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Resenha: As damas do século XII (Georges Duby)

Vestuário do século XII, escondia o corpo e os cabelos femininos. O corpo da mulher era considerado um templo de todas as tentações, de perdição a quem sucumbia a essa tentação e de gozos que eram privilégio de poucos homens
O vestuário feminino do século XII escondia o corpo e os cabelos. O corpo da mulher era considerado um templo de todas as tentações, de perdição para quem sucumbia a essa tentação e de gozos que eram privilégio de poucos homens

As damas do século XII, do historiador francês Georges Duby, reúne três ensaios sobre a representação feminina na Idade Média: Heloísa, Isolda e outras damas do século XII; A lembrança das ancestrais; e Eva e os padres. Embora a premissa da obra seja analisar a participação feminina na determinação das identidades das famílias nobres francesas mais importantes do feudalismo, o autor também elabora um panorama das bases da misoginia perpetuada pelos tabus cristãos e pela crença equivocada e machista na superioridade masculina e na fraqueza moral, física e espiritual das mulheres.

Considerado um dos maiores pesquisadores da Idade Média, que ele denominou de “a idade dos homens”, Duby percebeu que havia toda uma história a se descobrir a partir da ausência das mulheres nos lugares de poder além daqueles inerentes ao ambiente doméstico, onde exerciam o mando entre a criadagem, enquanto deviam submissão ao senhor do castelo. E também da própria ausência delas na dinâmica social do período. As mulheres, confinadas ao gineceu ou aos conventos, tinham muito a revelar a partir de sua invisibilidade e silenciamento. Poucas naquela época conseguiram romper o círculo de isolamento, legando uma memória histórica ao presente.

Como o próprio autor esclarece no prefácio da obra, seu objeto principal de estudo eram as mulheres da nobreza; ou seja, as que adquiriam o título de damas ao serem dadas em casamento aos senhores dos castelos. As bodas, de certa forma, legitimavam a existência dessas mulheres e as colocavam numa condição de superioridade em relação às solteiras. Era norma enviar para os conventos o excedente das jovens não desposadas e as noivas prometidas, enquanto esperavam o dia de cumprir os contratos nupciais.

Por serem damas, estavam acima das mulheres que pertenciam às camadas populares e, portanto, sujeitas aos desmandos de outra natureza, embora em muitos casos sofressem o mesmo tipo de opressão de gênero. Apesar do foco de estudo mirar nas alcovas dos castelos, os ensaios reunidos em As damas do século XII não deixam de mostrar, por tabela, a realidade das servas e camponesas que viviam a violência de gênero e sofriam estupros praticados por cavaleiros e clérigos.

Muito dessa violência o autor atribui à própria estrutura da sociedade feudal e aos códigos da cavalaria. O casamento era um privilégio concedido ao primogênito que, por sua vez, seria o herdeiro universal das terras e riquezas de seu pai. Os demais filhos homens tinham como destino a carreira eclesiástica ou militar. Nos dois casos, para arrefecer os desejos, as mulheres eram pintadas como seres malévolos.

Aos religiosos, foram proibidas a partir do momento da instituição do celibato para os clérigos. E a melhor forma de tratar um objeto desejado, mas inalcançável, é desvalorizá-lo. E a partir daí o “pecado original” ganha força nos sermões, com a detratação de Eva, a tentação de Adão, a maçã, a queda da humanidade e toda aquela pregação bíblica que até hoje os fundamentalistas usam para justificar o machismo, a misoginia e os preconceitos derivados das duas coisas.

Aos cavaleiros, o casamento era proibido porque não havia terras e riquezas para dividir entre todos os jovens nobres da família dos senhores. E porque o objetivo era criar exércitos de homens indóceis e selvagens, prontos para morrer em batalha em nome de seu duque ou conquistar para ele novos territórios e ainda mais riquezas.

Em comum, independente da casta a que pertenciam, as mulheres na Idade Média eram consideradas objetos para uso e gozo dos homens, mentalidade ainda em voga nos dias atuais. A diferença é que naquela época, alguns poucos estavam autorizados pela igreja a exercer os “sagrados deveres do matrimônio”, enquanto outros praticavam abusos acobertados pela desculpa da “natureza masculina” que não resiste “à tentação feminina”. Nos dois casos, a mulher não tinha direitos, era passiva. Vem daí também a ideia equivocada que muitos homens ainda fazem de que a mulher é um prêmio e ele o grande merecedor dessa prenda.

O triste dessa leitura – mas também bastante esclarecedor em diversos aspectos – é perceber que os ensaios de Duby refletem violências ocorridas mais de 800 anos no passado, mas que infelizmente, em pleno século XXI, encontram situações correlatas.

