Cinema

Quero Malévola virando dragão e cuspindo fogo no príncipe

ATENÇÃO: Festival de spoiler, se ainda não viu Maleficent, recomendo que pule o post.

Malévola dragão, enorme e majestosa, mete medo no príncipe e nas criancinhas
Malévola dragão, enorme e majestosa, mete medo no príncipe e nas criancinhas

A Disney conseguiu transformar uma das melhoras vilãs de contos de fadas em uma coitadinha. Ao criar a versão de carne e osso de Maleficent, a Malévola de A Bela Adormecida, “Senhora de Todo o Mal”, diminuiu o fel do coração da bruxa e transformou a essência da praga que ela roga na princesa Aurora em um mero caso de amor frustrado.

Malévola é enganada pelo pai da princesa e se vinga na menina. Mas como seu coração, lá no fundo, é bom e puro, se arrepende e vira a protetora da pequena amaldiçoada.

Tive náuseas.

Infelizmente, muita gente caiu no conto do vigário e do marketing da produção. A Disney chegou a lançar trailer oficial comparando o filme com a versão em animação, mas um não tem relação com o outro. Esteticamente, os dois são quase idênticos, mas as histórias não poderiam ser mais diferentes. Se tivesse mantido o roteiro original, a Disney teria feito um grande filme, atualizando a história com os recursos tecnológicos e efeitos especiais de agora. Mas ao mudar o roteiro e escrever a história da vida de Malévola, escorregou feio.

Nem Diaval mantém a essência de assistente de maldades de Malévola e na versão em filme, vira uma espécie de anjo da guarda de pequena Aurora
Nem Diaval mantém a essência. Na versão em filme, vira uma espécie de anjo da guarda de pequena Aurora

Deixo aqui meu protesto: Quero a Malévola do desenho animado de volta! Quero que ela vire dragão e cuspa fogo no príncipe. Quero que fique verde de ódio. Quero aquela Malévola que mete medo e faz a gente torcer para o bem triunfar sobre a maldade. Quero a catarse que esses arquétipos e suas dualidades proporcionam desde que o mundo é mundo. Quero contos de fadas sombrios, soturnos e assustadores.

Definitivamente, nesse mundinho politicamente cretino, nem os arquétipos da maldade podem manter a própria essência. É preciso lavar tudo com desinfetante para não ferir  as sensibilidades do público adultescente. Afinal, somos todos bons e lindos e quando atos de maldade são cometidos neste mundo é por mera frustração. É lógico, uma mulher abandonada e desiludida é a pior das bruxas. Que patético!

A Malévola do desenho de 1959
A Malévola do desenho de 1959, diva da maldade

A Malévola dessa nova versão é uma fada boazinha, embora tenha a aparência de um demônio e poderes inexplicáveis, que controlam os elementos da natureza. Os chifres que remetem a Cernunos, o cornudo deus celta, são só um detalhe. O filme protagonizado por Angelina Jolie, um dos mais insossos que assisti nos últimos tempos, quer convencer o incauto espectador de que Malévola é uma fada silvestre. Embora ela não se pareça com nenhuma das outras fadas silvestres da história.

A única coisa que se salva é o figurino  e a maquiagem da atriz, que ficaram perfeitos.

Eu caí no conto do vigário. Comprei a propaganda do filme, que dizia que a história da Bela Adormecida seria contada pelo ponto de vista da vilã. Fiquei feliz da vida, achei que me divertiria com o sarcasmo de uma bruxa que é pura fechação. Já estava até imaginando Malévola descrevendo Aurora como uma menina boba e ingênua. Torci para ter a chance de enxergar a história sob o aspecto da malvada e no fim das contas, tudo o que vi foram os atos de uma mulher com o amor ferido e asas cortadas, numa metáfora tão reles e rasteira que só convence mesmo os adeptos da psicologia de almanaque.

...E Angelina Jolie caracterizada como a vilá. Maquiagem e figurino perfeitos
…E Angelina Jolie caracterizada como a vilã. Maquiagem e figurino perfeitos

O problema foi o roteiro e a direção, que levaram a sério demais a história e quiseram transformar a vida e os motivos de Malévola em um novelão das oito, socorro!

Eu prefiro a história original, onde o bem e o mal ficam bem demarcados. Malévola não é uma heroína élfica a la Senhor dos Anéis, que luta contra a ambição dos humanos para defender seu povo, mas uma bruxa na essência, daquelas que só contos clássicos conseguem produzir.

O rei convida as fadas do reino para dar atributos à sua filha recém-nascida. Com inveja e despeito por não ter sido chamada ao baile de batizado, a bruxa má e assustadora roga uma praga na menina e condena todo o reino a um sono profundo. Quero essa Malévola invejosa de volta. Porque a inveja é um sentimento destrutivo e corrosivo, bem mais do que um amor frustrado. Não é a toa que a Malévola do desenho é verde, a cor do ciúme. Sem ela para ser a antagonista da história, não sobra muito para a Bela Adormecida fazer a não ser sorrir e… dormir seu sono de cem anos.

Sem a Malévola dragão, o príncipe é perfeitamente dispensável e boa parte da sustentação da fábula cai por terra. Como assim o beijo de amor verdadeiro não surte efeito?! Se até Branca de Neve, que estava mortinha da silva, dura, fria e envenenada, acorda com um beijo de amor, a Bela Adormecida não desperta com o beijo do príncipe!? A Bela é salva pela redenção da vilã! Desde quando vilões legítimos querem ser redimidos?

O momento da praga no baile de batizado, o único do filme que mantém a atmosfera soturna do original
O momento da praga no baile de batizado, o único do filme que mantém a atmosfera soturna do original

Tudo bem que o roteiro é uma releitura livre do desenho da Disney de 1959, que por sua vez é inspirado no conto de fadas clássico. Mas a quantidade de licenças poéticas beira o assassinato do mito original. Na história clássica, Malévola interrompe a terceira fada antes dela dar seu atributo à Aurora. Após a vilã rogar a praga e sair triunfal da festa, com direito a icônica gargalhada, a terceira fada, embora não tenha poderes para remover a maldição, ameniza o problema desejando que um nobre príncipe salve a princesa. Infelizmente, nessa nova versão, as três fadas são de uma mediocridade de dar pena. Um desperdício que uma atriz do quilate de Imelda Staunton tenha dado vida a uma delas.

A magia do amor, no fim das contas, é maior que a inveja e o despeito da bruxa, eis a mensagem. Mas nessa versão com Angelina Jolie, o que acontece é que a própria Malévola ameniza sua praga apenas porque o rei, seu antigo enamorado, se ajoelha e implora que ela tenha piedade. No fundo, tudo o que ela queria era mostrar que está por cima, tal qual as funkeiras, e fazer o seu antigo amor se humilhar.

Malévola foi traída por um falso beijo de amor e ironicamente, deseja que a princesa seja salva por algo que na sua frustração, ela crê que não existe, só porque não aconteceu com ela: o amor verdadeiro. Em resumo, a celeuma é provocada por um coração partido.

Maleficent, de “Senhora de Toda a Maldade”, é reduzida a uma jovem desiludida e magoada, que age sem pensar e depois se arrepende e tenta consertar a besteira. A fantasia do conto e seus significados ocultos, arquetípicos e ancestrais são sacrificados em nome de uma mensagem de redenção que certamente fará suspirar os leitores de autoajuda.

O Ministério da Saúde adverte: Malévola em versão light causa diabetes.

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2 thoughts on “Quero Malévola virando dragão e cuspindo fogo no príncipe”

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