Cinema

Cuidado com o que deseja…

camihos da floresta

Uma bruxa que precisa quebrar uma maldição antiga jogada sobre ela pela própria mãe. Um padeiro às voltas com o sentimento de rejeição por ter sido abandonado pelo pai quando criança. Uma donzela que não sabe se quer ou não ser conquistada pelo príncipe. Uma moça de cabelos longos presa em uma torre. Uma garotinha de capuz vermelho que precisa levar pães e doces para a avó doente e um menino meio sonhador que é encarregado por sua mãe de vender a única vaca da família…

Misturando elementos de fantasia com doses de psicanálise, Caminhos da Floresta (Into The Woods, 2014, EUA, Rob Marshall) é mais um filme da safra de revisitas aos contos de fadas clássicos, mas não é só isso. Nos últimos anos, uma onda de releituras de mitos originais tomou conta da indústria do cinema, com lançamentos anuais de novas versões para histórias velhas conhecidas. Algumas bem interessantes, outras duvidosas. Caminhos da Floresta, definitivamente, pertence ao grupo das interessantes.

Desta vez, estão costuradas numa mesma narrativa Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e João e o pé de feijão. A cola que liga as quatro histórias é uma bruxa amaldiçoada – Meryl Streep, magistral como sempre – e que precisa da ajuda de um padeiro e sua esposa, um jovem casal ansioso para ter um filho. Esse casal recebe como tarefa reunir objetos mágicos que possibilitarão à bruxa quebrar um feitiço que a assombra há cem anos. Para isso, o padeiro  entra numa floresta mágica, onde encontra os personagens dos contos de fadas.

A engenhosidade do roteiro é que as cinco histórias, os quatro contos de fadas e o encontro da bruxa com o casal, desenvolvem-se em paralelo e se entrecruzam ao longo da trama central, adotando soluções criativas e que fazem sentido no universo à parte dos mitos.

O fio que costura essa colcha de retalhos é o desejo e as consequências de desejar. A mãe de João sonha em ser rica, enquanto o menino só quer evitar que a vaca, que ele trata como bicho de estimação, seja vendida. A Chapeuzinho Vermelho é uma criança gulosa e imprudente, que desobedece as ordens da mãe e cai na lábia de um lobo faminto (Johnny Deep, meio caricato, em pequena participação). O padeiro tem uma história de abandono na infância e não sabe muito bem se dará conta das tarefas exigidas de um pai, enquanto sua esposa, ao mesmo tempo que quer um bebê desesperadamente, demonstra fascínio pela realeza e pela possibilidade de viver uma vida diferente da que está acostumada.

A Cinderela da história é a clássica, maltratada pela madrasta e suas filhas, tendo como únicos amigos os pássaros da floresta. E aqui, pontos mais que positivos para os roteiristas de Caminhos da Floresta, que respeitaram a tradição original do mito. Essa Cinderela é a que está nos contos dos irmãos Grimm e não nas adaptações. Tem cenas fortes como a madrasta cortando um pedaço do pé de uma das filhas para fazer com que coubesse no sapatinho, ou os pássaros ajudando a gata borralheira a catar as lentilhas espalhadas nas cinzas da lareira. Ao invés da fada madrinha, é o espírito da mãe da jovem que a ajuda com a roupa do baile e o castigo recebido pelas irmãs invejosas também segue o script original. Mas a diferença é que essa mocinha sofredora não sabe se deve ceder aos encantos do príncipe. Aliás, esse príncipe, vivido pelo galã Chris Pine, é bem canastrão.

Os contos de fadas misturados em Caminhos da Floresta seguem seu curso mais que conhecido. Joãozinho troca a vaca por feijões “mágicos” e vai esbarrar no reino dos gigantes, onde rouba os ovos de ouro e a harpa encantada. Rapunzel e seu príncipe também vivem suas desventuras, com direito ao galante rapaz ser jogado no espinheiro e perder a visão e a mocinha ter as tranças cortadas pela bruxa que a mantinha na torre. As lágrimas dela curam a cegueira dele e por aí vai…

A diferença é que o felizes para sempre de todas essas histórias não acontece exatamente como estamos acostumados a ler nos contos clássicos. Após todos os personagens realizarem seus inúmeros desejos, precisam administrar as consequências do que desejaram, ao mesmo tempo em que têm de se unir para combater uma ameaça que pode destruir o reino mágico onde habitam.

A inconstância dos desejos, a ambição de além do bolo querer também um caminhão de cerejas, a cobiça pela grama do vizinho, sempre mais verde,  o medo da solidão, da velhice, da perda da beleza, e a incapacidade de responder pelos próprios atos, procurando sempre a quem culpar pelas frustrações, tornam os míticos personagem de Caminhos da Floresta demasiadamente humanos.

E é aí que o filme é bastante fiel aos contos de fadas, que na sua origem remota, serviam para educar. Os mitos, ao longo da história da humanidade, serviam ao propósito de transmitir os valores morais vigentes em cada época. Conhecê-los na sua essência, é ainda uma fonte rica de autodescoberta. E tanto melhor se isso for feito com uma trama engenhosa. Caminhos da Floresta, embora trabalhe com matéria-prima mais que conhecida, foge do lugar comum e não faz concessões como nas adaptações amenizadas. É lúdico e é ao mesmo sombrio, como um bom clássico que não envelhece. Até porque, os defeitos humanos mantém-se os mesmos há milênios.

P.S.: Duas coisas importantes ainda a acrescentar sobre a história de Caminhos da Floresta: a produção é um musical e não é um filme para crianças.

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3 thoughts on “Cuidado com o que deseja…”

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