Atenção parcial em coisa nenhuma

APCAPC – Atenção Parcial Contínua é um termo cunhado nos anos 90, atribuído à pesquisadora da Microsoft Lisa Stone, para definir o estado de quem divide a atenção por várias fontes de informação ou tarefas simultâneas. Ou seja, quem tem APC seria aquela pessoa que ao mesmo tempo em que assiste um programa na TV, comenta sobre ele no Twitter, fala com os amigos no Whatsapp, responde uma pergunta feita por um familiar, atualiza seu status no Facebook e ainda dá uma revisada nos assuntos da próxima prova na faculdade. É uma definição high tech para o bom e velho “assobiar e chupar cana”.

Minha geração formada pelos migrantes digitais tem um pouco mais de dificuldade de fazer ‘tudo ao mesmo tempo agora’. Algo que os guris das gerações Y e Z fazem com o pé nas costas. Ainda assim, nós, os tiozinhos digitalizados por força das circunstâncias, na faixa etária dos ‘enta’, temos de dar nossos pulos (saltos triplos) para cumprir as multitarefas do dia a dia. Por força do tipo de profissão que muitos exercemos, acabamos compulsoriamente virando APCs, já que as oito horas diárias de jornada, graças aos smartphones, se estendem para insanos esquemas 24×7 (24 horas por dia, sete dias na semana) nos 365 dias do ano. Que atire o primeiro bite quem nunca recebeu mensagem do trabalho durante as férias ou em um feriadão!

Tá, é você quem impõe o quanto o trabalho vai avançar pela sua vida pessoal. Mas, tem situações – e uma boa parte dos profissionais atuais já viveu dias assim -, que por mais que você se esforce para não misturar casa com escritório, a coisa não sai exatamente como esperamos. As pessoas perderam a noção de privacidade e acreditam que ter disponibilidade significa responder Whatsapp do chefe às 7h da manhã de um domingo. O próprio chefe perde a noção de limite e envia mensagens em horários impróprios, cobrando respostas imediatas. Até amigos, num bate papo descontraído, começam a surtar quando o outro leva mais de 60 segundos para responder mensagem. Isso não é normal, admitam. Tudo é para ontem, tudo é urgente e nem todo mundo pode chutar o pau da barraca e ir viver de artesanato ‘das coisas que a natureza dá’, admitam isso também!

O que eu tenho reparado, porém, é que todo esse super estímulo e excesso de informações vindas de todos os lados estão tirando da gente a capacidade de ler o mundo, tanto nas questões simples quanto nas complexas. Interpretação de texto nunca foi uma disciplina tão necessária na escola. E como texto não estou falando apenas dos livros de literatura, dos contos e romances que nos pediam para classificar a qual tradição literária pertenciam nos tempos de colégio. Falta capacidade de interpretar qualquer texto (no sentido de mensagem), seja escrito ou desenhado, seja um tratado de 500 páginas ou um comentário e matéria em um site, uma tuitada que seja já é uma dificuldade…

Um exemplo bem genérico: sou aficionada por algumas séries e costumo seguir os sites sobre cinema e tv que trazem notícias sobre elas, além de alguns fóruns de discussão. Fico de espectadora nesses fóruns, não tenho paciência para participar das discussões porque, salvo raras e honrosas exceções, na maioria das vezes elas são rasas e equivocadas.Bater boca na internet deixa de ser engraçado depois que a gente entra na casa do enta e vira só uma coisa sem sentido e cansativa. Ao menos para mim.

A confusão toda começa justamente por falta de capacidade de interpretar “texto”. E a coisa enrola logo de saída na notícia principal, quando uma parte dos leitores entende o que foi dito e outra parte, infelizmente a maioria, não entende a informação primordial e comenta com base nesse entendimento equivocado, ou no não entendimento. Daí para a frente, só rezando para nossa senhora da semiótica, porque o negócio todo vira um grande telefone sem fio digital.

