Aprendiz de biógrafa

Nossa Senhora Desatadora de Nós deve ser a padroeira dos candidatos a biógrafo. Ou então é São Rui Castro. Só sei que, de vez em quando, é preciso pedir ajuda à providência divina, aos deuses da criatividade, aos espíritos que iluminam a fluência de ideias e de palavras, para desamarrar histórias quase impossíveis, de tão emaranhadas.

Escrever sobre a vida de alguém é tarefa das mais complexas, sendo que muitas vezes dá um trabalho enorme passar a própria vida a limpo. Os psicanalistas que o digam! Por mais que eu já tenha escrito uma boa dúzia de perfis ao longo da vida de repórter, desde os que ocuparam meia página até aqueles que tomaram um caderno inteiro do jornal ou ainda os que estão na iminência de virar livros com mais de 100 páginas, a cada novo desafio desses, me sinto aprendiz.

Metas / Foto: Andreia Santana

Alguns personagens nos conquistam logo nas primeiras pesquisas, como aqueles amigos que mal você conhece, sente como se fosse a sua alma gêmea. Outros, é preciso de um tempo para a gente se acostumar, como as amizades que se estabelecem pouco a pouco. Acredito que é impossível ser imparcial escrevendo  o perfil biográfico de outra pessoa. É esquisito também, porque de repente você se sente em outro corpo, um intruso bisbilhoteiro revivendo as experiências de alguém.

A tendência, mesmo quando o biografado não é lá a melhor criatura do mundo, é a gente se apegar. Nem tanto ao personagem, mas ao hábito de fuçar a vida dele. E para ser justo com o texto, porque todo mundo tem um espírito dividido em luz, trevas e zonas intermediárias, algumas vezes é preciso fazer um exercício de alteridade que chega a extenuar. Sem calçar os sapatinhos do biografado, fica difícil contar a história com o encanto necessário para despertar o desejo dos leitores.

Pesa no corpo e na alma carregar duas vidas ao mesmo tempo, a própria e a do biografado, mesmo que a situação seja temporária. Ainda assim, é uma experiência que funciona, ao menos para mim, tão bem ou melhor que terapia. Ao descobrir o outro, suas qualidades e defeitos, suas experiências trágicas ou magníficas, também aprendo mais sobre mim.

Felizmente, até o momento, não precisei fazer perfis biográficos de ninguém que esteja no centro de alguma polêmica. Mas, algumas histórias, mesmo quando o biografado é do tipo fofinho, levam um tempo de maturação longo o suficiente para me deixar ansiosa. Tem algumas vidas que são novelos embaraçados, com muitas pontas soltas e remendos. Separar todas as linhas e depois atar as pontas certas requer paciência e cuidado, porque não dá para encaixar os fatos de uma vida de qualquer jeito, é preciso respeitar a trajetória do personagem, seus amigos e familiares, quem vai ler o resultado e a dignidade e reputação do jornalista responsável por contar aquela história.

Tenho vivido dias que se revezam entre a tranquilidade – e uma certa satisfação – de acertar em cheio na arrumação das palavras de alguns capítulos, e a ansiedade de não ter certeza se outros capítulos estão bons o suficiente, se fazem jus ao personagem. Mas sigo  na labuta, avançando linha a linha e acendendo minhas velas para a Desatadora…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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