Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 1: A vida que ninguém vê (Eliane Brum)

“O mundo é salvo todos os dias por pequenos gestos. Diminutos, invisíveis. O mundo é salvo pelo avesso da importância. Pelo antônimo da evidência. O mundo é salvo por um olhar…”

Blog---livro1

Apresentando uma tag para instagramer ver:

Os índios antropófagos do Brasil colônia acreditavam que ao comer pedaços de grandes guerreiros, junto com a carne e a gordura, engoliam também um pouco da força e dos talentos desses bravos. Eu queria comer um pedacinho do cérebro da Eliane Brum. Metaforicamente falando, é lógico! Como não sou uma guerreira tupinambá perdida na noite dos tempos, bebi as palavras dela de um só gole. Palavras essas cheias de uma sustança intelectual da qual eu andava precisada. Palavras impregnadas de um amor ao ato de contar histórias que algumas circunstâncias da vida me andaram fazendo esquecer, ou relegar a um plano secundário. E foram as palavras de Eliane que escolhi para dar início a um desafio literário, desses que os instagramers adoram. A tag #1livroporfinaldesemana nasce mais de uma necessidade do que por mera vaidade de exibir meus dotes de traça. Estava na hora de eu retomar meu ritmo de leituras que, além de justificarem a existência deste blog, me dão energia para seguir em frente na vida off line. Sem leitura eu fico doente e a Eliane Brum é só o começo do meu processo de cura….

Uma foto no Insta, uma resenha no Mar

A vida que ninguém vê deriva da coluna homônima de crônicas-reportagem que Eliane Brum assinou no jornal Zero Hora, em 1999, durante 11 meses. O material, originalmente publicado nas edições de sábado do periódico, foi reunido em livro em 2006, quando a autora já colecionava diversos prêmios jornalísticos e literários. Um deles, o Jabuti de 2007 de Melhor Livro de Reportagem.

A ideia da coluna era reunir histórias de pessoas anônimas de Porto Alegre, mostrando que o cotidiano é cheio de uma beleza miudinha, e muitas vezes dolorida, que pouca gente consegue se dar conta no vai e vem dos grandes centros urbanos. Das desimportâncias da vida, das quinquilharias atulhadas na memória coletiva, e por isso mesmo invisíveis, a repórter extraiu significados profundos. Cada personagem encontrado por Eliane Brum nas ruas da capital rio grandense revelam muito da condição humana.

As histórias de A vida que ninguém vê doem no coração e na alma. Sem a menor pieguice, mas com uma poesia agridoce, a autora conduz o leitor ao choro sentido e catártico. De certa forma, leva-o a vislumbrar uma espécie de redenção. O mundo tem salvação, basta abrirmos os olhos e o espírito. O livro, em muitas das crônicas, mostra situações de extrema miséria e desamparo, de loucura e desesperança, mas o efeito no leitor não é o da resignação por “as coisas serem assim mesmo”. Tampouco é de revolva vazia, a indignação “mosca sem asas” do Samuel Rosa.

Para contrapor o lado b, há casos de superação muito mais profundos que as receitas dos papas da autoajuda e há o desejo de voar, que nos persegue desde Ícaro, aqui traduzido com maestria por Eliane com a história de um carregador de malas no aeroporto que tinha o sonho de viajar de avião para pagar uma promessa em Aparecida do Norte.

Com o sofrimento de crianças abandonadas, de idosos esquecidos, de pedaços de memória atirados ao lixo e dos humildes que de seu não possuem nem o pedaço de chão onde são enterrados, Eliane Brum humaniza todos aqueles que são considerados a escória da sociedade e nos humaniza por abrir nossos olhares para o fato de que o que nos separa desses irmãos indigentes do mundo é só um pouco de sorte por não termos nascido do lado errado da fronteira social. Faz no mínimo, sermos gratos pelas oportunidades recebidas, por mais singelas que sejam. Depois de ler os textos cheios de empatia e sinceridade da autora, duvido muito que alguém consiga passar novamente por um mendigo na rua sem ver nele um espelho.

Para quem é jornalista, a leitura do livro funciona como uma grande lição. Tanto que no texto de encerramento, a própria autora diz que gostaria de vê-lo adotado nas faculdades. E se engana quem pensa que o objetivo é apenas dar mais uma aula pasteurizada de new journalism. Embora a técnica de humanizar relatos e tocar o leitor com textos cativantes tenha revolucionado o modo de escrever nas redações da década de 60 para cá, com o passar dos anos, o new journalism foi engolido, digerido e regurgitado em formatos de extremo mau gosto, com fórmulas prontas para comover superficialmente uma gama de leitores ávidos por fortes emoções.

Mas nada nesse livro lembra a voz ensaiada para parecer embargada, nas narrações de tragédias lidas com uma indiferença mal disfarçada por ascéticos apresentadores no telejornal. Entre uma chamada para o próximo jogo do campeonato e a agenda cultural da semana, um desabamento de encosta… Nada disso,  o que Eliane Brum faz é a essência primordial da criação de gente da lavra de Norman Mailer e Truman Capote, é a comoção legítima, nascida da capacidade de descer ao rés do chão e igualar-se aos miseráveis retratados em cada crônica, porque iguais todos somos. Chegamos a este mundo “carecas, pelados e sem dentes”, como já cantava Silvio Brito nos idos dos anos 80, e com essa mesma fragilidade e solidão, saímos dele no dia marcado pelo destino.

O que Eliane Brum nos ensina é o que ela aprendeu nas ruas, batendo papo com pessoas fascinantes em suas vidinhas que nada tem de ordinárias: enquanto o destino não lança seu último dado, por mais comum que seja a existência, algo de extraordinário se esconde em cada rosto na multidão…

Ficha Técnica:

a vidaA vida que ninguém vê

Autora: Eliane Brum

Editora: Arquipélago Editorial

208 páginas

R$ 42,90 (site da Cultura, pesquisado em 01/05/2016)

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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2 respostas a Desafio: #1livroporfinaldesemana – Livro 1: A vida que ninguém vê (Eliane Brum)

  1. Gostei muito dessa TAG, assim como gosto muito dos seus textos. Sinto saudades das suas observações cotidianas cheias de sensibilidade e humor. Bj :) P.S: vc tá acompanhando o #leiamulheres Salvador? Esse mês foi no MAB e lá será até o fim do ano. O livro do encontro de 28/05 é Precisamos falar sobre o Kevin. Nãos ei se te interessa, mas tô divulgando pa é sempre delicioso ter com quem conversar sobre literatura. ♥

    • Oi Nayara,

      Estou acompanhando sim. Ainda não pude ir a um dos encontros, mas curto a fanpage e acho a iniciativa maravilhosa. Levei um tempo sem postar crônicas novas, mas aos poucos vou voltando Beijos e obrigada :)

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