Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 2: As pequenas virtudes (Natalia Ginzburg)

“Não há paz para o filho do homem. As raposas e os lobos têm seus covis, mas o filho do homem não tem onde pousar a cabeça. Nossa geração é uma geração de homens. Não é uma geração de raposas e de lobos. Cada um de nós teria grande vontade de pousar a cabela em algum lugar, cada um gostaria de ter uma pequena toca enxuta e aquecida. Mas não há paz para os filhos dos homens”.

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O escolhido da vez para a tag #1livroporfinaldesemana foi As pequenas virtudes, da escritora italiana Natalia Ginzburg. A regra da brincadeira é escolher uma obra entre 100 e 300 páginas que seja possível de ser lida entre o sábado e o domingo. O gênero, seja conto, poesia, ensaio, ficção, romance, etc, vai do gosto do leitor. Mas é preciso que o texto tenha fluidez e a possibilidade de embalar na leitura. Tem de ser um livro daqueles que não dá vontade de largar, mas que também não vire escravidão, ou a brincadeira perde a graça…

Uma foto no Insta e uma resenha no Mar

O livro As pequenas virtudes reúne crônicas autobiográficas da escritora italiana Natalia Ginzburg, nascida em uma família judia de Palermo, capital da Sicília, em 1916. Os textos reunidos na coletânea foram publicados em jornais italianos entre as décadas de 40 e 60 e por isso trazem como pano de fundo o fascismo e as transformações ocorridas ao final da II Guerra. Incluindo aí o período em que a autora viveu no exílio, em Londres.

O fascismo marcou a vida de Natalia de forma indelével, como aliás ocorreu com todas as vítimas dos regimes totalitários daquele período. O marido foi morto pelo regime e os irmãos amargaram a prisão.  As cicatrizes dos sobreviventes marcam as linhas de cada texto da coletânea, mas não é só da guerra e seus desatinos que o livro trata.

Natalia Ginzburg escreve com perfeição sobre os sonhos partidos da juventude do pós-guerra, relembra com ternura melancólica da época da escola e da inadequação que sentia por ser uma menina que fazia versos aos 10 anos de idade. Destrincha com conhecimento de causa os sentimentos de tristeza pelo bullying ao qual boa parte de nós sobrevive, uns com mais, outros com menos cicatrizes; e o êxtase por encontrar um colega com referências parecidas e que sirva de cúmplice e escudo contra as hostilidades juvenis.

Na crônica que batiza o volume, As pequenas virtudes, ela fala diretamente aos pais das gerações posteriores à sua, orientando-os sobre como educar seres humanos capazes de amar à vida, de celebrar vitórias e não sucumbir às derrotas, seres capazes de encontrar a própria vocação sem o peso de não frustrar familiares ansiosos.

Ainda sobre as intrincadas relações familiares, a crônica As relações humanas mostra o ciclo interminável de nossa humanidade, com as peculiaridades, virtudes e, principalmente, os defeitos que legamos aos nossos descendentes. A primeira briga dos pais, que tira a paz da brincadeira dos filhos e os constrange diante do amiguinho que visita seu quintal, traz uma semente de futuro, pois aquelas ex-crianças reproduzirão a mesma cena diante dos próprios rebentos, que também sentirão o mesmo constrangimento diante de amiguinhos que em suas próprias casas viverão histórias semelhantes.

Irônica é a crônica em que ela lembra o período em que morou em Londres. Com lentes de microscópio, Natalia esmiuça as manias e a tristeza endêmica dos britânicos, a paisagem acinzentada da capital inglesa, a assepsia dos verdes pastos com suas “vacas asseadas”, que dão leite com gosto de carvão. Tudo na Inglaterra da autora é insípido e ao mesmo tempo, nostálgico. Ao criticar da personalidade à gastronomia dos britânicos, ela demonstra uma ternura amarga dos tempos vividos no chuvosa e enevoada ilha.

Cheio de uma sensibilidade e delicadeza profundos, o livro As pequenas virtudes funciona como o diário pessoal que nos apresenta a vida de uma escritora encantada com as palavras e com o ofício de escrever desde a mais tenra infância, mas também revela os sentimentos eternos de cada alma sensível na terra.

No fundo, todos os amantes da palavra escrita e do esforço para domá-las e delas fazer uso para dar sentido à existência, trazem um pouco de Natalia dentro de si…

Ficha Técnica:

capaAs pequenas virtudes

Natalia Ginzburg

Tradução: Maurício Santana Dias

Editora: Cosac Naify

160 páginas

R$ 32,90 (Estante Virtual, pesquisado em 08/05/2016)

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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