Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 7 – Bambi (Felix Salten)

“Bambi voltou a sentir um leve aperto no coração. Mas ele não disse nada. Quando ainda era pequeno, o velho cervo lhe ensinara que é preciso ficar sozinho. E o velho cervo também lhe ensinara muitas outras coisas e lhe revelara muitos segredos. Mas de todas as coisas que aprendera, a mais importante fora que é preciso ficar sozinho. Para aprender a tomar conta de si mesmo, para compreender a existência e entender o ser-aí-no-mundo, para alcançar a sabedoria, é preciso ficar sozinho!”

BambiO escolhido para a tag #1livroporfinaldesemana dessa vez foi  a fábula Bambi, do escritor austríaco Felix Salten, imortalizada pelo desenho animado da Disney, de 1942. Como toda criança da minha geração, cresci vendo Bambi nas incontáveis reprises da TV e, lógico, chorei todas as vezes na cena em que a mãe do pequeno cervo morre. O livro, lido no alto dos meus 42 anos de vida, me trouxe muitas outras emoções…

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

Um cervo nasce no meio da floresta e dá os primeiros passos vacilantes. Metáfora para a própria vida, com sua cota de delícias e dificuldades, Bambi, fábula escrita em 1923 pelo austríaco Felix Salten (pseudônimo de Siegmund Salzmann), é mais conhecida pela adaptação de Walt Disney, de 1942. O livro, que chegou a ser banido da Alemanha durante o III Reich sob acusação de fazer uma analogia com a situação dos judeus perseguidos pelo nazismo, é uma bela alegoria para a conquista da independência e da sabedoria, um libelo a maturidade e a experiência adquiridas nos embates do cotidiano. Um delicado conto sobre a solidão da existência.

A edição brasileira feita pela extinta e saudosa Cosac Naify, em capa dura, traz ilustrações de Nino Cais, que com desenhos cheios de sombras e silhuetas, cria a atmosfera ideal para o texto de Salten, ao mesmo tempo belo, delicado e triste. Se você tem na memória afetiva as cores alegres do desenho da Disney, prepare-se para enxergar a vida de Bambi por uma paleta mais sóbria e menos vibrante, mas nem por isso de menor impacto. Em certa medida, a história do pequeno cervo é a prima europeia do exuberante e intenso Livro da Selva (Mogli – O menino lobo) de Rudyard Kipling.

Nesse caso, a relação de parentesco quase próximo é com a história agressiva e até certo ponto cruel do livro original de Kipling, que se passa numa voluptuosa floresta tropical (no jângal indiano) e não com o fofo desenho também adaptado pelos estúdios Disney nos anos 60 (o desenho de Mogli é de 1967 e foi o último em que Walt Disney se envolveu pessoalmente no projeto. Ele morreu em dezembro de 1966, meses antes do lançamento da animação). Enquanto o Bambi e o Mogli dos desenhos animados se assemelham pelo açúcar que a Disney coloca nas histórias ao adaptá-las; os dois livros tem um parentesco  por oposição. Se igualam ao usar a vida selvagem como metáfora para os aprendizados humanos, com as jornadas de crescimento dos protagonistas; mas enquanto na história de Kipling existe uma fúria intensa como o rosnado de Shere Kan, na de Salten há uma profunda melancolia.

A história começa com o nascimento de Bambi e segue a existência dele até a maturidade, mostrando sua relação com a mãe e os demais cervos do seu grupo, bem como com os animais do bosque e com aquela criatura misteriosa e aparentemente invencível, detentor do poder de vida e morte sobre todos os demais: o caçador. As estações do ano e suas influências no ciclo de vida, morte e renascimento da vegetação e dos bichos da floresta criam o cenário onde o leitor acompanha a jornada de Bambi rumo a sabedoria.

Felix Salten usa o instinto de sobrevivência das espécies selvagens e a própria atmosfera livre e pulsante da floresta como espelhos que refletem a trajetória humana. Os passos de Bambi, desde a curiosidade cheia de fascínio da infância até uma certa resignação na maturidade ensinam muito sobre autodescoberta e busca por equilíbrio.

De certa forma, somos todos como Bambi ao nascer, inocentes, curiosos, desengonçados e confiantes. Com o passar dos anos e das experiências acumuladas, alguns de nós aprende a ser mais precavidos e desconfiados; e ainda que generosos e afetuosos, nos tornamos bem menos ingênuos. As passagens dramáticas do livro, principalmente aquelas envolvendo o caçador e a apreensão dos outros animais por sentir sua presença na mata, metaforizam a sensação de impotência do ser humano diante da existência de um destino que desconhecemos, tentamos adivinhar com frequência e quase nunca corresponde aos nossos anseios.

Cheio de lições profundas marcadas pelos diálogos curtos, porém reveladores e precisos, do jovem e descuidado Bambi com o velho e calejado Príncipe da Floresta (o cervo mais nobre e antigo de todos), o livrinho de Salten ensina a ouvir a intuição e a reconectar o animal humano com seu lado instintivo. Como bônus, aprendemos como fazer as pazes com a solidão inerente à nossa condição de seres pensantes, abraçando-a não como um fardo, mas como aquela velha amiga (uns chamam de sexto sentido) cheia de bons conselhos…

Ficha Técnica:

bambi 2Bambi

Autor: Felix Salten

Ilustrações: Nino Cais

Tradução: Christine Röhrig

224 páginas

Editora: Cosac Naify

R$ 26,00 (pesquisado na Amazon em 12/06/2016)

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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