Call the midwife e a teia invisível que entrelaça o destino das mulheres

As enfermeiras de Call the midwife: dramas pessoais muito reais em meio a partos complicados

As enfermeiras de Call the midwife: dramas pessoais bem reais e dilemas femininos atemporais em meio a partos complicados

A produção britânica, da BBC, Call the midwife não é novidade e já está na sexta temporada. Descobri o programa essa semana, na lista de sugestões da Netflix. Até então, nunca tinha ouvido falar, mas foi uma grata surpresa. Ambientada no final dos 1950, nos subúrbios de Londres, a série estreou em 2012 e é baseada nas memórias da enfermeira obstétrica Jenny Lee, que narra episódios de sua juventude, quando trabalhou atendendo mulheres e crianças carentes, em um serviço mantido por um grupo de freiras nada ortodoxas. A Netflix possui cinco temporadas no catálogo.

Protagonizada por mulheres e contando histórias sobre mulheres, Call the midwife ilustra o conceito de sororidade de forma bastante poética. Trata de temas delicados, porém intensos, como partos. Mas também toca em tabus como o envelhecimento, a solidão, a doença, a morte, a capacidade de sobrevivência às tragédias e, principalmente, sobre laços de solidariedade, essa teia invisível que conecta as mulheres. Muito interessante a abordagem, de forma sutil, sobre a presença feminina ancestral e quase mística nos extremos da vida, os nascimentos e as mortes.

A fotografia é belíssima, o elenco muito bom, a trilha sonora um conforto para a alma e a reconstrução de época impecável desde a abertura, com fotografias em preto e branco mostrando cenas do cotidiano dos anos 1950 e 1960.

Numa olhada superficial, a série parece fazer apologia ao parto e a maternidade, ou então ao casamento, mas vale a pena avançar episódio após episódio e ver que a gama de representações femininas é bem variada e os dilemas e conflitos apresentados vão além de fraldas e mamadeiras. É um programa que tem o amor, em suas diversas manifestações, como combustível para cada uma das preciosas histórias contadas.

De bicicleta, as midwifes (parteiras) precisam cobrir 20 quilômetros pelos distritos mais pobres de  Londres para atender tanto as parturientes quanto o restante da comunidade

De bicicleta, as midwifes (parteiras) precisam cobrir 20 quilômetros pelos distritos mais pobres de Londres para atender tanto as parturientes quanto o restante da comunidade

Call the midwife serve ainda como um bom material de pesquisa para quem gosta da macro história, pois trata de um período onde o mundo ainda se recuperava da II Guerra e de todas as mudanças sociais, políticas e econômicas dessa fase; e da micro história, com as situações cotidianas, algumas impensáveis para o mundo atual,  os comportamentos e provincianismos, a moda da época, etc.

Para quem tem interesse específico pela representação e a representatividade femininas na sociedade (meu caso), os episódios dão muito no que pensar, ajudam a entender conceitos e a perceber a origem de diversos preconceitos que ainda atormentam a sociedade.

Reminiscências pessoais

Fiquei especialmente comovida com a série por um motivo pessoal e familiar: Call the midwife me recorda as histórias de minha mãe, que trabalhou como técnica de enfermagem por mais de 30 anos, em hospitais públicos e privados de Salvador e São Paulo. Ela começou na profissão muito jovem e exatamente na mesma época retratada pela série, o final dos anos 1950. De compleição mignon, apesar de ter 22 anos, minha mãe parecia uma criança quando iniciou as jornadas por hospitais, em plantões de até 72 horas seguidas. Os pacientes tinham vergonha de ser examinados por aquela ‘menina’. Mas, com paciência, ela se dedicava aos bebês da ala pediátrica, aos velhinhos da geriatria e a todos os doentes das idades entre um extremo e outro.

Nas mais de três décadas de serviço, viu muitas crianças nascerem e conheceu as diversas faces da morte, ora serena como um sono eterno, ora trágica, mas sem nunca perder a capacidade de se comover com o sofrimento, ou alegrar-se com as vitórias dos outros. Nos seus domingos de folga, costumava ir ao hospital ajudar as colegas de plantão no cuidado com os doentes porque sentia uma felicidade genuína em ser útil.

Como minha mãe nasceu em 1935 e teve filhos só na maturidade, na minha infância era muito bom ouvi-la contar essas histórias de um passado que parecia ao mesmo tempo muito familiar e tão distante. Talvez venha daí minha propensão a nostalgia e o impacto provocado por essa série britânica nas minhas lembranças de família. Da história de minha mãe e de outras mulheres da família e do fascínio que o feminino, em todas as suas identidades possíveis, exerce sobre mim…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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