Séries: A derrapada de 3%

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Cena do curta piloto de 3%

O piloto de 2011 de 3% tem uma ambientação sinistra, uma atmosfera opressiva e totalitária, que remete ao clássico 1984, filme dirigido pelo britânico Michael Radford e inspirado em uma das matrizes de boa parte das distopias modernas, o romance homônimo lançado em 1949, por George Orwell. Mas, a temporada de estreia da série 3%, primeira série produzida pela rede de streaming Netflix no Brasil, fica muito aquém da proposta do piloto original, mesmo tendo um orçamento infinitamente maior e recursos de produção mais avançados à disposição. Justiça seja feita, uma das poucas coisas que salvam do fiasco é a crítica mais que necessária à falácia da meritocracia.

Infelizmente, e me pesa dizer isso, porque esperei o lançamento dessa série com grande expectativa, 3% derrapa no roteiro e na assepsia; além de subestimar de forma quase preconceituosa a capacidade de entendimento do público brasileiro para histórias complexas e pontuadas por dilemas filosóficos e questões morais.  É bom lembrar aos produtores que quem acompanha séries desse lado da linha do Equador tem maturidade e capacidade intelectual para histórias que flertam com as zonas cinzentas da existência.

Junto com diálogos absurdamente fracos e artificiais, o excesso de didatismo dessa primeira temporada transforma 3% em um programa cansativo de assistir, arrastado e enfadonho. Não sobra o que deduzir, não sobram informações sobre as quais refletir, está tudo ali de bandeja e em explicações arrastadas e maniqueístas.

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Cena da primeira temporada da série produzida pela Netflix

– Não precisa nos dar aula, pessoal; não precisa interpretar ipsis litteris, nós entendemos metáforas. Apenas nos deem boas histórias, narrativas verossímeis e bem construídas, personagens complexos e empáticos, e faremos o resto :)

A geração atual consome filmes e séries suficientes para decifrar os caminhos de uma história menos linear e mais empolgante. E digo isso com tristeza, porque queria muito que 3% tivesse dado certo, faço parte do grupo que torceu muito para que o piloto apresentado em 2011 conseguisse investimento e que comemorou quando foi anunciado que a Netflix iria produzir a série.

Ao contrário da falta de argumentos reinante nas discussões pela internet, quando alguém tenta desmerecer quem critica algumas produções nacionais, quero muito que o audiovisual brasileiro conquiste posição de destaque dentro e fora do país, mas com produtos bons e não apenas por bairrismo. Nem tudo que o Brasil faz é maravilhoso. 3% poderia ser, mas infelizmente, ainda não é.

O elenco do piloto original não era tão experiente e conhecido como o da primeira temporada da série, mas talvez por isso mesmo, por serem tão comuns e mais ‘gente como a gente’, os jovens desconhecidos do filminho de 26 minutos disponível no Youtube consigam provocar empatia. Já o elenco da série na Netflix está engessado e artificial. Os jovens não passam a ideia de que vivem em um mundo injusto, cruel e excludente.

O problema é que todo mundo parece produzido demais, bonitinho e limpinho demais, numa pobreza e miséria muito estereotipadas e idealizadas esteticamente. Aquelas roupas rasgadas e amarradas para simular carência me deixaram deprimida. O figurino da turma de Maralto, o mundo utópico para onde os jovens que se submetem ao Processo desejam mudar-se, também é muito esquisito e não passa, ao menos para mim, a ideia futurista de uma sociedade hiperdesenvolvida. Se o objetivo era esse, não colou.

Embora o núcleo do Processo seja formado por artistas conhecidos do grande público e que se revelaram grandiosos em diversas outras produções, dessa vez a sensação é que não estão confortáveis nos papeis interpretados. Mesmo João Miguel, que é um dos atores brasileiros mais brilhantes e versáteis da atualidade, não está em seu melhor momento como o Ezequiel da série. Também achei a Zezé Mota desperdiçada como uma das integrantes do Conselho de Maralto. Aqueles atores mereciam personagens mais complexos, que levassem o espectador a criar algum tipo de conexão. Só senti frustração.

Não acredito que a ideia de 3% esteja datada ou que distopias estejam fora de moda. O mundo atual, infelizmente, é absurdamente parecido com os livros de Orwell ou de Aldous Huxley. As injustiças que ainda existem na sociedade, apesar de avançarmos em tecnologia em altíssima velocidade, estão aí para comprovar que bom argumento para os roteiristas é o que não falta. Mas, por incrível que pareça, o piloto cru e filmado quase de forma caseira de 2011 consegue manter a atualidade do tema proposto por 3% com mais competência do que a série que estreou em 25 de novembro passado, na Netflix.

Sem precisar apelar para rótulos padrão de vilões e mocinhos, ou para explicações que pouco deixam espaço para o espectador tirar as próprias conclusões e exercer a nobre arte da interpretação de texto e contexto, o curta-metragem no qual a série 3% se baseia consegue demonstrar que o tal Processo que seleciona jovens para a sociedade perfeita de Maralto não é assim tão justo e que mesmo o utópico lado de lá tem algo de muito podre escondido no porão. Em 26 minutos, o curta conquista o espectador, que consegue odiar os entrevistadores e sentir na pele a aflição daqueles jovens. As perguntas capciosas feitas durante as entrevistas botam uma pulguinha atrás da orelha da audiência. Você torce pelo destino dos candidatos e tem vontade de bater nos entrevistadores. Desconfia que o tal Processo é a maior roubada e que o lado de lá é uma sociedade arbitrária, ditatorial, preconceituosa e mecânica. E tece mil teorias da conspiração: “Vão lobotomizar os guris!”

Talvez, para quem não conhece o programa piloto, essa primeira temporada valha 5 estrelas. Mas, para quem assistiu e torceu pelo projeto em 2011, e para quem tem outras referências e está acostumado a séries e livros de temática semelhante, a temporada de estreia decepciona. E não falo apenas dos tiozinhos da minha geração, que cultuam 1984, Admirável Mundo Novo, Neuromancer, Laranja Mecânica ou Fahrenheit 451; a turma criada com Jogos Vorazes consegue identificar as derrapadas de 3% com um olho fechado.

Não precisava, como bem definiu uma conhecida, ter transformado a série na versão pós-apocalítica de Malhação.

Se ainda não viu, veja o piloto de 3%, feito em 2011, simples e eficiente:

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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