Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 11 – Uma solidão ruidosa (Bohumil Hrabal)

“Consigo ficar no meu canto porque nunca estou solitário, mas apenas sozinho, vivendo  na minha solidão densamente povoada, uma farândola de infinito e eternidade, e o infinito e a eternidade parecem gostar de tipos como eu.”

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O escolhido para a tag #1livroporfinaldesemana, nos dias 10 e 11/07/16, foi Uma solidão ruidosa, do escritor Bohumil Hrabal. Considerado um dos maiores autores checos do século XX, Hrabal – falecido em 1997 – escrevia como quem pintava um quadro, de forma vigorosa e expressiva. Entre seus temas recorrentes, dilemas políticos (ele nasceu em 1914, viveu a revolução russa, as duas grandes guerras e as transformações mundiais acarretadas por esses conflitos), a ambiguidade moral e a solidão do homem moderno…

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

Uma solidão ruidosa é uma comovente e lírica cerimônia de adeus à liberdade de expressão, ao ato de pensar, ao que nos torna humanos. Publicado na antiga Tchecoslováquia em plena vigência da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas), o livro conta a história de Hanta, um homem que há 35 anos opera uma prensa hidráulica de compactar papel, usada para destruir livros considerados ‘perigosos’ pelo sistema político vigente.

Sozinho em um porão imundo e infestado de ratos, ouvindo dia e noite o ruído da prensa mastigando quilos e mais quilos de papel, Hanta mantém uma arriscada operação para resgatar da morte os livros condenados, enquanto se afoga em litros e mais litros de cerveja. Apesar de não ter tido uma educação formal, ele começa a ler as obras que deveria destruir e conduzido pelos autores ‘perigosos’, percebe a realidade sufocante e opressiva em que vive. Mas embora a perceba, está amarrado a essa existência miserável, “esperando a aposentadoria ou a morte, o que chegar primeiro”.

A solidão de Hanta é densa e angustiante. Sua vida se resume a beber, compactar papel e filosofar, a ponto de perder a noção dos próprios pensamentos e não discernir o que vem dele mesmo e o que foi adquirido com as leituras clandestinas. As únicas interações humanas se resumem a visitar um tio, ex-maquinista, que ainda vive preso à antiga rotina da estação de trens, duas ciganas que sobrevivem de catar papel para alimentar a prensa e um ex-professor universitário que perdeu o juízo junto com o cargo.

Hanta é um homem simples, resignado com sua vida miserável, preso a ela como os ratos que escalam as pilhas gigantescas de papel e vez por outra são esmagados pela prensa ou por um desabamento das montanhas de palavras que crescem a uma altura vertiginosa. Ele tem consciência da ratoeira (porão) onde vive preso, mas está condicionado a essa prisão. Por mais que alimente a prensa (o sistema), a máquina  nunca fica saciada e segue devorando letras, sílabas, frases (espíritos) e lombadas (carne e ossos). Não há revolta ou questionamento, apenas dor e resignação.

Ameaçado de perder o emprego para trabalhadores mais jovens, robotizados e padronizados pelo regime, eficientes operários que apertam botões de máquinas mais modernas que a sua velha companheira enferrujada no porão, Hanta delira e imagina uma grande prensa a devorar a cidade de Praga e todos os seus habitantes, seus legados, a cultura, a individualidade e as particularidades que fazem de cada criatura um ser único, de cada país e cada povo um universo a descobrir.

Sobre a própria cabeça, no minúsculo apartamento em que dorme quando o expediente no porão termina, ele mantém uma espada de Dâmocles representada por prateleiras instaladas sobre a própria cama, com as duas toneladas de livros que salvou da compactação. Em seus delírios, imagina-se esmagado por todo aquele conhecimento acumulado.

Se a ignorância oprime, não ter ciência da opressão, ou estar anestesiado pela noção de cumprir um dever cívico, pode ser uma benção para o indivíduo e uma maldição para a humanidade. Vide os jovens operários destruindo livros eficientemente, sem a menor curiosidade em saber o que suas páginas contém. E para cada pacote que vira uma massa indistinta de celulose, Hanta sangra na alma, justamente por não ser ignorante do significado dessa ação, mas por faltar coragem para mudar o rumo das coisas. O fato de intuir o que será do futuro da humanidade sem o conhecimento negado pelo sistema, gera um desconforto que enlouquece, como ocorre com o velho professor universitário que vive a caçar antigos exemplares de jornais filosóficos banidos.

Embora trate de uma realidade específica, Uma solidão ruidosa fala uma língua universal, aquela que diz que o conhecimento, por mais doloroso que seja, é menos perigoso e preferível à ignorância.

Com regimes totalitários, sejam de esquerda, direita, centro, ou mais contemporaneamente, com a globalização e sua cultura mais do mesmo, o que acontece é justamente a anulação das individualidades, seguida da aniquilação da cultura única de cada povo. Desumanizar para controlar é o lema. E quando deixamos de ser humanos, a solidão tranquila da meditação ou o aconchego da leitura, dá lugar ao vazio torturado dia e noite pelo som de uma prensa que mastiga livros e engole espíritos.

Ficha Técnica:

solidao capaUma solidão ruidosa

Autor: Bohumil Hrabal

Tradução: Bruno Gomide

Editora: Companhia das Letras

112 páginas

R$ 34,90 (pesquisado no site da Saraiva em 10/07/1016)

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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