Crônicas, séries

A culpa é dos maratonistas de série

taz

Dizem que a noção da passagem do tempo é relativa. Basta pensar que toda vez que estamos fazendo alguma coisa realmente bacana e divertida, ele voa; e quando cumprimos uma obrigação tediosa, se arrasta. Desconfio que de uns tempos para cá, o tempo não apenas voa, como desloca-se em avião supersônico. Acredito ter encontrado os culpados para essa aceleração na rotação da Terra: os maratonistas de série.

Uma olhada rápida nos fóruns de discussão na internet ou nos comentários dos serviços de streaming que disponibilizam temporadas inteiras quase de uma só vez, e vocês concordarão que maratonista de série não é gente normal. São todos clones do Barry Allen. Mal a temporada é disponibilizada e aparecem grupos inteiros dessa espécie ansiosa e desesperada comentando sofregamente que os episódios não deram nem para esvaziar o primeiro balde de pipoca! E parece haver uma competição entre os exemplares da espécie, para ver quem assiste ao maior número de episódios primeiro.

Não tenho como comprovar a teoria cientificamente, mas imagino que esse bando de gente agoniada e vibrando na mesma sintonia provoca algum tipo de alteração no eixo do planeta. Maratonista de série é um tipo de Taz da era digital, que engole tudo o que há pela frente e depois fica de boca aberta, pedindo mais. Final de temporada, ou o famigerado hiato – alô AMC! Tô falando com você amiga, e com os seus cruéis intervalos de temporada em The Walking Dead –, provocam crises de abstinência que nem o elenco de Trainspotting dá jeito!

Confesso que estou atirando pedras no meu próprio telhado de vidro, porque costumo assistir de um só fôlego todos os capítulos disponíveis dos meus programas favoritos. Também tenho meu lado Taz. Mas sou uma maratonista que entra na pista com atraso, às vezes de anos. Tem um monte de séries incríveis que ainda estão na minha lista de “para ver” e eu, tal e qual a protagonista do conto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector, fico adiando a hora de assistir. Um crime contra a humanidade maratonística: até hoje não tirei Arquivo X da lista de “para ver” e, no entanto, creio que vou gostar muito, por mais que a uma altura dessas, os efeitos especiais estejam ultrapassados.

Em compensação, quando retiro uma das retardatárias da prateleira, devoro episódio por episódio, temporada por temporada, quase de uma só vez. Com os intervalos regulares para alimentação, banho, sono, o trabalho que permite ganhar o dinheiro de pagar o serviço de streaming (e manter as despesas de casa dentro dos limites da dignidade) e as leituras, é claro! Ah, e um pouco de lazer extra muros, para pegar um sol, esticar as pernas, ver gente de carne e osso, essas coisas assim bem básicas.

É sempre bom desconstruir o mito de que quem vê muitas séries, ou filmes, ou passa o dia com um livro nas mãos, é uma criatura antissocial. Essa ideia do nerd misantropo está fora de moda. Muita gente realmente faz do próprio quarto, ou casa, um mundo à parte, mas tem aqueles que só preferem opções de lazer menos badaladas. Faço parte dessa turma.

Prefiro eventos com grupos pequenos, decibéis dentro de um certo limite em que a conversa seja possível, pistas de dança conhecidas, como os das festinhas em casa de amigos. No camarote do Festival de Verão ou pulando enlouquecida e suada atrás do trio elétrico, muito possivelmente ninguém vai me ver, a menos que esteja fazendo a cobertura desses eventos ou trabalhando na assessoria de imprensa.  E ainda assim, não vou me jogar na pista, porque sou caxias e para mim, trabalho é trabalho, sempre.

Conheço uns maratonistas daqueles que aguentam seis ou sete episódios de uma só tacada. Tentei isso uma vez, assisti seis episódios de uma série de vez, em um domingo super preguiçoso, mas fiquei meio zonza. Daí em diante, minha média nos finais de semana passou a ser de dois a três capítulos, no máximo, e de preferência em horários alternados com outras atividades. Quando sobra tempo à noite, nos dias úteis, vejo um único episódio de 50 minutos, antes de dormir.

Maratonistas profissionais, daqueles que conseguem acompanhar várias séries ao mesmo tempo, e derrubam praticamente toda a temporada em 24 horas, me impressionam. E também me levam a concluir que o estrago na minha vida social teria sido bem maior se na juventude já existisse banda larga e Netflix.

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