Preguiça de clicar no link é um dos motivos para o universo dos comentários em sites e fóruns virarem uma grande festa da internet doida. Boa parte das vezes as pessoas opinam baseadas apenas no título, ou numa chamada de três linhas sobre a notícia. Daí, quem comenta, ao invés de ler a notícia primordial, comenta com base no comentário equivocado de quem só leu três linhas e, se duvidar, sequer se deu ao trabalho de entender direito o que diziam as tais três linhas.

Dificuldade para interpretar a realidade, contextualizar e traçar paralelos, comparando a situação nova com outras experiências (bagagem de vida, cultural, etc.) ou o radicalismo de achar que a opinião do outro está sempre errada também explicam a celeuma.

Com tanta tecnologia sobrando e facilitando a vida, as pessoas estão sim ficando preguiçosas. O sedentarismo tão combatido pela galera fitness é principalmente mental. Nossos cérebros funcionam cada vez mais no piloto automático e as sinapses desistem de completar o percurso no meio do caminho entre um neurônio e outro.

Quando uma revista de circulação nacional publicou a célebre entrevista de Umberto Eco em que ele falava sobre a idiotização da internet, vi muita gente que não clicou no link bradando que Eco era elitista e estava apenas ressentido porque o acesso à internet estava cada vez mais disseminado e que graças à rede mundial de computadores, o conhecimento humano agora era acessível para todos, sem distinções intelectuais.

Sim, de fato, todo mundo – ou uma parte cada dia maior do mundo – agora tem acesso à internet, mas vamos parar de fazer birra com a memória de um dos maiores pensadores que o mundo já produziu e admitir que acesso ilimitado, para qualquer um, não é e nem nunca foi sinônimo de bom uso. Sem falar que com acesso ilimitado, tanto quem tem ideias bacanas quanto quem tem vocação para pseudo ditador encontra terreno fértil para disseminar ideias. E a questão não é a quantidade de séries cursadas ou títulos acadêmicos de cada usuário, o problema todo é a falta generalizada de bom senso. A ideia não é que a internet deixe de ser democrática, mas que seja usada com mais responsabilidade.

Ter internet é diferente de saber usá-la. As campanhas de ódio profundo nas redes sociais e os muitos preconceitos que afloram do inconsciente coletivo graças à sensação de impunidade gerada pela tela estão aí para provar que em mãos despreparadas, a internet é uma arma mortal para reputações, paciências e a língua portuguesa, sem falar nos nossos combalidos e anestesiados neurônios.

A sensação que eu tenho é que essa tal de APC na verdade é uma atenção parcial a coisa nenhuma. Vivemos em um mundo hiper veloz mas olhando as coisas sem realmente vê-las. A internet, essa ferramenta maravilhosa e cheia de estímulos, que coloca todo o conhecimento da humanidade à distância de um click, infelizmente, além de dar espaço para todo tipo de pessoa com todo tipo de intenção, incluindo as criminosas, desonestas e mesquinhas, está nos tornando também incapazes de exercitar uma outra ferramenta incrível, que trazemos de berço: pensar por conta própria.

É tanta opinião e informação pipocando na tela que perdemos a capacidade de nos tornarmos críticos e seletivos. O imediatismo da rede gera respostas levianas, comentários apressados, decisões impulsivas e quase sempre intolerantes. Se por um lado a gente ganha o mundo sem sair de casa, por outro, nos desumanizamos.

Mais textos no blog sobre internet, migrantes digitais e afins:

>>“A internet transforma o seu cérebro”

>>“Migrante digital”

>>Sobre as urgências que criamos e acreditamos que são reais

>>Enredada em mais uma rede…

Sobre Andreia Santana

Nasci em Salvador-BA, tenho 42 anos, sou jornalista e master em jornalismo on line, traça de biblioteca, cinéfila, pesquisadora de literatura e redes sociais, aspirante a encantadora de palavras, vaidosa, comilona, solteira e mãe de Matheus, uma pessoa fascinante.
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