quase morte e teve contato com mais quatro pessoas que também passaram pela experiência de chegar no limiar da existência e retornar. Sua missão é salvar esses quatro amigos, que permanecem desaparecidos.

De volta ao convívio familiar, Prairie, que agora prefere ser chamada de OA (Original Angel), precisa lidar com as inseguranças e preocupações de seus pais adotivos e idosos, com as investigações do FBI sobre o período do seu desaparecimento e com a fama involuntária por conta do seu reaparecimento ‘quase milagroso’. Na infância, também tinha sonhos premonitórios e os pais, sem saber lidar com as peculiaridades da menina, levaram-na a um psicólogo que lhe prescreveu antidepressivos, antiansiolíticos e toda parafernália farmacêutica que zumbifica a infância contemporânea.

Para realizar a missão de resgate, OA se junta a uma professora de ensino médio que carrega uma culpa antiga e a quatro estudantes considerados problemáticos: um garoto transgênero com dificuldades de ser aceito e respeitado pelos pais e que precisa comprar hormônios clandestinamente; um adolescente que desconta suas frustrações arrumando briga com quem aparecer no caminho e a quem os familiares querem internar em um reformatório militar; um jovem latino pobre, bom aluno e que sonha em ir para a universidade, mas precisa trabalhar para manter os irmãos menores e cuidar da mãe alcoólatra; e um adolescente órfão de mãe e abandonado pelo pai, que mitiga a solidão abusando das drogas.

Prairie / OA encontra a professora e os quatro adolescentes todas as noites, em uma casa abandonada, para lhes contar a história do seu desaparecimento e o que aconteceu com ela durante os sete anos em que ficou sumida. Também aproveita para ensinar-lhes a ‘coreografia angelical’ que supostamente abrirá portais interdimensionais. O ritual de contação da história é feito à luz de velas, como uma cerimônia de iniciação típica das culturas onde griots e xamãs são respeitados como detentores de uma sabedoria antiga…

Buck é vivido pelo ator transgênero Ian Alexander, de 15 anos
Buck é vivido pelo ator transgênero Ian Alexander, de 15 anos

Representatividade, física quântica e realidades alternativas

Um dos pontos positivos é que Buck, o adolescente transgênero,  é realmente vivido pelo estreante ator trans Ian Alexander, de 15 anos, o que em termos de representatividade tem bastante relevância para outros milhares de jovens mundo afora. Além disso, os problemas de todos os personagens são bastante reais e refletem o cruel e excludente ambiente acadêmico norte-americano, onde o bullying e os surtos de violência com consequências trágicas são uma constante.

No geral, The OA comete alguns furos de roteiro e força situações para que as peças da história se encaixem. Na média, os episódios se sustentam e os plot twists funcionam na maioria das sequências. Mas, por reunir tantas referências misturadas e tocar em temas nem tão comuns, a série, embora tenha recebido elogios, também provoca estranhamento.

O ritmo lento e a narrativa cheia de referências à física quântica, realidades alternativas e às teorias que versam sobre a existência de muitos mundos que se sobrepõem, não recomenda o programa para quem não curte esse tipo de temática. The OA casa com os espectadores que gostam ou acreditam em temáticas que envolvem espiritualidade e energias cósmicas; ou então para aqueles que mesmo não professando esse tipo de crença telúrica, divertem-se com filmes sobre outras dimensões, mundos paralelos e as viagens astrais nas quais os fãs de Sci-Fi estão acostumados a embarcar.

Uma das cenas em que os protagonistas realizam a catártica coreografia
Uma das cenas em que os protagonistas realizam a catártica coreografia

E eu com isso?

Gostei da proposta da série e achei o tema audacioso. Ao terminar os oito episódios, senti uma ponta de angústia misturada com melancolia. E uma espécie de catarse também, principalmente nas cenas da estranha coreografia. Não chorei, como vi muita gente comentando na internet, mas de certa forma, senti uma leveza. Talvez seja um recado do meu corpo gordinho e asmático, que precisa se mexer para libertar a mente. Acredito que abrir o plexo solar, se não me cobrir da abençoada luz cósmica amarela, no mínimo vai me ajudar a respirar melhor. Respirando bem, a vida flui mais fácil…

***

P.S.: Já existem diversas teorias sobre The OA circulando na internet. Inclusive uma que defende que tudo pode ser delírio da possível mente traumatizada da protagonista. Mas, falar de qualquer uma delas seria entregar spoilers sobre a história. Melhor quem quiser se arriscar, assistir e tirar as próprias conclusões.

P.S.2: Fãs de TWD poderão matar as saudades de Scott Wilson (Hershel Greene).

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