Crônicas

(Im)paciente Crônica: Rebobinem a fita do planeta

sisifo“Tá barril”, como se diz aqui em Salvador. “Barril dobrado” viver nesse mundo cada dia mais raivoso e intolerante. Três vezes “barril” frequentar as rodas virtuais de bate papo! Mas não acredito que a humanidade surtou assim de uma hora para outra e, ainda por cima, em reação em cadeia: será que todos os habitantes do globo piraram de vez? Não é nada disso! O mundo não enlouqueceu da noite para o dia, mas aumentou, graças a internet e as redes sociais, o nosso contato com as muitas loucuras que sempre existiram, mas viviam confinadas ao próprio território. A globalização não é só econômica e cultural. Globalizamos, junto com as guloseimas dos quatro cantos da Terra encontradas nas prateleiras dos supermercados, um tanto de maldade, preconceitos e muito ódio no coração, que cada povo é capaz de produzir.

Nos últimos meses, no Brasil e no restante do mundo, são tantas notícias bizarras pipocando na timeline do Facebook ao mesmo tempo, que faltou forças para comentar cada uma delas. Faltou energia vital para a indignação e sobrou tristeza.

R.I.P raça humana.

“Ah, mas você pode sair das redes…” Vai descendo aí a barra de rolagem e veremos!

Leis medievais entram na pauta de votação do congresso democraticamente eleito, tem absurdo maior que isso? Discursos de ódio proliferam a cada clique e é contra tudo e todos, principalmente contra o bom senso, coitado, esse paciente terminal em estado crítico. A vontade que dá é de meter o dedo no botão de reset, como ouvi outro dia um colega de trabalho sugerindo. Alguém, por favor, rebobine a fita e devolva-a à grande locadora do universo, com a recomendação de destruir original e cópias. E com a sugestão de recomeçar do zero, sem aproveitar sequer as cinzas, que podem estar contaminadas.

Das manifestações de pedofilia explícita no Twitter à choradeira machista porque a redação do ENEM cobrou uma reflexão (mais do que necessária) sobre a violência contra a mulher, passando pelas tentativas de um Congresso Nacional cada dia mais conservador e fundamentalista de aprovar leis que cerceiam liberdades historicamente conquistadas, nada parece fazer sentido. E 2015 vai entrando para a história como um dos anos mais esquisitos e incômodos que já vivi, em 41 verões. Tô quase fazendo coro aos pessimistas e adotando a hastag #vemmeteoro como mantra.

Ando cansada e bastante desanimada a cada faxina virtual que tenho de empreender para retirar das minhas redes aquelas pessoas que eu acreditava serem muito diferentes da face raivosa e mesquinha que apresentam. Dia desses, bloqueei um conhecido que compartilhou um vídeo horroroso, absurdamente batizado de “Igualdade de Gênero”; mas que, sem o menor pudor, o que fazia era “defender” o assédio praticado contra as mulheres nos transportes coletivos!

Teorias tendenciosas e falaciosas proliferam e transformam-se em virais por má vontade e pela ignorância de quem dissemina links sem ler além da chamada principal, ou pela incapacidade de interpretar texto que leva nossos deputados a chamarem uma prova rica em conteúdos cidadãos, de marxista. Com raras e honrosas exceções, esse Congresso me mata de vergonha.

O objetivo, lógico, é desconstruir e deslegitimar lutas importantes e urgentes por respeito, igualdade e dignidade. Nunca antes na história do mundo houve tantos grupos ao mesmo tempo tão obstinadamente interessados em fazer a ignorância proliferar. Sempre existiram grupos que perpetuaram por algum tempo verdadeiras barbaridades, mas assim, de forma tão orquestrada e tantos de uma vez só, é de assustar!

A sensação que dá é que o apocalipse já começou e não tem relação com zumbis e bactérias sinistras invadindo cérebros, muito menos com as cenas dantescas de fogo e inundações descritas na bíblia. O perigo real e imediato é o mundo sucumbir antes do século vinte e dois por radicalismo, ódio e ignorância generalizada e irreversível.

Os sensatos não se calam e continuam dia após dia na peleja de denunciar as atrocidades, mas tem dias que bate desânimo, que a vontade é de se voluntariar para a Missão de Povoamento de Marte…

Por mais que se tenha um espírito solar ou que, como diz Gil, a fé não costume falhar, tá barril 4.0. Mas alienar-se da realidade não é uma opção. O jeito é “fazer o Sísifo” e rolar essa bendita dessa pedra para o alto do morro tantas vezes sejam necessárias!

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