Produção intelectual desaparecida

Duby lamenta que mesmo as nobres do século XII sendo letradas (apenas as mulheres de famílias nobres e mais liberais recebiam alguma educação formal, mas no ambiente doméstico)  – e boa parte das vezes, mais instruídas que seus maridos criados para comandar e guerrear -, nada restou de sua produção intelectual que dê pistas do que pensavam de si mesmas ou dos homens do período a quem eram obrigadas a submeter-se. É pelo olhar dos padres e dos duques educados pelos padres, que um pálido reflexo dessas mulheres chegou aos dias atuais. E esse reflexo quase sempre é injusto.

No caso daquelas de sangue real, o status equivalia ao das porções de terras e riquezas de seus dotes. Duby relata casos em que a jovem noiva vinha de família mais rica e ilustre que a do futuro marido e nesses casos, sua memória, mesmo tênue, era preservada como parte da ancestralidade da família não pela importância social das jovens em si, mas pelo patrimônio que traziam e que passaria a ser gerido por seus maridos. No caso de uma ancestralidade paterna obscura, os biógrafos das grandes famílias apelavam para a descendência masculina do lado materno.

Interessante a forma como o autor destrincha as muitas mitologias familiares criadas para encobrir filhos nascidos de uniões não legitimadas pela igreja. Mais adiante, esses mesmos filhos apareciam magicamente legítimos. Bastava o senhor do castelo não gerar filhos com a esposa oficial, ou enviuvar antes de ter filhos homens, para que toda uma ancestralidade fosse fabricada, dando nome e patente ao bastardo mais capaz de receber a herança. O importante era garantir a posse do território, que nesses casos, raramente passava para as filhas. E quando passava, era só até ela se casar e o marido assumir a primazia.

Aos fãs de séries como Game Of Thrones, inspiradas na sociedade medieval, embora passada em um mundo totalmente fictício, a leitura da obra do historiador francês serve de base para sabermos de onde vieram as inspirações de George R. R. Martin.

No convento para fugir da violência

Ao enviuvar ainda em idade fértil – esse era um tempo em que além das riquezas materiais de seus dotes, as mulheres valiam pela capacidade em gerar os filhos dos seus senhores -, as damas imediatamente voltavam ao mercado de casamentos. Aquelas consideradas velhas demais para conceber e, portanto, para contrair segundas núpcias, tinham de trocar o castelo pelos mosteiros, abrindo espaço para a nova dama, esposa de seu primogênito.

Os mosteiros femininos, no entanto, aparecem na obra de Duby não apenas como depósito de viúvas e idosas ou fortaleza para resguardar a virgindade das casadoiras. Esses espaços consagrados, onde os homens não tinham autorização de estar, apareciam, em muitos casos, como único refúgio onde as mulheres poderiam por-se a salvo da sanha masculina e das obrigações de casar e procriar que a sociedade lhes impunham. Na época estudada em As damas do século XII proliferaram mosteiros e ordens fundadas por mulheres que queriam literalmente fugir de um mundo hostil a elas.

Vale destacar ainda que os perfis femininos traçados no primeiro ensaio, tanto das mulheres míticas que apareciam nas novelas arturianas, como Isolda (de Tristão e Isolda), quanto das personagens históricas, como Alienor de Aquitânia, condessa de Poitiers,  fazem a ponte para o autor abordar o amor cortês e suas origens. Não ficam de fora o rebuliço que as regras corteses causaram nos reinos medievais e, a partir destes, na sociedade, por conta das ideias peculiares sobre casamento, castidade e adultério.

Para quem gosta de história, quer conhecer aspectos da sociedade medieval que vão além daquilo que os livros escolares ensinam e busca ainda entender muitas das doenças da nossa sociedade, como o machismo e as violências contra a mulher, essa é uma leitura mais que recomendada. A linguagem é leve e de fácil compreensão e a edição do selo Companhia de Bolso (Companhia das Letras) é bem cuidada e competente.

Quem é – Georges Duby nasceu em 1919, em uma família de artesãos, e foi um dos maiores especialistas em Idade Média do século XX, com cerca de 70 obras publicadas. Respeitado por colegas acadêmicos como Eric Hobsbawm (autor do clássico A era dos extremos), Duby especializou-se nos séculos XI e XII. Nos anos 1940, viveu a realidade da ocupação nazista na França. Nessa mesma época, iniciou a carreira acadêmica. Embora seja considerado um “antropólogo das sociedades feudais”, seu prestígio extrapolou as fronteiras da universidade e seus escritos alcançaram bastante popularidade, figurando em listas de best sellers até hoje. Duby morreu em 1996.

Ficha Técnica:

damas-do-sec-xiiAs damas do século XII

Autor: Georges Duby

Tradução: Paulo Neves e Maria Lúcia Machado

Companhia das Letras / Companhia de Bolso

384 páginas

R$ 29,90 (pesquisado no site da Saraiva em 29/11/16)

*A imagem das roupas femininas na abertura do texto foram retiradas do site Vestuário Histórico. Já a capa do livro é material de divulgação.

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