Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 14 – A cidade inteira dorme (Ray Bradbury)

“O tempo, principalmente, ele diz, a velhice e a memória, um monte de coisas. Poeira e talvez dor. Ouça aquelas vigas! Deixe o vento soprar o esqueleto de madeira num belo dia de outono e você realmente ouvirá a conversa do tempo. Queimadas e cinzas, aromas de Bombaim, flores de túmulos entregues a fantasmas…”

A-cidade-inteira-dorme

O escolhido para a tag #1livroporfinaldesemana, lido entre os dias 30 e 31/07/16, foi a coletânea de contos A cidade inteira dorme, de Ray Bradbury.  O autor, poeta e roteirista norte-americano, mundialmente famoso pelo livro Fahrenheit 451, teve uma intensa e fértil carreira literária até sua morte, aos 91 anos, em 2012.

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

A cidade inteira dorme reúne 13 histórias que apresentam um pouco de tudo que há na literatura de Ray Bradbury, o prolífico autor de Fahrenheit 451, que escreveu diariamente até sua morte, em 2012, aos 91 anos. Desde ficção científica até o terror psicológico, passando por boas doses de fantasia, futuros distópicos, mundos paralelos e realidades alternativas, a edição,  com menos de 200 páginas, funciona também como eficiente introdução ao universo bradburyano.

Os contos de A cidade inteira dorme misturam a atmosfera de séries de suspense e terror como Além da Imaginação, ou filmes na melhor tradição de Sexta Feira 13 e A Hora do Pesadelo, com o cenário empoeirado e modorrento das cidadezinhas do interior dos Estados Unidos.

Ray Bradbury parte de situações cotidianas, da vida ordinária, para criar histórias assustadoras e inquietantes. Um dos contos transforma a ida de três amigas ao cinema em um thriller sobre serial killers e perseguições apavorantes em meio a escuridão, mexendo com o medo atávico que os seres humanos, desde os primórdios, possuem do breu da noite e das paisagens ermas.

Os desfechos em aberto para a maioria das histórias contribui para fazer o leitor mais impressionável checar embaixo da cama e olhar por cima do ombro a cada nova página. E ainda assim, não desistimos até chegar ao final do último conto, com aquela mistura de curiosidade e terror, típico dos oito anos, quando assistíamos filmes assombrosos fingindo uma coragem que cobraria seu preço justamente na hora de dormir. E haja criar muralhas de lençol impossíveis de derrubar por qualquer criatura sombria, mesmo quando o calor dava a sufocante sensação de que estávamos nos enterrando vivos no próprio colchão.

O medo provocado pelas histórias de A cidade inteira dorme é ancestral e orgânico, beirando o pânico. Contos como O homem ilustrado, com elementos sobrenaturais como tatuagens que ganham vida e bruxas sinistras, merecem destaque pelos inquietantes componentes psicológicos. Uma esposa frustrada, um marido acomodado, palavras cruéis ditas na hora errada e desfechos trágicos, autofágicos, fazem dessa uma das histórias mais famosas de Bradbury, já publicada em outras coletâneas do autor.

Igualmente assustador é A hora zero. Esse conto, sobre alienígenas e pais relapsos, é claustrofóbico e ao mesmo tempo, ótima metáfora sobre as consequências do desleixo com a educação das crianças. Pode ainda ser lido como uma ácida crítica ao american way of life. Bradbury parte da premissa de que certos tipos de mães e pais, ocupados demais com o carro novo, a hipoteca da casa ou os aparatos tecnológicos recém comprados, não dão muita atenção ao que os filhos dizem ou fazem, tornando-os perigos em potencial.

Mas, nem só de pavor é feita essa coletânea. Uma das histórias mais ternas do livro é a divertida A autêntica múmia egípcia feita em casa, em que um garoto entediado e seu vizinho aposentado viram a rotina de uma cidadezinha de cabeça para baixo por conta de uma alarmante ‘descoberta arqueológica’. Das 13 histórias, essa é mais cheia de reminiscências às infâncias felizes, travessas e cheias de sótãos e porões (no caso das crianças brasileiras, de quintais e quartinhos dos fundos de guardar quinquilharias) abarrotados de tesouros a descobrir.

No final da leitura, mesmo das histórias aparentemente inocentes, fica a sensação de que a qualquer momento vai soar o alarme que avisa do perigo iminente, seja ele real ou imaginário.

Recomendo a leitura desta coletânea como prévia para a nova série da Netflix.  Stranger Things e Ray Bradbury foram feitos um para o outro e, certamente, os criadores da série mergulharam de cabeça nas histórias do escritor, para nosso mais puro deleite!

Ficha Técnica:

A cidade inteira dorme - capaA cidade inteira dorme e outros contos breves

Autor: Ray Bradbury

Tradução: Deisa Chamahum Chaves

Editora Globo

196 páginas

R$ 34,90 (pesquisado no site da Saraiva em 15/08/16)

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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