Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 6 – Um homem: Klaus Klump (Gonçalo M. Tavares)

“A música é um sinal forte de humilhação. Se quem chegou impõe a sua música é porque o mundo mudou, e amanhã serás estrangeiro no sítio que antes era a tua casa. Ocupam a tua casa quando põem outra música.”

Um-homemO escolhido para a tag #1livroporfinaldesemana desta vez foi o romance Um homem: Klaus Klump, do escritor português Gonçalo M. Tavares. O livro integra a série “O Reino”, da qual fazem parte ainda: A máquina de Joseph Walser, o premiado Jerusalém, e Aprender a rezar na era da técnica. Um homem: Klaus Klump é a primeira obra que leio deste autor que estreou na literatura em 2001 e ganhou o Prêmio José Saramago em 2005. O autor de Ensaio sobre a cegueira – um dos meus padroeiros literários pessoais – admirava a escrita de Gonçalo Tavares, o que não é pouca coisa!

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

Um homem: Klaus Klump é uma fábula de guerra, mas com lentes de microscópio voltadas para a natureza humana. Ambientado em um país sem nome, em uma geografia não referenciada, que pode ser em qualquer lugar do mundo, ou em qualquer tempo, o livro possui uma narrativa não linear e fragmentada, como devem ser as memórias implodidas dos sobreviventes de conflitos longos e dolorosos.

A impressão ao ler a história é que tanto pode ter acontecido durante a II Guerra ou nos períodos totalitários antes ou depois desse combate; ou ainda que pode representar qualquer recém nascida república que alterna períodos de paz tensa com guerras civis cruéis e, no meio entre uma coisa e outra, ditaduras opressivas.

Dá para ler ainda como uma grande metáfora bélica sobre a submissão. A invasão de um país, embora em muitos casos use a força dos tanques nas ruas em sua fase inicial, de forma subliminar e mais sistemática, também utiliza armas mais sutis, como a imposição de uma nova língua, mudanças nos costumes locais e o aniquilamento da cultura do dominado, que para reconhecer-se, absorve a cultura do seu dominador.

A desumanização que resulta da longa convivência com regimes de exceção, a perda de identidade, primeiro como nação e depois como indivíduo, e a relação oprimido x opressor estão no âmago da história do personagem título. Klaus Klump é um rapaz de origem rica que rejeita assumir seu posto à frente dos negócios da família e trabalha como editor de “livros perversos”, até ver seu país invadido e, por conta do estupro sofrido pela noiva, atacada em casa pelos soldados invasores, se engaja na resistência.

Além de Klaus e de sua noiva Johanna, integram a história, Catharina, a mãe louca de Johanna, Herthe, que se prostitui para sobreviver no país ocupado, os homens da resistência, companheiros de Klaus, o presidiário Xalak, metáfora do homem torturado e reduzido ao puro instinto selvagem, os soldados invasores e alguns outros personagens que vão desfilando no palco da vida do protagonista, cada um com sua importância na metamorfose em sua personalidade e na mudança de perspectiva de sua visão de mundo.

A sobrevivência levada ao último estágio, as estratégias para combater o inimigo e o decepção de perceber que a vítima muitas vezes reproduz o discurso de seu algoz, fazem de Um homem: Klaus Klump uma ode à desesperança. Não se trata de leitura edificante. Ao contrário, o livrinho de cento e poucas páginas incomoda e machuca. Mas ainda assim é lindo, filosófico, poético, do tipo que agita o sangue e os neurônios.

Ficha Técnica:

klausUm homem: Klaus Klump

Autor: Gonçalo M. Tavares

Editora: Companhia das Letras

120 páginas

R$ 30,90 (site da Livraria da Folha, em 05/06/2016)

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
Esta entrada foi publicada em 1livroporfinaldesemana, Literatura, Resenhas com as etiquetas , , . ligação permanente.

3 respostas a Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 6 – Um homem: Klaus Klump (Gonçalo M. Tavares)

  1. Pensei que era do tipo livros sobre livros.

  2. Ter um padroeiro literário denuncia a baianidade… ;)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s